Para onde caminha o país
Waldemar Rossi
Correio da Cidadania - 26/2

“Você comerá do trabalho de suas próprias mãos, tranqüilo e feliz”.
(Salmo 128, 2)

De tal forma deveria ser organizada a sociedade que todos pudessem comer, felizes, do fruto do trabalho de suas próprias mãos. É isso o que nos ensina a sabedoria das gerações antigas. Dito de outra forma, a organização da sociedade deveria visar, em primeiríssimo lugar, a felicidade de todas as pessoas. Porque é exatamente isto que encontramos nas Cartas Magnas dos países, escritos sob as mais variadas formas imagináveis, cada um dentro de sua cultura. Deveria visar! Porque, de fato não visa. Os governantes não praticam isso, particularmente no Brasil. Aqui tudo visa o capital, o lucro das grandes empresas, a acumulação, o superávit comercial (em benefício das empresas exportadoras), o crescimento econômico empresarial – que o digam os bancos, esses sanguessugas que infestam nosso país e contam com as mãos abertas dos governantes.

Estudo da equipe do economista Márcio Pochmann, professor da UNICAMP, introduz um conceito novo à situação do trabalho no Brasil. Ao analisar aquilo que convencionamos chamar de “desemprego estrutural”, Pochmann define como um “déficit de trabalho decente”, segundo comentário de José Carlos de Assis. Neste conceito estão incluídos os 10% oficiais de desemprego, os 7,2 % dos não remunerados, os 7,8% subocupados – pasmem - com renda inferior a meio salário mínimo e os 2,9% dos subocupados que cumprem jornada inferior a 14 horas semanais e, portanto, têm um ganho muito baixo. Somando tudo, temos 27,8 % da PEA (População Economicamente Ativa), isto é, dos homens e mulheres com idade acima de 16 anos em péssimas condições de trabalho e renda. Se considerarmos que há, ainda, uma parte da população que vive do trabalho informal, sem registro em carteira e sem nenhuma garantia de seguridade social, percebemos o quanto o quadro é ainda mais grave.

Diante de tal quadro, a população brasileira vibrou com o corpo e com a alma quando da eleição de Lula para presidente da República. Estava presente, e ainda está para boa parte da população, o imaginário (e a vontade explicita) das mudanças estruturais que viessem a corrigir tanto desajuste, tanta injustiça e dar início a uma caminhada, embora lenta, de construção de um novo Brasil, onde todos pudessem comer felizes do trabalho de suas mãos.

Ao que tudo indica, porém, o povo não terá sorte ainda desta vez. Todas as medidas oficiais de ordem econômica tomadas até agora revelam que o país faz um percurso diferente: continuam os altos juros que impedem o crescimento da economia dentro dos parâmetros necessários para a geração de emprego e de renda; elevou-se o índice do superávit primário para garantir o pagamento da agiotagem; as PPP (Parcerias Público-Privadas) vão reservar dezenas de bilhões de reais do dinheiro público para as empresas que queiram executar obras de infra-estrutura, estando-lhes garantido, por mais de 20 anos, usufruir os lucros que serão gerados, sem retorno algum para os cofres públicos; o dinheiro reservado para a reforma agrária, saúde, educação, saneamento básico, manutenção de estradas e moradias populares foi e continua sendo desviado para o malfadado superávit primário; as medidas provisórias são todas favoráveis ao grande capital, como a liberação dos transgênicos e a fomentação do agronegócio; verbas reservadas para o programa Paz no Campo – aquele sobre o qual Lula disse que não haveria violência – tiveram aplicação de apenas 40% do seu montante; a EMBRAPA (empresa estatal voltada para a agricultura familiar) sofreu profunda mudança, abandonando o apoio a esse modelo de agricultura, responsável pelo suprimento interno, e passa a se dedicar ao agronegócio, visando as exportações, geradoras de divisas, em prejuízo da qualidade de vida do nosso povo, do combate à fome.

Vai, assim, aos poucos, sendo minada a esperança de um povo de se ver incluído no mundo da justiça social, de ter “trabalho decente”. Se não há dinheiro para atender as áreas que podem produzir um novo Brasil, com desenvolvimento econômico voltado para o social e para as necessidades básicas de todo o povo, sobra dinheiro para alimentar a insaciável volúpia do capital.

Resta-nos o crescente, embora vagaroso, crescimento da consciência popular, que vem se manifestando com as vaias e as várias formas de protestos, como o escrito em cartazes e faixas, durante os encontros públicos onde o Presidente e/ou seus prepostos ousam aparecer. Urge, porém, transformar essa insatisfação em grandes manifestações públicas, em mobilização popular. Infelizmente, tal acontecimento deverá se dar com a ausência da CUT, já que seus dirigentes majoritários aderiram vergonhosamente ao projeto neoliberal encampado pelo governo. Estes, assim como o governo, ao seu tempo, pagarão o devido preço pelo desvio de rumos e de compromissos. As trapaças e bravatas pagarão seu preço também na esfera popular, não só no parlamento.

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