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| Cresce insatisfação dos movimentos sociais com Lula |
| Estado de São Paulo - 6/3 |
| Manifestações de decepção com o governo estão se tornando freqüentes no meio de líderes de organizações populares. Especialmente aquelas que no passado ajudaram a construir o PT e fizeram campanha a favor de Lula nas vezes em que se candidatou à Presidência. Os resultados da economia têm sido o trunfo do governo para se defender das críticas, que partem principalmente de setores ligados à Igreja Católica. Desencanto da velha militância afasta de Lula os movimentos sociais O governo de Luiz Inácio Lula da Silva festejou, na semana passada, a informação de que no ano passado o PIB cresceu 5,2% em relação a 2003. A notícia foi manchete no site do PT - assim como têm acontecido com outras que falam de aumento de exportações e outros bons resultados na economia. Curiosamente, porém, cada boa notícia da área econômica parece aumentar a distância entre Lula e seus aliados mais antigos. Sobretudo aqueles vinculados a movimentos sociais. Para eles, o antigo companheiro joga todas as suas fichas no crescimento do PIB e no controle da inflação, postergando mais e mais o pagamento da chamada dívida social. Críticas fermentam em todos os setores. Na quinta-feira, após passar quatro dias visitando a aldeia guarani na periferia de Dourados, no Mato Grosso do Sul, onde há crianças morrendo em decorrência de desnutrição, o teólogo e cientista político Egon Heck, da coordenação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), observou que a situação dos índios brasileiros piorou. 'A morte das crianças é o indicador mais dramático, mas não o único', disse o missionário. Para ele, essa é mais uma das decepções dos movimentos sociais: 'Aumenta a cada dia o fosso entre as esperanças depositadas no governo Lula e a realidade.' O Cimi é ligado à ala progressista da Igreja Católica, que apoiou e empurrou o PT de seu nascimento, vinte anos atrás, até a Presidência da República. As comunidades eclesiais de base (CEBs), animadas pela Teologia da Libertação, constituíam uma das principais incubadoras de quadros do partido, ao lado do movimento sindical. Hoje os progressistas se alinham entre os críticos. Na segunda-feira, quando esteve em São Paulo para participar do programa Roda Viva,da TV Cultura, o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), bispo d. Tomás Balduíno, disse a jornalistas que o descontentamento é mais visível entre os líderes dos movimentos: 'A base ainda confia nele. Mas a tendência é que a desconfiança se espalhe.' Outro sinalizador do afastamento acaba de acender na mais poderosa central sindical do País - a CUT, braço do PT na área trabalhista. Na quarta-feira, dez integrantes da executiva nacional da entidade participaram de um ato de protesto contra a reforma sindical que o presidente apresentou naquele dia ao Congresso. Entre os presentes ao ato, no qual Lula foi chamado de traidor, encontrava-se o vice-presidente da CUT, o metroviário Wagner Gomes. No MST, outra organização aliada ao PT, críticas também já são freqüentes Também há mal-estar na cúpula do Movimento dos Sem-Terra (MST), outro aliado. Na segunda, ao saber que o governo contingenciou R$ 2 bilhões do total do orçamento previsto para o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o mais conhecido líder da organização, João Pedro Stédile, irritou-se. 'É uma vergonha', disse. 'Revela que a área econômica é quem manda; e que o governo não tem um projeto nacional, permitindo que o Ministério Fazenda tome decisões sem nenhuma diretriz.' O resultado do corte será o comprometimento das metas da reforma agrária. 'A reforma, ao invés de ser tratada como parte de um projeto de desenvolvimento nacional, é incluída na lista das despesas', afirma Stédile. Até a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), tradicionalmente mais tolerante, faz críticas. Durante o congresso nacional da entidade, na semana passada em Brasília, seus líderes reclamaram da lentidão do governo na execução da reforma agrária. Gasta o mínimo O distanciamento entre governo e antigos aliados foi destaque na análise de conjuntura distribuída dias atrás aos membros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Produzido por um grupo assessores, sob a coordenação do sociólogo Pedro Ribeiro, da Universidade Católica de Brasília, o texto mira a política econômica. 'O governo cobra o mais que pode de impostos e gasta o mínimo possível, exceto no pagamento de juros', diz. 'Ganha a credibilidade dos credores, alcança o equilíbrio financeiro e controla a inflação, mas fica sem recursos para agir nas áreas sociais.' A afirmação de que o primeiro líder operário a chegar à Presidência da República se preocupa demais com a dívida tem sido constante. 'O Lula tem um medo terrível dos credores, medo de que o mercado crie uma situação de desordem no País', diz o economista Plínio de Arruda Sampaio, outro petista histórico. De acordo com a análise de conjuntura distribuída aos bispos, Lula deveria rever a política econômica, voltar-se mais para o social e se reconciliar com as bases. Se não fizer isso, corre o risco de isolar-se da militância, que já foi a alma do partido, e deixa de contar com a possibilidade de pressão da sociedade civil para promover mudanças. Tende a se tornar mais dependente de negociações e troca de favores no Congresso, na linha é dando que se recebe. Apesar das críticas, não há sinais de mudança no horizonte do governo. O nome do ministro da Fazenda não circula nas especulações sobre reforma ministerial, o índice de aprovação do governo é alto e os índices econômicos ainda são festejados. Ninguém os ouve, mas tratamento é de rei Apesar das críticas que fazem ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seus antigos aliados relutam em romper com ele. Uma das razões para isso é que, apesar de ainda não terem assistido a nenhum dos esperados grandes embates para o pagamento da dívida social, eles nunca foram tão bem tratados pelo governo como estão sendo agora. Líderes do MST, da CPT e da Contag circulam com desenvoltura no Ministério do Desenvolvimento Agrário, no Incra e no Palácio do Planalto. A maior parte dos superintendentes regionais do Incra nomeados por este governo saiu dos quadros destas organizações. As cooperativas e associações que o MST espalhou pelo País nunca receberam tantos recursos como agora. A reforma agrária anda devagar, mas o presidente da República tem ido a encontros de sem-terra e trabalhadores rurais. Quando não pode, manda seus ministros. É um processo contraditório: ao mesmo tempo que agrada os aliados, o governo não atende suas reivindicações. Um exemplo dessa imbroglio aconteceu dias atrás. Na sexta-feira, dia 25, o ministro Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência da República, recebeu líderes de 43 organizações de defesa da reforma agrária. Todos saíram do encontro convencidos de que o governo Lula não pouparia esforços para cumprir a meta de assentamento de 430 mil famílias de sem-terra, até 2006. Mas na segunda-feira eles foram surpreendidos com a informação de que no bolo de verbas do Orçamento contingenciadas pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, R$ 2 bilhões vão sair do Desenvolvimento Agrário. Índios, vítimas da fome e de políticas erradas Em 2004, 15 crianças guaranis morreram em Mato Grosso do Sul. Este ano, foram ete em dois meses, só entre guaraniscaiovás. A probabilidade é que várias outras morram de desnutrição, não só caiovás, mas entre xavantes, de Mato Grosso, e caingangues do Rio Grande do Sul. São vítimas da fome e de décadas de políticas erradas que começaram com confinamento dos índios em reservas minúsculas nos anos 70 e chegam até as atuais ações preparadas de última hora pelo governo, como se a desnutrição tivesse pego a todos de surpresa. A análise dos problemas nas comunidades indígenas foi feita por um dos vários grupos de trabalho criados no ano passado. O trabalho terminou em junho e, apesar de o relatório não ter sido divulgado até hoje, sabe-se que o principal problema apontado foi a falta de articulação de políticas dentro do próprio governo. Há mais de um ano o governo tem propostas para tentar melhorar a situação das nações indígenas: fórmula mais ágil para cadastrar famílias no Bolsa-Família, treinamento de agentes comunitários e merendeiras indígenas e até linhas especiais de financiamento para agricultura familiar. Integrante da Comissão Intersetorial de Saúde Indígena (Cisi), Clóvis Boufleur conta que tais grupos estão à margem de qualquer tipo de financiamento. Como não têm registro de propriedade de terra, não podem ter fiador. O problema se acentua onde índios estão confinados em áreas pequenas. Os caiovás, por exemplo, sempre fizeram lavoura em rodízio, sem agrotóxico. 'Não há como manterem tal tradição', diz Boufleur. A lentidão no Bolsa-Família deve-se a um problema prosaico: muitos índios não tinham documentos e não havia como cadastrálos. Como Boufleur, o médico Flávio Valente, relator da ONG Relatoria Nacional para Direitos Humanos à Alimentação Adequada, Água e Terra Rural, defende cadastro único: 'Desde que a Funai deixou de centralizar as políticas ninguém mais assumiu esse papel de coordenação', analisa. Mesmo as ações emergenciais, como distribuição de cestas básicas, são criticadas Mesmo as ações emergenciais, como distribuição de cestas básicas, são criticadas. 'São os kit-miséria, com alimentos longe da cultura indígena', afirma a sanitarista da Universidade Federal de São Paulo, Sofia Mendonça. Flávio Valente lembra que indígenas tendem a não consumir açúcar, óleo ou trigo e preferem farinhas como a de milho ou mandioca. O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), responsável pelas cestas, mudou as que vão para Mato Grosso a pedido da Funasa: incluiu mais leite para as crianças. No caso dos caiovás, o secretário de segurança alimentar do MDS, José Baccarin, informa que o governo deu início a ações como a recuperação do solo e aquisição de ferramentas. Mas o problema básico na região é que há 11 mil índios vivendo em 3,5 mil hectares - área em que, na reforma agrária, seriam assentadas 200 famílias (cerca de mil pessoas). 'O que é preciso é mais empenho para devolução da terra aos índios', diz Salvador Soler, oficial de projetos do Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) da região Centro-Sul. A presidente da Pastoral da Criança, Zilda Arns, avalia que o problema na região de Dourados só se reduz com ações intersetoriais. 'Falta terra para plantar', diz. Um grupo da pastoral foi destacado para atuar na região e incluir a multimistura na alimentação. 'Mas é preciso dar mais. Pensar em soluções a médio e longo prazo. E para isso é imprescindível o resgate cultural.' Nos últimos dias não faltaram vozes para apontar a cultura como principal causa da desnutrição. O ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social, disse que seu ministério já 'havia feito a sua parte' e o problema dos índios é 'histórico e cultural', apontando o alto índice de suicídios entre os caiovás. Valente confirma que há problema de auto-estima entre indígenas, mas acrescenta que 'culpar problema cultural é justificativa totalmente furada'. A justificativa do governo é desmentida com o esforço da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) desde janeiro. O diretor do Departamento de Saúde Indígena da fundação, Alexandre Padilha, diz que em dois meses o número de crianças desnutridas caiu 29,5%. Sinal de que melhorias podem ser obtidas em pouco tempo. |