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presidente do Incra no governo Lula, em 2002, o geógrafo Marcelo
Resende, de 35 anos, atua hoje na Rede Social de Justiça, uma das
ONGs organizadoras do Fórum Social Mundial. Resende foi o presidente
do Instituto de Terras de Minas Gerais, no governo Itamar Franco, e saiu
do governo acusado de manter ligações com o MST. Ele não
nega o vínculo e avalia que dificilmente o governo Lula se aproximará
dos índices de reforma agrária de Fernando Henrique Cardoso.
Segundo Resende, o presidente não consegue fazer a reforma agrária
que prometeu porque depende dos 180 votos dos deputados ruralistas. Ele
diz que o Brasil tem diversos "barris de pólvora", como
Anapu.
Qual é sua avaliação
sobre os focos de violência agrária no país?
MARCELO RESENDE: O que está ocorrendo em Anapu,
embora as atenções estejam voltadas para lá, não
é isolado. Assassinatos são termômetros, não
indicadores. Mato Grosso, Minas Gerais e Pernambuco são outras
Anapus. São três pontos: a alta concentração
de terra e uma reforma agrária tímida ou praticamente paralisada;
os projetos do agronegócio, as reflorestadoras, as monoculturas
e a ausência do Estado.
Qual é a sua opinião
sobre a reforma agrária do governo Lula?
RESENDE: Só estamos apagando incêndios no
país. É um absurdo, porque nosso governo foi o mais comprometido
desde sempre com a reforma agrária. Pelo menos a reforma agrária
Lula tinha que fazer. Pelo menos. Estamos fazendo um grande esforço
para conseguir esbarrar nos números do Fernando Henrique, que tanto
criticamos, olha que absurdo. Dentro de pouco tempo, mantido este ritmo,
teremos que reconhecer que Fernando Henrique fez “uma bela reforma
agrária”, o que é mentira. A reforma agrária
no Brasil sai do papel com três medidas do ministro Miguel Rossetto.
Ele teria que decretar e exigir, com um prazo de seis meses, três
documentos dos fazendeiros: a declaração do registro do
imóvel, a localização georeferenciada e o ônus
da prova. É o fazendeiro que tem que provar que sua terra é
produtiva. A situação tem que ser enfrentada no atacado
e no varejo.
Por que o governo Lula não
toma estas medidas, definitivamente?
RESENDE: Por causa do baixo clero, dos 180 deputados ruralistas.
Sem eles, Lula acha que perde a governabilidade. O problema não
é isolado, do Judiciário, como dizem. O problema são
as alianças fechadas lá atrás. O governo tinha dois
caminhos: empurrar com a barriga, como tem feito, ou criar um choque de
gestão. Agora não vai dar mais para ficar escondendo os
números. Simplesmente não vamos conseguir cumprir as metas
de assentamentos. Logo haverá o abril vermelho e os movimentos
não conseguem mais segurar. Abril será o divisor de águas.
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