Nem Paris, nem Pará; a Reforma Agrária parou!
Paulo Piramba
PALAVRA CRUZADA - 9/3

No enfrentamento de divergências políticas, por vezes a arrogância nos arrebata e faz com que percamos a capacidade de aprender com as críticas que nos são dirigidas. Quando isso acontece, a política perde o “p” maiúsculo, e se apequena numa disputa de discursos e egos. Isto só piora, quando acontece em um momento onde nossas teses são derrotadas pela realidade. Nestes momentos, parece que “o fracasso subiu às nossas cabeças”. No caso do ministro Miguel Rossetto [e da maioria da DS que está no PT], o fracasso deve ter descido posteriormente ao fígado.

Primeiro, o ministro permaneceu, discreto e, aparentemente, conformado com os parcos recursos destinados à Reforma Agrária. Além disso, infelizmente, se prestou a fazer parte do “kit-massacre”, como brilhantemente definiu Plínio Arruda Sampaio. O ministro Rossetto chancelou, com sua presença, o factóide montado pelo governo Lula, como resposta à opinião pública indignada com o assassinato da irmã Dorothy. Factóide, porque um governo que não consegue garantir a segurança de seus funcionários e de ambientalistas em Tinguá, a 40 km do centro do Rio de Janeiro, não tem a menor condição de fiscalizar e controlar a aplicação do pacote de medidas para aquela imensa região conflagrada do Pará. Política para inglês [no caso, americano] ver.

Na semana passada, porém, parecia que o sol começava a brilhar, ameaçando despertar o ministro. Formalizado o anúncio feito pelo seu colega de ministério, Palocci, o ministro Rossetto resolveu chiar contra mais um corte nas, já combalidas, verbas destinadas à Reforma Agrária: “O corte foi muito pesado”. Além disso, Rossetto chegou a afirmar que os “cortes brutais” aumentariam ainda mais a violência no campo, citando o Pará.

Ato contínuo, o MST, que já disse que considera o ministro como “um dos seus”, e cuja paciência com o governo Lula dá mostras de estar definitivamente se esgotando, aconselhou o ministro e o presidente do Incra a pedirem demissão, em protesto contra os cortes. Até agora Rossetto não disse se sai ou se fica, mas já afirmou que o governo Lula, “apesar dos limites”, “continua portador de uma agenda de mudanças”. Só se o ministro se refere à mudança de posição sobre a Previdência, sobre os transgênicos, sobre a política econômica... Nesta agenda, as próximas mudanças previstas são sobre a Universidade e os direitos dos trabalhadores.

No meio desta confusão, a "Folha de SP" resolveu acrescentar um ingrediente explosivo: uma carta de 3 dirigentes da Quarta Internacional enviada aos militantes da Democracia Socialista, tendência da qual faz parte o ministro e que é a seção brasileira desta organização internacional. Na carta em questão, estes 3 dirigentes se mostram preocupados com a participação de Rossetto no governo “social-liberal” de Lula, se arriscando “a ser imprensado entre uma política de governo da qual quase não se demarcou e o descontentamento crescente dos movimentos agrários”.

Aí o fígado do ministro entrou em cena. Na verdade, não só o dele, mas também o da direção da DS-PT que, ao se referir a um projeto de resolução da Quarta Internacional [que acabou sendo aprovado] fortemente baseado na carta, afirmou tratar-se de “uma proposta de resolução típica de pequenas organizações que nada influenciam na luta de classes, pois parte de fórmulas abstratas”. No mesmo tom, o ministro completou: “Meu negócio é Pará, não Paris”. Além de cuspir no prato onde a Democracia Socialista comeu por tanto tempo, e que foi um elemento fundamental para sua identidade política e, portanto, para sua unidade e para o seu crescimento, as duas afirmações – além de desrespeitosas – perigosamente flertam com o mesmo modelo de outras organizações de esquerda que, ao se considerarem mais importantes do que os referenciais políticos mais gerais, acabaram por se transformar em balcões de negócio.

É inegável que a rica experiência da participação de sua seção brasileira no PT, fez com que a Quarta Internacional avançasse nas suas formulações, vivenciando a experiência de construir e estar num partido socialista de massas. Naquele momento, seu núcleo dirigente e suas seções nacionais tiveram muito a aprender com a DS. Hoje, contudo, a DS-PT não tem o mesmo desprendimento. No olho do furacão, vê sua política em relação ao governo Lula ser impiedosamente derrotada, sem sequer ter conseguido, em algum momento, fazer a anunciada disputa pelos rumos do governo.

Ao invés de, agora, se “voltar para Paris”, para aprender o que fazer no “Pará”, a DS-PT do ministro se fecha, surda às vozes discordantes que vêm de militantes brasileiros da DS, da quase totalidade da Quarta Internacional, e da vida real. Nesse aspecto, a DS-PT parece mais à vontade com os métodos da direção petista, do que com os da Quarta. Agora é torcer para que estas “referências petistas” não levem a que estes companheiros, tal como a maioria do PT, comecem a virar as costas para a história.

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