Novamente queremos pão e paz
Luciene Lacerda*
PALAVRA CRUZADA - 8/3

Quando as mulheres reunidas em um encontro internacional decidiram instituir, no início do século XX, o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, queriam iniciar uma nova etapa para a condição das mulheres no mundo. Muitas trabalhadoras haviam morrido nos Estados Unidos em incêndios provocados pelos patrões, nas fábricas em que trabalhavam.

Alguns anos depois, neste mesmo dia, em 1917, um grande número de mulheres operárias saíram às ruas em manifestação por pão e paz. Sobre este acontecimento, Alexandra Kollantai escreve: “O Dia das Operárias, o 8 de março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução” (Giannotti e Santiago, 2004).

Na sociedade, insistentemente, a desigualdade entre homens e mulheres é colocada como se fosse natural, biológica e inerente, na tentativa de cristalizar os papéis sociais desempenhados por ambos os sexos. Ao abraçar o debate entre as relações de gênero, o movimento feminista quer mostrar que estes papéis são construídos social e culturalmente; e sempre lutou para desnaturalizar os papéis masculinos e femininos.

Ao longo dos anos, tivemos avanços como o direito ao voto, a entrada das mulheres brancas e de classe média no mercado de trabalho (pois as negras, que chegaram escravizadas, sempre trabalharam), licença-maternidade, delegacias da mulher, direito à educação e creches públicas e nos locais de trabalho. Lutamos ainda pela legalização do aborto, equiparação dos salários entre mulheres e homens (assim como entre negr@s e branc@s) e eliminação da violência contra a mulher.

O movimento feminista mais à esquerda via na eleição de um presidente progressista, uma possibilidade de avanço nas políticas de eliminação do sexismo. Se um ministério não foi criado, a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres poderia cumprir o papel de aglutinar as propostas de mudança e incrementar políticas afirmativas nas questões de gênero, na sua estrutura de governo e no país. O que se viu, foram indicações de mulheres para esta coordenação, que nunca tiveram no feminismo a sua prioridade de atuação; um enorme financiamento para ONG´s, para concretizar políticas que deveriam estar sob responsabilidade do Estado, como no caso do projeto sobre a Violência contra a Mulher. Aliás, este é um governo que bateu o recorde em financiamentos para ONG´s. O que se vê, hoje, além de expectativas não realizadas, é um movimento “sem movimento”. Há uma semi-paralisia de setores do movimento social, que deveriam continuar a exercer um papel crítico, ao governo, que parece dar mais respostas aos setores conservadores, enquanto imobiliza ações de Secretarias que responderiam a demandas dos movimentos sociais, como mulheres, ambientalistas e anti-racistas, por exemplo.

Se hoje já perdemos a luta da Previdência, não podemos permitir que outras conquistas das trabalhadoras e dos trabalhadores – como a licença-maternidade e a paternidade, 13º e outras – sejam retiradas pela reforma trabalhista proposta. Por enquanto, isto é só um temor. Esperemos que não passe disso. Mas se houver alguma tentativa a esse respeito, estaremos prontas para organizar manifestações contra, fazendo uma re-edição do “Pão e paz”. Vamos unir a isto, a luta contra a militarização e contra a guerra, questionando também o nosso papel de interferência no Haiti.

Queremos também uma posição menos escorregadia e mais firme sobre a regulamentação do aborto, como uma questão de saúde pública. Para que acabem as mortes por abortos mal feitos entre as mulheres pobres, principalmente as mulheres negras e as jovens; pois apenas estas não têm condições de realizá-lo em clínicas seguras, mas muito caras. Todos sabemos que elas existem, e a proibição do aborto só faz aumentar seus lucros e a morte de quem não tem como pagá-las.

Queremos a introdução das creches – como política pública de assistência às estudantes universitárias – negada na reforma universitária proposta pelo governo; reforma que vai no sentido oposto daquilo que sempre lutamos: uma universidade pública, gratuita e de qualidade.

Queremos também um salário mínimo capaz de financiar todas as necessidades de uma/um trabalhador/a, e isto está muito longe dos anunciados R$ 300,00. O salário mínimo atinge principalmente as mulheres, pois elas são a maioria entre os trabalhadores que o recebem - muitas vezes menos ainda principalmente as mulheres negras.

Se na I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres Lula disse “O Brasil precisa seguir o exemplo das mulheres e ter paciência”, é bom o presidente saber que as mulheres já perderam a paciência, ao ver o governo vender nossos direitos para agradar os mercados. E também que, paciência não é uma “característica feminina”, como costumam dizer aqueles que querem nos calar, oprimir e controlar. Gritaremos em coro que preferimos a luta, e que, ao contrário dele, continuamos na luta pelo socialismo. E que, sem feminismo não há socialismo!

* Luciene Lacerda é pesquisadora da UFRJ e faz parte da Coordenação do Coletivo Provisório de Negros e Negras do PSOL e da Marcha Mundial de Mulheres

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1