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| O óbvio que não ulula |
| Léo Lince* |
| Correio da Cidadania - 25/2 |
| Os jornais estão repletos de reflexões sobre o resultado, inesperado para a maioria dos observadores, da eleição da mesa da Câmara dos Deputados. Nas mais diferentes versões, todas naturalmente interessadas, a idéia de que o governo sofreu uma grande derrota ocupa lugar de destaque. Fragorosa, desmoralizadora, devastadora, momentânea, são adjetivos que apenas qualificam o substantivo inevitável. Até os titulares do governo, que por dever de ofício são obrigados a dourar a pílula, sabem que foram derrotados. É o óbvio ululante. No rescaldo ainda quente, os diretamente envolvidos no processo se ocupam em descobrir as causas do seu próprio desacerto. Erros da coordenação política, incompetência da articulação governista, fogueira das vaidades, arrogância paulicentrica, fragilidade do sistema partidário, viés corporativo subestimado, fisiologismo insatisfeito no seu insaciável apetite, vingança do baixo clero (até a letra do Paralamas do Sucesso foi ressuscitada), traições, rasteiras, mágoas - em suma, uma lista interminável. Gerais, particulares ou singulares, as causas pululam. Cada qual que escolha a da sua preferência. No resultado concreto, no entanto, todas elas se reúnem como múltipla determinação. Como em toda vitória de zebra, o favorito padece dobrado. O governo vai penar em demasia. Depois, como é de sua natureza, vai se acertar com o vitorioso de turno, afinal o eleito é governista nato. O PT, no entanto, vai sangrar na veia da saúde. Para ele, o resultado foi um desastre. Ficou fora de mesa diretora do legislativo e toda a sua cadeia de comando foi destrangolada. Para se recompor, não basta analisar cada um dos erros cometidos na condução desta disputa, que foram muitos e das mais variadas procedências. O conjunto destes erros, por si só, não explica o resultado adverso, que precisa ser situado no contexto das determinações mais gerais do atual o quadro político. Foi uma vitória do retrocesso. Mais uma, poderia ter dito o deputado Chico Alencar, da “ala petista” do PT e autor da formulação. Estamos vivendo um retrocesso atrás do outro. Nem vale a pena listar. Faltou coragem para romper com a natureza regressiva imposta pela hegemonia neoliberal e o resultado é esse que ai está. A escolha do continuísmo na política econômica foi o começo de tudo. Com o cerne do governo plugado no piloto automático da casta financeira, a economia manda na política, o mercado se arvora em disciplinador da sociedade e, como corolário inevitável, o intestino grosso da pequena política vai continuar dando as cartas no Congresso Nacional, agora pelas mãos dos seus titulares mais qualificados. A prometida “nova gramática do poder” não começou sequer a ser soletrada, a promessa de mudar o jeito de fazer política ainda não vingou. A maioria que controla o PT e o governo passou a considerar um estorvo os valores e procedimentos que fizeram a fama e a identidade do partido. Resolveram aprender com os adversários e, como aprendizes de feiticeiro, estão sendo engolidos pelas forças que julgam desencadear. A derrota na eleição da mesa da Câmara é apenas mais um elo na corrente do continuísmo que nos arrasta para a encalacrada. Isso é o óbvio que não ulula. * Léo Lince é sociólogo. |