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| A mecânica do saque |
| Tiago Soares |
| Correio da Cidadania - 24/2 |
| Tony Clarke é um dos maiores especialistas na questão da privatização da água. Diretor do Instituto Polaris, instituição sediada no Canadá dedicada à análise de processos de privatização ao redor do mundo, Clarke é autor, com a canadense Maude Barlow, de “O Ouro Azul”, clássico recente do ambientalismo. Presente ao Fórum Social Mundial em debate promovido pela ONG Amigos da Terra, Clarke concedeu entrevista na qual desvenda a mecânica do saque dos recursos hídricos pelas grandes corporações. E como, no fim das contas, isso pode acabar nos levando ao pior cenário possível. Tiago Soares:
Para começar, gostaria que o senhor desse uma pequena explicação
aos leitores sobre o papel da água dentro da atual ordem econômica
e industrial. Este modelo de utilização faz com que fiquemos expostos a problemas bastante sérios, ecologicamente falando. Sem medidas que conservem e readequem o modo como os recursos hídricos são administrados, eles podem simplesmente secar. E estamos falando de um item absolutamente essencial à sobrevivência humana. TS: Em não
poucos casos, organismos financeiros internacionais sugerem a países
em desenvolvimento que o setor hídrico seja um dos primeiros abertos
ao capital privado. Existiria realmente alguma falha estrutural nos sistemas
públicos de água e esgoto? TS: Essas
armadilhas, como funcionam? TS: E quais
são as conseqüências sobre os usuários? No fim das contas, isso nada mais é do que negar às populações pobres o direito ao item absolutamente essencial à vida que é a água. Este tipo de desdobramento é sinal bem claro dos problemas presentes nos esquemas de privatização implementados em lugares como Jacarta, Joanesburgo, Buenos Aires e Manila - um processo no qual as perdas ultrapassam em muito os benefícios. TS: Muitos
ativistas apontam o papel da OMC como central nesse processo. Como o senhor
analisa a atuação da instituição? Mais preocupante que isto, porém, é o fato do GATS forçar um “aprisionamento” da agenda de privatização às decisões dos Estados nacionais. Hoje, por exemplo, é ainda possível que um país abra seu setor de água e esgoto a empresas privadas e, caso a experiência não funcione bem, o Estado o tome de volta nas mãos. Estabelecidas as regras do GATS, isto não será mais possível. Pelo acordo, a partir do momento que é feita a privatização do setor de água e esgoto de um país, não é mais possível que este seja passado das mãos da iniciativa privada de volta para o setor público. TS: E a
ONU? Qual a postura do órgão frente a estes abusos? TS: De que
modo as metas são vagas em relação à água? Acredito que precisamos sim de um papel mais ativo da ONU a favor dos serviços públicos de água e esgoto, por um motivo muito simples – água é um direito básico universal. O que nos leva a outro problema: a água nunca foi totalmente declarada pela ONU como direito universal básico. No fim das contas, tudo isso somado faz com que eu continue um tanto reticente sobre como a ONU lida com os aspectos mais urgentes do processo de privatização. TS: Em meio
a este cenário pontuado por Estados nacionais enfraquecidos e uma
ONU ainda pouco ativa, quais as esperanças de resistência? |