Morte de Seu Júlio expõe descaso com Tinguá, fonte de 80% da água da Baixada
Maurício Thuswohl
Agência Carta Maior - 24/2

Nesta quinta-feira (24), dia em que foi sepultado o ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro Júnior, assassinado nas proximidades da Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu (RJ), policiais, parlamentares, governantes e ativistas prometeram empenho máximo para identificar e prender os culpados pelo crime. O exemplo da resposta rápida dada pelo governo federal no caso do assassinato da missionária Dorothy Stang serve como estímulo para que os responsáveis pela morte de Seu Júlio, como o ambientalista era conhecido, sejam logo encontrados. Na noite de quarta-feira (23), a polícia prendeu um suspeito: José Reis de Medeiros Alves, de 40 anos. Ele foi localizado em Tinguá após uma ligação ao Disque-Denúncia que vinculou seu nome ao assassinato de Ribeiro. Alves já havia sido condenado a 13 anos de prisão por um homicídio ocorrido no município de Miguel Pereira e é acusado de outros dois assassinatos. [1]

Criada em 1989 e espalhada por quase 28 mil hectares que alcançam os municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Japeri, Petrópolis, Miguel Pereira e Paty do Alferes, a Reserva Biológica do Tinguá foi reconhecida na década passada como patrimônio da humanidade pela Unesco. Além de possuir recursos hídricos que são responsáveis por 80% do abastecimento de água da Baixada Fluminense, a reserva abriga fauna e flora riquíssimas. Em suas matas, situadas a pouco mais de 50 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, são encontrados desde mamíferos de grande porte como a onça-parda e o macaco-prego até animais como o sapo-pulga, considerado o menor anfíbio do planeta.

O problema é que, para fiscalizar esse paraíso ecológico, a direção da reserva conta com apenas quatro funcionários. Diante desse quadro, é impossível deter a ação de palmiteiros, caçadores e afins. Até mesmo os excursionistas e freqüentadores das cachoeiras da reserva contribuem para sua degradação sem que a fiscalização consiga fazer nada. Segundo o Ibama, existe um plano para a contratação de pessoal e equipamentos para a Reserva do Tinguá, mas ele, como tantos outros, jamais saiu do papel.

Outra solução, defendida por alguns ambientalistas, seria alterar o status jurídico de Tinguá de Reserva Biológica para Parque Nacional, alternativa legal que permitiria uma maior capacidade de proteção ambiental para a região. Enquanto nada acontece, resta ao chefe da reserva, Luiz Henrique Teixeira, torcer para não ser a próxima vítima de um conflito que, tivesse sido tratado com atenção e vontade política, nem deveria mais existir. “Se houvesse mais gente na fiscalização, todos esses problemas já teriam sido superados”, constata, desolado.

Investigação

Assim como no caso do Pará, as evidências indicam que o assassinato foi tramado por pessoas ou grupos que se sentiam prejudicados pela militância de Seu Júlio em defesa da reserva, que é considerada um dos maiores santuários de Mata Atlântica do Brasil. Segundo o Ibama e a Policia Federal, na lista de atividades ilegais que acontecem em Tinguá e eram combatidas pelo ambientalista estão incluídos o desmatamento, a extração de areia, a caça e o contrabando de palmito. Nos últimos anos, várias denúncias sobre quadrilhas, algumas delas armadas, que atuam nessas atividades ilegais dentro da reserva chegaram ao conhecimento da polícia e dos órgãos de fiscalização.

A Delegacia Regional da Polícia Federal de Nova Iguaçu já instaurou inquérito para apurar o crime que, de acordo com pelo menos seis testemunhas, aconteceu na noite de terça-feira (22), quando a vítima caminhava por uma trilha a cerca de 200 metros de uma das entradas da reserva. Seu Júlio havia acabado de participar de uma reunião na sede da Associação de Moradores de Tinguá e voltava para casa quando foi perseguido por um homem que estava escondido no matagal e alvejado, pelas costas, com um tiro de escopeta calibre 12 na cabeça.

Por determinação do secretário estadual de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, a Polícia Civil do Rio de Janeiro também abriu inquérito para apurar o assassinato do ambientalista, repetindo a concorrência com a PF que ocorreu no Pará durante as investigações da morte de Irmã Dorothy. As duas investigações, no entanto, apontam numa mesma direção que indica que o crime foi cometido por agressores do meio ambiente. “Soubemos que Seu Júlio vinha recebendo ameaças de grupos de caçadores”, afirmou o diretor regional da PF, delegado Agildo Soares.

Reforço federal

Presente ao sepultamento de Seu Júlio, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), anunciou que vai pedir ajuda e “atenção especial” do Ministério da Justiça para solucionar o crime. “Os governos estadual e federal têm de se valer de todos os instrumentos possíveis para elucidar o crime. Casos como esse pedem até mesmo a presença do Exército, se necessário. É preciso mudar a cultura de que na Baixada Fluminense os conflitos são resolvidos a bala”, disse.

O gerente-executivo do Ibama no Rio, Édson Bedim, segue na mesma linha de Lindberg e pede maior presença federal na região. Além de solicitar à Superintendência da Polícia Federal proteção especial para o chefe da reserva do Tinguá, Luiz Henrique Teixeira, ele enviou à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, um ofício sugerindo um encontro com o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, para discutir a possibilidade de envio de tropas federais para reforçar a segurança no entorno da reserva.

Apesar de o governo federal ainda não ter anunciado nenhuma medida especial, a pressão vinda do Rio já ecoou em Brasília. Marina Silva afirmou que, antes de se chegar a qualquer conclusão precipitada, é preciso aguardar o encerramento do inquérito policial. A ministra, no entanto, admitiu que as evidências indicam que a morte de Seu Júlio pode ter sido encomendada por pessoas ligadas aos caçadores, palmiteiros ou especuladores imobiliários que atuam na reserva. “É preciso ter calma, porque a região tem um histórico de violência. Mas, é bem possível que a natureza do crime seja o conflito socioambiental”, disse.

Deputados e ONGs

O Legislativo também decidiu acompanhar de perto as investigações sobre a morte de Seu Júlio. O presidente da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), Jorge Picciani, criou uma comissão especial – formada pelos deputados Carlos Minc (PT), Geraldo Moreira (PMDB) e Coronel Jairo (PSC) – para cumprir essa tarefa. Os três deputados são, respectivamente, presidentes das comissões permanentes de Meio Ambiente, Direitos Humanos e Segurança Pública da Alerj. Em Brasília, deverão ficar atentos aos desdobramentos das investigações alguns parlamentares que tinham afinidade política com Seu Júlio, como Chico Alencar (PT-RJ) e Fernando Gabeira (PV-RJ).

As entidades de defesa do meio ambiente no Rio também exigem justiça e se preparam para acompanhar as investigações policiais. Organizações como o Grupo de Defesa da Natureza (GDN), da qual Seu Júlio era um dos fundadores, o Grupo de Ação Ecológica (GAE) e o movimento de ecologia social Os Verdes já se manifestaram pela rápida elucidação do crime e pela adoção de uma política efetiva de proteção à Mata Atlântica. As várias entidades reunidas na Assembléia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente (Apedema-RJ) soltaram nota classificando o crime como “barbárie” e exigindo punição para os culpados.

_______________________
[1] Dias após, a polícia apresentou Leonardo de Carvalho Marques, 21 anos, como o assassino do Seu Júlio. Leonardo, que é caçador, teria matado o ambientalista por vingança contra as denúncias de Seu Júlio. [Nota do Editor]

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1