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| O governo Lula optou por uma solução neoliberal |
| Entrevista com Plínio de Arruda Sampaio Jr. |
| www.rebelion.org - 22/2 |
| No Brasil, as políticas fiscal, cambial e monetária nunca foram tão duras e as reformas nunca foram tão daninhas para os trabalhadores. A reforma da previdência, a lei de falência, as reformas universitária e laboral que agora são propostas, são reformas neoliberais puro-sangue. Para saber, em primeira mão, o que está acontecendo com o partido de Lula, o programa "Mañanas de Radio" da CX 36 RADIO CENTENARIO falou, por telefone, com Plínio de Arruda Sampaio Jr. O que se segue é parte deste diálogo, mantido pelos jornalistas Hernán Salina e José Luis Vazquez com este destacado dirigente político brasileiro. O entrevistado é filho de outro dirigente histórico e também fundador do PT, o advogado e ex-deputado federal Plínio Arruda Sampaio; que também manifestou sua reprovação à direção do PT. O senhor poderia explicar
o que aconteceu ao PT e a que se deve a deserção massiva
e as duras críticas ao presidente brasileiro Luís Inácio
Lula da Silva? Nossa crítica principal é que nós construímos o PT, 25 anos atrás, como instrumento de transformação social, e não admitimos que o Partido tenha se convertido em um partidos de defesa dos privilégios, de defesa do status quo. E estamos convencidos que nossa saída é apenas a primeira fissura no dique, porque há uma insatisfação muito grande dentro do Partido. E nossa saída coloca na agenda do Partido o debate sobre se vale à pena seguir tentando mudá-lo por dentro. Acreditamos que, em um breve tempo, toda a esquerda militante, todos os militantes comprometidos com a transformação social, estarão fora do PT. O que aconteceu com o líder
dos trabalhadores, hoje Presidente da República? O que aconteceu
com o PT, que evidencie o que vocês criiticam? Mas o pior não é a política monetária, nem a política cambial, nem a a política fiscal, nem o populismo cambial de valorização da taxa de câmbio. O pior são as reformas que estão sendo implementadas no Brasil, como a reforma da Previdência Social, a do Banco Central, a reforma universitária, a reformas da legislação trabalhista, etc. Por que isto aconteceu? O problema é que o PT não acumulou força política suficiente para fazer a mudança, para mudar o estado brasileiro, que é um estado - hoje em dia - neoliberal. Então, como o PT não muda o Estado, o Estado muda o PT e a direção do partido se converteu de maneira fanática ao neoliberalismo. As reformas que estão sendo feitas no Brasil, são muito mais profundas e perversas, que as reformas feitas no governo anterior de Fernando Henrique Cardoso. Então, por um lado houve um problema interno, porque construímos o PT como instrumento de organização do povo, para poder mudar o Brasil, com a idéia de que é necessário um povo organizado, mobilizado e consciente para conquistar as mudanças; mas esta idéia começou a ser abandonada nos anos 90. E, hoje, o PT já não é um partido de luta. O outro problema são as alianças que o PT fez para chegar ao governo. Então temos, hoje, por cima uma aliança copnservadora e, por baixo, um partido desmobilizado. Para que se possa entender
o que está acontecendo, o senhor poderia, por exemplo, explicar
o que aconteceu com o Fome Zero? Como tal, ele tem 2 problemas: o primeiro é que falta dinheiro, porque o Brasil gasta, para que vocês tenham uma idéia, 110% do seu PIB para pagar os juros da dívida pública. Dessa forma, tem havido muita dificuldade com o pouco dinheiro que o governo destinou para o Fome Zero. Na verdade, este dinheiro tem chegado e Lula tem feito uma espécie de novo populismo de direita. Ou seja, o apoio deste governo é o da alta plutoracia, enquanto que os "descamisados", isto é, a gente mais pobre não está sendo politizada; para dizer de uma maneira forte, está sendo comprada. Chegou uma informação
que, junto com os intelectuais e economistas, vários dirigentes
sindicais abandonaram o PT. Isto se reflete na CUT? Os que saíram do
PT, acreditam que havia margem para fazer algo diferente do que está
fazendo o governo, não se temia que, no caso de cumprir outras
metas políticas, pudesse surgir o caos político e social
no Brasil, a reação da direita e a instabilidade política? Esta é a nossa maior crítica. Esta palavra de ordem de Lula: "A esperança venceu o medo", era a esperança de mudança e o medo das represálias do capital. Bem, aí chegamos à segunda pergunta, se não havia nenhum tipo de retorcesso. Claro que havia. Quando se diz que a esperança venceu o medo, isto quer dizer que o povo brasileiro estava disposto a enfrentar o boicote do grande capital. Nós não temos dúvida alguma que haveria uma ruptura e uma desorganização temporária da economia, porque o neoliberalismo se organiza de forma que, se você o ameaça, ele retalia de uma forma brutal, provocando o caos econômico. O que nós queríamos era que o governo tivesse a força, a firmeza para enfrentar esta turbulência, e o povo delegou mandato a Lula para que ele passase pela tempestade. Nós não temos dúvida alguma que haveria alguma tormenta, mas quando se quer mudar, a pessoa tem que saber o que não quer, tem que saber o que quer e tem que estar disposto a pagar o preço da transição, porque senão ninguém vai querer mudar. No Brasil o povo queria a mudança, havia espaço objetivo para fazer a mudança e Lula desperdiçou a oportunidade. Diz-se que os organismos
internacionais que ditam as políticas econômicas, como o
FMI e o Banco Mundial, assim como parte da esquerda da América
Latina, também mudaram e se atualizaram, fazendo auto-crítica
de planos anteriores. Em que consiste a reforma
universitária? O senhor pode comentar qual
a postura de figuras conhecidas internacionalmente, com o Frei Betto por
exemplo, e a do MST? Em relação aos sem-terra, tampouco posso falar por eles, sou companheiro deles, mas uma coisa posso dizer com abosluta segurança: existe, na direção do MST, com a qual estou em permanente contato, uma luxcidez perfeita sobre a natureza desse governo. Mas o que existe dentro do MST, é uma discussão interna para saber que política adotar frente ao governo. Por ora, com o governo, a relação é de "nem guerra, nem paz". Esta situação
do PT não estava prevista antes dele chegar ao poder? Mas confesso que me surpreendi com o entusiasmo neoliberal do governo. Eu acreditava que ele ia tentar mudar algo, timidamente, mas que não ia conseguir. Mas jamais imaginei que o governo fosse se render ao neoliberalismo. Diria que o conjunto dos companheiros que saíram comigo, mesmo que tivessem muitas suspeitas em relação à movimentação do governo, mesmo que, desde o início, estivessem muito insatisfeitos com a timidez do programa, vários acreditavam que seria possível, com a mobilização social, levar o governo, empurrar o governo para as mudanças, para as transformações. Vocês, que saíram
do PT, não acham que estão colocando "um pau na roda"
do governo supostamente progressista de Lula? Frente a esse panorama e esse impacto, os que sairam
do PT vão fazer o quê? Vão para casa? Digamos que estamos nos separando do PT, e nesta separação estamos disputando - por assim dizer - a custódia dos filhos: nós disputamos a militância do PT. Queremos disputar o imaginário do PT no povo brasileiro. O imaginário do PT como instrumento de mudança. E nós vamos alegar nesta separação, vamos alegar ao juiz que a direção do PT abandonou o lar, porque mudou de lado e esta é a disputas política que estamos fazendo aqui no Brasil. A alternativa no nosso continente aparece impulsionada
um pouco pela Venezuela, pelo processo bolivariano de [Hugo] Chávez,
aparentemente agora com Kirchner e, também, por Cuba. Vocês
concordam com isso? Você menciona o exemplo venezuelano e, sem dúvida, a Venezuela demonstra que é possível mudar. Se o povo que mudar e os dirigentes freiam as mudanças, é possível impor um processo de mudança. Na Venezuela, uma das debilidades do presidente Chávez é a ausência de um partido da mudança. Em contrapartida, nós no Brasil tínhamos um partido organizado nacionalmente durante 25 anos, com experiência, e o que nos faltou foi a direção, porque ela, no momento decisivo, mudou de lado. Não há dúvida que a América Latina quer mudanças. Vocês, aí no Uruguai também - nós do Brasil acompanhamos com muita atenção -, o povo deu várias demonstrações de quer mudar; da mesma forma que na Argentina, na Bolívia, em todo o continente. Estamos num momento de mudanças, mas, para mudar, nós temos que vencer as forças que freiam a mudança, as forças de contra-mudanças. Para isto é necessário mobilizar o povo. E a Venezuela nos dá, sem dúvida, um exemplo. Sobre Kirchner, falei com amigos argentinos, é uma situação mais comlexa, no meu ponto de vista. Mas você noUruguai o conhecem muito melhor e eu posso estar equivocado. Mas os argentinos vivem um drama muito forte, porque pagaram todo os preços do câmbio - que é a moratória - e não conseguiram mudar [1] o modelo econômico, de forma qualitativa. ____________________________ [1] Nota do tradutor: Plínio faz uma brincadeira com o verbo cambiar [mudar, em espanhol] e a tragédia do câmbio paritário na Argentina. Tradução: Paulo Piramba |