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| 3 em 1 |
| Paulo Piramba |
| PALAVRA CRUZADA - 2/3 |
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Alguns dos melhores discursos que ouvi foram feitos por Lula, principalmente o Lula da campanha presidencial de 1989. Cito um, o do comício de encerramento – na Candelária, Rio de Janeiro –, onde dezenas de milhares de pessoas atentas ouviram, em silêncio, um discurso, que juntava a sinceridade do relato da experiência de vida de “um dos seus”, com a esperança na possibilidade de transformação da realidade, que Lula conhecia como poucos. Naquela noite, sentado no meio-fio e arrepiado, vi muita gente boa chorando. Falo isso, porque – ao contrário dos bons e caros vinhos que aprecia – Lula parece ter avinagrado com o tempo. Seus discursos atuais, além de ocos e auto-indulgentes, sempre reservam um travo amargo ao seu antecessor, FHC. Não que o ex-presidente não mereça ser esculhambado, um dos principais responsáveis pelo desmonte e privatização do Estado brasileiro. Mas os eleitores de Lula esperavam que, além do discurso agressivo, o presidente implementasse um governo diferente daquele do seu desafeto. Ao contrário, quanto mais Lula procura – nos discursos – se diferenciar de FHC, mais seus governos – na prática – se parecem. No que está sendo chamada de incontinência verbal, Lula se meteu sozinho numa trapalhada, por conta de seu estilo pessoal. Todo mundo sabe o quanto ele gosta de fazer um discurso de improviso, seja numa reunião restrita, seja para milhares de pessoas. Porém o perfil midiático e populista adotado por Lula, a partir do início do seu governo, obriga que ele tenha sempre uma piadinha no bolso do colete, ou uma metáfora futebolística apropriada escondida na manga. E são esses cacos que têm feito a alegria da oposição conservadora e o desespero de seus assessores. Agora, quando o presidente parece governar para o seu antecessor, antecipando a sucessão de 2006 e escolhendo o PSDB como adversário, Lula, sempre que pode, guarda uma farpa ou destila um veneno para os tucanos. Foi aí que morou o perigo! Incentivado pelos aplausos de uma platéia “amiga”, o presidente derrapou nas curvas sinuosas da privatização das companhias de eletricidade e cometeu a inconfidência de revelar um suposto diálogo com um “companheiro muito próximo”, o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa. Nesse suposto “papo”, ao ser informado sobre a situação precária do banco e sobre o processo turvo da privatização, Lula teria pedido sigilo a Lessa. Esse discurso “atravessado”, como definiu o próprio Lula, provocou faniquitos entre os assessores do presidente e um frisson fingido na oposição de direita. As ameaças de processo contra o presidente não passam de jogo de cena. Como disse o ministro José Dirceu, no auge do seu estilo “ravengard”, “o feitiço pode virar contra o feiticeiro”. E os membros do governo FHC têm muito a esconder, quando o tema são as privatarias ocorridas no seu governo. Para a oposição de esquerda ao governo do PT, o discurso de Lula é revelador. Primeiro, porque confirma o que já se sabia: além de malbaratar o patrimônio da nação, a privatização foi uma verdadeira farra dos engravatados, com muita gente se arrumando. Segundo, porque mostra o alcance da capitulação do governo do PT aos interesses internacionais, já que algumas multinacionais ficariam “mal na fita”, se qualquer investigação séria fosse levada adiante. Que o presidente governava olhando para os Estados Unidos e para a Europa, de costas para os interesses do Brasil, todos já sabíamos. Que ele e o seu partido, o PT, vêm fazendo ouvidos de mercador às cobranças que os movimentos sociais começam a fazer com mais intensidade, muitos começam a perceber. Agora, Lula inventou a censura póstuma ao que fala. Alguns discursos, quando ele não consegue controlar a sua sinceridade, não são para serem levados à sério; são discursos “atravessados”. Quando a sinceridade não é para ser tratada com seriedade, e a mentira e o engodo – estes sim – são valorizados, seria melhor que o presidente se calasse e nos poupasse dos seus tediosos discursos. Como se os 3 macaquinhos – um tapando a boca, outro tapando os olhos e o último tapando os ouvidos com as mãos - fossem reunidos num só presidente, cada vez mais popular, cada vez menos povo. |