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| Muito pouco, muito tarde? |
| Mark Hertsgaard |
| Planeta Porto Alegre - 16/2 |
| No cerne do dilema sobre o aquecimento global, há um fato sobre o qual nenhum dos lados do debate gosta de falar: a noção de que já é tarde demais para prevenir o aquecimento global e a mudança climática por ele desengatilhada. O medo de que as falas soem derrotistas ou alarmistas faz com que ambientalistas não digam nada a respeito. Os políticos também não dizem nada, porque, se o fizessem teriam de fazer algo a respeito. Os mais bem preparados cientistas no mundo na área, porém, vêm há anos nos mandando esta mensagem, com urgência cada vez maior. Desde 1988, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (PIMC - associado ao Programa das Nações Unidas para o Ambiente) vem conduzindo a mais extensa colaboração científica da história. Mais de dois mil experts técnicos e científicos de todo o mundo trabalham no projeto, com cada estudo produzido sendo rigorosamente avaliado pelos seus pares. Em seu relatório de 2001, o PIMC anunciou que o aquecimento global causado pelo homem já havia começado, muito antes do esperado. Mais que isto, tudo indicava que ele pioraria; e pioraria muito, talvez -- antes de melhorar. No último mês, o cientista-chefe do PIMC, Dr. Rajendra Pachauri, levantou mais preocupações. Pachauri foi indicado para a chefia do PIMC na esteira da derrubada (forçada pela administração Bush) de seu antecessor, Dr. Robert Watson - que insistia na necessidade de se lidar com o tema de forma mais ativa. Ainda assim, a acumulação de evidências levou Pachauri a abraçar uma linguagem apocalíptica, chegando a afirmar que estamos pondo em risco a habilidade de sobrevivência da raça humana?. Até agora, a maior parte da discussão pública sobre o aquecimento global está focada na prevenção. Algo que pode ser exemplificado na implementação internacional, neste 16 de fevereiro, do Protocolo de Quioto sem a participação dos EUA. Mas a prevenção não é mais suficiente. Não importa quantos carros "verdes" e painéis solares Quioto promova, a verdade crua é que, apesar dele, algum aquecimento global é inevitável. Por conta disto, é vital que a comunidade mundial promova uma mudança estratégica, expandindo o alcance sua resposta ao aquecimento global. É necessário que seja enfatizada não apenas a proteção de longo termo, mas também a de curto prazo. Níveis marítimos cada vez mais altos e aumento na disseminação de doenças relacionadas ao clima serão fato na vida do planeta nas décadas vindouras, e precisamos estar preparados. Entre os passos necessários para que nos defendamos, é necessário que ajamos para fortalecer o mais rápido possível, ao redor do mundo, a habilidade de se responder a questões emergenciais. Sem que isto seja feito, não é possível a proteção e realocação de comunidades costeiras vulneráveis, bem como qualquer preparação relativa ao aumento nos fluxos migratórios de refugiados. Devemos partir para a ofensiva. Temos que redobrar esforços para nos livrarmos dos gases causadores do efeito estufa que ainda pairam na atmosfera, isolando-os onde não sejam mais perigosos. Um modo pelo qual isto poderia ser feito seria através do plantio de árvores, que absorvem o dióxido de carbono através da fotossíntese. Existem, porém, pesquisadores atrás de muitos outros métodos, alguns com o apoio da administração Bush. A Noruega, por exemplo, está enterrando dióxido de carbono em velhas reservas de petróleo sob o Mar do Norte. O problema com o protocolo de Quioto não está no fato de não ser o bastante a redução (prevista no acordo) de 5% na emissão de gases causadores do efeito estufa: o PIMC, por exemplo, clama por uma redução entre 50% e 70%. O problema é que Quioto age apenas sobre as emissões futuras. Não importa quão bem o protocolo funcione, ele não terá efeito sobre o gás já emitido, o real motivo pelo qual o aquecimento global é algo inescapável. Contrariamente à impressão deixada por alguns relatórios, o aquecimento global não é como um interruptor que pode ser desligado se deixarmos de queimar tanto petróleo, carvão e gás. Há um efeito gradual, que dura entre, aproximadamente, 50 e 100 anos. Este é o período durante o qual o dióxido de carbono (o gás primário do efeito estufa) fica retido na atmosfera após ser emitido de escapamentos de carros, fornalhas domésticas e chaminés industriais. Mesmo que a humanidade pare de queimar combustíveis fósseis amanhã, a Terra continuaria a aquecer por décadas. Até o momento, os gases emitidos durante os mais de dois séculos de industrialização aumentaram a média das temperaturas globais em cerca de 0,5 grau centígrado, e subiram o nível dos mares entre um e dois metros. Além disso, eles desengatilharam o fenômeno maior do aquecimento global. Os cientistas do PIMC predisseram que, por conta do aquecimento global, o futuro trará fenômenos climáticos extremos maiores e ainda mais fatais, de todos os tipos: furacões, tornados, tempestades, ondas de calor, secas e nevascas. Trará também, além disto, suas conseqüências: inundações, deslizamentos, cortes de luz, lavouras arruinadas, danos à propriedade, doenças, fome, pobreza e perdas de vidas. Na Califórnia, chuvas torrenciais levaram, em 11 de janeiro último, a um soterramento que matou dez pessoas, enterrou crianças vivas e destruiu dúzias de casas. Em 2003, uma onda de calor recorde deixou 35.000 mortos na Europa Ocidental - a maioria, idosos. E este á apenas o começo. Cientistas são cuidadosos ao dizer que nenhum evento climático sozinho pode ser ligado definitivamente ao aquecimento global. Mas a tendência é inconfundível para as companhias de seguros que vêm pagando as contas. O aquecimento global causado pelo homem trará fenômenos naturais extremos cada vez maiores, e, conseqüentemente, perdas catastastróficas crescentes, disse recentemente um funcionário da seguradora Munich Re, a maior companhia mundial no setor na área de desastres naturais. Outra seguradora, a Swiss Re, espera que, neste década, as perdas atinjam os US$ 150 bilhões por ano. O primeiro ministro britânico, Tony Blair, reconhece que as alterações climáticas são o maior problema de longo prazo a ameaçar seu país. O principal cientista de seu governo, Sir David King, vai além, enxergando nas mudanças sofridas pelo clima o maior perigo a espreitar a humanidade em 5.000 anos de civilização. Apesar da Casa Branca continuar diminuindo a urgência da questão, alguns setores da administração Bush já reconhecem a gravidade da situação. Um relatório trazido a público em abril último pelo grupo de estudos do Pentágono afirma que, pelo ano 2020, as mudanças climáticas podem ter desencadeado uma série de catástrofes interligadas. Isso poderia incluir mega inundações, fome em massa e mesmo uma guerra nuclear, ao passo que países como China e Índia lutariam entre si pelo controle de fontes de água e comida, que terão se tornado escassas. Tudo isto sublinha a urgência para que se repensem as respostas à questão do aquecimento global. Para que se o esforço funcione, é essencial que se reduzam as emissões de gás estufa através do fortalecimento do Protocolo de Quioto, bem como no aumento na intensidade de outras medidas. Caso isso não aconteça, a força do aquecimento com o qual a humanidade terá que lidar no futuro será grande demais para que consigamos sobreviver. Enquanto isto, porém, é imperativo que nos preparemos contra as mudanças climáticas já em curso. A necessidade de tal estratégia de prevenção e proteção vem ganhando a aceitação da maioria dos governos ao redor do mundo. Na Grã-Bretanha, o Departamento do Meio Ambiente promete publicar sua estratégia de adaptação ao aquecimento global até o final do ano. No mais recente encontro internacional sobre o aquecimento global, acontecido em Buenos Aires, em dezembro último, uma maioria de delegados apoiou o estabelecimento de um fundo de auxílio a países já vítimas dos efeitos do aquecimento global. Um dos candidatos mais próximos de obter tal ajuda é Tuvalu. Um atol no oceano Pacífico cujo ponto mais alto fica a pouco mais de três metros acima do nível do mar, Tuvalu foi, quase toda, submersa ano passado por ondas gigantes de três metros de altura. Os EUA, porém, se opuseram à assistência, argumentando que não há certeza sobre o que constituiria um nível perigoso de aquecimento.... A preparação para sobrevivermos pelas mudanças no clima global é uma tarefa monstruosa. Serão necessários recursos financeiros enormes, expertise técnica e habilidade organizacional. O mais importante, porém, está na renovação das idéias e na liderança política - especialmente nos EUA. Uma aceitação de que a mudança climática é inescapável, e requer medidas imediatas. A inominável morte e destruição trazida pelo Tsunami acontecida no Oceano Índico mostrou o que pode acontecer quando não se está preparado para o desastre. Mas não existe motivo pelo qual o aquecimento global deva nos pegar de surpresa. O mais maduro sistema de alarme de nossa civilização para o assunto - os cientistas PIMC - vem há anos nos dizendo que o perigo se aproxima. A questão é se agiremos rápida e decisivamente o suficiente para nos protegermos contra a tempestade vindoura. Ou se vamos simplesmente esperar e encarar nosso destino - nus, orgulhosos e destemidos. |