![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
| Kioto não é amendoim japonês |
| Paulo Piramba |
| PALAVRA CRUZADA - 23/2 |
| Em pleno século XXI a esquerda socialista continua – na sua esmagadora maioria – alheia aos problemas do meio ambiente. Quando muito, os setores mais esclarecidos reservam em seus manifestos, alguns parágrafos sobre o tema, repletos de obviedades e platitudes. Para sermos justos podemos dizer que a esquerda se esforça tanto para entender as ameaças ao nosso planeta, quanto em relação ao feminismo, à homofobia, ou ao racismo. Seguindo o modelo clássico da esquerda stalinista, estas questões são tratadas como secundárias, a serem automaticamente resolvidas com o advento do socialismo. Ledo engano, camarada. Durante o processo de industrialização acelerada na antiga URSS, os recursos naturais foram utilizados de maneira insensata, as fábricas eram um atentado à saúde de quem nelas trabalhava, além de utilizarem tecnologias sujas. Desmatamento, poluição dos rios e lagos, rejeitos químicos, tudo isso em nome da gloriosa Revolução e dos trabalhadores, que eram os primeiros a serem atingidos pelos efeitos desta depredação. Tchérnobyil e alguns submarinos nucleares que, ao afundarem, expuseram seus reatores, são símbolos de como a mãe-pátria dominou o átomo. Os países do Leste Europeu e a China – esta, até hoje – seguiram o mesmo modelo de desrespeito ao planeta e a seu futuro. Mesmo as organizações que criticam duramente a experiência do chamado socialismo real, têm dificuldade em entender e colocar a discussão sobre a ecologia social no seu dia-a-dia. O PT, por exemplo, nasceu negando o socialismo real, e já há muito tem a sua Secretaria de Meio Ambiente, que sempre contribuiu na elaboração dos programas de governo do partido. Isto não impediu que o atual governo do PT seja um verdadeiro desastre ambiental. A lógica de favorecimento e priorização do agronegócio do governo Lula tem sido responsável pelo avanço da fronteira agrícola sobre a floresta Amazônica. A soja transgênica, mesmo teoricamente proibida, vem sendo plantada e liberada por medidas provisórias, que deixam o país de joelho frente à Monsanto. O projeto de lei de Biossegurança saiu do Senado totalmente desfigurado e, a depender do novo presidente da Câmara, será aprovado como está. A aventura da transposição das águas do Rio São Francisco foi feito para atender, principalmente, os projetos do agronegócio. Além disso, poderíamos citar a retomada do projeto nuclear, a importação de pneus usados, o recuo do governo frente à pressão das madeireiras... A lista de desrespeito deste governo às questões ambientais é imensa. Foi preciso o assassinato da irmã Dorothy para que o governo desengavetasse um plano de ocupação sustentada, que já poderia estar em prática há muito tempo. Porém, as reservas criadas e o controle sobre a ocupação e o desmatamento naquela região do Pará, não estão automaticamente garantidas. Existem outros episódios no governo Lula, como a pressão dos garimpeiros contra a demarcação da Reserva Raposa Raio de Sol e a dos madeireiros no Pará, mais recentemente, onde o governo titubeou e chegou, mesmo, a recuar. A solução dos conflitos na Amazônia depende menos de perfomances espalhafatosas, como a chegada do Exército em Anapu, e de mais comprometimento real do governo com a defesa do meio ambiente, o que até agora não aconteceu. Enquanto isso a esquerda, pautada pelo governo e pelos órgãos de imprensa, só tem olhos para a política econômica do governo. Eu mesmo, que entendo tanto de economia, quanto de física quântica, já escrevi neste espaço algumas obviedades em relação a Palocci e seus asseclas. Talvez essa seja a razão de tão pouca discussão e produção teórica sobre as questões ambientais, no âmbito da esquerda: total e completo desconhecimento sobre a matéria. Combine-se a ela a secundarização e o preconceito em relação às questões que - aparentemente - não têm a ver diretamente com o mundo do trabalho. “Ecologia e meio ambiente são coisas para quem gosta de zebrinhas listradas e coelhinhos peludos”. Era o que diziam meus companheiros militantes de uma organização política, quando eu e mais alguns heróicos gatos pingados, conseguíamos fazer uma reunião para discutir as questões ambientais. Reunião dos “clorofilas que iam fazer uma fotossíntese”. É claro que o movimento ambientalista também tem contribuído em muito para que este preconceito continue. Aliás, falar em movimento ambientalista já é meio forçado, já que grande parte dos ecologistas no Brasil se organiza em ONGs, algumas com orçamentos bastante importantes, que pelas suas próprias características, são incapazes de organizar movimentos de resistência e combate à depredação neoliberal do meio ambiente, limitando-se a ações de denúncia performáticas, com raras exceções. Outras, nem isso fazem, dedicando-se exclusivamente a intermediação de Rimas [Relatórios de Impacto no Meio Ambiente] e TACs [Termos de Ajuste de Conduta]. Melhor explicando: Os Rimas são necessários para a aprovação de projetos, construção de fábricas, ou qualquer outra coisa que cause impacto ambiental no seu entorno. Os TACs são “contrapartidas” ambientais que alguém que foi pego agredindo o meio ambiente deve “pagar”. A negociação e a intermediação destes dois instrumentos por vezes envolvem quantias e interesses muito grandes, e existe um todo um “mercado” que funciona, vive e mama nestas tetas. A sobrevivência do nosso planeta – e é disso que falamos – é muito importante para ficar na mão de parlamentares e organizações performáticas, ou de despachantes ecológicos. A esquerda socialista tem que tomar para si esta tarefa, sob pena de não haver planeta onde implantar o socialismo. Quem tiver ainda alguma dúvida sobre o perigo que corremos, que leia o excelente artigo “Comentários sobre a questão ambiental”, escrito por Alexandre Costa, e que está disponível nesta edição do PALAVRA CRUZADA. E olhem que Alexandre só fala na influência do aquecimento global sobre o clima da Terra. Cabe à esquerda este papel porque, ao contrário da maioria dos ambientalistas que acha possível “mudar o mundo, sem tomar o poder”, a esquerda quer mudar o mundo, mudando os donos do poder. Só quem luta contra o neoliberalismo predatório, obcecado pelo lucro incessante à qualquer custo humano ou ambiental, tem condições de ir além da denúncia, organizando a sociedade na luta pela construção de um socialismo, que também coloque a preservação do planeta como uma de suas prioridades; um ecossocialismo. O Protocolo de Kioto pela diminuição da emissão de gases que causam o aquecimento global é um belo exemplo de como as questões sociais e ambientais estão intimamente ligadas, para desespero dos “eco-chatos” de plantão. Os Estados Unidos, maiores produtores destes gases, se recusaram a assinar este protocolo que agora entra em vigor, mesmo que as metas estabelecidas sejam demasiadamente tímidas e insuficientes para resolver o problema. A sociedade americana, maior consumidora de recursos naturais não renováveis do planeta, por intermédio de seu presidente Bush, resolveu dar uma banana para o resto do planeta, como se vivesse num mundo à parte. É enfadonho ficar repetindo certos números, mas não se pode esquecer que, se todos os países do mundo seguissem a mesmo receita de consumo dos recursos planetários que o Império, em 5 anos eles estariam esgotados. Ao invés de qualquer mudança nas atuais formas de acumulação e consumo, ao invés disso, o neoliberalismo conseguiu inventar mais um jogo especulativo, que envolve o lançamento nas bolsas de valores dos certificados de carbono. Lucro com o caos e a destruição do planeta. Um outro mundo só será possível se esta corrida de insanos for detida. Não se pode pensar na construção de uma sociedade socialista, se as preocupações ambientais não forem incorporadas. Não queremos herdar um planeta devastado. A vida, os alimentos, os recursos naturais e as espécies não podem ser transformados em objetos de comércio. Se no mundo bipolar criado em meados do século passado, a bomba era o nosso maior pesadelo, hoje, ao invés dos alertas amarelo, laranja e vermelho, o alerta verde foi disparado. |