Um deles define apoio ao projeto, embora com ressalvas:
foi apresentado pela tendência majoritária, a Articulação
Sindical (Artsind). O outro, proposto pela Corrente Sindical Classista
(CSC), considera a proposta elaborado pelo Ministério do Trabalho
(em parte com base no debate do Fórum Nacional do Trabalho) um
retrocesso que deve ser repudiado e combatido.
Venceu a proposta de resolução da Artsind
(com 13 membros entre os 25 que compõem a Executiva), mas a divisão
ficou patente. Por razões diversas, os 12 outros componentes da
Executiva que não pertencem à corrente majoritária
têm posição contrária à proposta e sobressai
uma certeza: a Central não marchará unida nas mobilizações
contra e a favor do projeto que deverão ser deflagradas ao longo
deste ano.
Dirigentes classistas de entidades ligadas à CUT
divulgaram na reunião da Executiva um manifesto em que explicam
as razões de sua rejeição e conclamam à luta
contra o projeto de reforma sindical. Veja a íntegra do texto:
Projeto de reforma é um retrocesso para o sindicalismo
brasileiro
Na condição de dirigentes da Central
Única dos Trabalhadores (CUT) vimos a público manifestar
nossa oposição ao projeto de reforma sindical que o governo
pretende encaminhar ao Congresso Nacional, consistente de uma PEC (Proposta
de Emenda Constitucional) e um PL (Projeto de Lei ordinária).
Expressamos a firme convicção de que, por mais de uma
razão, as propostas em questão constituem uma séria
ameaça de retrocesso em matéria de organização,
democracia, conquistas e direitos dos trabalhadores brasileiros.
A ameaça começa pela revogação
pura e simples do inciso II do Artigo 8º da Constituição,
que preconiza a unicidade sindical. Deixa de existir limite geográfico
para a definição da base dos sindicatos, que também
não se constituirão pelo critério de ramo, categoria
ou setor de atividade. Cai por terra todo esforço para impedir
a pulverização das organizações sindicais.
O propósito, evidente na PEC e no PL, é
instituir um pluralismo sindical limitado, sob o estrito controle das
cúpulas, baseado na proliferação dos chamados sindicatos
derivados, sem o requisito de representatividade nas bases e concebidos
como uma estrutura orgânica das centrais. Trata-se de um tipo
de organização essencialmente antidemocrática e
cupulista, que vem sendo classificado com ironia – e não
sem razão – de sindicato biônico.
Defendemos o aprimoramento da unicidade, vinculando-a
a critérios de democracia, representatividade e aprovação
das bases, em assembléia geral. Não é este o espírito
da reforma. A exclusividade de representação é
concedida de forma restrita, e como exceção, somente para
sindicatos já existentes, sendo vedada aos que serão constituídos
futuramente. Mesmo para as entidades atuais dificilmente será
viabilizada, uma vez que variados obstáculos são impostos
neste sentido. Os critérios de democracia não possuem
caráter universal, são exigidos apenas para quem optar
pela exclusividade de representação. Aos sindicatos que
não fizerem tal opção tudo será permitido.
O projeto também abre caminho à flexibilização
dos direitos trabalhistas, instituindo a prevalência do negociado
sobre o legislado, revivendo a odiosa iniciativa do governo FHC, que
à época foi repudiado com firmeza pela CUT. O princípio
segundo o qual, em caso de conflito entre a legislação,
convenções ou acordo coletivo vale a norma mais benéfica
ao trabalhador e não necessariamente o negociado – uma
exigência da bancada sindical no Fórum Nacional do Trabalho
e compromisso do governo –, desaparece. Prevê-se que o contrato
coletivo de nível superior (firmado pelas centrais, confederações
ou federações) terá cláusulas que não
poderão ser alteradas pelos sindicatos.
O dissídio coletivo fica inviabilizado na medida
em que só poderá ser instalado se for ajuizado em comum
acordo por patrões e empregados e não mais por uma das
partes envolvidas no conflito, insinuando-se a privatização
da mediação e solução dos conflitos e o
fim do poder normativo da Justiça do Trabalho quando se trata
de proteger o empregado. Por outro lado, o caráter repressivo
do Poder Judiciário é reforçado e o já limitado
direito de greve sofre novas restrições. Ao mesmo tempo,
o direito à negociação e greve no setor público
permanece em suspenso, o que consideramos inaceitável. Já
o Conselho Nacional de Relações do Trabalho fica atrelado
ao Ministério do Trabalho, cujos poderes também resultam
ampliados.
A organização por local de trabalho (OLT)
é um avanço e corresponde a um antigo anseio dos sindicalistas
mais combativos. Todavia, também neste aspecto o projeto deixa
a desejar, Serão conferidas atribuições de Comissão
de Conciliação Prévia à representação
de base, o que enseja justificados temores.
Por outro lado, a PEC não garante a criação
da OLT, limita-se a prevê-la, remetendo a concretização
de tal objetivo à legislação ordinária,
num quadro de correlação de forças adverso aos
trabalhadores.
Não somos contra a reforma em princípio.
Consideramos que a organização sindical brasileira precisa
ser modificada, mas num sentido progressista, voltado para o fortalecimento,
a unidade e a democratização das organizações
de massas da classe trabalhadora e subordinado aos interesses refletidos
na luta por um novo projeto de desenvolvimento nacional, fundado na
soberania e na valorização do trabalho. Infelizmente,
o projeto em tela se orienta noutra direção e traduz interesses
hostis à classe trabalhadora, induzindo à divisão,
ao cupulismo e ao enfraquecimento do movimento sindical.
Por tudo isto, conclamamos à unidade e luta
contra este projeto e por uma reforma que efetivamente corresponda aos
interesses imediatos e futuros da classe trabalhadora.
Assinam o texto membros da CSC que atuam na direção
de entidades e instâncias cutistas de abrangência nacional:
Wagner Gomes, vice-presidente da CUT; Paschoal Carneiro, da executiva
nacional da CUT; Gilda Almeida, secretária de políticas
sociais da executiva nacional da CUT; Carlos Rogério de Carvalho
Nunes, da executiva nacional da CUT; Gilson Reis, suplente da executiva
nacional; Everaldo Augusto, presidente da CUT/Bahia; Jaime Ramos, presidente
da CUT/Rio de Janeiro; José Antonio de Lacerda (Jota), presidente
da CUT/MG; Madalena Guasco, presidente da Contee-CUT; Maria Eugênia,
presidente da Fenafar-CUT; Wagner Fajardo, presidente da Fenametro;
Edson Pimenta, presidente da Fetag/Bahia. Segundo Batista Lemos, coordenador
da CSC, nos próximos dias o manifesto buscará a adesão
de mais sindicalistas.