| A campanha eleitoral em Portugal será
marcada pela especulação sobre a futura “geo-estratégia”
parlamentar, antecipando o cenário de uma maioria relativa do Partido
Socialista. Francisco Louçã, primeiro candidato do Bloco
em Lisboa, responde ao “Esquerda”, o novo jornal do partido.
O Bloco de Esquerda está
disponível para entrar num governo do Partido Socialista?
O Bloco não é candidato ao governo. O Bloco apresenta uma
alternativa política e é a ela que deve ser fiel. Não
se apresenta para qualquer jogo de cadeiras. E assume as responsabilidades
que lhe são dadas pela força do voto que recebe. Seria completamente
irresponsável que, não tendo recebido votos para governar,
entrasse num governo à boleia. De resto, não sabemos exactamente
qual é o programa de governo do Partido Socialista e, pelo pouco
que sabemos, é contraditório com o nosso. Por isso, cumpriremos
o nosso compromisso com o eleitorado e bater-nos-emos para a criação
de maiorias sociais e políticas na defesa do nosso programa.
E isso inviabiliza um acordo
parlamentar?
Um acordo permanente, sim, claro. Procuraremos acordos pontuais para encontrar
as maiorias necessárias na defesa das nossas causas. E se essas
maiorias permitirem que nos aproximemos do que defendemos, se isso significar
a melhoria da situação política, social e civilizacional
do País, estaremos sempre disponíveis. Nas causas que para
nós são importantes não ficaremos pelo zero se for
impossível o cem. E isto nada tem de novo. Foi o que fizemos no
anterior governo socialista. Veja-se o caso das medidas para mudar a política
em relação à toxicodependência. Veja-se a reforma
fiscal que Guterres acabou por meter na gaveta.
O Bloco propõe dez
medidas para cem dias (ver abaixo). É uma plataforma de exigências
para poder apoiar um governo PS?
Não. É aquilo que achamos ser um programa mínimo,
de urgência, realizável por qualquer governo decente. E é
a demonstração de que o Bloco quer intervir nas questões
concretas, independentemente da mudança de correlação
de forças à esquerda. Dizemos isto: é possível
mudar a lei do aborto já. É possível avançar
com um programa de combate ao desemprego de curto prazo. É indispensável
mudar as regras na colocação de professores. Para isto não
é sequer preciso mudar o cenário político português
nem avançar com grandes reformas. Basta coragem política.
Mas não é
já uma cedência, deixando de fora medidas programáticas
de fundo, como as 35 horas semanais?
Os eixos fundamentais das propostas do Bloco estão explicitados
no seu programa eleitoral, incluindo as 35 horas semanais. Grande parte
dessas medidas exige uma legislatura inteira, uma mudança profunda
no cenário político e social português ou um forte
investimento em fundos, em vontades e em mobilização social.
O que propomos nas medidas para os cem dias é uma outra coisa:
é um compromisso de partida, que clarifique para que lado se quer
ir.
Dez prioridades para
os primeiros 100 dias
Do programa eleitoral do Bloco de Esquerda, são
destacadas dez medidas que podem ser aplicadas de forma imediata e que
abrem o caminho para uma profunda mudança. São prioridades
claras, concretas e mobilizadoras, que dependem da força social
para impor um novo ciclo de políticas.
1. Criar
emprego e reduzir a precariedade
Revogação do Pacote Laboral, restabelecendo os direitos
de contratação colectiva e reduzindo de 6 para 1 ano o
período de contratação temporária. Um plano
de emergência para o emprego, que invista na criação
de postos de trabalho para desempregados de longa duração
e jovens.
2. Acabar
com a perseguição às mulheres que abortaram
Alteração imediata da lei, para acabar com a criminalização
das mulheres e permitir o aborto no Serviço Nacional de Saúde
nas primeiras 12 semanas de gravidez, a pedido da mulher.
3. Recuperar
o Serviço Nacional de Saúde
Integração dos Hospitais SA no sector público administrativo,
criando-se uma Administração Central de Saúde com
poderes de coordenação e planeamento de todo o sector
público.
4. Combate
à corrupção e fraude fiscal
Levantamento do segredo bancário para confirmação
das declarações de IRS e sob o controlo de uma unidade
especializada, garantindo rigorosamente o sigilo profissional.
5. Legalização
dos imigrantes inscritos
Legalização no imediato dos cerca de 70 mil imigrantes
já inscritos para atribuição de autorizações
de residência e de permanência.
6. Retirada
da GNR do Iraque
Retirada de todas as forças militarizadas portuguesas e fim de
qualquer colaboração política ou militar com a
ocupação do Iraque.
7. Mudar
a educação
Suspender os exames de 9º ano, que não têm condições
para se realizar, rever o modelo de concurso para colocação
de professores com o aumento dos quadros permanentes nas escolas.
8. Melhorar
a segurança alimentar
Imposição de uma moratória nacional sobre o cultivo
de Organismos Geneticamente Modificados, impor a etiquetagem e a informação
devida aos consumidores.
9. Revisão
do Pacto de Estabilidade e Crescimento
Defesa na União Europeia da revisão das condições
restritivas do PEC, com o fim da contabilização do investimento
público no cálculo do défice.
10. Fim
do abuso da prisão preventiva e facilitar o acesso à Justiça
Alteração do Código do Processo Penal para reduzir
a aplicação da prisão preventiva a crimes de especial
gravidade e perigosidade, punidos acima de cinco anos, promovendo medidas
alternativas. Redução das custas judiciais para facilitar
o acesso à justiça.
* Entrevista concedida antes das
eleições
[Editor PALAVRA CRUZADA] |