Ação da polícia em Goiânia pode ter feito 10 mortos
Agência Carta Maior - 17/2

A Operação Triunfo, que retirou nesta quarta-feira (16) cerca de 3 mil famílias que ocupavam uma área do Parque Oeste Industrial, em Goiânia (GO), foi considerada um sucesso pela Polícia Militar. Seus 2.500 homens – da tropa de choque e da cavalaria – prenderam 800 sem-teto, feriram 11 com armas de fogo e mataram outros dois, segundo dados oficiais. A ordem de reintegração de posse havia sido determinada pela Justiça estadual em setembro do ano passado. Mesmo assim, o Ministério Público afirma que deveria ter havido mais negociação antes da ação da polícia, e agora investiga se houve abuso por parte dos policiais.

A cena de guerra, que durou das 8h00 às 11h30, levou o secretário Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, à cidade já no início da tarde. Uma reunião convocada com urgência por movimentos sociais, organizações não governamentais e entidades religiosas e da sociedade civil tentou apurar os fatos ocorridos naquela manhã. Um dos pontos abordados é a suspeita de que existem mais de 10 mortos escondidos em valas no local da ocupação. Para averiguar esta denúncia, também foi formada uma comissão de Direitos Humanos na Assembléia Legislativa de Goiânia, em frente da qual um protesto pedindo justiça reuniu mais de 700 pessoas.

Leia a seguir a íntegra do manifesto divulgado após a reunião da sociedade civil de Goiânia.

"Manifesto em apoio famílias acampadas no Parque Oeste Industrial

Vários movimentos sociais, entidades de classe, ongs, entidades religiosas, dentre outras, realizaram, no dia 16 de fevereiro, às 17h, no salão do Secretariado da Pastoral Arquidiocesana, uma reunião em caráter de urgência para apurar os fatos ocorridos na retirada das famílias acampadas no Parque Oeste Industrial.

É revoltante a ação ocorrida na retirada das famílias, já que, diante do cumprimento da liminar emitida pela juíza da 10ª Vara Cível, Graice Côrrea, e confirmada pelo desembargador Ney Telles, a ação policial foi autoritária, colocando a lei acima da vida.

Durante a reunião, foi levantada a suspeita de que existam mais de 10 mortos escondidos em valas no local da invasão, contrariando a nota oficial da Polícia Militar, que confirma apenas duas mortes.

Representantes de movimentos sociais e igrejas, que tiveram acesso ao Presidente do Tribunal de Justiça, se indignaram com a forma que ele se manifestou sobre o caso, de maneira fria e hipócrita.

Outro dado que indignou os presentes da reunião foi que, durante a seção na Assembléia Legislativa, hoje, alguns deputados se posicionaram favoráveis à ação policial na retirada das famílias, fato que interrompeu a seção, levando a discussão para a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia.

A população também está revoltada com a violência ocorrida durante a retirada das famílias. Mais de 700 pessoas fizeram uma manifestação, hoje à tarde, em frente à Assembléia Legislativa, o que levou os seguranças da casa a impedir a entrada e saída de pessoas.

Diante das suspeitas e fatos levantados durante a reunião, as organizações presentes estabeleceram diversas comissões para apurar a veracidade das informações divulgadas até o momento.

Uma comissão, composta por dois vereadores e duas entidades religiosas, foi delegada para visitar a região do Parque Oeste Industrial para verificar a suspeita de outras mortes.

Outra comissão, composta por quatro pessoas, irá visitar o Hospital de Urgência de Goiânia, para averiguar o número de feridos e mortos, já que o HUGO está omitindo as informações para a população.

O Ministro Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, juntamente com Ella Castilho, Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão e um Delegado da Polícia Federal, se deslocaram para Goiânia para acompanhar o caso, considerado grave.

Também foi comunicada a formação de uma comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Goiânia para averiguar a suspeita outras mortes.

São revoltantes os fatos ocorridos neste último dia 16 com as famílias acampadas no Parque Oeste Industrial.

Por isso, as entidades e movimentos sociais de Goiânia presentes na reunião realizada no salão do Secretariado da Pastoral Arquidiocesana, no último dia 16, querem, através deste manifesto, deixar seu depoimento de indignação e pedir para que mais e mais pessoas divulguem estas informações.

Não podemos mais aceitar um mundo de passividade e violência impune."

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