PT: esquerda ou nada
Emir Sader
Agência Carta Maior - 17/2

O PT só tem sentido se for de esquerda. Assim como um governo do PT só tem sentido se for um governo de esquerda. Para manter a política econômica neoliberal, para definir os parâmetros do governo por metas financeiras e não sociais, para não realizar definitivamente a reforma agrária que o Brasil precisa, para manter políticas sociais focalizadas e fragmentadas, para fortalecer um modelo primário exportador e não transferir o dinamismo da economia para o mercado interno de consumo de massas – em suma, para manter o Brasil tal qual ele é – não é preciso o PT. Quaisquer das outras siglas existentes podem fazer. Fizeram antes do governo do PT e voltarão a fazê-lo depois.

O PT nasceu como um partido dos trabalhadores, da resistência à ditadura e aos patrões. Desenvolveu-se como partido ligado aos movimentos sociais, de resistência contra o neoliberalismo, lutando para que a democracia se estendesse do plano político ao social, denunciando as elites tradicionais pelas suas responsabilidades pelo país mais injusto do mundo, combatendo o programa de (contra) reformas de FHC, lutando pela reforma agrária, pela não dependência do país ao pagamento da dívida externa, por juros baixos para um modelo de crescimento voltado para a distribuição de renda.

Ser de esquerda hoje é ser antineoliberal, e isso o PT foi ao longo da sua história. Ser de esquerda hoje é sair do modelo atual e implementar um outro, centrado em metas sociais e não em metas econômico-financeiras, é fortalecer vigorosamente o setor público em detrimento do setor mercantil, é desenvolver políticas universalizadas em detrimento das focalizadas, é golpear duramente a hegemonia do capital financeiro.

Ou o governo do PT faz isso a partir de agora, ou será um governo como um outro qualquer. Não terá sido um governo de esquerda, não terá privilegiado as políticas sociais, não terá governado a favor das grandes maiorias, não terá favorecido a mobilização e a consciência do povo, não terá afirmado a soberania popular e nacional, não terá afirmado e estendido os direitos da massa da população - isto é, não terá sido um governo de esquerda.

Terá desperdiçado uma oportunidade histórica única, sairá do governo desgastado, como um partido qualquer, sem identidade ideológica, sem legitimidade popular, sem capacidade de mobilização, sem perspectiva futura. Será uma sigla mais. Se não for para ocupar o espaço da esquerda, se não for para levantar uma perspectiva de superação do neoliberalismo, de construção de uma democracia com alma social – não terá valido ser governo, não terá valido a pena a longa acumulação de forças mediante lutas e mobilizações históricas.

Para que tudo isso tenha valido a pena, é preciso a grandeza de assumir as responsabilidades históricas, os desafios do momento, com a audácia e o espírito de luta dos que decidiram fundar um novo partido, não para ser a nova forma do velho, mas para romper com as políticas das elites tradicionais e não ser mais um ramo delas. O PT só tem sentido se for de esquerda. Assim como o governo do PT só tem sentido se for um governo de esquerda. As elites tradicionais sabem disso, a direita é de direita. Resta à esquerda ser de esquerda.

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