Derrota na Câmara estraga o jubileu
Luís Brasilino
Brasil de Fato - 18/2

Menos de uma semana depois de fazer 25 anos, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o governo Luiz Inácio Lula da Silva sofreram sua mais estrondosa derrota no Congresso Nacional. No dia 15, o candidato independente à presidência da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PPPE), venceu a disputa contra dois petistas, o oficial, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), e o rebelde, Virgílio Guimarães (PT-MG). Esse resultado instaurou um processo de discussão sobre a administração federal do partido.

Se, por um lado, a ala majoritária do PT justifica a derrota em função dos erros da bancada na Câmara, outros apontam mudanças estruturais da organização partidária para explicar o vexame. Segundo Francisco Vicente, secretário geral do PT do Rio Grande do Sul, os erros que levaram à derrota foram fruto de uma disputa interna motivada por interesses menores (particulares).

"Não vejo isso como uma fissura na unidade, mas como uma incapacidade de liderar os liderados", diz para depois completar que a derrota - "muito grande" - é agravada pelo fato de demonstrar também uma perda de controle pela direção do partido. Para o dirigente gaúcho, o PT não foi derrotado por uma oposição organizada, mas por um movimento que nem sabe muito bem o que fazer.

No entanto, para o advogado Plínio Arruda Sampaio, diretor do jornal Correio da Cidadania e exdeputado federal constituinte pelo PT, o problema é bem outro. "O partido se desviou do seu caminho no momento em que resolveu ser governo, mesmo sem chegar ao poder", analisa.

Sampaio explica que isto deixou o PT sujeito aos ataques das elites, o que aparece em momentos como o da eleição na Câmara. O partido tomou uma sova da direita, a despeito de toda uma tradição republicana (é a primeira vez que um partido com o maior número de parlamentares, condição na qual o PT se encontra atualmente, perde uma eleição para a presidência de uma casa legislativa federal, desde a redemocratrização).

Mudanças

O gaúcho Vicente conta que um dos caminhos seguidos pelo PT a partir da sua fundação, em 10 de fevereiro de 1980, levou a um desequilíbrio da balança do seu relacionamento com a via institucional e os movimentos sociais, em benefício do primeiro.

"Isso acabou atraindo setores que não faziam parte das bases originais, afastando, em parte, estas últimas", descreve. Para o deputado federal Ivan Valente (PT-SP), a eleição de Cavalcanti enfraquece o governo federal por concentrar a sua base numa direita incontrolável e insaciável.

"A direção do partido quer ganhar pelo fisiologismo e pelo clientelismo, desprezando a bancada petista que passou a ser um peso morto. A direita, percebendo essa fragilidade, sentiu o sangue na boca e aplicou tal derrota ao governo na eleição da mesa diretora da Câmara", observa Valente. O PT não elegeu sequer um parlamentar para a mesa diretora da Câmara.

E 2006?

Para Valente, o fato pode chamar a atenção do comando petista para as posições da bancada de esquerda. "Se isso não acontecer, a eleição (para a Presidência da República) de 2006 vai ficar ameaçada. Abrir o leque de alianças para a direita levará o PT à derrota. O partido deve se concentrar na base social", opina.

Essa dicotomia entre direita e esquerda no governo Lula, dividido entre os ministros da área econômica e os da área social, é também o retrato do PT. Segundo o senador Cristovam Buarque (PT-DF), o partido mudou para melhor em algumas coisas. "Amadureceu, percebendo que a economia não é um instrumento ideológico, que ela tem certas limitações e é muito dependente da iniciativa privada", diz.

Buarque enaltece também a responsabilidade fiscal e a estabilidade econômica. No entanto, ele indica como negativo o fato de ter deixado de lado algumas de suas bandeiras ao chegar ao poder. Assim, ao invés da implementação de programas sociais para acabar com a pobreza, o governo partiu para projetos mais assistencialistas do que transformadores.

Futuro incerto

Só que, para militantes como Jorge Martins, o Jorginho da Executiva Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), tais mudanças são inadmissíveis, e ele saiu do PT durante o 5º Fórum Social Mundial, realizado entre 26 e 31 de janeiro em Porto Alegre. A seu ver, Lula não só dá continuidade à política neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, como a aprofunda. "Não cumpriu as promessas de geração de 10 milhões de empregos, de dobrar o salário mínimo, de realizar uma reforma agrária massiva e de fazer uma auditoria da dívida externa", argumenta Jorginho.

Segundo Francisco Vicente, os que estão saindo do PT avaliam que o partido abandonou suas raízes e deixou de ser uma organização revolucionária, capaz de fazer mudanças estratégicas. Para Sampaio, as transformações ocorridas no PT são resultado de uma usurpação oligárquica de um grupo que tomou controle do partido. "O aprofundamento da perda de identidade é a principal ameaça para o futuro", completa Vicente.

A importância do partido, contudo, é incontestável. "O PT representa uma revolução maior do que o próprio Brasil: foi formado por trabalhadores, liderado por um trabalhador (Lula), se estendeu por todo o país e, hoje, é um fenômeno mundial e histórico", reconhece, orgulhoso, Cristovam Buarque.

(Colaborou Bel Mercês e Marcelo Netto Rodrigues, da Redação)

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