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| O papa Severino, o baixo clero e os aprendizes de feiticeiro |
| Paulo Piramba |
| PALAVRA CRUZADA - 23/2 |
| A fumaça que saiu das chaminés do Congresso, anunciando a escolha do novo presidente da Câmara, não foi branca – como a do Vaticano, anunciando o novo Papa –, pelo menos do ponto de vista do Palácio do Planalto. Lá ela foi vista em tons avermelhados, mais condizentes com o grau de alerta desencadeado pela mais recente trapalhada do governo do PT. Não resta mais nenhuma dúvida que este jeitinho autoritário, “rolo-compressivo” e arrogante de ser do Campo Majoritário do PT, só tem sucesso com o setor mais governista da esquerda petista. Para o consumo externo – e para seus integrantes, como Virgílio Guimarães – a maioria petista parece um leão de circo do interior: desdentado, sem garras, meio careca e que ruge de vez em quando, só para não perder o emprego. Nesta que é, até agora, a maior derrota política do governo Lula, os aprendizes de feiticeiro do PT e do Planalto se superaram. Os do PT, ao tentarem passar o rodo na bancada mais “baixo clero” que o PT já teve, desrespeitando sua preferência por Virgílio e impondo Greenhalg goela abaixo. E os do Planalto, que deixaram a nu o que todos já sabiam: a fragilidade da base de apoio do governo, também uma base ”baixo clero”. Após mais esta “ventania tsunami”, o presidente Lula, ainda atarantado com o revés, reagiu colocando a culpa no partido e dizendo que ele não tinha nada a ver com a derrota. Afirmou ainda que a vitória de Severino não criaria nenhum problema para o governo. Realmente, o presidente Lula já fez bravatas com mais conteúdo e qualidade. Mesmo que o novo presidente da Câmara, por índole e esperteza, tenha pouca vontade em fazer oposição sistemática ao governo, está na cara que muita coisa mudou, a começar pelo preço da fatura a pagar. A relação fisiológica que o governo Lula estabeleceu com o Legislativo deve continuar e, fatalmente, ser ampliada. Lula vai ter que convencer Palocci e Meirelles a digerir as emendas “baixo clero” ao Orçamento. O tamanho do PP, sucessor do PDS, na reforma ministerial deve crescer ainda mais, com o provável sacrifício dos, cada vez mais raros, ministros mais à esquerda. Por pura crueldade, até o nome de Delfim Neto começa a ser ventilado para Ministro do Planejamento. Por outro lado, para um governo voltado exclusivamente para agradar os “mercados”, a sinalização de que não tem o controle sobre sua base de apoio, deveria aumentar o tal risco Brasil, se essa invenção não fosse um mecanismo meramente especulativo. Logo após ter tomado posse, o presidente Severino convocou uma coletiva de imprensa onde, ao contrário do presidente da República, fez questão de reafirmar todos os seus compromissos de campanha. 21 mil por mes. Além disso, fez questão de fazer propaganda do ideário “severinista”, homofóbico, sexista e profundamente reacionário. Se a imprensa prefere destacar o aspecto folclórico da eleição do novo presidente da Câmara, o ocorrido deve ser motivo de reflexão para a esquerda socialista. A vitória do baixo clero é emblemática de um Congresso cada vez mais sem função no mundo neoliberal. O próprio governo Lula, com sua enxurrada de MPs, já havia colocado o Legislativo na 2ª divisão. Severino Cavalcanti é o representante-mor dos “vereadores federais”, que são a ampla maioria da Câmara. Parlamentares preocupados em aparecer na TV Câmara, em aprovar suas emendas ao Orçamento e em obter o maior número de vantagens possível, a começar pelos seus vencimentos. Qualquer governo conservador, com um mínimo de competência em agradar e bajular um Legislativo dessa qualidade, tem campo aberto para implementar todo tipo de medida que prejudique os trabalhadores. Talvez Lula não tenha cometido uma bravata, ao afirmar que seu governo não seria prejudicado pela eleição de Severino Cavalcanti. Talvez ele tenha se cansado definitivamente dos intermediários, aprendizes de feiticeiro trapalhões do PT, e passe agora a negociar diretamente com quem têm voto. Se isto acontecer, afinal teremos a comprovação definitiva de que temos não somente um Congresso baixo clero, mas um presidente e um governo baixo clero também. |