Aos 25, PT foge de Waldomiro e pergunta por sua base social
Folha de São Paulo - 10/2

O PT completa 25 anos amanhã, mas empurrou para março as principais comemorações em torno da data. Isso para que o aniversário não seja contaminado ou ofuscado por um outro, incômodo para o partido: no próximo domingo, dia 13, o caso Waldomiro Diniz completa um ano.

O episódio em que o então assessor do ministro José Dirceu (Casa Civil) aparecia, numa gravação de 2002, negociando propina não foi o primeiro envolvendo membros do partido em suspeitas de corrupção, mas retirou de vez das mãos do PT a chamada "bandeira ética", vendida até então como um dos seus traços distintivos no quadro político brasileiro.

O caso Waldomiro é parte do mal-estar do PT nos seus 25 anos, mas não basta para explicá-lo. Mais do que um malestar, talvez se deva falar em crise de identidade ou de esquizofrenia para definir o atual momento do PT.

Por um lado, não há como negá-lo, o partido chega ao seu jubileu de prata seguindo uma trajetória vitoriosa. Cresceu em termos institucionais, espalhou-se pelo território nacional, se estruturou, se modernizou e hoje está no comando do país.

Ao mesmo tempo, foi também por esse percurso que o PT se burocratizou e se descaracterizou, distanciando-se de suas origens, até se tornar um partido entre outros: perdeu ou manteve apenas laços residuais com os movimentos sociais e de massa; viu a sua velha militância ceder espaço a um exército de mercenários nas campanhas (o caso dos"visitadores" de Marta Suplicy no ano passado serve de exemplo); incorporou para si as estratégias de marketing que antes criticava na direita; tornou-se uma máquina eleitoral e passou a acumular escândalos à medida que foi conquistando governos; por fim, abandonou progressivamente suas bandeiras históricas para aderir à ortodoxia econômica liberal e a um discurso reformista de contorno suave e conciliador, o qual, na substância, pouco ou nada difere daquele pregado pelo seu grande rival hoje, o PSDB.

Contradições

O fato de que o PT, hoje no poder, seja adulado por banqueiros e cumpra o programa do FMI não impede com que ainda ocupe, paradoxalmente, o espaço da esquerda no espectro político. Trata-se de uma contradição, ou de uma ambivalência, estimulada pela conduta e pelos discursos do presidente, em torno de quem ainda giram em grande medida as expectativas de mudança social -as quais ele trata de renovar com novas promessas.

O poder de atração de Lula, porém, já deixou de seduzir uma parcela sensível da esquerda petista ou ex-petista - intelectuais e profissionais liberais, dentro dos setores médios, e movimentos sociais menos dependentes de verbas e/ou favores do Estado, no campo propriamente popular-, o que vem provocando descontentamentos e dissidências que, mesmo pouco numerosas, passaram a preocupar a cúpula do PT. Para os que desembarcaram, o governo Lula representa uma espécie de tsunami que varreu 20 anos de energia social acumulada na e pela esquerda.

No nível do discurso, pelo menos, o próprio presidente do partido, José Genoino, vocaliza essa preocupação quando confirma que o PT precisa voltar a atrair as classes médias e se reaproximar dos movimentos sociais.

Um dos desafios da cúpula do PT é, portanto, conciliar a defesa da política econômica com um dos objetivos das comemorações pelos 25 anos: "A revitalização dos laços partidários com a intelectualidade e os movimentos sociais, fortalecendo o bloco histórico que permitiu a eleição do presidente Lula", como diz a resolução do partido sobre o jubileu.

O paloccismo - chancelado sem ressalvas pelo Planalto - foi responsável principal pelo acúmulo de dissidências entre a intelligentsia petista da USP e a carioca. Provocou a saída dos parlamentares radicais e, agora, de um grupo de filiados no 5º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.

A política econômica é a parte mais flagrante do vazio programático do partido que chegou ao poder após apagar de suas palavras de ordem, gradativamente, o socialismo, os bravejos contra o FMI e contra os juros altos.

Um das bandeiras que restaram - a da prioridade à área social formatada em torno do Fome Zero - foi desmoralizada pelo próprio governo durante seu primeiro ano. Reformulada, passou a funcionar numa espécie de extensão do molde de rede social criado durante o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, mas ainda hoje é alvo de inúmeras denúncias de desvios, mau gerenciamento e corrupção.

Até em áreas de forte base do PT, como as que envolvem as questões indigenista e ambiental, existe a percepção crescente de que o PT não avança em relação ao governo de FHC - razão também de algumas dissidências.

"Continuo sonhando. Não sonhei o sonho errado", disse à Folha a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy sobre o jubileu.

A frase é uma resposta, com quase dois anos de distância, ao deputado Fernando Gabeira, que deixou o partido em 2003. Decepcionado com a liberação de sementes transgênicas, afirmou ter "sonhado o sonho errado" no PT.

Apocalíptico e contraditório, o deputado da ala esquerda do partido Ivan Valente (PT-SP) diz que "a onda maior [de dissidência] ainda está por vir". Depois, completa: ainda há espaço para a luta interna no PT.

O partido se prepara para a primeira eleição direta para dirigentes após a chegada de Lula ao poder - e também o primeiro encontro nacional. No último, em 2001, o mote ainda era a "ruptura" com o FMI. A eleição será em setembro. É quando a ala moderada, que se acomoda melhoràs contradições, deve ganhar ainda mais espaço.

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1