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| Dissidências agitam o PT |
| Hamilton Octavio de Souza |
| Brasil de Fato - 10/2 |
| O 5º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre (RS), expôs publicamente as fissuras internas do Partido dos Trabalhadores (PT), os principais pontos das divergências e a extensão do descontentamento nas bases do partido. Não se trata mais da rebeldia de um ou outro parlamentar contra determinadas imposições para votação no Congresso Nacional, mas manifestações coletivas de centenas de militantes com forte inserção e representação na base do PT. Os manifestos desses grupos circularam pela capital gaúcha e foram minimizados pelo presidente nacional do PT, José Genoíno. Da mesma forma, o presidente Lula tentou desqualificar os autores das vaias dentro do Gigantinho, atribuindo a eles a imaturidade da juventude. Lula também foi vaiado do lado de fora do ginásio do Inter, por um público - integrado por jovens e por maduros senhores e senhoras dos 40 aos 60 anos - que acompanhava o discurso por telão. O descontentamento com o governo e as divergências internas no PT também foram expostos e dominaram os cenários de inúmeros debates sobre políticas públicas, reformas universitária e sindical, tanto nos encontros acadêmicos quanto nos promovidos por correntes partidárias e por entidades de classe dos trabalhadores. A dimensão do racha recomendaria que a questão não seja tratada como mais um expurgo qualquer, mas que exige uma reflexão sobre caminhos e rumos com o conjunto da base partidária. Mais de 100 militantes do PT, liderados pelo economista e professor da Unicamp Plínio de Arruda Sampaio Jr. e o sindicalista Jorge Luís Martins, membro da executiva nacional da CUT, relacionaram no manifesto "Chegou a hora de dar um basta" os 13 pontos que justificam sua saída do partido. O grupo chegou à conclusão de que o PT não representa mais o ideal transformador de sua constituição e não tem mais retorno em sua trajetória de aliança e sustentação do neoliberalismo. A saída desse grupo é significativa e não pode ser tratada com menosprezo ou desdém, mesmo porque eles alertam que não estão abandonando a luta, mas retomando o caminho original do qual o PT se desviou. Da mesma forma, outro manifesto, assinado por mais de 300 filiados (dirigentes estaduais e municipais do partido, sindicalistas, professores, estudantes e militantes dos movimentos sociais) expressa a posição daqueles que não saíram do PT, mas se declaram publicamente como dissidência. Esse grupo conclama os militantes a expressarem suas divergências em relação ao governo Lula e ao rumo dado pela direção nacional do partido, e convoca um encontro nacional a ser realizado ainda no primeiro semestre deste ano. Embora essa dissidência reúna militantes identificados com as correntes Articulação de Esquerda, Movimento Unidade Socialista e Fórum Socialista Independente, a tendência é esse movimento ampliar-se com a adesão de filiados sem vinculação com as correntes internas. O espaço do Fórum Social Mundial não apenas possibilitou a publicidade das divergências internas do PT, como também o debate, o encontro e a articulação de milhares de petistas de todo o Brasil, os quais, no regresso para seus locais de moradia e militância, procuram informar o que está ocorrendo e reproduzir os questionamentos que preocupam todos aqueles que se dedicaram seriamente à construção do PT durante mais de vinte anos. Mesmo que a corrente majoritária e a direção nacional tentem passar o rolo compressor por cima dos protestos, dos manifestos e das dissidências, a movimentação atual indica que o partido vive um momento bastante delicado, provavelmente decisivo sobre o seu destino. Ignorar isso é dar as costas para a história. |