Ideologia e busca por cargos convivem no PT
Ciça Guedes e Ricardo Galhardo
O Globo - 13/2

Houve um tempo em que os militantes petistas eram reconhecidos por seus princípios ideológicos e até pelo visual — os barbudinhos do PT, na expressão criada por Leonel Brizola. Com o crescimento do partido desde que chegou ao poder — são agora 847 mil filiados — o diretório nacional do PT e a Fundação Perseu Abramo farão, ainda este ano, uma pesquisa para descobrir quem é o novo petista. No recadastramento de 2001, quando se estimava em um milhão o número de filiados, restaram 470 mil. De lá para cá, confundem-se nas estatísticas antigos filiados petistas que perderam os prazos para se recadastrar e tiveram que assinar novas fichas e os que procuraram o partido atraídos pelo poder. O secretário nacional de Organização do PT, Gleber Naime, acredita que o número de novos filiados, de fato, seja algo entre 200 e 250 mil. Mas é certo que o perfil político mudou.

— Até o início da década passada, 90% dos novos militantes sabiam o que foi a ditadura militar. Hoje isso é uma minoria. O novo filiado procura o PT porque quer ganhar a eleição e participar do governo — diz Eduardo Tadeu Pereira, que até maio do ano passado era responsável pela formação política dos novos militantes de São Paulo.

Silvia Pedreira: Amor chegou ao fim

A professora Silvia Pedreira filou-se ao PT quando o partido surgiu. Em novembro de 2003, sentiu o peso da chegada ao poder. Numa atividade de rua, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio, os militantes tiveram que fugir de velhos furiosos com o recadastramento do INSS determinado pelo então ministro da Previdência, Ricardo Berzoini. Descontente com a falta de participação nas decisões do partido e com os rumos do governo, diz que vai comemorar as bodas de prata com separação, assim que vencer a preguiça de ir ao cartório eleitoral para se desfiliar.

— O orgulho de ser PT ficou na memória. Hoje só apóio algumas idéias e alguns candidatos. O PT oportunista, que só pensa em ganhar eleição, não é o meu partido.

Sancler Mello: A cara nova

O empresário Sancler Mello, morador da Barra da Tijuca, diz que tirou de letra a estranheza com que os militantes do PT receberam sua filiação ao partido, em 2002.

— Eu sou a cara do PT novo e o PT novo é a minha cara — diz, sem receio de admitir que procurou o partido para disputar uma vaga na Câmara de Vereadores. Não conseguiu, mas vai tentar de novo.

— Vou discutir minhas idéias. Os militantes antigos dizem que sou assistencialista, mas essa esquerda quer gravata e ar-condicionado. O PT não tem trabalho em comunidades — dispara Sancler, que dirige uma ONG que oferece assistência médica e cursos profissionalizantes nas áreas pobres da Zona Oeste.

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