PT abandonou ideais, dizem movimentos sociais
Soraya Aggege
O Globo - 11/2

Das três pernas sobre as quais o PT se ergueu — o movimento sindical, o popular e o agrário — duas estão em linha de dissidência com o partido. Na histórica sustentação petista fica apenas o movimento sindical. Os últimos apelos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que quer voltar aos movimentos e mesmo reaproximá-los do governo, podem ser tardios, segundo vários líderes do PT.

O recado foi reafirmado no mês passado em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, onde o PT e a CUT organizaram claques, mas saíram vaiados.

— O PT se perdeu. Aceitou ser governo sem ter criado condições para isto. O que Lula tem hoje é um poder que o PT tomou emprestado da burguesia. Não poderá romper mais nada, mudar nada. O partido abriu mão de seu programa em troca de votos — afirma o petista Plínio de Arruda Sampaio, fundador da primeira Secretaria Agrária do PT, há 25 anos, e presidente da Associação Brasileira pela Reforma Agrária (Abra).

Plínio: “PT fez menos que FH por reforma agrária”

Tratado como um guru para a reforma agrária no Brasil, tanto pelo PT quanto pelo MST, Plínio foi convocado pelo governo para fazer o Plano Nacional para a Reforma Agrária.

— Fui chamado, juntei oito velhos bons técnicos e 50 funcionários do Incra. A meta, de 1 milhão de assentamentos, foi cortada pela metade e nem isto foi cumprido. O governo está acabando sem fazer nada. O PT fez menos que Fernando Henrique Cardoso pela reforma agrária— desabafa o petista.

Entre Comissões Eclesiais de Base e Pastorais da Igreja Católica que ajudaram a estruturar o chamado movimento popular, com os ativistas do meio urbano, muitos militantes perderam a afinidade com o PT, assim como boa parte dos intelectuais que desembarcaram da resistência ao regime militar.

— O PT já não representa mais as aspirações dos movimentos sociais que o criaram. “Nós vamos resgatar as centenárias dívidas deste país”, discursou Lula em sua posse. Agora, ele arranca direitos dos trabalhadores e sequer ouve o movimento social — critica Waldemar Rossi, coordenador da Pastoral Operária.

Segundo Rossi, as afirmações do presidente nas últimas semanas, de que depois do mandato voltará ao movimento social, são absurdas.

— Lula não voltará nunca mais. Isso não tem volta. Ele não participa mais do movimento social, só do movimento político. Ele já realizou seus sonhos e terá depois do mandato um gordo salário de presidente. Continuará com um bom padrão de vida, não terá motivos para o movimento social, só o político— reclama Rossi, um dos antigos companheiros do presidente.

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