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| Aprender com as derrotas |
| Editorial |
| Correio da Cidadania - 12/2 |
| O nobre francês Alexis de Tocqueville, asilado nos Estados Unidos durante a revolução de 1789, no seu retorno à pátria, conseguiu recuperar seus bens e títulos nobiliárquicos. Comentando o fato com seus pares, declarou: “não me surpreendo de termos voltado e nem de havermos recuperado nossas antigas posições; o que, sim, me surpreende é que não tenhamos aprendido nada”. As esquerdas brasileiras precisam levar muito a sério essa advertência, pois a hora que estamos vivendo coloca o mesmo problema que colocou para a geração de nobres franceses retornados do exílio: aprender com a derrota. Hoje, poucos contestam essa derrota, pois a verdade é que o governo Lula, nestes dois anos, não apenas reproduziu e aprofundou a política de FHC como provocou fissuras em todas as tendências internas do PT e até entre os movimentos populares. A perplexidade é grande e se manifestou claramente nas mesas dedicadas aos problemas brasileiros, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Delinearam-se aí nada menos do que cinco diferentes posições em relação ao PT e ao governo Lula: os que estão satisfeitos com a linha atual de partido e declaram-se 100% Lula; os que saíram do PT e fundaram o P-SOL; os que saíram do PT, mas não foram para outra legenda; os que não saíram do PT, mas se declararam em dissidência; e os que ficaram, mas decididos a lutar nas instâncias partidárias para mudar a linha do partido. O surgimento de cinco vertentes distintas, em uma agremiação que conseguiu manter, nestes vinte e cinco anos, um grau de unidade antes nunca visto na história política do país, parece ser o sinal do esgotamento de um ciclo da política de esquerda no Brasil. Mesmo que ainda não se reúnam todos os elementos para se chegar a uma conclusão cabal a esse respeito, seria de todo conveniente realizar, desde já, um exame exaustivo dos erros passados, a fim de evitá-los no futuro, caso essa nova conjuntura venha a se configurar. É perfeitamente compreensível que os setores egressos do PT procurem criar novas legendas partidárias, pois não se faz política sem partidos. A prova disso é que os movimentos revolucionários armados, quando chegam ao poder, tratam logo de criar o partido da revolução. Há, contudo, o risco de que esse movimento seja feito açodadamente, sem realizar a crítica do que provocou a deterioração do PT e sem considerar, no processo de criação de um novo partido popular, o tempo requerido para que as grandes massas populares se desiludam com o governo Lula e com o PT. Há também, evidentemente, o risco contrário: demorar demais e perder a hora. O descumprimento destes requisitos conduzirá inevitavelmente a erros que poderão comprometer a reorganização das esquerdas. |