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| PT, 25 anos: o buraco é mais pra lá |
| Flávio Aguiar* |
| Agência Carta maior - 11/2 |
| As comemorações dos 25 anos de fundação do PT estão parecendo um réquiem. Da direita à esquerda, muita gente diz que o PT não é mais aquele, que morreu etc. Ainda não se usou a palavra “simulacro” para caracterizar o atual PT, mas está para se chegar lá. Dentre os coveiros do PT, descartemos os da direita, divididos em dois blocos. Os que ainda permanecem filiados ao Fórum Econômico de Davos, ao Consenso de Washington, à globalização conservadora, ao império dos mercados, e agora “saúdam” o “novo PT”, que finalmente, teria visto a luz da redenção, depois de duas décadas de esquerdismo infantil. Para esses, só falta o PT se descartar do seu entulho esquerdista, alijando remanescentes das preocupações sociais que o Partido conduziu historicamente. São esses, por exemplo, que na imprensa depõem quase diariamente o ministro Olívio Dutra, mensalmente ameaçam o ministro Miguel Rossetto, abominam os programas sociais como assistencialismos populistas e mandam ensinar a pescar ao invés de dar o peixe, esquecendo que as varas de pescar hoje custam caro e que o mar está coalhado de tubarões e os rios de crocodilos, as multinacionais que tudo regulam e desregulam a seu bel prazer. No segundo bloco estão os arrependidos de Davos. Até há pouco tempo incensavam o Fórum Econômico, as políticas do FMI, do Banco Mundial, como a grande panacéia universal, abridora de horizontes, com lufadas de ar puro nos porões do pensamento atrasado da América Latina. Agora, como o Ministério da Fazenda aderiu, caem em cima do PT e do Palácio do Planalto com achas de lenha na mão, desancando a “capitulação” ao mercado, que antes viam como não a terceira, mas a única via possível. São os “arrependidos” de Davos, para quem política pública de inclusão social é populismo assistencialista. Em compensação, Sharon Stone doando dez mil dólares no Fórum de Davos deve soar como a redenção ética de um Encontro que perdeu o eixo e se tornou anacrônico. Há também os críticos à esquerda. Para um grande número destes a capitulação do PT se materializa na prioridade absoluta dada ao Ministério da Fazenda e suas políticas dada pelo Palácio do Planalto, junto com a independência do Banco Central em relação a políticas de visão social. Para estes o Palácio do Planalto capitulou, arrastando o partido em sua traição neoconservadora. Essa posição guarda embutida uma crítica interessante, embora habitualmente pouco explorada, porque seus próceres em geral preferem o ataque econômico à política econômica, também relegando para segundo plano o político. Qual seja, a crítica de que o Ministério da Fazenda e o Banco Central têm a condição de serem hoje o bunker anti-republicano, herdeiro do legado ditatorial e aprofundado durante o governo Fernando Henrique. Se tivéssemos na direção do Ministério da Fazenda um trotskista ainda trotskista, e na do Banco Central alguém do porte de Carlos Lessa, essa ala de críticos provavelmente se aquietaria, mas o problema maior continuaria de pé, e ele vai continuar de pé enquanto não forem incluídos, ministério e banco, na revolução republicana que o Brasil continua a demandar. Para outros críticos, entre os quais me alinho, o PT passa por um momento de descaracterização e de redefinição de perfil sim, com resultados problemáticos alguns e imprevisíveis outros, mas ele permanece o espaço de esquerda mais amplo e enraizado no Brasil. Para esses críticos, nem o Palácio do Planalto em sua euforia ou disforia adesista, nem o “endireitamento” da direção e de amplos setores do partido anulam essa condição. A partir desse ponto, para não dar a impressão de falar em nome de algum agrupamento ou tendência (confesso que para mim, nessa altura da vida, pertencer a tendência é fazer hora extra), vou falar estritamente na primeira pessoa do singular. Não será adesão de ninguém, nem que seja de altos dignatários da república ou do partido, que vai me roubar o direito de também narrar a história desse PT que foi criado pelos combates de São Bernardo e de todas as praças públicas desse país. Ninguém vai açambarcar essa história, tomá-la para si, narrá-la meramente a seu modo, e eu passarei então a contar uma nova história no partido ou na facção ao lado. Até porque, e essa é uma constatação difícil para muitos petistas, a construção do PT é herdeira de um legado já secular na vida brasileira, a das lutas dos trabalhadores de todos os tempos, da luta contra as ditaduras e pela liberdade. Muita gente morreu, foi perseguida, humilhada, massacrada, exilada, torturada, presa, perdeu o emprego, a liberdade, para que o PT pudesse chegar a ter espaço para ser fundado. O PT nasceu em São Bernardo, mas nem a república nem a esquerda nasceram lá. Elas vêm de antes. E eu, junto com milhares de outros, sou parte dessa história, e ninguém vai rouba-la de mim, nem me excluir dela. A fundação do PT teve sim um pequeno tique de origem, que agora vai adquirindo proporções alarmantes. Há algo em comum que reúne os sindicalistas de São Bernardo (e adjacências paulistanas), os intelectuais acadêmicos que juntos fundaram o partido, e a verdadeira cortina de ex-trotskistas, sobretudo da finada, mas nem tanto, Libelu, que hoje constitui um véu ao redor do Palácio do Planalto (e adjacências): é a sensação de que a história começa com eles, pelo menos a história da esquerda e das lutas mais importantes das classes trabalhadoras no Brasil. Antes só havia o “populismo”, o “caudilhismo”, e mais coisas execrandas. Cria-se assim uma versão curiosa da frase do rei francês: “après moi, le déluge”, depois de mim o dilúvio, a inundação, o caos. É “avant moi, le déluge”, antes de mim o caos, o nada, o informe. É um verdadeiro “complexo de Jeová”, ao qual eu mesmo nunca fui nem sou infenso. Saímos assim a criar mundos. Esse tique se infiltra em tudo: estou insatisfeito, e gravemente, com a política palaciana e Palocciana? Ora, ponho uma camisa listrada, um canivete no bolso, um pandeiro na mão, e saio por aí para fundar outros partidos. É também a velha síndrome do racha nas esquerdas: eu mesmo já presenciei e já fui prócer de alguns, instigado por esta idéia, a de eu e meus amigos somos os únicos tocheiros da história, os únicos que a fundam. Assim sendo, declaro que ninguém vai me impedir de acender velas neste aniversário do PT. Nem mesmo que seja apenas uma única vela, na escuridão, “solito y Diós”, como dizia minha avó. Nem que seja uma vela dirigida ao Negrinho do Pastoreio, para que ele nos ajude a encontrar o que se perdeu... * Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior. |