Jorge Luís Martins: “a esquerda vive uma grande derrota”
Luís Brasilino
Correio da Cidadania - 12/2

Mais de 100 petistas anunciaram seu desligamento do partido no dia 29 de janeiro, em Porto Alegre, durante o V Fórum Social Mundial. Dentre os dissidentes, estão os economistas Reinaldo Gonçalves e Plínio de Arruda Sampaio Jr. e o sindicalista Jorge Luís Martins, da executiva nacional da CUT – este último, o entrevistado do Correio da Cidadania nesta semana. Segundo Jorginho, como é conhecido, o objetivo da saída é permitir que a esquerda do PT faça uma reflexão sobre o esgotamento do partido. “Dentro, não há espaço democrático para fazer esse debate”, revela.

Correio da Cidadania: Por que não continuar no PT?
Jorge Martins: É um dilema que vivemos intensamente nos últimos meses da nossa vida. Chegamos à conclusão de que não devemos ficar no PT para não continuar neste processo, dos últimos 24 meses, de tentativa frustrada de impedir o partido de abandonar suas bandeiras históricas e os compromissos de mudanças para as quais Lula foi eleito com 53 milhões de votos. Analisando o plano econômico percebemos que o presidente não só mantém o núcleo central do modelo Fernando Henrique Cardoso como, em alguns casos, o aprofunda. São exemplos disso o superávit primário, que teve seu índice elevado para além do pedido pelo FMI; a reforma da Previdência, que impõe mais sacrifício ao funcionalismo público; a Lei de Falências, que acaba com o risco do capital; o não cumprimento das metas de reforma agrária e da promessa de dobrar o salário mínimo; e, também, a reforma sindical, a gota d’água que, na minha opinião, abre a porta para a flexibilização das relações de trabalho.

CC: E por que sair é a melhor estratégia?
JM: O objetivo da nossa saída é contribuir para que a esquerda do PT faça uma reflexão do esgotamento do partido. Para nós, dentro não há espaço democrático para fazer esse debate. Infelizmente, o PT, de maneira cega, virou um braço do governo e fechou as portas para críticas ao governo. Qualquer coisa que se faça faz você passar a ser tratado como inimigo do governo e que está colocando em risco, ou a institucionalidade, ou a eleição de 2006. Então, o PT se entregou de corpo e alma, primeiro, ao objetivo ser um partido que apenas quer ser governo e não poder e, segundo, conquistar a via institucional eleitoral: “isso é tudo e tudo se negocia”.

CC: É possível avaliar a reação à saída dos dissidentes?
JM: Ainda é muito cedo, mas a repercussão tem sido grande. Várias pessoas estão nos procurando para saber o motivo. Estamos enviando nosso manifesto, expondo os motivos que nos levaram a conclusão do esgotamento do PT enquanto partido para fazer rupturas estruturais e para avançar na luta pela igualdade e chamando os movimentos sociais a essa reflexão.

CC: Como o senhor avalia o atual momento da esquerda brasileira?
JM: É um momento dramático, pois ela está vivendo uma grande derrota. Uma esquerda que, durante mais de 25 anos, lutou para chegar ao governo central e disputar o seu projeto, chegou lá com alianças e programas deformados. E assumindo as teses e concepções neoliberais de desregulamentação do Estado e fortalecimento do capital. Então, é uma sensação de derrota e, também, de dispersão. Pretendemos, inclusive, contribuir para que a esquerda não volte para casa, mas esteja disposta a repensar e iniciar um novo caminhar.

CC: O senhor tem planos de também deixar a CUT?
JM: Uma coisa é o movimento partidário. A outra é a central. Mas queremos fazer uma reflexão também na CUT. Nesse V Fórum Social Mundial, a CUT, na pessoa do seu presidente Luiz Marinho, foi mais vaiada do que o próprio governo. Creio, então, que isso deve levar a uma reflexão da maioria da CUT de que ou ela assume uma postura de independência e autonomia com relação ao governo ou a central tende a perder a credibilidade conquistada no decorrer dos seus 21 anos. Mas não há debate no sentido de sair da CUT, o que temos é a disposição de discutir com os três mil sindicatos para rejeitar a proposta de reforma sindical do Fórum Nacional do Trabalho.

CC: Qual a diferença entre a CUT e o PT?
JM: A diferença é que o PT é o governo. O partido assumiu o governo e tem aplicado de forma monolítica um programa desfigurado e degenerado. A central é uma frente que envolve vários partidos. Tem gente do PSOL, do PCdoB, independentes, PSB, PT... O sindicato, para nós, é uma frente plural e vamos lutar para que a CUT continue se construindo enquanto frente. Já o PT não. Quem lá está, concorda em gênero, número e grau com o que está sendo aplicado.

CC: O senhor pretende ir para outro partido?
JM: Essa discussão vai depender de todo um processo de avaliação que faremos no próximo período. No momento, estamos montado núcleos de ação e reflexão sobre o socialismo que agregam pessoas de dentro e de fora do PT, descontentes com o partido. Creio que, na medida que esse debate avançar, certamente vamos discutir as alternativas colocadas mas, de imediato, pretendemos esgotar esse processo de avaliação histórica. Não negando o PT porque aprendemos muito. Porém, para que a nova organização que formos construir ou participar não cometa os mesmo erros do PT. Pode cometer novos, mas que faça uma correção histórica para não trazer, lá na frente, uma nova decepção ou derrota para a classe trabalhadora brasileira.

CC: São estes os núcleos que dirão que caminho a esquerda deve seguir daqui para a frente?
JM: Os núcleos fazem parte de um processo transitório mas, certamente, vão pautar qual a plataforma e a organização necessária para o país e, na medida que 2005 for avançando, qual a alternativa, à esquerda, ao governo Lula. Com o núcleo, queremos pautar a agenda de lutas. Combatendo as reformas sindical, trabalhista e universitária e atuando junto com o movimento social. Não acreditamos que os partidos, enquanto forma organizativa, tenham sido superados. Os partidos ainda são importantes, assim como a eleição. Embora sabemos que a grave situação brasileira não será resolvida só por ela, acreditamos que as eleições são um momento importante de participação da esquerda. Portanto, certamente ocorrerão debates e esses núcleos apontarão para uma candidatura e uma plataforma para 2006. Quer seja dentro de um partido político, quer seja atuando nos movimentos sociais.

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