| Mais de 100 petistas anunciaram seu desligamento
do partido no dia 29 de janeiro, em Porto Alegre, durante o V Fórum
Social Mundial. Dentre os dissidentes, estão os economistas Reinaldo
Gonçalves e Plínio de Arruda Sampaio Jr. e o sindicalista
Jorge Luís Martins, da executiva nacional da CUT – este último,
o entrevistado do Correio da Cidadania nesta semana. Segundo Jorginho,
como é conhecido, o objetivo da saída é permitir
que a esquerda do PT faça uma reflexão sobre o esgotamento
do partido. “Dentro, não há espaço democrático
para fazer esse debate”, revela.
Correio da Cidadania:
Por que não continuar no PT?
Jorge Martins: É
um dilema que vivemos intensamente nos últimos meses da nossa vida.
Chegamos à conclusão de que não devemos ficar no
PT para não continuar neste processo, dos últimos 24 meses,
de tentativa frustrada de impedir o partido de abandonar suas bandeiras
históricas e os compromissos de mudanças para as quais Lula
foi eleito com 53 milhões de votos. Analisando o plano econômico
percebemos que o presidente não só mantém o núcleo
central do modelo Fernando Henrique Cardoso como, em alguns casos, o aprofunda.
São exemplos disso o superávit primário, que teve
seu índice elevado para além do pedido pelo FMI; a reforma
da Previdência, que impõe mais sacrifício ao funcionalismo
público; a Lei de Falências, que acaba com o risco do capital;
o não cumprimento das metas de reforma agrária e da promessa
de dobrar o salário mínimo; e, também, a reforma
sindical, a gota d’água que, na minha opinião, abre
a porta para a flexibilização das relações
de trabalho.
CC: E por
que sair é a melhor estratégia?
JM: O objetivo da nossa
saída é contribuir para que a esquerda do PT faça
uma reflexão do esgotamento do partido. Para nós, dentro
não há espaço democrático para fazer esse
debate. Infelizmente, o PT, de maneira cega, virou um braço do
governo e fechou as portas para críticas ao governo. Qualquer coisa
que se faça faz você passar a ser tratado como inimigo do
governo e que está colocando em risco, ou a institucionalidade,
ou a eleição de 2006. Então, o PT se entregou de
corpo e alma, primeiro, ao objetivo ser um partido que apenas quer ser
governo e não poder e, segundo, conquistar a via institucional
eleitoral: “isso é tudo e tudo se negocia”.
CC: É
possível avaliar a reação à saída dos
dissidentes?
JM: Ainda é muito
cedo, mas a repercussão tem sido grande. Várias pessoas
estão nos procurando para saber o motivo. Estamos enviando nosso
manifesto, expondo os motivos que nos levaram a conclusão do esgotamento
do PT enquanto partido para fazer rupturas estruturais e para avançar
na luta pela igualdade e chamando os movimentos sociais a essa reflexão.
CC: Como
o senhor avalia o atual momento da esquerda brasileira?
JM: É um momento dramático,
pois ela está vivendo uma grande derrota. Uma esquerda que, durante
mais de 25 anos, lutou para chegar ao governo central e disputar o seu
projeto, chegou lá com alianças e programas deformados.
E assumindo as teses e concepções neoliberais de desregulamentação
do Estado e fortalecimento do capital. Então, é uma sensação
de derrota e, também, de dispersão. Pretendemos, inclusive,
contribuir para que a esquerda não volte para casa, mas esteja
disposta a repensar e iniciar um novo caminhar.
CC: O senhor
tem planos de também deixar a CUT?
JM: Uma coisa é o
movimento partidário. A outra é a central. Mas queremos
fazer uma reflexão também na CUT. Nesse V Fórum Social
Mundial, a CUT, na pessoa do seu presidente Luiz Marinho, foi mais vaiada
do que o próprio governo. Creio, então, que isso deve levar
a uma reflexão da maioria da CUT de que ou ela assume uma postura
de independência e autonomia com relação ao governo
ou a central tende a perder a credibilidade conquistada no decorrer dos
seus 21 anos. Mas não há debate no sentido de sair da CUT,
o que temos é a disposição de discutir com os três
mil sindicatos para rejeitar a proposta de reforma sindical do Fórum
Nacional do Trabalho.
CC: Qual
a diferença entre a CUT e o PT?
JM: A diferença é
que o PT é o governo. O partido assumiu o governo e tem aplicado
de forma monolítica um programa desfigurado e degenerado. A central
é uma frente que envolve vários partidos. Tem gente do PSOL,
do PCdoB, independentes, PSB, PT... O sindicato, para nós, é
uma frente plural e vamos lutar para que a CUT continue se construindo
enquanto frente. Já o PT não. Quem lá está,
concorda em gênero, número e grau com o que está sendo
aplicado.
CC: O senhor
pretende ir para outro partido?
JM: Essa discussão
vai depender de todo um processo de avaliação que faremos
no próximo período. No momento, estamos montado núcleos
de ação e reflexão sobre o socialismo que agregam
pessoas de dentro e de fora do PT, descontentes com o partido. Creio que,
na medida que esse debate avançar, certamente vamos discutir as
alternativas colocadas mas, de imediato, pretendemos esgotar esse processo
de avaliação histórica. Não negando o PT porque
aprendemos muito. Porém, para que a nova organização
que formos construir ou participar não cometa os mesmo erros do
PT. Pode cometer novos, mas que faça uma correção
histórica para não trazer, lá na frente, uma nova
decepção ou derrota para a classe trabalhadora brasileira.
CC: São
estes os núcleos que dirão que caminho a esquerda deve seguir
daqui para a frente?
JM: Os núcleos fazem
parte de um processo transitório mas, certamente, vão pautar
qual a plataforma e a organização necessária para
o país e, na medida que 2005 for avançando, qual a alternativa,
à esquerda, ao governo Lula. Com o núcleo, queremos pautar
a agenda de lutas. Combatendo as reformas sindical, trabalhista e universitária
e atuando junto com o movimento social. Não acreditamos que os
partidos, enquanto forma organizativa, tenham sido superados. Os partidos
ainda são importantes, assim como a eleição. Embora
sabemos que a grave situação brasileira não será
resolvida só por ela, acreditamos que as eleições
são um momento importante de participação da esquerda.
Portanto, certamente ocorrerão debates e esses núcleos apontarão
para uma candidatura e uma plataforma para 2006. Quer seja dentro de um
partido político, quer seja atuando nos movimentos sociais.
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