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| Uma vaia 100% Lula |
| Paulo Piramba |
| PALAVRA CRUZADA - 9/2 |
| A ida do presidente Lula ao 5º Fórum Social Mundial foi cercada por um enorme aparato de segurança, montado pelos governos federal e estadual, além do esquema organizado pelo PT e pela CUT, na tentativa de abafar as vaias e manifestações de protesto anunciadas. Ao contrário de 2003, quando o recém-eleito Lula discursou ao ar-livre para mais de 100 mil pessoas, desta vez o evento foi marcado para um local fechado, o Ginásio Gigantinho, com entrada restrita, coisa até então inédita nos eventos do FSM. Sob os olhares atentos dos “animadores de torcida” José Genoino e Luís Marinho, presidentes do PT e da CUT, milhares de petistas e cutistas fiéis ao Campo Majoritário tiveram acesso ao ginásio, devidamente uniformizados com camisas vermelhas, onde se lia “100% Lula”. Porém, nem mesmo os esforços dessa claque foram suficientes, para impedir que algumas dezenas de gatos pingados, que conseguiram furar o cerco e entrar no ginásio, vaiassem e protestassem contra a transformação do Lula de Porto Alegre no Lula de Davos. Do lado de fora, outros milhares de manifestantes – barrados no baile – enfrentavam a polícia. Já antes do evento, num misto de bate-papo com os organizadores do Fórum e coletiva de imprensa, o desconforto era visível. Confrontado por representantes de movimentos sociais estrangeiros, que cobravam o descompasso entre o Lula que julgavam conhecer e o Lula real, além de medidas e ações concretas, o presidente desconversava, no melhor estilo Mané Garrincha, fingindo ir para a esquerda e saindo pela direita. No discurso do ginásio, mesmo jogando em casa, já que a torcida era quase toda favorável, Lula mostrou sua irritação com as vaias, chegando a chamar o presidente Kirschner da Argentina de “companheiro” Menem. Para os “100% Lula” isto não fazia a menor diferença, já que estavam preocupados em atender as orientações de Genoino e Marinho, batendo palmas a cada frase de Lula, mesmo antes do seu final. Esta atitude chamou a atenção dos participantes tradicionais do FSM, acostumados a platéias mais conscientes e mais criteriosas nas suas manifestações. Sem entrar no mérito da discussão sobre se as vaias suplantaram os aplausos, ou vice-versa, o episódio é exemplar. Mostra, por um lado, o fortalecimento deliberado da figura cada vez mais populista de Lula, em detrimento do seu partido, o PT. As bandeiras petistas eram muito mais raras do que os retratos de Lula. Por outro lado, reforça a imagem do comportamento que se espera, hoje em dia, de um militante petista: nenhum espírito crítico, confiança inabalável no chefe e obediência cega aos seus líderes. A ironia fica por conta do slogan impresso nas camisetas. Estes militantes petistas apóiam 100% um Lula, que já deixou de ser 100% ele mesmo, há muito tempo. O Lula de hoje, que viajou no AeroLula para Davos logo após o discurso, se sente muito mais à vontade lá do que aqui. Enquanto que, no FSM, ele é cada vez mais vaiado, lá em Davos é bajulado pelos poderosos, como mais um “convertido”, exemplo de responsabilidade e obediência. Banqueiros, mega-empresários e artistas estão sempre a postos para afagar o seu ego. Inebriado pelos rapapés, ele chegou a dizer que mudou a agenda dos poderosos. Totalmente à vontade, Lula escolheu ser a vanguarda do atraso em Davos, do que ter que amargar vaias, e ser o atraso da vanguarda altermundista em Porto Alegre. |