Sobre a carta dos 3 dirigentes da Quarta Internacional
João Machado
PALAVRA CRUZADA - 9/2

A carta de Francisco Louçã, Daniel Bensaid e Michael Lowy (todos os três membros da IV Internacional) aos militantes da DS não tem uma grande importância apenas para os membros desta corrente: ela expressa a avaliação do governo Lula feita por um setor muito importante da esquerda socialista internacional (ou seja, a esquerda que mantém a referência no projeto socialista), bem como suas preocupações com a situação da esquerda brasileira.

Por mais de duas décadas, os três signatários têm acompanhado de muito perto o processo político brasileiro (Michael Lowy, aliás, é um brasileiro radicado na França). Além disso, desde a formação da DS (Democracia Socialista), em fins de 1979, eles têm compartilhado as discussões e o desenvolvimento desta corrente. De fato, têm sido os militantes não residentes no Brasil mais vinculados à DS ao longo do conjunto da sua história.

A carta marca mais um momento do debate que a IV Internacional vem fazendo sobre a situação política brasileira desde a formação do governo Lula e da entrada de um militante da DS no ministério.

De acordo com seus estatutos, a IV Internacional não decide internacionalmente a linha das suas seções; não tem um centralismo internacional. Isto não reduz, entretanto, sua importância como centro de reflexão política. Em geral, suas instâncias dirigentes e seus militantes procuram adotar uma visão comum das principais questões internacionais, a partir da visão programática que funda a Internacional, e intercambiam opiniões sobre os processos nacionais.

Ora, a eleição de Lula e seus desdobramentos têm tido um impacto muito relevante na política internacional, e uma importância especialíssima para a esquerda mundial. O PT teve ao longo de sua história um papel muito importante; e, a partir do início do processo do Fórum Social Mundial, a esquerda brasileira passou a ser uma referência para todos os que buscam a renovação do projeto socialista. Isso só já justificaria que a situação brasileira tivesse um lugar destacado nos debates da IV Internacional.

Por outro lado, a entrada de um membro da DS no ministério de Lula, acompanhada pela participação de diversos outros companheiros e companheiras em cargos de confiança no governo, trouxe uma necessidade ainda mais aguda, para os militantes da IV Internacional (bem como para toda a esquerda socialista), de acompanhar e discutir a situação brasileira. Afinal, desde antes de sua posse, o governo Lula havia declarado aceitar o acordo com o FMI e, portanto, uma linha geral de subordinação aos interesses do grande capital internacional, especialmente do capital financeiro; este caráter foi confirmado com a escolha da equipe econômica, e veio sendo reafirmado desde então. A participação de militantes socialistas revolucionários em cargos de confiança deste governo não poderia, portanto, deixar de ser vista, no mínimo, com grandes reservas.

No início, considerações a respeito das particularidades da história do PT e do papel da DS (e de outros setores da esquerda socialista revolucionária) no seu interior poderiam desaconselhar a precipitação da ruptura com o governo Lula. Do mesmo modo, era indispensável adotar uma abordagem “pedagógica”. Estas justificativas, porém, já deixaram de ter qualquer atualidade — pelo menos desde que ficou evidente não haver nenhuma disputa quanto à orientação política geral, e desde que (com o crescimento da oposição e da rejeição ao governo Lula em setores importantes da população) qualquer preocupação “pedagógica” de não romper com o governo antes de as massas poderem entender as razões disso deixou de ter qualquer sentido.

No entanto, além de não ter um processo centralizado internacionalmente de deliberação, a direção da IV Internacional preocupa-se também em reforçar as direções nacionais das organizações vinculadas a ela. Assim, a expressão de divergências com orientações nacionais é sempre feita, preferencialmente, por meio de discussões com as direções nacionais. Apenas nos casos em que as diferenças são muito importantes, e não são resolvidas, é que são votadas resoluções das instâncias internacionais, cujo papel é o de expressar publicamente a posição da Internacional (e não o de impor uma decisão internacional).

Até o momento, não foi votada uma resolução da IV Internacional sobre a situação política brasileira e a participação da DS no governo Lula. Houve diversas discussões orais (com a presença de representantes da DS em reuniões internacionais, e com a presença de representantes da IV Internacional em discussões no Brasil), diversos artigos na imprensa internacional, a manifestação por escrito de diversas seções sobre o Brasil, e a abertura de um “Boletim Internacional de Discussão” sobre a situação brasileira (a circulação deste boletim internacional até agora não foi promovida no Brasil). É provável, no entanto, que a próxima reunião da direção internacional da IV Internacional adote uma resolução sobre o Brasil.

Neste processo de debates, a carta de Francisco Louçã, Daniel Bensaid e Michael Lowy tem uma importância especial — como a manifestação das preocupações de grandes amigos e camaradas.

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