«O Padre Anselmo
Borges, teólogo e professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra, pensa que "dizer que o aborto
é sempre um homicídio é uma inverdade". Entrando no debate sobre o aborto
pela via filosófica e teológica, Anselmo Borges propõe a necessidade de
distinguir entre vida, vida humana e pessoa humana. Autor de "Corpo e
Transcendência" (ed. Fundação Eugénio de Almeida), este membro da
Sociedade Missionária da Boa Nova faz questão de vincar três ideias: "A
vida humana deve ser garantida e respeitada; o aborto é objectivamente um mal e
não pode ser encarado como algo de leviano; e é necessário atender às
circunstâncias de cada caso, que são por vezes verdadeiros dramas".
Anselmo Borges propõe, depois, distinguir vida, vida humana e pessoa humana:
"Nas primeiras fases, não temos uma pessoa em acto. Até à nidação, quando
ainda é possível haver gémeos - ou seja, duas pessoas
-, quer dizer que não temos um indivíduo&". O teólogo português cita ainda
o pensador católico espanhol Pedro Laín Entralgo que, na sua obra
"Alma, cuerpo, persona", afirma: "Só a partir de um determinado
momento do seu desenvolvimento - desde a configuração
da blástula e a nidação? - [o zigoto humano] cumprirá o dilema próprio do modo
incondicionado de 'ser em potência': chegar a ser homem em acto ou
sucumbir." O Padre Anselmo propõe um caminho de saída: "Se com a
morte cerebral a pessoa acabou, porque não se toma, como ponto de partida, a
ideia de que enquanto não há cérebro não há vida?" [...] Católico - embora presida a uma associação não-confessional -, Ramos
Ascensão diz que as opiniões do Bispo do Porto em entrevista ao "Expresso"
são "um sinal da liberdade de expressão dentro da Igreja", embora
elas "não estejam em consonância com a doutrina da Igreja". Sobre a
posição católica oficial, Anselmo Borges diz que ela é consequência da falta de
formação. "A Igreja ainda não percebeu que o aparecimento da pessoa é um
processo" e quando "não há formação, há medo". "Todo o
discurso moral é para o princípio da vida e para o seu fim. E o que acontece no
durante? Quem defende condições de vida dignas para todos, quem forma os
jovens?" E, na polémica sobre a despenalização, "a Igreja não deve
reclamar o braço legal, antes apoiar-se na sua força legal".

Publicado no Jornal On-line
“Portugal Gay”, em 18 de Dezembro de 2003
(http://portugalgay.pt/news/index.asp?uid=181203A)
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)