OS SETE CONCÍLIOS ECUMÉNICOS
A Igreja dos Sete Concílios "Tudo professa que
existem sete Concílios Ecuménicos e santos, e estes são os sete pilares da fé
do Verbo Divino nos quais Ele erigiu sua santa morada, a Igreja Ecuménica e
Católica" (João II, Metropolita da Rússia, 1800-1889).
Constantino coloca-se como um divisor na história da
Igreja. Com sua conversão, o tempo dos martírios e das perseguições chegou ao
fim, e a Igreja das Catacumbas tornou-se a Igreja do Império. O primeiro grande
efeito da visão de Constantino foi o assim chamado "Edito" de Milão,
que ele e seu companheiro Imperador Licínio editaram em 313, proclamando a
tolerância oficial à fé cristã. E, embora, a princípio, Constantino garantisse
não mais do que a tolerância, ele em breve deixou claro que tinha a intenção de
favorecer o cristianismo sobre todas as outras religiões toleradas no Império
Romano.
Teodósio, no prazo de cinquenta anos após a morte de
Constantino, havia levado a cabo a sua política: na sua legislação ele tornou o
cristianismo não apenas a mais favorecida, mas a única religião reconhecida do
Império. A Igreja agora estava estabelecida. "Vocês não estão autorizados
a existir”, as autoridades romanas disseram uma vez aos cristãos. Agora era a
vez do paganismo ser suprimido.
A visão da cruz que teve Constantino, levou-o também
durante a sua existência, a tomar duas outras atitudes, igualmente oportunas
para o posterior desenvolvimento do cristianismo. Primeiro, em 324 ele decidiu mudar
a capital do Império Romano em direcção ao Oriente, da Itália para as margens
do Bósforo. Ali, no local da cidade grega de Bizâncio, ele construiu uma nova
capital, a qual chamou "Constantinoupolis”, de seu nome. Os motivos dessa
mudança foram em parte económicos e políticos, mas foram também religiosos; a
velha Roma estava muito impregnada com associações pagãs para ser o centro do
Império Cristão que ele imaginava. Na Nova Roma, as coisas seriam diferentes
após a solene inauguração da cidade em 330, ele decretou que em Constantinopla
jamais seriam realizados ritos pagãos. A nova capital de Constantino exerceu
uma influência decisiva no desenvolvimento da história da Ortodoxia.
Os três acontecimentos - o
Edito de Milão, a fundação de Constantinopla e o Concílio de Nicéia - marcam a
maioridade da Igreja.
OS PRIMEIROS
SEIS CONCÍLIOS ECUMÉNICOS - (325-681)
A vida da Igreja no período inicial bizantino é
dominada pelos Sete Concílios Gerais. Estes Concílios preencheram uma tarefa
dupla. Primeiro, eles esclareceram e articularam a organização visível da
Igreja, tornando clara a posição das cinco grandes Sedes ou Patriarcados, como
vieram a ser conhecidos. Segundo o mais importante, os Concílios definiram de
uma vez por todas os ensinamentos da Igreja sobre as doutrinas fundamentais da
Fé Cristã - a Trindade e a Encarnação. Todos os cristãos
concordam em encarar tais coisas como "mistérios" os quais se
encontram além da linguagem e compreensão humanas. Os bispos, quando redigiam
definições nos Concílios, não intencionavam explicar o mistério, apenas
procuravam eliminar certas maneiras erradas de falar e raciocinar sobre ele.
Para impedir que os homens se desviassem em erro ou heresia, eles tão-somente
esclareciam o modo correcto de se referir ao mistério.
As discussões nos Concílios às vezes parecem
abstractas e remotas, embora tenham uma finalidade prática: a salvação do
homem. O homem, como ensina o Novo Testamento, é separado de Deus pelo pecado,
e não pode por seus próprios meios romper a barreira que o pecado criou. Deus,
portanto tomou a iniciativa: tornou-se homem, foi crucificado, e ressuscitou,
libertando desta forma a humanidade da prisão do pecado e da morte. Esta é a
mensagem central da Fé cristã e é a mensagem de redenção que os Concílios
estavam preocupados em salvaguardar. As heresias eram perigosas e exigiam
condenação, pois prejudicavam o ensinamento do Novo Testamento, criando uma
barreira entre o homem e Deus, tornando assim impossível para o homem atingir a
salvação total.
São Paulo
exprimiu essa mensagem de redenção em termos de participação. Cristo participou
de nossa pobreza para que pudéssemos participar das riquezas de sua divindade:
"Pois conheceis a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se
fez pobre pelo amor de vós, para que pela sua pobreza vos tornásseis
ricos" (2 Coríntios 8, 9). No Evangelho de São João é encontrada a mesma
ideia de modo ligeiramente diferente.
Cristo declara que ele deu a seus discípulos uma
participação na divina glória e ele ora para que possam alcançar a união com
Deus: "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado para que
sejam um como nós o somos; eu neles e tu em mim, a fim de que sejam
aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste, e os
amaste como também amaste a mim" (João 17, 22-23). Os Padres Gregos
tomaram este e outros textos similares em seu sentido literal e ousaram falar
da "deificação" do homem (do grego theosis). Se é para o homem
participar da glória de Deus, eles dizem, se é para que sejam "aperfeiçoados
na unidade" com Deus, isto significa de fato que o homem precisa ser
"deificado". Ele é chamado para tornar-se, pela graça, o que Deus é
por natureza. A este respeito, Santo
Atanásio resumiu a finalidade da Encarnação com o seguinte: "Deus
tornou-se homem para que possamos nos tornar Deus”. Assim, se este
"tornar-se Deus, esta theosis, é possível, Cristo o Salvador deve ser
ambos, completamente homem e completamente Deus. Ninguém a não ser Deus pode
salvar o homem. Portanto, se Cristo é quem salva, ele deve ser Deus. Mas apenas
se ele for verdadeiramente homem, como somos, podemos nós homens participar
naquilo que ele fez por nós. É firmada uma ponte entre Deus e o homem pelo
Cristo Encarnado, homem-Deus. "E acrescentou: Em verdade, em verdade
vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o
Filho do homem" (João 1, 51). Não apenas os Anjos usam aquela escada
mas toda a raça humana.
Cristo deve ser completamente Deus e completamente
homem. Cada heresia, a seu tempo, nega alguma parte desta afirmação vital. Ou
Cristo foi criado menos do que Deus (arianismo); ou sua humanidade era tão
afastada de sua divindade que ele tornou-se duas pessoas em vez de uma
(nestorianismo), ou ele não era apresentado como verdadeiramente homem
(monofisismo, monotelismo).
Cada Concílio defendia esta afirmação. Os dois primeiros, ocorridos no século
IV, concentraram-se na primeira parte (de que Cristo deve ser completamente
Deus) e formularam a doutrina da Santíssima
Trindade. Os quatro seguintes nos séculos V, VI e VII, concentraram-se na
segunda parte (a plenitude da humanidade de Cristo) e também procuraram
explicar como humanidade e divindade podiam ser unidas numa única pessoa. O
sétimo Concílio, em defesa dos Santos
Ícones, parece, à primeira vista, afastado da questão; mas, como os
primeiros seis, estava basicamente relacionado com a Encarnação e a salvação do
homem.
A principal realização do Concílio de Nicéia em 325
foi a condenação do arianismo. Arius, um padre de Alexandria, sustentava que o
Filho era inferior ao Pai e, ao traçar uma linha divisória entre Deus e a
criação, ele colocou o Filho entre as coisas criadas: uma criatura superior, é verdade, mas uma criatura. Sua intenção, sem dúvida, era
proteger a unidade e transcendência de Deus, mas o efeito de seus ensinamentos,
fazendo Cristo menos do que Deus, tornava a deificação do homem impossível.
Apenas se Cristo for verdadeiramente Deus, o Concílio respondeu, poderá nos
unir a Deus, pois ninguém além de Deus poderá abrir para o homem o caminho da
união. Cristo é "um em essência" (homoousios) com o Pai. Ele não é um
semideus ou uma criatura superior, mas Deus da mesma forma que o Pai é Deus:
"Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”, o Concílio proclamou no Credo que
redigiu, "gerado não criado, consubstancial ao Pai." O Concílio de
Nicéia tratou também da organização visível da Igreja. Fazendo referência aos
três grandes centros: Roma, Alexandria e Antioquia (Cánone VI). Ele também
dispôs que à Sé de Jerusalém, mesmo permanecendo sujeita ao Metropolita de
Cesareia, deveria ser dado o próximo lugar de honra após essas três (Cánone
VII).
Constantinopla obviamente não foi mencionada, uma
vez que ainda não havia sido oficialmente inaugurada como capital, o que
somente aconteceu cinco anos depois; ela continuava sujeita como antes, ao
Metropolita de Heraclea.
O trabalho de Nicéia foi retomado pelo segundo
Concílio Ecuménico, realizado em Constantinopla em 381. Este Concílio aumentou
e adaptou o Credo de Nicéia, desenvolvendo em particular os ensinamentos a
respeito do Espírito Santo, de quem afirmava ser Deus da mesma forma que o Pai
e o Filho o são: "que procede do Pai e com o Pai e o Filho recebe a mesma
adoração e a mesma glória”. O Concílio alterou também o conteúdo do sexto
Cánone de Nicéia. A posição de Constantinopla, agora capital do Império, não
podia mais ser ignorada, e foi-lhe designado o segundo lugar, após Roma e antes
de Alexandria. "O Bispo
de Constantinopla deve ter prerrogativas de honra após o Bispo
de Roma, pois Constantinopla é a nova Roma" (Cánone III). Por trás das
definições do Concílio existia o trabalho de teólogos que davam precisão às
formulações que o Concílio empregava. Era a suprema realização de Santo
Atanásio de Alexandria, extrair todas as implicações das palavras-chaves no
Credo de Nicéia; homoousios, um na essência ou substância, consubstancial.
Complementando seu trabalho havia o dos três Padres
Capadócios, São Gregório de Nazianzo, conhecido na Igreja Ortodoxa como
Gregório, o Teólogo (329-390), São
Basílio, o Grande (330-379) e seu irmão caçula São
Gregório de Nissa (morto em 394). Enquanto Atanásio enfatizava a unidade de
Deus - Pai e Filho são um em essência (ousia) - os
capadócios enfatizavam a trindade divina - Pai, Filho e Espírito Santo são três
pessoas (hypostaseis). Preservando um equilíbrio delicado entre a trindade e a
unidade em Deus, eles deram significado total ao clássico sumário da doutrina
Trinitária, três pessoas em uma essência. Nunca até então a Igreja havia
possuído quatro teólogos de tal envergadura em uma única geração.
Após 381 o arianismo deixou rapidamente de ser uma
questão empolgante, excepto em certas partes da Europa Oriental. O aspecto
polémico do trabalho do Concílio está no seu terceiro Cánone, do qual se
ressentiram igualmente Roma e Alexandria. A Velha Roma se questionava aonde as
pretensões da Nova Roma terminariam. Não poderia Constantinopla vir a
reivindicar o primeiro lugar? Roma decidiu ignorar o Cánone ofensivo e somente
no Concílio de Latrão (1215) o Papa reconheceu formalmente a reivindicação de
Constantinopla de segundo lugar. (Constantinopla encontrava-se naquela época
nas mãos dos Cruzados e sob a legislação de um Patriarca latino). Mas o Cánone
era igualmente um desafio para Alexandria, que até então havia ocupado o
primeiro lugar no Oriente. Os setenta anos seguintes testemunharam um agudo
conflito entre Constantinopla e Alexandria e, por um tempo, a vitória foi para
a última. O primeiro grande sucesso de Alexandria foi no Sínodo de Oak, quando
Teófilo de Alexandria garantiu a deposição e o exílio do Bispo de
Constantinopla, São
João Crisóstomo, "João Boca de Ouro" (344-407). Um pregador
fluente e eloquente - seus sermões duravam
frequentemente uma hora ou mais.
João expressava de forma popular as ideias
teológicas, formuladas por Atanásio e pelos Capadócios. Um homem de vida
austera e meticulosa, inspirado por uma profunda, compaixão pelos pobres e por
um ardoroso zelo por justiça social. De todos os Padres ele talvez seja o mais
amado da Igreja Ortodoxa, e o que tem seus trabalhos mais lidos.
O segundo grande sucesso de Alexandria foi
conseguido pelo sobrinho e sucessor de Teófilo, São
Cirilo de Alexandria (morto em 444), que provocou a queda de outro Bispo de
Constantinopla, Nestório, no Terceiro Concílio Ecuménico realizado em Efeso
(431). Mas em Éfeso havia mais em jogo do que a rivalidade de duas Sés.
Assuntos doutrinais, adormecidos desde 381 despertaram de novo, centralizados
agora não mais na Trindade, mas na Pessoa do Cristo. Cirilo e Nestório
concordavam que Cristo era completamente Deus, um da Trindade, mas divergiam em
suas descrições ‘de sua humanidade e em seus métodos de explicar' a união de
Deus e homem numa única pessoa.
Eles representavam diferentes tradições ou escolas
de teologia. Nestório cresceu na escola de Antioquia, mantida a integridade da
humanidade de Cristo, mas distinguia tão enfaticamente a humanidade e a
divindade que parecia correr o risco de terminar, não com uma pessoa, mas com
duas coexistindo no mesmo corpo. Cirilo, o protagonista da tradição oposta de
Alexandria, partia da unidade da pessoa do Cristo, antes que da diversidade de
sua humanidade e de sua divindade, mas falava da humanidade de Cristo com menos
empolgação que o antioquino. Qualquer uma das teses, se pressionada com força,
poderia tornar-se herética, e a Igreja necessitava de ambas para formar uma
imagem equilibrada de todo o Cristo. Foi uma tragédia para o cristianismo que
as duas escolas, em vez de se equilibrarem mutuamente, entraram em conflito.
Nestório precipitou a controvérsia se recusando
chamar a Virgem Maria "Mãe
de Deus" (Theotokos). Este título já era aceite na devoção popular,
mas parecia a Nestório implicar uma confusão na humanidade de Cristo e sua
divindade. Maria, ele questionava, e aqui fica evidente seu
"separatismo" antioquino - somente deve ser
chamada "Mãe do Homem" ou no máximo "Mãe do Cristo”, uma vez que
ela é mãe apenas da humanidade de Cristo, não de sua divindade. Cirilo, apoiado
pelo Concílio respondeu com o texto "E o Verbo se fez carne" (S. João
l, 4): Maria é a mãe de Deus, pois "ela deu à luz o Verbo de Deus feito
carne". A quem Maria deu à luz não era um homem vagamente unido a Deus,
mas uma única e íntegra pessoa, que é Deus e homem ao mesmo tempo. O nome
Theotokos salvaguarda da unidade da pessoa do Cristo: negar-lhe tal título
significa separar o Cristo Encarnado em dois, rompendo a ponte entre Deus e o
homem e erigindo na pessoa do Cristo um muro de separação. Assim podemos ver
que não apenas títulos de devoção estavam envolvidos em Efeso, mas a própria
mensagem de salvação. A mesma primazia que a palavra homoousios ocupa na
doutrina da Trindade, a palavra Theotokos tem na doutrina da Encarnação.
Alexandria teve outra vitória no segundo Concílio
realizado em Efeso em 449, contudo essa reunião, ao contrário de sua
predecessora de 431, não foi aceite pela totalidade da Igreja. Sentiu-se que o
partido de Alexandria havia ido dessa vez longe demais. Dióscoro e Eutiques,
levando a extremos os ensinamentos de Cirilo, sustentavam que em Cristo havia
não apenas uma unidade de pessoas, mas uma única natureza -
Monofisismo. Parecia a seus oponentes - embora os
monofisitas negassem que se tratava de mera interpretação de seus pontos de
vista - que tal modo de falar punha em perigo a totalidade da humanidade de
Cristo, a qual no monofisismo, tornou-se tão amalgamada com sua divindade que
poderia ser engolida como uma gota no oceano.
Apenas dois anos mais tarde, o Imperador convocou na
Calcedónia uma nova reunião de bispos, que a Igreja de Bizâncio e o ocidente
consideram como o quarto Concílio Geral. O pêndulo agora voltou em direcção aos
antioquinos. O Concílio reagiu tenazmente contra a terminologia monofisita e
afirmou que embora Cristo seja uma pessoa, existe nele, não uma, mas duas
naturezas. Os bispos aclamaram o Livro de São Leão o Grande, Papa de Roma
(morto em 461), no qual as duas naturezas estão claramente distinguidas. Em sua
proclamação de Fé eles afirmavam sua crença em "um e verdadeiro Filho,
perfeito na divindade e perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro
homem..., reconhecido em duas naturezas inconfundíveis, imutáveis,
indivisíveis, inseparáveis; a diferença entre as naturezas não é de forma
alguma removida por causa da união, ao contrário a propriedade peculiar de cada
natureza é preservada e ambas combinam em uma pessoa e em uma hipostase”. A Definição
de Calcedónia, pode-se notar, não é dirigida apenas aos monofisitas ("em
duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis), mas também aos seguidores de
Nestório ("um e verdadeiro Filho... indivisível, inseparável). Mas
Calcedónia foi mais do que uma derrota para a teologia de Alexandria: foi uma
derrota para os apelos de Alexandria de governadora suprema no Oriente. O
Cánone XXVIII de Calcedónia confirmou o Cánone III de Constantinopla,
assegurando à Nova Roma o próximo lugar em honra logo após a velha Roma. Leão
repudiou este cánone, mas o Oriente, desde então, reconheceu sua validade.
O Concílio também emancipou Jerusalém da jurisdição
de Cesareia e lhe deu o quinto lugar entre as grandes Sedes. O sistema mais
tarde conhecido entre os ortodoxos como Pentarquia agora estava completo, por
meio do qual cinco grandes Sedes da Igreja eram mantidas em honra especial e
uma dada ordem de precedência foi estabelecida entre elas: em ordem
decrescente: Roma; Constantinopla; Alexandria; Antioquia e Jerusalém.
Todas as cinco reivindicavam fundação apostólica. As
quatro primeiras eram as mais importantes cidades do Império Romano; a quinta
foi anexada por tratar-se do lugar onde Cristo sofreu na cruz e ressuscitou dos
mortos. O bispo de cada uma dessas cidades recebia o título de Patriarca. Os
cinco patriarcados dividiam entre eles em esferas de jurisdição todo o mundo
conhecido, com excepção de Chipre, a quem foi garantido independência pelo
Concílio de Éfeso e permaneceu independente desde então.
Quando se fala da concepção ortodoxa de Pentarquia
existem dois prováveis mal entendidos que devem ser evitados. Primeiro, o
sistema de Patriarcas e Metropolitas é um assunto relativo à organização
eclesiástica. Contudo, se olharmos a Igreja do ponto de vista não de ordem eclesiástica,
mas de direito divino, então temos que dizer que todos os bispos são
essencialmente iguais, por mais humilde ou nobre que seja a cidade que ele
preside. Todos os bispos participam igualmente na sucessão apostólica, todos
têm os mesmos poderes sacramentais e todos são divinamente indicados mestres da
fé. Se surge uma disputa sobre doutrina, não é suficiente aos Patriarcas
expressar sua opinião: todos os bispos das dioceses tem o direito de assistir
ao Concílio Ecuménico, de falar e de votar. O sistema da Pentarquia não reduz a
igualdade essencial de todos os bispos, nem priva cada comunidade local da
importância que Inácio lhes havia assegurado.
Em segundo lugar, os ortodoxos acreditam que entre
os cinco Patriarcas o Papa tem um lugar de destaque. A Igreja Ortodoxa não
aceita a doutrina
da infalibilidade papal, publicada nos decretos do Concilio Vaticano I de
1870, e ensinada hoje na Igreja Católica Apostólica Romana; mas ao mesmo tempo,
a Ortodoxia não nega à Santa e Apostólica Sé de Roma, uma primazia de honra,
junto com o direito (sob certas condições) de atender chamados de todas as
partes da cristandade. Notem que usamos a palavra "primazia”, não "supremacia."
Os ortodoxos consideram o Papa como o Bispo
"que preside no amor", para adaptar uma frase de Santo Inácio: o erro
de Roma, assim crêem os ortodoxos - foi tornar essa
primazia ou "presidência de amor" em supremacia de jurisdição e força
externa. Esta primazia que Roma goza tem sua origem em três factores. Primeiro,
Roma foi a cidade onde São Pedro
e São
Paulo foram martirizados e onde Pedro foi Bispo. A Igreja Ortodoxa
reconhece Pedro como o primeiro entre os apóstolos: ela não esquece os célebres
"textos Petrinos" nos Evangelhos (Mateus 16, 8-19; Lucas 22, 2; João
21, 5-17) - embora os teólogos ortodoxos não entendam
estes textos da mesma forma que os comentaristas católicos romanos modernos. E
enquanto muitos teólogos ortodoxos diriam que não apenas o Bispo de Roma, mas todos
os bispos são sucessores de Pedro, muitos deles ao mesmo tempo admitem que
o Bispo de Roma é sucessor de Pedro de uma forma especial.
Em segundo, a sé de Roma também possuía sua primazia
na posição ocupada pela cidade de Roma no Império: ela era a capital, a cidade
principal do mundo antigo, e como tal em certa medida ela continuou a ser mesmo
após a fundação de Constantinopla.
Em terceiro embora houvesse ocasiões em que o Papa
caísse em heresia, de um modo geral durante os oito primeiros séculos da
história da Igreja, a Sé Romana se destacava pela pureza de sua Fé: outros
patriarcados oscilavam durante as grandes disputas doutrinais, mas Roma
geralmente permanecia firme. Quando bastante pressionada na batalha contra os
heréticos, os homens sabiam que podiam confiar no Papa. Não apenas o Bispo de
Roma, mas todo bispo é indicado por Deus para ser um Mestre da Fé; seja porque
a Sé de Roma havia na prática ensinado a Fé com uma destacada lealdade a
verdade, era acima de tudo à Roma que os homens pediam orientação nos primeiros
séculos, da Igreja.
Mas como com os Patriarcas, também com o Papa; a
primazia assegurada por Roma não sobrepõe a igualdade essencial de todos os
Bispos. O Papa é o primeiro Bispo na Igreja - mas ele
é o primeiro entre iguais.
Éfeso e Calcedónia foram a base da Ortodoxia, mas
formam também um marco de ofensas. Os arianos se reconciliaram gradualmente e
não formaram um cisma duradouro. Mas até os dias de hoje existem cristãos
nestorianos que não aceitam as decisões de Efeso e monofisitas que não aceitam
as de Calcedónia. Os nestorianos em sua maioria ficaram fora do Império e se
ouviu muito pouco a respeito deles na história bizantina. Contudo, grande
número dos monofisitas, particularmente no Egipto e Síria, ficaram súbditos do
Imperador, e numerosos e mal sucedidos esforços foram feitos para trazê-los de
volta à comunhão com a Igreja de Bizâncio. Como acontece com frequência,
diferenças teológicas tornam-se mais amargas por tensões nacionais e culturais.
Egipto e Síria, ambos predominantemente não gregos na língua e cultura,
ressentiam-se do poder da grega Constantinopla, tanto em questões religiosas
como políticas. Assim, um cisma eclesiástico foi reforçado por separatismo
político. Não fossem por tais factores teológicos ambos os lados poderiam
talvez ter alcançado uma compreensão teológica após Calcedónia. Estudiosos
modernos estão inclinados a pensar que a diferença entre monofisitas e
calcedónios foi basicamente de terminologia: os dois partidos usavam linguagem
diferente, mas intimamente ambos estavam preocupados em manter as mesmas
crenças.
A Definição de Calcedónia foi suplementada pelos
dois concílios seguintes, ambos realizados em Constantinopla. O quinto Concílio
Ecuménico (553) reinterpretou os decretos de Calcedónia de um ponto de vista
alexandrino e procurou explicar em termos mais construtivos do que Calcedónia
havia usado, como as duas naturezas de Cristo se uniram para formar uma única
pessoa. O sexto Concílio Ecuménico (680-681) condenou a heresia
monotelista, uma nova forma de monofisismo. Os monotelistas argumentavam
que embora Cristo tenha duas naturezas e sendo Ele uma única pessoa, ele tem
apenas uma vontade. O Concílio respondeu que se Ele tem duas naturezas, então
Ele deve ter duas vontades. Os monotelistas como os monofisitas depreciavam a
totalidade da humanidade de Cristo, uma vez que humanidade sem vontade humana
seria incompleta, uma mera abstracção. Uma vez que Cristo é verdadeiro homem e
verdadeiro Deus, Ele deve ter uma vontade humana assim como uma divina.
Durante os cinquenta anos antes do encontro do sexto
Concílio, Bizâncio confrontou um repentino e alarmante acontecimento: o
surgimento do Islão. O facto mais surpreendente sobre a explosão do Islão é sua
velocidade. Quando o Profeta morreu em 632, sua autoridade pouco se estendia
além de Hejaz. Mas em quinze anos seus seguidores árabes haviam tomado a Síria,
Palestina e Egipto; nos próximos cinquenta anos eles estavam nos muros de
Constantinopla e quase capturaram a cidade; em cem anos haviam varrido o Norte
da África, avançado através da Espanha, e forçado a Europa ocidental a lutar
por sua vida na batalha de Poitiers. As invasões árabes foram chamadas
"uma explosão centrífuga, dirigindo em todas as direcções pequenos corpos
de cavaleiros montados, em guerra de comida, saque e conquista. Os antigos
impérios não estavam em condições de resistir a eles. O cristianismo sobreviveu,
mas com dificuldades. Os bizantinos perderam suas possessões orientais e os
três Patriarcados de Alexandria, Antioquia e Jerusalém passaram para controle
dos infiéis; com o Império Cristão do Oriente, o Patriarcado de Constantinopla
estava agora sem rival. Desde então, Bizâncio nunca mais se viu livre dos
ataques dos maometanos e embora tenha resistido mais oito séculos ao final ela
sucumbiu.
As disputas referentes à Pessoa do Cristo não
cessaram com o Concílio de 681, mas foram expandidas de forma diferente nos
séculos oitavo e nono: a luta centrada nos Santos Ícones, as pinturas de
Cristo, da Mãe de Deus, e dos Santos,
que eram mantidas e veneradas nas igrejas e nas casas. Os iconoclastas
ou destruidores de ícones, desconfiados de qualquer arte religiosa que
representasse seres humanos ou Deus, exigiam a destruição dos ícones; o partido
oposto, os defensores ou veneradores de ícones, defendiam vigorosamente o lugar
dos ícones na vida da Igreja. A luta não foi apenas um conflito entre duas
concepções de arte cristã. Questões mais profundas estavam envolvidas aí, o
carácter da natureza humana de Cristo, a atitude cristã em relação ao assunto,
o significado verdadeiro da redenção cristã.
Os iconoclastas podem ter sido influenciados por
conceitos dos judeus e islâmicos, e é significativo que três anos antes da
primeira erupção do iconoclasmo no Império Bizantino, o califa maometano Yezid
ordenou a remoção de todos os ícones de seus domínios, mas o iconoclasmo não
foi simplesmente importado de fora; mesmo no cristianismo sempre existiram
posições "puritanas”, que condenavam os ícones porque parecia haver nas
imagens uma latente idolatria. Quando os imperadores isaurianos atacaram os
ícones, eles encontravam bastante apoio dentro da Igreja. Exemplo típico dessa
posição puritana é a atitude de São Epifânio de Salamis (315-403), que ao
encontrar numa igreja do interior da Palestina uma cortina de pano com figura
de Cristo, rasgou-as com indignação. Esta atitude foi sempre violenta na Ásia
Menor, e alguns afirmam que o movimento iconoclasta foi um protesto asiático
contra a tradição grega. Mas há dificuldades em tal ponto de vista; a
controvérsia foi realmente uma divisão dentro da tradição grega.
A controvérsia iconoclasta que durou por volta de
120 anos se dá em duas fases. O primeiro período iniciou-se em 726 quando Leão
III começou seu ataque aos ícones, e terminou em 780 quando a Imperatriz Irene
suspendeu a perseguição. A posição dos defensores foi mantida pelo sétimo e
último Concílio Ecuménico (787), que se reuniu (como o primeiro) em Nicéia.
Ícones, o concílio proclamou, devem ser mantidos nas Igrejas e honrados com a
mesma relativa veneração como outros símbolos materiais, como "a cruz
preciosa e vivificante" e o Livro dos Evangelhos. Um novo ataque aos
ícones, começou, com Leão V, o Arménio, em 815, e continuou até 843 quando os
ícones foram novamente reintegrados, desta vez permanentemente por outra
Imperatriz, Teodora. A vitória final das Santas Imagens em 843 é conhecida como
"Triunfo da Ortodoxia”, e é comemorada com o ofício especial celebrado no
"Domingo da Ortodoxia," o primeiro domingo da Grande Quaresma.
Durante este ofício a Fé verdadeira - Ortodoxia - é
proclamada, seus defensores são honrados e anátemas são declarados a todos os
que atacam os santos ícones ou os Concílios Ecuménicos: A todos aqueles que
rejeitam os Concílios dos Santos
Padres e suas tradições as quais estão de acordo com a revelação divina as
quais a Igreja Católica Ortodoxa piamente mantém, ANÁTEMA! ANÁTEMA! ANÁTEMA!
O maior defensor dos ícones no primeiro período foi São
João Damasceno (675?-749), no segundo São Teodoro Estudita (759-826). João
pode trabalhar mais livremente porque ele trabalhava em território islâmico,
fora do alcance do governo bizantino. Não foi a última vez que o Islão agiu,
sem intenção, como protector da ortodoxia. Uma das características mais
distintas da ortodoxia é a posição que ela atribui aos ícones. Uma igreja
ortodoxa de hoje é cheia deles: dividindo o santuário da nave existe uma
parede, a iconostase totalmente coberta de ícones, enquanto outros ícones são
colocados em sacrários em volta da igreja; e as paredes são cobertas por ícones
às vezes em fresco ou mosaico. Um ortodoxo prostra-se em frente desses ícones,
beija-os e acende velas na frente deles; eles são incensados pelo padre e
levados
Devemos considerar primeiro a carga de idolatria que
os iconoclastas lançaram contra os defensores dos ícones; e então o valor
positivo dos ícones como meio de instrução; e finalmente sua importância
doutrinal. A questão da idolatria. Quando um ortodoxo beija um ícone ou se
prostra diante dele, ele não está cometendo idolatria. O ícone não é um ídolo,
mas um símbolo; a veneração feita às imagens é directa, não dirigida à pedra,
madeira e tinta, mas dirigida à pessoa retratada. Isto foi salientado por
Leôncio de Nápoles (morto cerca de 650) algum tempo antes da controvérsia
iconoclasta: Não nos prostramos diante da natureza da madeira, mas
reverenciamos e nos prostramos diante dele que foi crucificado na Cruz...
Quando dois eixos da Cruz são postos juntos adoro a figura do Cristo que foi
crucificado na Cruz, mas se os dois eixos são separados, jogo-os fora e os
queimo. Pelo facto dos ícones serem apenas símbolos, os ortodoxos não os
adoram, mas os reverenciam e veneram. João Damasceno distinguiu cuidadosamente
entre a honra relativa ou veneração dedicada aos símbolos materiais e a
adoração devida somente a Deus.
Os ícones, dizia Leôncio, são "livros abertos a
nos lembrarem de Deus": um dos meios empregados pela Igreja para ensinar a
Fé. Aquele que se ressente de um aprendizado ou de tempo para estudar obras de
teologia, basta entrar na igreja e ver desdobrados diante de si nas paredes os
mistérios da religião Cristã. Se um pagão te pedir para lhe mostrar sua Fé,
diziam os defensores, leve-o a uma igreja e ponha-o diante dos ícones.
Chegamos agora ao ponto crucial da disputa
iconoclasta. Consideremos que os ícones não são idolatrados; que são úteis para
a instrução; mas são eles além de permitidos necessários também? É essencial
ter ícones? Os defensores assim o afirmavam, pois os ícones salvaguardam uma
doutrina total e adequada da Encarnação. Os iconoclastas e os defensores de
ícones concordavam que Deus não pode ser representado em sua natureza eterna:
"ninguém jamais viu a Deus" (João l, 18). Mas, os defensores
continuavam: a Encarnação tornou possível uma arte religiosa representacional:
Deus pode ser retratado porque ele tornou-se homem e se fez carne. Imagens
materiais, retrucava João Damasceno, podem ser feitas
dele que tomou um corpo material:
O antigo Deus, o incorpóreo, o infinito nunca foi
retratado. Mas agora que Deus nasceu na carne e viveu entre os homens, faço uma
imagem do Deus que pode ser visto. Não adoro a matéria, mas o Criador da
matéria, que por minha causa tornou-se material e condescendeu habitar na
matéria, que através da matéria realizou minha salvação. Não cessarei de
venerar a matéria através da qual minha salvação foi realizada.
Os iconoclastas ao repudiarem todas as
representações de Deus, falharam em considerar a
Encarnação na sua essência. Caíram, como muitos puritanos já haviam feito, numa
forma de dualismo. Considerando a matéria como algo sujo, queriam a religião
livre de todo contacto com o que é material; uma vez que achavam que o que é
espiritual deve ser não material. Contudo isto significa trair a Encarnação,
não permitindo espaço para a humanidade de Cristo, para seu corpo; significa
esquecer que o corpo humano, tal qual sua alma, precisa ser salvo e
transfigurado. A controvérsia iconoclasta é, pois, estritamente ligada às
disputas iniciais a respeito da pessoa do Cristo. Não foi apenas uma
controvérsia sobre arte religiosa, mas sobre a Encarnação e a salvação do
homem.
Deus tomou um corpo material, provando desta forma
que a matéria pode ser redimida: "O Verbo ao se tornar carne, deificou a
carne”, disse João Damasceno. Deus "deificou" a matéria, tornando-a
"portadora do espírito"; e se a carne tornou-se um veículo do
Espírito, então, pode ser pintada ainda que de maneira diferente. A doutrina
ortodoxa dos ícones é ligada a doutrina ortodoxa de que toda criação de Deus,
material e espiritual, será redimida e glorificada.
Nas palavras de Nicholas Zernov (1898-1980) - o que ele diz dos russos é verdadeiro para todos os
ortodoxos:
Os ícones eram para os russos não apenas pinturas.
Eram manifestações dinâmicas da força espiritual do homem de redimir a criação por
meio de beleza e arte. As cores e linhas [dos ícones] não pretendiam imitar a
natureza; os artistas intensionavam demonstrar que homens, animais e plantas, e
todo o cosmos, podiam ser salvos de seu actual estado de degradação e
restituídos a sua verdadeira "imagem”. Os ícones eram uma promessa da
vitória vindoura da criação redimida sobre a decaída... A perfeição artística
de um ícone não era apenas um reflexo da glória celestial, era um exemplo
concreto de matéria restituída à sua beleza e harmonia original, e servindo
como um veículo do Espírito. Os ícones eram parte do cosmos transfigurado.
Como João Damasceno definiu: “O ícone é a canção do
triunfo, é uma revelação, e um monumento permanente à vitória dos santos e à
desgraça dos demónios”.
A conclusão da disputa iconoclasta, o encontro do
Sétimo Concílio Ecuménico, o Triunfo da Ortodoxia em 843 -
marcam o final do segundo período na história ortodoxa, o período dos Sete
Concílios. Estes Sete Concílios são de imensa importância para a Ortodoxia.
Para os membros da Igreja Ortodoxa, seu interesse não é meramente histórico,
mas contemporâneo; eles são considerados não apenas pelos estudiosos e pelo
clero, mas por todos os fiéis. "Mesmo camponeses simples”, disse Dean
Stanley, "para quem, na sua correspondente classe social na Espanha ou na
Itália os nomes de Constância ou Trento seriam provavelmente desconhecidos,
estão bastante cônscios que sua igreja repousa sobre a base dos Sete Concílios,
e tem esperança que viverão ainda para ver um oitavo Concílio Ecuménico, no
qual os mal entendidos do tempo serão esclarecidos." Os ortodoxos
frequentemente se denominam "a Igreja dos Sete Concílios." Isto não
significa que a Igreja Ortodoxa tenha cessado de pensar criativamente deste
787. Mas vêem no período dos Concílios a grande era da teologia; e logo após a
Bíblia, são os Sete Concílios que a Igreja Ortodoxa considera como sua
referência e guia ao buscar soluções para os novos problemas que surgem a cada
geração.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)