SÃO PAULO, APÓSTOLO

De São Paulo mesmo sabemos que nasceu em Tarso, em
Silícia (Actos, XXI, 39), de um pai que era cidadão romano (Actos, XXII, 26-28;
cf. XVI, 37), no seio de uma família na qual a piedade era hereditária (II
Tim., I, 3) e muito ligada às tradições e observâncias farisaicas (Fil., III, 5-6). São Jerónimo nos diz, não se sabe com que
razões, que seus pais eram nativos de Gischala, uma pequena cidade da Galileia
e que o levaram a Tarso quando Gischala foi tomada pelos romanos ("De vir.
ILL.", v; "In epist.
ad Fil.", 23). Este
último detalhe é certamente um anacronismo mas as origens galileias da família
não são em absoluto improváveis. Dado que pertencia à tribo de Benjamin, lhe
deram o nome de Saul (ou Saulo) que era comum nesta tribo em memória do
primeiro rei dos judeus. (Fil., III, 5). Enquanto
cidadão romano também levava o nome latino Paulo. Para os judeus daquele tempo
era bastante usual ter dois nomes, um hebreu e outro latino ou grego entre os
quais existia com frequência uma certa consonância e que justapunham no modo
usado por São Lucas (Actos, XIII, 9: Saulos ho kai Paulos). Ver neste ponto Deissmann, "Bible Studies" (Edinburgh, 1903, 313-17.) Foi natural que, ao inaugurar seu
apostolado entre os gentios, Paulo usasse seu nome romano, especialmente porque
o nome de Saulo tinha um significado vergonhoso em grego. Posto que todo
judeu que se respeitasse havia de ensinar a seu filho um ofício, o jovem Saulo
aprendeu a fazer tendas de lona (Actos, XVIII, 3) ou melhor dito a fazer a lona
das tendas (cf. Lewin, "Life of
St. Paul", I, London,
1874, 8-9). Era ainda muito jovem quando foi enviado a Jerusalém para receber
uma boa educação na escola de Gamaliel (Actos, XXII, 3). Parte de sua família
residia provavelmente na cidade santa visto que mais tarde se faria menção de
uma irmã cujo filho lhe salvaria a vida (Actos, XXIII, 16). A partir deste
momento resulta impossível seguir sua pista até que tomou parte no martírio de
Santo Estêvão (Actos, VII, 58-60; XXII, 20). Nesse momento o qualificam de
"jovem" (neanias), mas esta era uma apelação elástica que poderia
aplicar-se a qualquer entre vinte e quarenta anos. Lemos nos actos dos
apóstolos três relatos da conversão de São Paulo. (IX, 1-19; XXII, 3-21; XXVI,
9-23) que apresentam ligeiras diferenças que não são difíceis de harmonizar e
que não afectam nada a base do relato, perfeitamente idêntica em substância. Verse J. Massie, "The Conversion of St. Paul" em "The
Expositor", 3ª série, X, 1889, 241-62. Sabatier de acordo com os críticos mais
independentes disse (L'Apotre Paul, 1896, 42):
"Estas diferenças não podem em absoluto alterar o facto, o objecto narrado
é extremamente remoto não tratam nem sequer das circunstâncias que rodearam o
milagre mas sim com as impressões subjectivas que os companheiros de São Paulo
receberam nessas circunstâncias…". Utilizar essas diferenças para negar o
carácter histórico do facto é fazer violência ao texto adoptando uma atitude
arbitrária. Todos os esforços feitos para explicar a conversão de São Paulo sem
recorrer ao milagre fracassaram. As explicações naturalísticas se reduzem a
duas: ou São Paulo creu verdadeiramente ver a Cristo enquanto sofria uma
alucinação ou creu vê-lo somente através de uma visão espiritual que a
tradição, recolhida nos Actos dos Apóstolos, converteu logo em visão material.
Renan explica tudo por uma alucinação devida à doença, e causada por uma
combinação de causas morais como a dúvida, o remorso, o temor, e algumas causas
físicas como a oftalmía, a fadiga, a febre, a transição rápida do deserto
tórrido para os jardins frescos de Damasco, quem sabe em meio a uma tormenta
repentina acompanhada de raios e relâmpagos. Esta combinação múltipla teria
produzido, segundo Renan, uma comoção cerebral com fase de delírio que São
Paulo tomou de boa fé como aparição de Cristo. Os outros partidários da
explicação natural evitam a palavra alucinação mas caem, cedo ou tarde, na
explicação de Renan a qual fazem mais complicada. Por exemplo Holsten, para o
qual a visão de Cristo é simplesmente a conclusão de uma série de silogismos
pelos quais Paulo se persuadiu a si mesmo de que Cristo havia verdadeiramente
ressuscitado. Também Pfleiderer, para quem a imaginação desempenha um papel
mais importante: "Um temperamento nervoso, alterável; uma alma violentamente
agitada pelas mais terríveis dúvidas; uma fantasia do mais vívido, cheia das
terríveis cenas de perseguição por um lado, e por otro com a imagem ideal do
Cristo celeste; a proximidade de Damasco que implicava a urgência da decisão, a
intransigência que leva à solidão, o calor cegante e dolorosíssimo do deserto.
De facto, tudo isso combinado, produziu um estado de êxtase no qual a alma
pensa ver as imagens e os conceitos que violentamente a agitam como se fossem
fenómenos do mundo externo" (Lectures on the influence
of the Apostle
Paul on the development of Christianity,
1897, 43). Citamos Pfleiderer palavra por palavra porque sua explicação
"psicológica" se considera a melhor que já se desenvolveu E no
entanto, se vê facilmente que é insuficiente e inclusive totalmente
contraditória com o o documento escrito dos Actos como com o próprio
testemunho expresso de São Paulo. (1) Paulo está seguro de ter
"visto" a Cristo como o fizeram outros apóstolos (I Cor., xi, 1); ele mesmo declara que Cristo lhe "apareceu"
(I Cor., XV, 8) como a Pedro, Tiago ou aos doze depois da sua ressurreição. (2)
Ele sabe bem que sua conversão não é fruto de nenhum raciocínio humano, mas de
uma mudança imprevista, repentina e radical devido à graça omnipotente (Gal., I, 12-15; I Cor., XV, 10). (3) É falso atribuir
dúvidas, perplexidades ou remordimentos antes de sua conversão. Paulo foi
detido por Cristo quando sua fúria alcançava o mais alto estágio (Actos, IX,
1-2); perseguia à Igreja "com ciúme" (Fil.,
III, 6), e foi merecedor da graça porque actuou com "ignorância em sua
crença de boa fé" (I Tim., I, 13). Todas as explicações sociológicas ou
não, carecem de valor ante estas afirmações, já que todos supõem que a causa de
sua conversão foi sua fé em Cristo enquanto que, segundo os testemunhos
concordantes dos Actos e das Epístolas, foi a visão de Cristo o que motivou a
sua fé. Depois da sua conversão, baptismo
e de sua cura milagrosa Paulo começou a predicar aos judeus (Actos, IX, 19-20).
Depois se retirou a Arábia, provavelmente à região sul de Damasco. (Ga, I, 17), indubitavelmente mais para meditar as
escrituras que para predicar. Em seu retorno a Damasco, as intrigas dos judeus
o obrigaram a fugir de noite (II Cor., XI, 32-33; Actos, ix,
23-25). Foi a Jerusalém a ver a Pedro (Ga. 1, 18),
mas ficou somente quinze dias porque as ciladas dos gregos ameaçavam a sua
vida. A continuação passou a Tarso e lá fica cego por seus anos (Actos, IX,
29-30; Ga, i, 21). Barnabé foi em sua busca e o
trouxe a Antioquia donde trabalharam juntos durante um ano com um apostolado
frutífero. (Actos, XI, 25-26). Também juntos foram enviados a Jerusalém a levar
as esmolas para os irmãos de lá com ocasião do período de fome antecipada por
Agabo (Actos, XI, 27-30). Não parecem ter encontrado aos apóstolos aí desta
vez, já que se encontravam dispersos por causa da perseguição de Herodes. Este
período de doze anos (45 - 57) foi o mais frutífero e activo da sua vida. Compreende
três expedições apostólicas das quais Antioquia foi sempre o ponto de partida e
que, invariavelmente, terminaram com uma visita a Jerusalém.
(1) Primeira missão (Actos dos apóstolos, xiii,
1-xiv, 27)
Enviado pelo Espírito Santo para a evangelização dos
gentios, Barnabé
e Saulo embarcaram com destino a Chipre, predicaram na sinagoga de Salamina,
cruzaram a ilha de leste a oeste seguindo sem dúvida a costa sul e chegaram a
Pafos, residência do pró-cônsul Sérgio Paulo onde uma mudança repentina
ocorreu. Depois da conversão do pró-cônsul romano, Saulo, repentinamente
convertido em Paulo, é citado por São Lucas antes de Barnabé e assume
notavelmente a liderança da missão que até então vinha sendo exercida por
Barnabé. Os resultados desta mudança são rápidos e evidentes. Paulo compreende
que ao depender Chipre da Síria e Silícia, a ilha inteira seria convertida
quando as duas províncias romanas abraçassem a fé de Cristo. Escolheu então a
Ásia Menor como campo de seu apostolado e embarcou em Perge de Panfília, onze
quilómetros acima do porto de Cestro. Foi quando João Marcos, primo de Barnabé,
desanimado talvez pelos ambiciosos projectos do apóstolo, abandonou a expedição
e voltou à Jerusalém, enquanto Paulo e Barnabé trabalhavam sozinhos entre as
árduas montanhas de Psídia, infestadas de bandidos e atravessaram profundos
precipícios. Seu destino era a colónia romana de Antioquia, situada a sete dias
de viagem de Perge. Aqui, Paulo falou sobre o destino divino de Israel e do
envio providencial do Messias, um discurso que São Lucas reproduz em substância
como exemplo de uma predicação na sinagoga. (Actos, XIII, 16-41). A estância
dos dois missionários em Antioquia foi longa o bastante para que a palavra do
Senhor fosse conhecida através de todo país. (Actos, XIII, 49). Quando os
judeus conseguiram com suas intrigas um decreto de desterro, prosseguiram rumo
a Icônio, distante três ou quatro dias de viagem, onde encontraram a mesma
perseguição de parte dos judeus e a mesma acolhida de parte dos gentios. A
hostilidade dos judeus os forçou a buscar refúgio na colónia romana de Listra,
há aproximadamente 25 quilómetros de distância. Aqui os judeus
armaram ciladas para Paulo e, após apedrejá-lo o deixaram como morto, enquanto
ele conseguia uma vez mais escapar buscando desta vez refúgio em Derbe, situada
por volta de 60
quilómetros da província da Galácia. Depois de completar
seu circuito, os missionários voltaram sobre seus passos para visitar aos novos
cristãos, ordenaram alguns sacerdotes em cada uma das Igrejas fundadas por eles
e depois voltaram à Perge, onde se detiveram a predicar novamente o Evangelho,
enquanto esperavam embarcar a Atalia, um porto a dezoito quilómetros de lá. Ao
regressar à Antioquia de Síria, depois de uma ausência que durou três anos,
foram recebidos com mostras de gozo e acção de graças porque Deus lhes havia
aberto as portas da fé ao mundo dos gentios. O problema do estatuto dos gentios
na Igreja começou a sentir-se então em toda sua magnitude. Alguns cristãos de
origem judia que vinham de Jerusalém reclamaram que os gentios deveriam ser
submetidos à circuncisão e tratados como os judeus tratavam aos prosélitos.
Contra esta opinião, Paulo e Barnabé protestaram e se decidiu convocar uma
reunião em Jerusalém para resolver o assunto. Nesta assembleia, Paulo e Barnabé
representaram a comunidade de Antioquia. Pedro defendeu a liberdade dos
gentios, Santiago insistiu no contrário, pedindo ao mesmo tempo que se
abstivessem de algumas das coisas que mais horrorizavam aos judeus. Ao fim se
decidiu que os gentios estavam isentos da lei de Moisés primeiramente. Em
segundo lugar, que os cristãos da Síria e Silícia deveriam abster-se de tudo
que fosse sacrificado aos ídolos, do sangue, dos animais e da fornicação. Em
terceiro lugar, que sua decisão não era promulgada em virtude da Lei de Moisés
mas dada em nome do Espírito Santo, o que significava o triunfo das ideias de
São Paulo. A restrição imposta aos gentios convertidos procedentes da Síria e
da Silícia não se aplicava às suas Igrejas e Tito, seu companheiro, não foi
apremiado a circuncisar-se, apesar dos protestos dos judaizantes (Ga. ii, 3-4). Aqui se assume que Ga 2 e Act 15, relata o mesmo fato posto que, de um lado,
os protagonistas são os mesmos Paulo e Barnabé, e por outro Pedro e Tiago; a
discussão é a mesma, a questão da circuncisão dos gentios; a cena idêntica à de
Antioquia e Jerusalém, e a mesma data: por volta do ano 50 d.C.; e apenas um só
resultado: a vitória de Paulo sobre os judaizantes. Entretanto a decisão não
saiu adiante sem dificuldades. O assunto não dizia respeito somente aos gentios
e, enquanto que estes eram exonerados da Lei de Moisés, se declarava que ao
mesmo tempo sería mais meritório e mais perfeito que
eles a observassem, dado que o decreto parece ter comprazido aos judeus
prosélitos de segunda geração. Além disto os cristãos de origem judia, não
haviam sido incluídos no veredicto, podiam seguir sendo considerados como
ligados devido à observância da lei. Esta foi a origem da disputa que surgiu
imediatamente depois em Antioquia entre Pedro e Paulo. Este último ensinou
abertamente que a lei tinha sido abolida para os próprios judeus. Pedro não
pensava de outro modo, porém considerou oportuno evitar a ofensa aos
judaizantes e assim impedi-los que comessem com os gentios que não observassem
a as cláusulas da lei. Assim, influenciou moralmente aos gentios a viver como viviam
os judeus, Paulo fez ver que esta restrição mental e este oportunismo
preparavam o caminho de futuros mal-entendidos e conflitos, e que, inclusive,
tinha então, e teria nefastas consequências. Sua forma de relatar estes
incidentes não deixa a menor dúvida de que Pedro foi persuadido por seus
argumentos. (Ga, II, 11-20).
(2) Segunda missão (Actos, xv,
36-xviii, 22)
O princípio da segunda missão se caracterizou por
uma discussão a propósito de Marcos, que Paulo rechaçou como companheiro de
viagem. Assim pois, Barnabé partiu com Marcos de Chipre e Paulo escolheu a
Silas ou Silvano, um cidadão romano como ele e membro influente da Igreja de
Jerusalém, e partiu para Antioquia a fim de levar o decreto do conselho
apostólico. Os dois missionários foram primeiro de Antioquia a Tarso, com um
alto no caminho para promulgar o decreto do primeiro Concílio de Jerusalém, e
logo foram de Tarso a Derbe através das portas da Silícia, dos desfiladeiros de
Tarso e das planícies de Licaônia. A visita às igrejas fundadas na primeira
missão se realizou sem incidentes se não é a propósito da eleição de Timóteo,
que os apóstolos em Listra persuadiram para que se circunsisassem para melhor
chegar às colónias de judeus, abundantes nesta área. Foi provavelmente em
Antioquia de Psídia, por mais que os Actos não mencionem tal lugar, onde o
itinerário da missão foi mudado pela intervenção do Espírito Santo. Paulo
pensou em entrar na província da Ásia pelo vale de Meandro, o qual permitiria
um só dia de viagem, e no entanto, passaram através da Frígia e da Galácia pois
o Espírito proibiu-lhes de predicar a palavra de Deus na Ásia (Actos, XVI, 6).
Estas palavras (ten phrygian
kai Galatiken choran) podem ser interpretadas de diversas maneiras,
dependendo se faz referência aos Gálatas do norte ou do sul (veja GÁLATAS).
Seja como for, os missionários tiveram que viajar até o norte na região da
Galácia chamada assim em propriedade e cuja capital era Pesinonte, e a única
questão pendente era se predicavam aí ou não. Não pensavam em fazê-lo embora
saibamos que a evangelização dos Gálatas foi devida a um acidente, o da doença
de São Paulo (Ga, IV, 13); o que encaixa muito bem se
nos referimos aos gálatas do norte. Em todo caso, os missionários depois de
alcançar a Misia Superior (kata Mysian),
tentaram chegar à rica província de Bitinia, que se
extendia diante deles mas o Espírito Santo os impediu (Actos, XVI, 7). Assim
atravessaram Misia sem parar para predicar (parelthontes)
e chegaram à Alexandria de Trôade, onde a vontade de Deus lhes foi revelada
pela visão de um macedónio que os chamava pedindo auxílio para seu país. Paulo
continuou a utilizar sobre solo europeu os métodos de predicação que tinha
utilizado desde o princípio. Até onde foi possível concentrou seus esforços em
metrópoles desde as quais a fé se estenderia até cidades de menos destaque e,
finalmente às áreas rurais. Onde encontrava uma sinagoga, começava a predicar
nela aos judeus e aos prosélitos que estavam dispostos a escutá-lo. Quando a
ruptura com os judeus era irreparável, o que ocorreria más cedo ou mais tarde,
fundava uma nova igreja com seus neófitos como núcleo. Permanecia então na
mesma cidade a não ser que uma perseguição se desatasse, normalmente por causa
das intrigas dos judeus. Existiam, entretanto, algumas variantes do plano. Em
Filipo, onde não havia sinagoga, a primeira prédica ocorreu em um posto chamado
proseuche o que fez com que os gentios tomassem o fato como motivo de
perseguição. Paulo e Silas, acusados de alterar a ordem pública, receberam
golpes de paus, foram jogados em uma prisão e logo exilados. Porém em Tessalónica,
e Beréia, onde se refugiaram depois de estar em Filipo, as coisas saíram
conforme o plano previsto. O apostolado de Atenas foi absolutamente
excepcional. Aqui não havia o problema dos judeus ou da sinagoga, e Paulo, em
contra do seu costume, estava só. (I Thes., III, 1). Pronunciou
um discurso diante do areópago do qual se conserva um resumo nos Actos dos
Apóstolos (xvii, 23-31) como modelo em seu género.
Parece ter deixado a cidade de grado, sem ter sido forçado por causa de uma
perseguição. A missão de Corinto, por outro lado, pode ser considerada como
típica. Paulo predicou na sinagoga todos os sábados e quando a oposição
violenta dos judeus atentaram contra ele em vão; foi capaz de resistir graças à
atitude, pelo menos imparcial, do pró-cônsul Gálio. Finalmente, decidiu ir-se a
Jerusalém de acordo com um voto feito talvez em um momento de perigo. Desde
Jerusalém, de acordo com seu costume, voltou à Antioquia. As duas epístolas aos
tessalonicenses se escreveram durante os primeiros meses da estadia em Corinto. Veja
TESSALONICENSES.
(3) TERCEIRA missão (Actos, xviii, 23-xxi,26)
O destino da terceira viagem de Paulo foi
evidentemente Éfeso, onde Aquila e Priscila o esperavam. Ele tinha prometido
aos efésios voltar para evangelizá-los si tal fosse a vontade de Deus (Actos,
XVIII, 19-21) e o Espírito Santo não se opôs mais à sua entrada em Ásia. Assim,
depois de uma breve visita a Antioquia foi-se através da Galácia e da Frígia
(Actos, XVIII, 23) e passando através das regiões da "Ásia Central"
chegou à Éfeso (XIX, 1). Sua maneira de proceder permaneceu intacta. Para prover
seu sustento e não ser uma carga para os fiéis, teceu todos os dias durante
muitas horas muitas tendas, o que não o impediu de predicar o Evangelho. Como
de costume, começou na sinagoga onde teve êxito durante os primeiros meses.
Depois ensinou diariamente em uma sala colocada à sua disposição por um tal
Tirano "desde a hora quinta até a décima" (das onze da manhã às
quatro da tarde) de acordo com a tradição interessante do "Codex
Bezaar"(Actos, XIX, 9). Assim viveu dois anos de
tal forma que os habitantes da Ásia, judeus e gregos, ouviram a palavra de
Deus. (Actos, XIX, 20). Claro que houveram provações e obstáculos que superar.
Alguns destes obstáculos surgiram da inveja dos judeus, que tentaram inutilmente
imitar os exorcismos de Paulo, outros vinham da superstição dos pagãos,
particularmente acentuada em Éfeso. Entretanto, triunfou de modo tão claro que
os livros de superstição que foram queimados tinham o valor de 50.000 moedas de
prata (uma moeda correspondia aproximadamente a um dia de trabalho). Desta vez,
a perseguição foi devida aos gentios e por motivos interessados. Os progressos
do cristianismo arruinaram a venda das pequenas reproduções do templo de Diana
e as da própria deusa, estatuetas muito compradas pelos peregrinos, e um certo
Demétrio, a frente dos artesãos, incitou a plebe en
contra de São Paulo. São Lucas descreveu com realismo e emoção a cena, levada
em seguida ao teatro. (Actos, XIX, 23-40). O apóstolo teve que render-se à
tormenta. Depois de uma estância de dois anos e meio, ou talvez mais, em Éfeso
(Actos, XX, 31: treitian), partiu para a Macedónia e de lá para Corinto, onde
passou o inverno. Sua intenção era de seguir rumo à Jerusalém na primavera, sem
dúvida para passar a Páscoa, mas ao saber que os judeus haviam planejado
atentar contra sua vida, não lhes deu oportunidade de concretizá-lo por viajar
por mar, regressando à Macedónia. Muitos discípulos, divididos em dois grupos,
o acompanharam ou o esperaram em Trôade. Entre outros se encontravam Soprater de
Beréia, Aristarco e Segundo de Tessalónica, Gayo de Derbe, Timóteo, Tíquico e
Trófimo de Ásia e finalmente Lucas, o historiador dos Actos, nos da todos os
detalhes da viagem: Filipo, Trôade, Assos, Mitiline, Jíos, Samos, Mileto, Cos, Rodas, Pátara, Tiro, Ptolemaida, Cesaréia e Jerusalém. Poderíamos citar ainda
três fatos notáveis: em
Trôade Paulo ressuscitou ao jovem Êutico que havia caído da
janela de um terceiro piso enquanto Paulo predicava sendo a noite já avançada.
Em Mileto pronunciou um discurso emotivo que arrancou as lágrimas aos anciãos
de Éfeso. (Actos, XX, 18-38). Em Cesaréia o Espírito Santo antecipa pela boca
de Agabo que seria preso, fato que não o fez desistir de ir a Jerusalém. Quatro
das maiores epístolas de São Paulo foram escritas durante esta terceira missão:
a primeira aos Coríntios desde Éfeso, por volt da Páscoa antes de sua saída da
cidade; a segunda aos coríntios desde Macedónia durante o verão ou outono do
mesmo ano; aos romanos desde Corinto na primavera seguinte; a data da epístola
aos gálatas é objecto de controvérsia. Das muitas questões a propósito da
ocasião ou da linguagem das cartas ou da situação dos destinatários das mesmas,
veja CORÍNTIOS, EPÍSTOLA AOS; GÁLATAS, ESPÍSTOLA AOS; ROMANOS, EPÍSTOLA AOS.
Quando os judeus acusaram em falso a Paulo de ter introduzido no templo os
gentios, a multidão maltratou a Paulo, e, coberto de correntes, o jurista
Lisias o mandou à prisão da fortaleza Antónia. Quando ele soube que os judeus
haviam conspirado para matar ao prisioneiro, o enviou sob forte escolta à
Cesaréia, que era a residência do procurador Félix. Paulo não teve dificuldades
para esclarecer as contradições dos que o acusavam mas, ao negar-se a comprar
sua liberdade, Félix o manteve algemado durante dois anos e inclusive o jogou
na prisão para dar gosto aos judeus em espera do seu sucessor, o procurador
Festo. O novo governador quis enviar o prisioneiro à Jerusalém para que fosse
julgado na presença dos seus acusadores, porém Paulo, que conhecia
perfeitamente as artimanhas dos seus inimigos, apelou a César. Em consequência,
esta causa só podia ser despachada em Roma. Este período de cativeiro se caracteriza
por cinco discursos do Apóstolo: o primeiro foi pronunciado em hebreu nas
escadas da fortaleza Antónia ante uma ameaçadora multidão; Paulo relatou sua
vocação e sua conversão ao apostolado, porém foi interrompido pelos gritos
hostis da multidão (Actos, XXII, 1-22). No segundo, ao dia seguinte ante o
sinédrio reunido sob a presidência de Lisias, o apóstolo dissuadiu habilmente
os fariseus contra os saduceus e não se pôde levar adiante nenhuma acusação. O
terceiro foi a resposta ao acusador Tértulo em
presença do governador Félix; nesta ocasião provou que os fatos não haviam sido
manipulados, provando assim sua inocência. (Actos, XXIV, 10-21). O quarto
discurso é uma simles explicação resumida da fé
cristã ante o governador Festo, o rei Agripa e sua
mulher Berenice, repete uma vez mais a história de sua conversão e ficou sem
terminar devido às interrupções sarc Ásticas do governador e a atitude irritada do rei (Actos,
XXVI). A viagem do prisioneiro Paulo de Cesaréia a Roma foi descrita por São
Lucas com vivas cores e uma precisão que não deixam nada a desejar. Podem ser vistos os comentários de Smith,
"Voyage and Shipwreck of St. Paul" (1866); Ramsay, "St. Paul the
Traveller and Roman Citizen" (London,
1908). O centurião Júlio enviou o prisioneiro Paulo e
outros prisioneiros em um navio mercante no qual Lucas e Aristarco pudessem
obter passagem. Já que a estação se encontrava distante, a viagem foi lenta e
difícil. Passaram pela costa de Síria, Cilícia e Panfília. Em Mira de Lícia os prisioneiros foram transferidos a uma embarcação
que se dirigia a Itália, porém uns ventos contrários persistentes os empurraram
até um porto de Chipre chamado Bom-Porto, alcançado inclusive com muita
dificuldade e Paulo aconselhou que passassem o inverno aí, mas sua opinião foi
rejeitada e o barco ficou à deriva sem rumo por quatorze dias terminando nas
costas de Malta. Durante os três meses seguintes a navegação foi considerada
muito perigosa, assim não saíram do seu lugar, mas com a chegada da primavera
se apressaram a prosseguir a viagem. Paulo devia chegar a Roma algum dia de Março.
"Ficou dois anos completos em uma casa alugada... predicando o Reino de
Deus e a fé em Jesus Cristo com toda confiança, sem proibição" (Actos,
XXVIII, 30-31). E, com estas palavras, conclui o livro dos Actos dos Apóstolos.
Não cabe dúvida de que São Paulo terminou sendo absolvido em seu julgamento; já
que (1) o informe do governador Festo, assim como o do centurião foram
favoráveis; e que (2) os judeus parecem ter abandonado a acusação posto que
seus partidários não pareciam estar informados (Actos, XXVIII, 21); e que (3) o
rumo tomado pelo procedimento judicial lhe deixou alguns períodos de libertade,
dos que falou como coisa certa (Fil, I, 25; II, 24; Philem., 22); e que (4) as cartas pastorais (supondo que
sejam autênticas) implicam um período de actividade de Paulo seguido da sua
prisão. E se chega à mesma conclusão na hipótese segundo a qual não são
autênticas, já que todas elas coincidem em que o autor conhecia bem a vida do
apóstolo. Unanimemente se aceita que as "epístolas do cativeiro"
foram enviadas desde Roma. Alguns autores tentaram provar que São Paulo as
escreveu durante sua detenção em Cesaréia, mas poucos autores os seguiram. A
epístola aos colossenses, aos efésios e a Filemon foram enviadas juntas e utilizando
o mesmo mensageiro: Tíquico. É controverso se a epístola aos filipenses foi
anterior ou posterior a estas últimas e a questão não foi jamais resolvida com
argumentos incontrovertíveis (ver FILIPENSSES, EPÍSTOLA A LOS; EFÉSIOS,
EPÍSTOLA A LOS; COLOSSENSES, EPÍSTOLA A LOS; FILEMON, EPÍSTOLA A). Dado que
este período carece da documentação dos Actos, está envolvido na mais completa
obscuridade; nossas únicas fontes são algumas tradições dispersas e as citas dispersas
das epístolas. Paulo quis passar pela Espanha desde muito tempo antes (Rom.,
XV, 24, 28) e não há provas de que mudaria seu plano. Já no fim do seu
cativeiro, quando anuncia sua chegada a Filemon (22) e aos Filipenses (II,
23-24), não parece considerar esta visita como iminente, dado que compromete
aos filipenses enviar-lhes um mensageiro quando esteja concluído o seu
julgamento e, portanto, ele preparava outra viagem antes do seu retorno ao
oriente. Sem necessidade de citar os testemunhos de São Cirilo de Jerusalém,
São Epifânio, São Jerónimo, São
Crisóstomo e Teodoreto diremos finalmente que el
testemunho de São Clemente de Roma, bem conhecido, o testemunho do "Canon Muratorio", e a
"Acta Pauli" fazem mais que provável a viagem de Paulo à Espanha. Em
todo caso não pôde permanecer muito tempo por lá, devido à sua pressa por
visitar outras Igrejas do leste. Pôde entretanto voltar à Espanha através da
Gália, como pensaram alguns padres, e não à Galácia, aonde Crescêncio foi
enviado mais tarde. (II Tim., IV, 10). É verosímil que, depois, chegaria a
cumprir sua promessa de visitar seu amigo Filemon e que, em tal ocasião,
visitaria as Igrejas do vale de Licaônia, Laodicéia, Colossos, e Hierápolis. A
partir deste momento o itinerário se torna sumamente incerto por mais que os
seguintes acontecimentos parecem estar indicados nas epístolas pastorais: Paulo
permaneceu em Creto o tempo necessário para fundar
novas Igrejas, cujo cuidado e organização deixou nas mãos do seu colega Tito (Tit., I, 5). Foi depois a Éfeso e rogou a Timóteo, que já
estava lá, que permaneceria aí até seu regresso enquanto Paulo se dirigia à Macedónia
(I Tim., I, 3). Nesta ocasião visitou, como havia prometido, aos filipenses (Fil., II, 24), e, naturalmente, também passou a ver os
tessalonicenses. A carta a Tito e a primeira epístola a Timóteo devem datar
deste período; parece que foram escritas ao mesmo tempo aproximadamente, pouco
depois de ter deixado a Éfeso. A questão é saber se foram enviadas desde Macedónia
ou desde Corinto, como parece ser mais provável. O Apóstolo instrui a Tito para
que se reúna com ele em Nicópolis de Epiro donde
pensa passar o verão (Titus, III, 12). Na primavera
seguinte deve ter cumprido seu plano de volta a Ásia (I Tim, III, 14-15). Aqui
ocorreu o obscuro episódio da sua prisão, que provavelmente ocorreu em Trôade;
isso explicaria o fato de ter deixado uns livros e roupas que necessitou depois
(II Tim., ib, 13). De lá foi a Éfeso, capital da província
de Ásia, onde o abandonaram todos aqueles que ele pensava que lhe haviam sido
fiéis (II Tim., I, 15). Enviado a Roma para ser julgado, deixou a Trófimo
doente em Mileto e a Erasto, outro dos seus companheiros, que permaneceram em
Corinto por razões nunca esclarecidas (II Tim., IV, 20). Quando Paulo escreveu
sua segunda epístola a Timóteo desde Roma, acreditava que toda esperança humana
estava perdida (IV, 6).; nela pede a seu discípulo que
venha ver-lhe o mais rápido possível, porque estava apenas com Lucas. Não
sabemos se Timóteo foi capaz de ir a Roma antes da morte do Apóstolo. Uma
antiga tradição torna possível estabelecer os seguintes pontos: (1) Paulo
sofreu o martírio cerca a Roma na praça chamada Aquae
Salviae (hoje Piazza Tre Fontane), um pouco ao oeste
da Via Ostia, cerca de três quilómetros da esplêndida basílica de São Paulo
Extra Muros, lugar onde foi enterrado. (2) O martírio ocorreu no fim do reinado
de Nero, no décimo segundo ano (São Epifânio), no décimo terceiro (Eutalio), ou no décimo quarto (São Jerónimo). (3) De acordo
com a opinião mais comum, Paulo sofreu o martírio no mesmo dia do mesmo ano que
Pedro; alguns padres latinos disputam se foi o mesmo dia mas não do mesmo ano;
a testemunha más antiga, São Dionísio o Corinto, disse somente Kata ton auton
Kairon, o que pode ser traduzido por "ao mesmo
tempo" ou "aproximadamente ao mesmo tempo". (4) Durante tempo
imemorável, a solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo se celebra no dia 29 de
Junho, que é o aniversário, seja da morte, seja do traslado de suas relíquias.
O Papa ia antigamente com seus acompanhantes a São Paulo Extra Muros depois de
celebrar em São Pedro,
ainda que a distância entre as duas basílicas (aprox. oito quilómetros) fazia a
cerimónia cansativa, particularmente nesta época do ano. Assim surgiu o costume
de transferir ao dia seguinte (30 de Junho) a comemoração de São Paulo. A festa
da conversão de São Paulo (25 de Janeiro) tem origem comparativamente recente.
Há razões para crer que este dia foi celebrado para marcar o traslado das
relíquias de São Paulo a Roma, posto que assim aparece no Martirologio
Hieronimiano. Esta festa é desconhecida na igreja grega (Dowden,
"The Church Year and Kalendar", Cambridge,
1910, 69; cf. Duchesne, "Origines du culte chrétien",
Paris 198, 265-72; McClure, "Christian
Workship", London,
1903, 277-81). De Eusébio sabemos (Hist. Eccl, VII, 18) que, incluso no seu tempo, havia
representações de Cristo com os apóstolos Pedro e Paulo. A aparência de São
Paulo, se conservou em três monumentos antigos: (1) Um díptico que do primeiro
século (Lewin, "The Life and
Epistles of St. Paul", 1874, frontspiece
of Vol. I and Vol. II, 210). (2) Um amplo
medalhão encontrado no cemitério de Domitila e que
representa aos apóstolos Pedro e Paulo (Op. Cit., II, 411). (3) Um prato de cristal no Museu Britânico
com os mesmos apóstolos (Farrara, "Life and Work
of St. Paul", 1891,
896). Também temos duas descrições concordantes nos "Actos de Paulo e Telea" pseudo Luciano de Filópatris
de Malalas (Chronogr., X),
e no Nicéforo (Hist. Eccl, III, 37). Paulo era de baixa estatura; o pseudo
Crisóstomo o chama o homem dos três cotovelos (antropos
tripechys); tinha as costas largas, um pouco calvo,
de nariz ligeiramente aquilino, sobrancelhas corridas, barba grossa e grisalha,
porte harmonioso e maneiras agradáveis e afáveis. Sofria de uma enfermidade
difícil de diagnosticar (cf. Menzies, "St Paul's Infirmity"
no "Exposity Times",
July and Sept., 1904), mas apesar dessa doença dolorosa e humilhante
( II Cor., XII, 7-9; Gal., IV 13-14) e de que sua
presença não era imponente (II Cor., X, 10), Paulo possuiu sem dúvida uma
resistência física fora do comum que só ele pôde suportar seus trabalhos sobre humanos
(II Cor., XI, 23-29). O pseudo Crisóstomo "In princip. Apóstol. Petrum et Paulum"
(in P. G.., LIX, 494-95), pensa que morreu à idade de sessenta e oito anos
depois de haver servido ao Senhor trinta e cinco.
O retrato moral é algo mais difícil de esboçar, tão
cheio de contrastes. Seus elementos podem ser encontrados em Lewin, Op. Cit., II XI, 410-35(Paul's Person
end Character); em Farrar, Op. Cit., Appendix, Excursus I; e especialmente em Newman, "Sermons
preached on Various Occasions", vii, viii.
Arcebispo Primaz Katholikos
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)
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Última actualização deste Link em 14 de Abril de 2009