SÃO JOSÉ

DA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
REDEMPTORIS
CUSTOS
DO SUMO
PONTÍFICE SÃO
JOÃO PAULO II
SOBRE A FIGURA E A MISSÃO DE
SÃO JOSÉ NA VIDA DE CRISTO E DA IGREJA
INTRODUÇÃO
1. Chamado a proteger o Redentor, «José fez como lhe
ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24).
Inspirando-se no Evangelho, os Padres da Igreja,
desde os primeiros séculos, puseram em relevo que São José, assim como cuidou
com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo,
(1) assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a
Virgem Santíssima é figura e modelo.
No centenário da publicação da Carta Encíclica
Quamquam pluries do Papa Leão XIII (2) e na esteira da plurissecular veneração
para com São José, desejo apresentar à vossa consideração, amados Irmãos e
Irmãs, algumas reflexões sobre aquele a quem Deus «confiou a guarda dos seus
tesouros mais preciosos». (3) É para mim uma alegria cumprir este dever
pastoral, no intuito de que cresça em todos a devoção ao Patrono da Igreja
universal e o amor ao Redentor, que ele serviu de maneira exemplar.
Desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a
São José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também
terá sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de
«participar» na economia da salvação. (4) Tenho para mim, efectivamente, que o
facto de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no mistério
divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a
humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste
desígnio redentor, que tem o seu fundamento no mistério da Incarnação.
Foi precisamente neste mistério que José de Nazaré
«participou» como nenhuma outra pessoa humana, à excepção de Maria, a Mãe do
Verbo Incarnado. Ele participou em tal mistério simultaneamente com Maria,
envolvido na realidade do mesmo evento salvífico, e foi depositário do mesmo
amor, em virtude do qual o eterno Pai «nos predestinou a sermos adoptados como
filhos, por intermédio de Jesus Cristo» (Ef. 1, 5).
2. «José, filho de David, não temas receber contigo
Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará
à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos
seus pecados» (Mt. 1, 20-21).
Nestas palavras está contido o núcleo central da
verdade bíblica sobre São José; é o momento da sua existência ao qual se
referem em particular os Padres
da Igreja.
O evangelista São Mateus explica o significado deste
momento, esboçando também a maneira como José o viveu. Todavia, para se
compreender plenamente o seu conteúdo e o seu contexto, é importante ter
presente a passagem paralela do Evangelho de São Lucas. Com efeito, a origem da
gravidez de Maria, por «obra do Espírito Santo» -
posta em relação com o versículo que diz «ora, o nascimento de Jesus Cristo foi
assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos,
achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo» (Mt. 1, 18)
encontra uma descrição mais ampla e mais explícita naquilo que lemos em São
Lucas sobre a anunciação do nascimento de Jesus: «O anjo Gabriel foi enviado
por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com
um homem chamado José, da casa de David. E o nome da virgem era Maria» (Lc. 1,
26-27). As palavras do anjo: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo»
(Lc. 1, 28) provocaram em Maria uma perturbação íntima e simultaneamente
estimularam-na a reflectir. Então, o mensageiro tranquilizou a Virgem e, ao
mesmo tempo, revelou-lhe o desígnio especial de Deus a seu respeito: «Não
tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e
darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e
chamar-se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de seu pai
David» (Lc. 1, 30-32).
O Evangelista tinha afirmado, pouco antes, que, no
momento da Anunciação, Maria estava desposada com um homem chamado José, da
casa de David. A natureza destes esponsais é explicitada, indirectamente, quando
Maria, depois de ter ouvido aquilo que o mensageiro dissera do nascimento do
filho, pergunta: «Como se realizará isso, pois eu não conheço homem?» (Lc. 1,
34). E então é-lhe dada esta resposta: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a
potência do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso mesmo, aquele
que vai nascer será santo e há-de chamar-se Filho de Deus» (Lc. 1, 35). Maria,
embora fosse já «desposada» com José, permanecerá virgem, pois o menino, nela
concebido desde o momento da Anunciação, era concebido por obra do Espírito
Santo.
Neste ponto o texto de São Lucas coincide com o
texto de São Mateus (1, 18) e serve-nos para explicar o que lemos neste último.
Se, depois do desposório com José, se verificou que Maria «tinha concebido por
obra do Espírito Santo», este facto corresponde a todo o conteúdo da Anunciação
e, em particular, às últimas palavras pronunciadas por Maria: «Faça-se em mim
segundo a tua palavra» (Lc. 1, 38). Correspondendo ao desígnio claro de Deus,
Maria, com o passar dos dias e das semanas, manifesta-se, diante das pessoas
que contactava e diante de José, como estando «grávida», como mulher que deve
dar à luz e que traz em si o mistério da maternidade.
3. Nestas circunstâncias, «José, seu esposo, sendo
justo e não a querendo expor à infâmia, resolveu desvincular-se dela
secretamente» (Mt. 1, 19). Ele não sabia como comportar-se perante a
«surpreendente» maternidade de Maria. Buscava, certamente, uma resposta para
essa interrogação inquietante; mas procurava, sobretudo, uma maneira airosa de
sair daquela situação difícil para ele. Enquanto andava «a pensar nisto,
apareceu-lhe, em sonho, um anjo do Senhor, que lhe disse: "José, filho de
David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é
obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus,
porque ele salvará o seu povo dos seus pecados"» (Mt. 1, 20-21).
Existe uma estreita analogia entre a «Anunciação» do
texto de São Mateus e a do texto de São Lucas. O mensageiro divino introduz
José no mistério da maternidade de Maria. Aquela que, segundo a lei, é a sua
«esposa», permanecendo virgem, tornou-se mãe pela virtude do Espírito Santo. E
quando o Filho que Maria traz no seio vier ao mundo há-de receber o nome de
Jesus. Este nome era bem conhecido entre os Israelitas; e, por vezes, era por
eles posto aos filhos. Neste caso, porém, trata-se de um Filho que - segundo a promessa divina - realizará plenamente o que
este nome significa: Jesus - Yehosua, que quer dizer «Deus salva».
O mensageiro dirige-se a José como «esposo de
Maria»; dirige-se a quem, a seu tempo, deverá pôr tal nome ao Filho que vai
nascer da Virgem de Nazaré, desposada com ele. Dirige-se a José, portanto,
confiando-lhe os encargos de um pai terreno em relação ao Filho de Maria.
«Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o
anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24). Ele recebeu-a com todo o
mistério da sua maternidade; recebeu-a com o Filho que havia de vir ao mundo,
por obra do Espírito Santo: demonstrou deste modo uma disponibilidade de
vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem àquilo que Deus lhe
pedia por meio do seu mensageiro.
4. Quando Maria, pouco tempo depois da Anunciação,
se dirigiu a casa de Zacarias para visitar Isabel sua parente, ouviu,
precisamente quando a saudava, as palavras pronunciadas pela mesma Isabel,
«cheia do Espírito Santo» (cf. Lc. 1, 41). Para além das palavras que se
relacionavam com a saudação do anjo na Anunciação, Isabel disse: «Feliz daquela
que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do
Senhor» (Lc. 1, 45). Estas palavras constituíram o pensamento-guia da Encíclica
Redemptoris Mater, com a qual tive a intenção de aprofundar o ensinamento do Concílio
Vaticano II, quando afirma: «A Bem-aventurada Virgem Maria arrancou no caminho
da fé e conservou fielmente a união com seu Filho até à Cruz», (5) «indo
adiante» (6) de todos aqueles que, pela via da fé, seguem Cristo.
Ora ao iniciar-se esta peregrinação, a fé de Maria
encontra-se com a fé de José. Se Isabel disse da Mãe do Redentor: «Feliz
daquela que acreditou», esta bem-aventurança pode, em certo sentido, ser
referida também a José, porque, de modo análogo, ele respondeu afirmativamente
à Palavra de Deus, quando esta lhe foi transmitida naquele momento decisivo. A
bem da verdade, José não respondeu ao «anúncio» do anjo como Maria; mas «fez
como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa». Isto que ele fez é
puríssima «obediência da fé» (cf. Rom. 1, 5; 16, 26; 2 Cor. 10, 5-6).
Pode dizer-se que aquilo que José fez o uniu, de uma
maneira absolutamente especial, à fé de Maria: ele aceitou como verdade
proveniente de Deus o que ela já tinha aceitado na Anunciação. O Concílio
ensina: «A Deus que revela é devida a "obediência da fé" (...); pela
fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, prestando-lhe "o
obséquio pleno da inteligência e da vontade" e dando voluntário
assentimento à sua revelação». (7) A frase acabada de citar, que diz respeito à
própria essência da fé, aplica-se perfeitamente a José de Nazaré.
5. Ele tornou-se, portanto, um depositário singular
do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» (cf. Ef. 3, 9), como se
tornara Maria, naquele momento decisivo que é chamado pelo Apóstolo «plenitude
dos tempos», quando «Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher... para
resgatar os que se encontravam sob o jugo da lei e para que recebêssemos a
adopção de filhos» (Gál. 4, 4-5). «Aprouve a Deus —
ensina o Concílio — na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a
conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef. 1, 9), pelo qual os homens, através
de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam
participantes da natureza divina (cf. Ef. 2, 18; 2 Pdr.
1, 4)». (8)
Deste mistério divino, juntamente com Maria, José é
o primeiro depositário. Simultaneamente com Maria - e
também em relação com Maria - ele participa nesta fase culminante da
auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento.
Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São
Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da
Mãe de Deus e que, procedendo deste modo, ele dá apoio à sua esposa na fé na
Anunciação divina. Ele é igualmente quem primeiro foi posto por Deus no caminho
daquela «peregrinação da fé», na qual Maria, sobretudo na altura do Calvário e
do Pentecostes, irá adiante, de maneira perfeita. (9)
7. Como se deduz dos textos evangélicos, o
matrimónio com Maria é o fundamento jurídico da paternidade de José. Foi para
garantir a protecção paterna a Jesus que Deus escolheu José como esposo de
Maria. Por conseguinte, a paternidade de José — uma relação que o coloca o mais
perto possível de Cristo, termo de toda e qualquer eleição e predestinação (cf.
Rom. 8, 28-29) — passa através do matrimónio com Maria, ou seja, através da
família.
Os Evangelistas, embora afirmem claramente que Jesus
foi concebido por obra do Espírito Santo e que naquele matrimónio a virgindade
foi preservada (cf. Mt. 1, 18-25; Lc. 1, 26-38), chamam a José esposo de Maria
e a Maria esposa de José (cf. Mt. 1, 16. 18-20; Lc. 1, 27; 2, 5).
E também para a Igreja, se por um lado é importante
professar a concepção virginal de Jesus, por outro, não é menos importante
defender o matrimónio de Maria com José, porque é deste matrimónio que depende,
juridicamente, a paternidade de José. Daqui se compreende a razão por que as
gerações são enumeradas segundo a genealogia de José: «E porque não o deviam
ser - pergunta-se Santo Agostinho - através de José?
Não era porventura José o marido de Maria? (...). A Escritura afirma, por meio
da autoridade angélica, que ele era o marido. Não temas, diz, receber contigo
Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. E é-lhe
mandado que imponha o nome ao menino, se bem que não seja nascido do seu sémen.
Aí se diz, ainda: Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. A
Escritura sabe que Jesus não nasceu do sémen de José; e porque ele mostra
preocupação quanto à origem da gravidez dela (Maria), é dito: provém do
Espírito Santo. E todavia não lhe é tirada a autoridade paterna, uma vez que
lhe é ordenado que seja ele a dar o nome ao menino. Por fim, também a própria
Virgem Maria, bem consciente de não ter concebido Cristo da união conjugal com
ele, chama-o apesar disso pai de Cristo». (12)
O filho de Maria é também filho de José, em virtude
do vínculo matrimonial que os une: «Por motivo daquele matrimónio fiel, ambos
mereceram ser chamados pais de Cristo, não apenas a Mãe, mas também aquele que
era seu pai, do mesmo modo que era cônjuge da Mãe, uma e outra coisa por meio
da mente e não da carne». (13) Neste matrimónio não faltou nenhum dos
requisitos que o constituem: «Naqueles pais de Cristo realizaram-se todos os
bens das núpcias: a prole, a fidelidade e o sacramento. Conhecemos a prole, que
é o próprio Senhor Jesus; a fidelidade, porque não houve nenhum adultério; e o
sacramento, porque não se deu nenhum divórcio». (14)
Analisando a natureza do matrimónio, quer Santo
Agostinho, quer Santo
Tomás de Aquino situam-na constantemente na «união indivisível dos ânimos»,
na «união dos corações» e no «consenso»; (15) elementos estes, que, naquele
matrimónio, se verificaram de maneira exemplar. No momento culminante da
história da salvação, quando Deus manifestou o seu amor pela humanidade,
mediante o dom do Verbo, deu-se exactamente o matrimónio de Maria e José, em
que se realizou com plena «liberdade» o «dom esponsal de si» acolhendo e
exprimindo um tal amor. (16) «Nesta grandiosa empresa da renovação de todas as
coisas em Cristo, o matrimónio, também ele renovado e purificado, torna-se uma
realidade nova, um sacramento da Nova Aliança. E eis que no limiar do Novo
Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal. Mas, enquanto
o casal formado por Adão e Eva tinha sido a fonte do mal que inundou o mundo, o
casal formado por José e Maria constitui o vértice, do qual se expande por toda
a terra a santidade. O Salvador deu início à obra da salvação com esta união
virginal e santa, na qual se manifesta a sua vontade omnipotente de purificar e
santificar a família, que é santuário do amor humano e berço da vida». (17)
Quantos ensinamentos promanam disto, ainda hoje,
para a família! Uma vez que «a essência e as funções da família se definem, em
última análise, pelo amor» e que à família «é confiada a missão de guardar,
revelar e comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação do amor de Deus
pela humanidade e do amor de Cristo pela Igreja sua Esposa», (18) é na Sagrada
Família, nesta originária «Igreja doméstica», (19) que todas as famílias devem
espelhar-se. Nela, efectivamente, «por um misterioso desígnio divino, viveu
escondido durante longos anos o Filho de Deus: ela constitui, portanto, o
protótipo e o exemplo de todas as famílias cristãs». (20)
8. São José foi chamado por Deus para servir
directamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua
paternidade: desse modo, precisamente, ele «coopera no grande mistério da
Redenção, quando chega a plenitude dos tempos», (21) e é verdadeiramente
«ministro da salvação». A sua paternidade expressou-se concretamente «em ter
feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da Incarnação e à
missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter usado da
autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para lhe fazer
o dom total de si mesmo, da sua vida e do seu trabalho; e em ter convertido a
sua vocação humana para o amor familiar na sobre-humana oblação de si, do seu
coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao serviço do Messias
germinado na sua casa». (22)
A Liturgia, ao recordar que foram confiados «à
solícita guarda de São José, na aurora dos novos tempos, os mistérios da
salvação», (23) esclarece também que ele «foi constituído por Deus chefe da sua
Família, para que, servo fiel e prudente, guardasse com paterna solicitude o
seu Filho unigénito». (24) O Papa Leão XIII realça a sublimidade desta missão:
«Ele entre todos, impõe-se pela sua sublime dignidade, dado que, por disposição
divina, foi guardião e, na opinião dos homens, pai do Filho de Deus. Daí se
seguia, portanto, que o Verbo de Deus fosse submisso a José, lhe obedecesse e
lhe prestasse aquela honra e aquela reverência, que os filhos devem aos
próprios pais». (25)
E uma vez que não se pode conceber que a uma tarefa
tão sublime não correspondessem as qualidades requeridas para a desempenhar
adequadamente, importa reconhecer que José teve em relação a Jesus, «por
especial dom do Céu, todo aquele amor natural e toda aquela solicitude
afectuosa que o coração de um pai possa experimentar». (26)
Com a autoridade paterna sobre Jesus, Deus terá
comunicado também a José o amor correspondente, aquele amor que tem a sua fonte
no Pai «do qual toda a paternidade, nos céus e na terra, toma o nome» (Ef 3,
15).
Nos Evangelhos acha-se claramente exposto o múnus
paterno de José para com Jesus. Com efeito, a salvação, que passa através da
humanidade de Jesus, realiza-se nos gestos que fazem parte do quotidiano da
vida familiar, respeitando aquela «condescendência» que é inerente à economia
da Incarnação. Os Evangelistas estiveram muito atentos ao facto de que na vida
de Jesus nada foi deixado ao acaso; mas nela tudo se desenrolou em conformidade
com um plano divinamente preestabelecido. A fórmula muitas vezes repetida:
«Aconteceu assim, para que se cumprissem...», acompanhada de uma referência do
acontecimento descrito a um texto do Antigo Testamento, tem o intuito de
acentuar a unidade e a continuidade do projecto, que tem o seu «cumprimento» em
Cristo.
Com a Incarnação, as «promessas» e as «figuras» do
Antigo Testamento tornam-se «realidade»: lugares, pessoas, acontecimentos e
ritos entrelaçam-se de acordo com ordens divinas bem precisas, transmitidas
mediante o ministério dos anjos e recebidas por criaturas particularmente sensíveis
à voz de Deus. Maria é a humilde serva do Senhor, preparada desde toda a
eternidade para a missão de ser Mãe de Deus; e José é aquele que Deus escolheu
para ser o «coordenador do nascimento do Senhor», (27) aquele que tem o encargo
de prover ao inserimento «ordenado» do Filho de Deus
no mundo, mantendo o respeito pelas disposições divinas e pelas leis humanas.
Toda a chamada vida «privada» ou «oculta» de Jesus foi confiada à sua guarda.
9. Quando José foi de longada até Belém, para o recenseamento,
em observância das disposições da autoridade legítima, ele desempenhou em
relação ao menino a tarefa importante e significativa de inserir oficialmente o
nome de «Jesus, filho de José de Nazaré» (cf. Jo 1, 45), no registo do império.
Essa inscrição manifesta de modo bem claro o facto de Jesus pertencer ao género
humano, homem entre os homens, cidadão deste mundo, sujeito às leis e
instituições civis, mas também «Salvador do mundo». Orígenes descreveu bem o
significado teológico inerente a este facto histórico, que não é nada marginal:
«Dado que o primeiro recenseamento de toda a terra se verificou no tempo de
César Augusto, e que entre todos os demais também José se foi registrar,
juntamente com Maria sua esposa, que se encontrava grávida; e dado que Jesus
veio ao mundo antes de o censo ter sido feito, para quem considerar a coisa com
diligente atenção parecerá que se expressa uma espécie de mistério no facto de
que, na declaração de toda a terra, devesse ser recenseado também Cristo. Dessa
maneira, registado juntamente com os demais, a todos podia santificar; inscrito
com toda a terra no recenseamento, à terra oferecia a comunhão consigo; e,
depois desta declaração, recenseava consigo todos os homens da terra no livro
dos vivos, para que quantos viessem a acreditar nele, fossem depois inscritos
no céu, com os Santos daquele a quem pertencem a glória e o império pelos
séculos dos séculos. Ámen». (28)
10. Como depositário do mistério «escondido desde
todos os séculos em Deus» e que começa a realizar-se diante dos seus olhos na
«plenitude dos tempos», José encontra-se juntamente com Maria na noite de
Belém, qual testemunha privilegiada da vinda do Filho de Deus ao mundo. São
Lucas exprime-se assim: «Enquanto eles ali (em Belém) se encontravam,
completaram-se para ela os dias da gestação. E deu à luz o seu filho
primogénito, que envolveu em faixas e recostou numa mangedoura, porque não
havia lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7).
José foi testemunha ocular deste nascimento, que se
verificou em condições humanamente humilhantes, primeiro anúncio daquele
«despojamento», no qual Cristo consentiu livremente, para a remissão dos
pecados. Na mesma ocasião, José foi testemunha da adoração dos pastores, que
acorreram ao lugar onde Jesus nascera, depois de um anjo lhes ter levado esta
grande e jubilosa notícia (cf. Lc. 2, 15-16); mais tarde, foi testemunha também
da homenagem dos Magos, vindos do Oriente (cf. Mt. 2, 11).
11. Sendo a circuncisão de um filho o primeiro dever
religioso do pai, José, com esta cerimónia (cf. Lc. 2, 21), exercitou um seu
direito e dever em relação a Jesus.
O princípio segundo o qual todos os ritos do Antigo
Testamento são como que a sombra da realidade (cf. Hebr 9, 9 s.; 10, 1), explica
o motivo por que Jesus os aceita. Como sucedeu com os outros ritos, também o da
circuncisão teve em Jesus o seu «cumprimento». A Aliança de Deus com Abraão, de
que a circuncisão era sinal (cf. Gén. 17, 13), obteve
em Jesus o seu pleno efeito e a sua cabal realização, sendo Jesus o «sim» de
todas as antigas promessas (cf. 2 Cor. 1, 20).
12. José deu ao menino, na ocasião em que o levaram
a circuncidar, o nome de Jesus. Este nome é o único em que há salvação (cf. Act
4, 12); e a José tinha sido revelado o seu significado, no momento da sua
«anunciação»: E tu «pôr-lhe-ás o nome de Jesus; porque ele salvará o seu povo
dos seus pecados» (Mt 1, 21). Quando lhe deu o nome, José declarou a própria
paternidade legal em relação a Jesus; e, pronunciando esse nome, proclamou a
missão deste menino, de ser o Salvador.
A APRESENTAÇÃO DE JESUS NO TEMPLO
13. Esta cerimónia, referida por São Lucas (2, 22
ss.), incluía o resgate do primogénito e projecta luz sobre o episódio
posterior da permanência de Jesus no templo aos doze anos.
O resgate do primogénito é um outro dever do pai,
que é cumprido por José. No primogénito estava representado o povo da Aliança,
resgatado da escravidão para passar a pertencer a Deus. Também a propósito
disto, Jesus, que é o verdadeiro «preço» do resgate (cf. 1 Cor. 6, 20; 7, 23; 1
Pdr. 1, 19), não somente «cumpre» o rito do Antigo
Testamento, mas ao mesmo tempo supera-o, não sendo ele um simples homem sujeito
a ser resgatado, mas o próprio autor do resgate.
O Evangelista põe em relevo que «o pai e a mãe de
Jesus estavam admirados com as coisas que se diziam dele» (Lc. 2, 33); e, em
particular, com aquilo que Simeão disse, no seu cântico dirigido ao Senhor,
indicando Jesus como «a salvação preparada por Deus em favor de todos os povos»
e «luz para iluminar as nações e glória de Israel, seu povo»; e, mais adiante,
também como «sinal de contradição» (Lc. 2, 30-34).
Mas, segundo o texto de São Mateus, ainda antes deste
retorno à Galileia, tem de ser colocado um acontecimento muito importante, para
o qual a Providência divina de novo recorre a José. Aí lemos: «Depois de eles
(os Magos) partirem, eis que um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José e
disse-lhe: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto e
fica lá até eu te avisar, porque Herodes está a procurar o menino para o
matar"» (Mt. 2, 13). Na ocasião da vinda dos Magos do Oriente, Herodes
tinha sabido do nascimento do «rei dos Judeus» (Mt. 2, 2). E quando os Magos
partiram, ele mandou «matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu
território, da idade de dois anos para baixo» (Mt. 2, 16). Deste modo, matando
todas as crianças, queria matar aquele recém-nascido «rei dos Judeus», de quem
chegara ao conhecimento durante a visita dos Magos à sua corte. Então José,
tendo recebido o aviso em sonho, «de noite, tomou o menino e sua mãe e
retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o
que o Senhor tinha anunciado por meio do profeta: "Do Egipto chamei o meu
Filho"» (Mt. 2, 14-15; cf. Os. 11, 1).
Deste modo, o caminho do regresso de Jesus de Belém
a Nazaré passou pelo Egipto. Assim como Israel tinha tomado o caminho do êxodo
«da condição de escravidão» para iniciar a Antiga Aliança, assim José,
depositário e cooperador do mistério providencial de Deus, também no exílio
vela por Aquele que vai tornar realidade a Nova Aliança.
15. Desde o momento da Anunciação, José, juntamente
com Maria, encontrou-se, em certo sentido, no íntimo do mistério escondido
desde todos os séculos em Deus e que se tinha revestido de carne: «O Verbo
fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Sim, Ele habitou entre os homens
e o âmbito da sua morada foi a Sagrada Família de Nazaré, uma das tantas
famílias desta pequena cidade de Galileia, uma das tantas famílias da terra de
Israel. Aí, Jesus crescia e «robustecia-se, cheio de sabedoria, e a graça de
Deus estava com ele» (Lc. 2, 40). Os Evangelhos resumem em poucas palavras o
longo período da vida «oculta», durante o qual Jesus se preparou para a sua
missão messiânica. Há um só momento que é subtraído a este «escondimento» e é
descrito pelo Evangelho de São Lucas: a Páscoa de Jerusalém, quando Jesus tinha
doze anos de idade.
Jesus participou nesta festa, como um jovem
peregrino, juntamente com Maria e José. E eis o que aconteceu: «Passados
aqueles dias (da festa), ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem
que os pais se apercebessem disso» (Lc. 2, 43). Depois de um dia de viagem
deram pela sua falta; e começaram a procurá-lo «entre os parentes e
conhecidos... Depois de três dias, encontraram-no no templo, sentado no meio
dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos os que o ouviam ficavam
admirados da sua inteligência e das suas respostas» (Lc. 2, 46-47). Maria
pergunta: «Filho, por que procedeste assim connosco? Olha que teu pai e eu
andávamos aflitos à tua procura» (Lc. 2, 48). A resposta de Jesus foi de tal
sorte que os dois «não entenderam as palavras que lhes disse». Tinha-lhes
respondido: «Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo encontrar-me na
casa de meu Pai?» (Lc. 2, 49-50).
Ouviu estas palavras José, em relação ao qual Maria
tinha acabado de dizer «teu pai». Com efeito, era assim que as pessoas diziam e
pensavam: Jesus, «como se supunha, era filho de José» (Lc. 3, 23). Apesar
disso, a resposta do próprio Jesus no templo devia reavivar na consciência do
«suposto o pai» aquilo que numa noite, doze anos antes, ele tinha ouvido:
«José... não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou
é obra do Espírito Santo». Já desde então ele sabia que era depositário do
mistério de Deus; e Jesus, com doze anos de idade, evocou exactamente este
mistério: «Devo encontrar-me na casa de meu Pai».
16. O crescimento de Jesus «em sabedoria, em
estatura e em graça» (Lc. 2, 52), deu-se no âmbito da Sagrada Família, sob o
olhar de São José, que tinha a alta função de o «criar»; ou seja, de alimentar,
vestir e instruir Jesus na Lei e num ofício, em conformidade com os deveres
estabelecidos para o pai.
No Sacrifício eucarístico a Igreja venera «a memória
da gloriosa sempre Virgem Maria... e também a de São José», (29) porque foi quem
«sustentou Aquele que os fiéis deviam comer como Pão de vida eterna». (30)
Por sua parte, Jesus «era-lhes submisso» (Lc. 2,
51), correspondendo com o respeito às atenções dos seus «pais». Dessa forma
quis santificar os deveres da família e do trabalho, que ele próprio executava
ao lado de José.
17. No decorrer da sua vida, que foi uma
peregrinação na fé, José, como Maria, permaneceu fiel até ao fim ao chamamento
de Deus. A vida de Maria foi o cumprimento até às últimas consequências daquele
primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da Anunciação; ao passo que José
- como já foi dito - não proferiu palavra alguma,
aquando da sua «anunciação»: «fez como o anjo do Senhor lhe ordenara» (Mt. 1,
24). E este primeiro «fez» tornou-se o princípio da «caminhada de José». Ao
longo desta caminhada, os Evangelhos não registram palavra alguma que ele tenha
dito. Mas esse silêncio de José tem uma especial eloquência: graças a tal
atitude, pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos
dá o Evangelho: o «justo» (Mt 1, 19).
É necessário saber ler bem esta verdade, porque nela
está contido um dos mais importantes testemunhos acerca do homem e da sua
vocação. No decurso das gerações a Igreja lê, de maneira cada vez mais atenta e
mais cônscia este testemunho, como que tirando do tesouro desta insigne figura
«coisas novas e coisas velhas» (Mt. 13, 52).
18. O homem «justo» de Nazaré possui
sobretudo as características bem nítidas do esposo. O Evangelista fala de Maria
como de «uma virgem desposada com um homem... chamado José» (Lc. 1, 27). Antes
de começar a realizar-se «o mistério escondido desde todos os séculos em Deus»
(Ef. 3, 9), os Evangelhos põem diante de nós a imagem do esposo e da esposa.
Segundo o costume do povo hebraico, o matrimónio constava de duas fases:
primeiro, era celebrado o matrimónio legal (verdadeiro matrimónio); e depois,
só passado um certo período, é que o esposo introduzia a esposa na própria
casa. Antes de viver junto com Maria, portanto, José já era o seu «esposo»;
Maria, porém, conservava no seu íntimo o desejo de fazer o dom total de si
mesma exclusivamente a Deus. Poder-se-ia perguntar de que modo este desejo se
conciliava com as «núpcias». A resposta vem-nos somente do desenrolar dos acontecimentos
salvíficos, isto é, da acção especial do próprio Deus. Desde o momento da
Anunciação, Maria sabe que deve realizar-se o seu desejo virginal, de
entregar-se a Deus de modo exclusivo e total, precisamente tornando-se mãe do
Filho de Deus. A maternidade por obra do Espírito Santo é a forma de doação que
o próprio Deus espera da Virgem, «desposada» com José. E Maria pronuncia o seu
fiat (faça-se).
O facto de ela ser «desposada» com José está
incluído no mesmo desígnio de Deus. Isso é indicado por ambos os Evangelistas
citados, mas de maneira particular por São Mateus. São muito significativas as
palavras ditas a José: «Não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que
nela se gerou é obra do Espírito Santo» (Mt. 1, 20). Elas explicam o mistério da
esposa de José: Maria é virgem na sua maternidade. Nela «o Filho do Altíssimo»
assume um corpo humano e torna-se «o Filho do homem».
Dirigindo-se a José com as palavras do anjo, Deus
dirige-se a ele como sendo esposo da Virgem de Nazaré. Aquilo que nela se
realizou por obra do Espírito Santo exprime ao mesmo tempo uma confirmação
especial do vínculo esponsal, que já existia antes entre José e Maria. O
mensageiro diz claramente a José: «Não temas receber contigo, Maria, tua
esposa». Por conseguinte, aquilo que tinha acontecido anteriormente — os seus
esponsais com Maria — tinha acontecido por vontade de Deus e, portanto, devia
ser conservado. Na sua maternidade divina, Maria deve continuar a viver como
«uma virgem, esposa de um esposo» (cf. Lc. 1, 27).
19. Nas palavras da «anunciação» nocturna, José
escuta não apenas a verdade divina acerca da inefável vocação da sua esposa,
mas ouve novamente também a verdade acerca da própria vocação. Este homem
«justo», que, segundo o espírito das mais nobres tradições do povo eleito,
amava a Virgem de Nazaré e a ela se encontrava ligado por amor esponsal, é
novamente chamado por Deus para este amor.
«José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e
recebeu consigo a sua esposa»; o que se gerou nela «é obra do Espírito Santo».
Ora, de tais expressões, não se imporá porventura deduzir que também o seu amor
de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? Não se imporá porventura
pensar que o amor de Deus, que foi derramado no coração humano pelo Espírito
Santo (cf. Rom 5, 5), forma do modo mais perfeito todo o amor humano? Ele forma
também — e de maneira absolutamente singular — o amor esponsal dos cônjuges,
nele dando profundidade a tudo aquilo que seja humanamente digno e belo e tenha
as marcas da exclusiva entrega, da aliança das pessoas e da comunhão autêntica,
a exemplo di Mistério trinitário.
«José... recebeu consigo a sua esposa, a qual, sem
que ele a conhecesse, deu à luz um filho» (Mt. 1, 24-25). Estas palavras
indicam ainda outra proximidade esponsal. A profundeza desta proximidade, a
intensidade espiritual da união e do contacto entre pessoas — do homem e da
mulher — provêm em última análise do Espírito que dá a vida (cf. Jo. 6, 63).
José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu
amor esponsal de homem; e este amor foi maior do que aquele «homem justo»
poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano.
20. Na Liturgia, Maria é celebrada como tendo estado
«unida a José, homem justo, por um vínculo de amor esponsal e virginal». (31)
Trata-se, de facto, de dois amores que, conjuntamente, representam o mistério
da Igreja, virgem e esposa, a qual tem no matrimónio de Maria e José o seu
símbolo. «A virgindade e o celibato por amor do Reino de Deus não só não se
contrapõem à dignidade do matrimónio, mas pressupõem-na e confirmam-na. O
matrimónio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único
Mistério da Aliança de Deus com o seu povo», (32) que é comunhão de amor entre
Deus e os homens.
Mediante o sacrifício total de si próprio, José
exprime o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe «dom esponsal
de si». Muito embora decidido a afastar-se, para não ser obstáculo ao plano de
Deus que nela estava a realizar-se, por ordem expressa do anjo ele manteve-a consigo
e respeitou a sua condição de pertencer exclusivamente a Deus.
Por outro lado, foi do matrimónio com Maria que
advieram para José a sua dignidade singular e os seus direitos em relação a
Jesus. «É certo que a dignidade da Mãe de Deus assenta tão alto, que nada pode
haver de mais sublime; mas, por isso mesmo que entre a Santíssima Virgem a José
foi estreitado o vínculo conjugal, não há dúvida de que ele se aproximou como
ninguém dessa altíssima dignidade, em virtude da qual a Mãe de Deus ocupa lugar
eminente, a grande distância de todas as criaturas. Uma vez que o casamento é a
comunidade e a amizade máxima a que, por sua natureza, anda ligada a comunhão
de bens, segue-se que, se Deus quis dar José como esposo à Virgem, deu-lo não
apenas como companheiro na vida, testemunha da sua virgindade e garante da sua
honestidade, mas também para que ele participasse, mediante o pacto conjugal,
na sua excelsa grandeza. (33)
21. Um tal vínculo de caridade constituiu a vida da
Sagrada Família; primeiro, na pobreza de Belém, depois, durante o exílio no
Egipto e, em seguida, quando ela morava em Nazaré. A Igreja rodeia de profunda
veneração esta Família, apresentando-a como modelo para todas as famílias. A
Família de Nazaré, directamente inserida no mistério da Incarnação, constitui
ela própria um mistério particular. E ao mesmo tempo — como na Incarnação — é a
este mistério que pertence a verdadeira paternidade: a forma humana da família
do Filho de Deus, verdadeira família humana, formada pelo mistério divino.
Nela, José é o pai: a sua paternidade, porém, não é só «aparente», ou apenas
«substitutiva»; mas está dotada plenamente da autenticidade da paternidade
humana, da autenticidade da missão paterna na família. Nisto está contida uma
consequência da união hipostática: humanidade assumida na unidade da Pessoa
divina do Verbo-Filho, Jesus Cristo. Juntamente com a assunção da humanidade,
em Cristo foi também «assumido» tudo aquilo que é humano e, em particular, a
família, primeira dimensão da sua existência na terra. Neste contexto foi
«assumida» também a paternidade humana de José.
Com base neste princípio, adquirem o seu significado
profundo as palavras dirigidas por Maria a Jesus, no templo, quando ele tinha
doze anos: «Teu pai e eu... andávamos à tua procura». Não se trata de uma frase
convencional: as palavras da Mãe de Jesus indicam toda a realidade da
Incarnação, que pertence ao mistério da Família de Nazaré. José, que desde o
princípio aceitou, mediante «a obediência da fé», a sua paternidade humana em
relação a Jesus, seguindo a luz do Espírito Santo que por meio da fé se doa ao
homem, por certo ia descobrindo cada vez mais amplamente o dom inefável desta
sua paternidade.
23. No crescimento humano de Jesus «em sabedoria, em
estatura e em graça» teve uma parte notável a virtude da laboriosidade, dado
que «o trabalho é um bem do homem», que «transforma a natureza» e torna o
homem, «em certo sentido, mais homem». (34)
A importância do trabalho na vida do homem exige que
se conheçam e assimilem todos os seus conteúdos, «para ajudar os demais homens
a aproximarem-se através dele de Deus, Criador e Redentor, e a participarem nos
seus desígnios salvíficos quanto ao homem e quanto ao mundo; e ainda, a
aprofundarem na sua vida e amizade com Cristo, tendo, mediante a fé vivida, uma
participação no seu tríplice múnus: de Sacerdote, de Profeta e de Rei». (35)
24. Trata-se, em última análise, da santificação da
vida quotidiana, no que cada pessoa deve empenhar-se, segundo o próprio estado,
e que pode ser proposta apontando para um modelo acessível a todos: São José é
o modelo dos humildes, que o Cristianismo enaltece para grandes destinos;... é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de
Cristo não se necessitam «grandes coisas», mas requerem-se somente virtudes
comuns, humanas, simples e autênticas». (36)
25. Também quanto ao trabalho de carpinteiro na casa
de Nazaré se estende o mesmo clima de silêncio, que acompanha tudo aquilo que
se refere à figura de José. Trata-se, contudo, de um silêncio que desvenda de
maneira especial o perfil interior desta figura. Os Evangelhos falam
exclusivamente daquilo que José «fez»; no entanto, permitem-nos auscultar nas
suas «acções», envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação.
José estava quotidianamente em contacto com o mistério «escondido desde todos
os séculos», que «estabeleceu a sua morada» sob o tecto da sua casa. Isto
explica, por exemplo, a razão por que Santa
Teresa de Jesus, a grande reformadora do Carmelo contemplativo, se tornou
promotora da renovação do culto de São José na cristandade ocidental.
26. O sacrifício total, que José fez da sua
existência inteira, às exigências da vinda do Messias à sua própria casa,
encontra a motivação adequada na «sua insondável vida interior, da qual lhe
provêm ordens e consolações singularíssimas; dela lhe decorrem também a lógica
e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi
a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria
liberdade, a sua legítima vocação humana e a felicidade conjugal, aceitando a
condição, a responsabilidade e o peso da família e renunciando, por um
incomparável amor virgíneo, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta a
mesma família». (37)
Esta submissão a Deus, que é prontidão de vontade
para se dedicar às coisas que dizem respeito ao seu serviço, não é mais do que
o exercício da devoção, que constitui uma das expressões da virtude da
religião. (38)
Entre estas acções os Evangelistas privilegiam
aquelas que dizem respeito ao mistério pascal; mas não deixam de frisar bem a
importância do contacto físico com Jesus em ordem às curas de enfermidades
(cf., por exemplo, Mc. 1, 41) e a influência por ele
exercida sobre João Baptista, quando ambos estavam ainda no seio materno (cf.
Lc. 1, 41-44).
O testemunho apostólico não transcurou — como já se
viu — a narração do nascimento de Jesus, da circuncisão, da apresentação no
templo, da fuga para o Egipto e da vida oculta em Nazaré, por motivo do
«mistério» de graça contido em tais «gestos», todos eles salvíficos, porque
todos participavam da mesma fonte de amor: a divindade de Cristo. Se este amor
se irradiava, através da sua humanidade, sobre todos os homens, certamente eram
por ele beneficiados, em primeiro lugar, aqueles que a vontade divina tinha
posto na sua maior intimidade: Maria, sua Mãe, e José, seu pai putativo. (40)
Uma vez que o amor «paterno» de José não podia
deixar de influir sobre o amor «filial» de Jesus e, vice-versa, o amor «filial»
de Jesus não podia deixar de influir sobre o amor «paterno» de José, como
chegar a conhecer as profundezas desta singularíssima relação? Justamente,
pois, as almas mais sensíveis aos impulsos do amor divino vêem em José um
exemplo luminoso de vida interior.
Mais ainda, a aparente tensão entre a vida activa e
a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui
a perfeição da caridade. Atendo-nos à conhecida distinção entre o amor da
verdade (caritas veritatis) e as exigências do amor (necessitat caritatis),
podemos dizer que José fez a experiência quer do amor da verdade, ou seja, do
puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de
Cristo, quer das exigências do amor, ou seja, do amor igualmente puro do
serviço, requerido pela protecção e pelo desenvolvimento dessa mesma
humanidade. (41)
28. Em tempos difíceis para a Igreja, Pio IX,
desejando confiá-la à especial protecção do Santo Patriarca José, declarou-o
«Patrono da Igreja católica». (42) Esse Sumo Pontífice sabia que não estava a
levar a efeito um gesto peregrino, porque, em virtude da excelsa dignidade
concedida por Deus a este seu servo fidelíssimo, «a Igreja, depois da Virgem
Santíssima, esposa dele, teve sempre em grande honra e cumulou de louvores o
Bem-aventurado José e, no meio das angústias, de preferência foi a ele que
recorreu». (43)
Quais são os motivos de tão grande confiança? O Papa
Leão XIII expõe-nos assim: «As razões pelas quais o Bem-aventurado José deve
ser considerado especial Patrono da Igreja, e a Igreja, por sua vez, deve
esperar muitíssimo da sua protecção e do seu patrocínio, provêm principalmente
do facto de ele ser esposo de Maria e pai putativo de Jesus (...). José foi a
seu tempo legítimo e natural guardião, chefe e defensor da divina Família
(...). É algo conveniente e sumamente digno para o Bem-aventurado José,
portanto, que, de modo análogo àquele com que outrora costumava socorrer
santamente, em todo e qualquer acontecimento, a Família de Nazaré, também agora
cubra e defenda com o seu celeste patrocínio a Igreja de Cristo». (44)
29. Este patrocínio deve ser invocado e continua
sempre a ser necessário à Igreja, não apenas para a defender dos perigos, que
continuamente se levantam, mas também e sobretudo para a confortar no seu
renovado empenho de evangelização do mundo e de levar por diante a nova
evangelização dos países e nações «onde — como eu escrevia na Exortação
Apostólica Christifideles laici — a religião e a vida cristã foram em tempos
tão prósperas», mas «se encontram hoje submetidas a dura provação». (45) Para
levar o primeiro anúncio de Cristo ou para voltar a apresentá-lo onde ele foi
transcurado ou esquecido, a Igreja precisa de uma particular «força do Alto»
(cf. Lc. 24, 49), que é dom do Espírito do Senhor, certamente, mas não anda
disjunta da intercessão e do exemplo dos seus Santos.
30. Além da confiança na protecção segura de José, a
Igreja tem confiança no seu exemplo insigne, um exemplo que transcende cada um
dos estados de vida e se propõe a toda a comunidade cristã, sejam quais forem a
condição e as tarefas de cada um dos fiéis.
Como se diz na constituição do Concílio Vaticano II
sobre a Divina Revelação, a atitude fundamental de toda a Igreja deve ser de
«religiosa escuta da palavra de Deus»; (46) ou seja, de absoluta
disponibilidade para se pôr fielmente ao serviço da vontade salvífica de Deus,
revelada
O Papa São Paulo
VI exortava a invocar o seu patrocínio, «como a Igreja, nestes últimos
tempos, tem o costume de fazer, para si mesma, antes de mais nada, para uma
espontânea reflexão teológica sobre o conúbio da acção divina com a acção
humana na grande economia da Redenção, no qual, a primeira, a acção divina, é
só por si totalmente suficiente, mas a segunda, a acção humana, a nossa, embora
não seja capaz de fazer coisa alguma sozinha (cf. Jo 15, 5), nunca está
dispensada de uma humilde, mas condicional e nobilitante colaboração. Além
disso, a Igreja invoca-o como protector, por um desejo profundo e actualíssimo
de rejuvenescer a sua existência secular, com autênticas virtudes evangélicas,
como as que refulgem
Há cem anos, exactamente, o Papa Leão XIII exortava
o mundo católico a rezar para obter a protecção de São José, Patrono de toda a
Igreja. A Carta Encíclica Quamquam pluries fazia apelo para aquele «amor
paterno» que José «dedicava ao Menino Jesus» e recomendava-lhe, a ele «próvido
guarda da divina Família, a preciosa herança que Jesus Cristo adquiriu com o
próprio sangue». Desde então, a Igreja — como foi recordado mais acima —
implora a protecção de São José, «em virtude daquele vínculo de caridade que o
uniu à imaculada Virgem Mãe de Deus», e recomenda-lhe todas as suas solicitudes,
também pelo que se refere às ameaças que incumbem sobre a família humana.
Nos dias de hoje, temos ainda numerosos motivos para
rezar da mesma maneira: «Afastai de nós, ó pai amantíssimo, esta peste de erros
e de vícios..., assisti-nos propício, do céu, nesta luta contra o poder das
trevas...; e assim como outrora livrastes da morte a vida ameaçada do Menino
Jesus, assim hoje defendei a santa Igreja de Deus das ciladas do inimigo e de
todas as adversidades». (49) Hoje ainda temos motivos que perduram para recomendar
todos e cada um dos homens a São José.
32. Desejo vivamente que esta evocação da figura de
São José renove também em nós o ritmo da oração que, há um século atrás, o meu
Predecessor estabeleceu que lhe fosse elevada. É fora de dúvida, efectivamente,
que esta oração e a própria figura de São José se revestem de actualidade
renovada para a Igreja do nosso tempo, em relação com o novo Milénio cristão.
O Concílio Vaticano II procurou sensibilizar-nos
novamente a todos para «as grandes coisas de Deus» e para aquela «economia da
salvação» de que São José foi particularmente ministro. Recomendando-nos, pois,
à protecção daquele a quem o próprio Deus «confiou a guarda dos seus tesouros
mais preciosos e maiores», (50) aprendamos com ele, ao mesmo tempo, a servir a
«economia da salvação». Que São José se torne para todos um mestre singular no
serviço da missão salvífica de Cristo, que, na Igreja, compete a cada um e a
todos: aos esposos e aos pais, àqueles que vivem do trabalho das próprias mãos
e de todo e qualquer outro trabalho, às pessoas chamadas para a vida
contemplativa e às que são chamadas ao apostolado.
O homem justo, que trazia em si o património da
Antiga Aliança, foi também introduzido no «princípio» da nova e eterna Aliança
Que São José obtenha para a Igreja e para o mundo,
assim como para um de nós, a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de Agosto - solenidade da Assunção de Nossa Senhora - no ano de 1989,
undécimo ano de Pontificado.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)