REGRA PARA A
ORAÇÃO

Regra para a oração, para quem está no caminho de
uma vida para servir à Deus: "Memorizar o Salmos"; "Substituir
as preces longas pelas curtas"; "O rosário de oração".
Você pergunta sobre uma regra de oração.
Sim, é bom ter uma regra de oração devido à nossa fraqueza para que, por um
lado, não nos rendamos à nossa preguiça, e por outro, limitemos nosso
entusiasmo à sua medida adequada. Os maiores praticantes de oração seguiam uma
regra de oração. Eles sempre começavam com preces já existentes e se, durante o
curso das mesmas, uma prece se sobressaísse, eles deixariam de lado as outras e
rezariam tal oração (a da prece que se sobressaiu). Se isto é o que os grandes
praticantes faziam, há todas as razões para que o façamos também. Sem preces
estabelecidas, nós não saberíamos rezar, absolutamente. Sem elas, seríamos
deixados inteiramente sem preces.
Contudo, as pessoas não têm que fazer muitas preces
(Conforme o
ensinamento de Jesus, no Evangelho de São Mateus: "E quando rezardes,
não sejais como os hipócritas que gostam de fazer suas orações de pé nas
sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade, eu
vos digo: já receberam a sua recompensa. Quanto a ti, quando quiseres orar,
entra em teu quarto mais retirado, tranca a tua porta, e dirige a tua oração ao
teu Pai que está ali, no segredo. E teu Pai, que vê no segredo, te retribuirá.
Quando orardes, não multipliqueis palavras como fazem os pagãos; eles imaginam
que pelo muito falar se farão atender. Não vos assemelheis, pois, a eles,
porque vosso Pai sabe do que precisais, antes que lho peçais" (Mt. 6, 5-8). É melhor fazer um número menor, correctamente, do que apressar-se e
fazer muitas, porque é difícil manter o calor do zelo quando são feitas
Para obter melhores resultados, dedique um pouco do
seu tempo lendo as preces separadamente. Pense sobre elas e sinta-as para que,
ao recitá-las na sua regra de oração, você perceba quais os pensamentos e
sentimentos sagrados estão contidos nelas. A oração não significa, apenas, que
as recitemos, mas que assimilemos seu conteúdo e as pronunciemos, como se
saíssem de nossas mentes e corações.
Após ter analisado e sentido as preces, procure
memorizá-las. Então, você não terá que manusear seu livro (de orações) e a luz
(necessária à leitura) quando for a hora de rezar; tão-pouco você se distrairá
por qualquer coisa que veja enquanto reza, podendo, mais facilmente, manter uma
súplica mais conscienciosa para com Deus. Você verá por si o quanto isto ajuda.
Manter o livro com vocé o tempo todo e em todos os
lugares (na mente e no coração) é de grande importância.
Estando assim preparado, ao realizar a prece, tome
cuidado para que sua mente não vagueie nem se renda à frieza e indiferença,
esforçando-se a qualquer custo para manter sua atenção e para manter o calor do
sentimento.
Após recitar as preces, faça prostrações, quantas
quiser, acompanhadas por uma prece para qualquer necessidade que você sinta, ou
usando sua prece curta (sua pequena prece) de costume. Isto prolongará um pouco
seu tempo de prece, mas seu poder aumentará. Você deve orar um pouco mais, especialmente
no final, pedindo perdão por desvios sem intenção e colocando-se nas mãos de
Deus o dia inteiro.
Vocé também deve manter uma
atenção especial a Deus ao longo do dia. Para isso, como já foi mencionado mais
de uma vez, há uma lembrança de Deus; e para lembrar-se de Deus há preces
curtas. É muito, muito bom memorizar vários salmos, recitando-os enquanto se
está trabalhando ou no intervalo entre tarefas, ao invés de preces curtas. Este
é um dos mais antigos costumes cristãos, mencionado e incluído nas regras de
São Pacómio e Santo Antão.
Depois de passar o dia desta maneira, você deve
rezar mais diligentemente e com mais concentração à noite. Aumente suas
prostrações e pedidos a Deus; depois de se posicionar com as mãos unidas (no
Divino) novamente, vá dormir com a prece curta nos seus lábios e durma com ela
ou recite um salmo.
Que salmos você deveria memorizar? (O leitor notará que, para
cada citação do salmo, aparecem dois números; por exemplo, Salmo 23 (22). O
motivo é que, por volta de meados do século II a.c.,
o texto hebraico dos Salmos foi traduzido para o grego, para uso dos judeus da
Diáspora — a chamada versão dos Setenta (LXX), ou Septuaginta. O Psaltérion
ou Psalmoi (forma como a versão dos Setenta
denomina o Livro dos Salmos ou, propriamente, os Salmos, respectivamente,
encaixado entre o livro de Job e os Profetas, contém um salmo suplementar (Sl 151). A numeração dos poemas não é totalmente idêntica à
do texto hebraico masorético. Com efeito, por duas
vezes ocorre o caso de um salmo, único no texto hebraico, estar dividido em
dois na versão grega dos Setenta (Sl 116 e 147).
Inversamente, e também aqui por duas vezes, dois salmos da colectânea hebraica
(9 e 10; 113 e 114) correspondem a um único canto da Septuaginta, donde uma
defasagem na numeração.) Memorize os que tocam seu coração ao lê-los. Cada pessoa encontrará um
salmo que gere mais efeito para ela. Comece com o "Tem piedade de mim,
meu Deus" (Salmo 51 (50); então "Bendiz o Senhor, ó minha
alma" (Salmo 103 (102); e o "Ó minha alma, louva o
Senhor" (Salmo 146 (145). Estes dois últimos são os hinos antífonos na
Liturgia. Há também salmos no Cánone para a Comunhão
Divina: "O Senhor é meu pastor" (Salmo 23 (22); "Ao
Senhor, a terra e suas riquezas, o mundo e seus habitantes" (Salmo 24
(23); "Eu amo o Senhor, pois Ele ouve a minha voz suplicante"
(Salmo 116 (114-115); e o primeiro salmo da vigília nocturna, "Ó Deus,
vem libertar-me" (Salmo 70 (69).
Há os Salmos das horas e os semelhantes. Leia o
Livro dos Salmos e seleccione.
Após ter memorizado todos estes, você sempre estará
plenamente munido de preces. Quando algum pensamento perturbador lhe ocorrer,
apresse-se em abaixar-se diante do Senhor, tanto com uma prece curta, quanto
com um dos Salmos, especialmente "oh Senhor, seja atencioso ao ajudar-me",
e a nuvem perturbadora irá se dispersar imediatamente.
Aí está tudo sobre uma regra para prece.
Contudo, mencionarei mais uma vez que você deveria se lembrar de todas estas
ajudas e a coisa mais importante é estar diante de Deus com a mente e coração,
com devoção e prostração sincera a ele.
Pensei em algo para lhe dizer! Você pode limitar a
regra de oração inteira apenas a prostrações com preces curtas e preces com
suas próprias palavras. Fique em pé e faça prostrações, dizendo "Senhor,
tenha misericórdia", ou qualquer outra prece, expressando sua necessidade
ou louvando e agradecendo a Deus. Você deveria estabelecer tanto um número de
preces quanto um limite de tempo para a prece, ou ambos, para que você não
fique preguiçoso.
Isto é necessário porque há uma certa peculiaridade
incompreensível a nosso respeito. Quando, por exemplo, saímos para alguma
actividade, as horas passam como se fossem minutos. Quando rezamos, contudo,
mal alguns minutos se passaram e parece que estivemos rezando por um tempo muito
longo. Este pensamento não é prejudicial quando rezamos segundo uma regra
estabelecida; mas quando alguém reza, fazendo prostrações com preces curtas,
isto apresenta grande tentação. Isto pode colocar um fim a uma prece que mal
começou, deixando a falsa certeza de que ela foi feita devidamente. Então, os
bons praticantes deveriam utilizar rosários de preces para que não se
submetessem a essa auto-decepção. Rosários de preces são sugeridos para aqueles
que desejam rezar usando suas próprias preces, que não as do livro. Eles são
utilizados da seguinte maneira: diga "Senhor Jesus Cristo, tenha
misericórdia de mim, um pecador". Essa oração é conhecida como "A Oração de
Jesus" que, completa, é: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende
piedade de mim, pecador". Pode-se afirmar que essa oração está
fundamentada na seguinte passagem do Evangelho de São Lucas: "Ora,
quando ele se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho,
pedindo esmolas. Tendo ouvido passar a multidão, perguntou o que era.
Anunciaram--lhe: ‘É Jesus, o Nazareno que está passando’. Ele exclamou: ‘Jesus,
filho de David, tem compaixão de mim!’ Os que iam na frente o repreendiam para
que se calasse; mas ele gritava ainda mais: ‘Filho de David, tem compaixão de
mim!’ Jesus se deteve e ordenou que lho trouxessem; quando ele se aproximou,
Jesus o interrogou: ‘Que queres que eu faça por ti?’ Ele respondeu: ‘Senhor,
que eu recupere a vista!’ Jesus lhe disse: ‘Recupera a vista! A tua fé te
salvou! ‘ No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus, dando
glória a Deus. Todo o povo, vendo isto, ergueu a Deus o seu louvor" (Lc. 18, 35-43). Em português, há dois livros
clássicos da espiritualidade ortodoxa, editados pela Paulus, comentando a Oração
de Jesus: "O Peregrino Russo" e "Novos Relatos do Peregrino
Russo". Em grego, a "Oração de Jesus" escreve-se:
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e é pronunciada da seguinte
maneira: "Kírie
Iissú Christé, Ié Tu Theú, Eléison
Mê
Faça uma prostração em cada repetição da prece, como
preferir, tanto parcial (com a cintura), como a completa (estendendo-se sobre o
chão); ou, para as contas pequenas, faça a prostração da cintura e, para as
maiores, faça a completa no chão. A regra em tudo isto consiste em ter um
número definido de repetições de preces, com prostrações às quais são adicionadas
outra preces, com suas próprias palavras. Ao decidir o número de prostrações ou
preces, estabeleça um limite de tempo para que você não se engane e não se
apresse ao executá-las. Se você terminar antes do esperado, poderá preencher o
tempo fazendo mais prostrações.
O número de prostrações que devem ser feitas para
cada prece é estabelecida ao final do livro de Salmos,
com sequências em duas categorias: uma para pessoas diligentes e outra para os
preguiçosos ou ocupados. Os anciães que vivem hoje conosco
em sketes ou kellia
especiais ("Sketes" são pequenas comunidades monásticas, de alguma
forma dependentes (ligadas, vinculadas) a um grande mosteiro cristão ortodoxo), em lugares como Valaam ou Solovki (Valaam é um arquipélago de cerca de
cinquenta ilhas, numa área de
Experimente! Anote quanto tempo você leva nas preces
matinais e nocturnas, então sente-se e recite suas preces curtas com o rosário
e veja quantas voltas você deu no rosário durante o tempo geralmente necessário
para a prece. Faça com que seja essa a medida para sua regra. Faça isto não
durante seu horário de oração habitual, mas em qualquer outro momento, embora
fazendo-o com a mesma atenção. A regra de oração é então conduzida desta
maneira, levantando-se e fazendo-se reverências.
Depois de ler isto, não pense que eu vou levá-lo para
um mosteiro. A primeira vez que ouvi a respeito de rezar com um rosário, foi de
um praticante leigo, não de um monge.
Muitas pessoas leigas ou monásticas rezam desta maneira. Deveria ser adequado
para você também. Quando você está recitando preces que você memorizou e elas
não te tocam, você pode, neste dia, rezar usando o rosário e fazer preces
decoradas num outro dia. Desta forma as coisas vão melhorar.
Repito que a essência da prece é elevar a mente e o
coração a Deus; estas pequenas regras são uma ajuda. Nós não podemos progredir
sem elas, em função da nossa fraqueza. Que Deus te abençoe!
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)