A VIDA MONÁSTICA NA IGREJA CATÓLICA
ORTODOXA
A Origem da vida Monástica
Durante o IV século da nossa era surgiu dentro da
Igreja um forte movimento de afastamento da sociedade organizada para o
deserto. Um movimento que teve um crescimento ainda maior no período seguinte.
Para interpretar este repentino movimento, os historiadores propuseram diversas
hipóteses, sendo duas delas as mais aceites.
A primeira
hipótese: a vida monástica teria sua
origem nas religiões orientais, naquelas que praticavam o ascetismo já há
muitos anos, tanto em absoluta solidão como em monastérios.
A segunda hipótese: a vida monástica proporcionava uma saída
quando o contacto próximo do cristianismo com o mundo provocava uma reacção com
ele, um inevitável desleixo das normas morais.
A primeira das hipóteses carece de fundamento, pois
é impossível descobrir historicamente uma conexão entre o ascetismo oriental e
a vida monacal cristã. Ademais, se o cristianismo tivesse recebido tal
influência e, sendo assim, estamos afirmando que a vida monástica teria surgido
dos grupos ascéticos dos essênios, como explicar o facto da vida monástica ter
surgido muito tempo depois do desaparecimento das comunidades dos essênios? O
que não significa, contudo, que em suas etapas posteriores, a vida monástica
não tivesse certas características comuns com as comunidades dos essênios e com
as comunidades neo-pitagóricas.
A segunda hipótese é igualmente inaceitável posto
que existiam numerosos eremitas vivendo livremente, já antes mesmo do reconhecimento
do cristianismo por Constantino, o Grande.
A vida monástica é um modo de vida que surgiu dentro
da Igreja e se desenvolveu organicamente levando até aos seus limites os
princípios da moral cristã. Com efeito, ainda o cristianismo não nasceu como
uma filosofia pessimista, nem como uma força com pretensões de dissolver a
sociedade. Regia-se, evidentemente, por princípios diferentes dos da sociedade
daquele tempo. Dava atenção àquilo que é o centro da vida e se despreocupava
com as coisas periféricas. Uma coisa tinha valor supremo para o homem: a alma.
Colocada ao lado do mundo, este insignificante. "E que aproveita o
homem ganhar todo o mundo se perder sua alma?" (Mt.
16, 26). As coisas do mundo dificultam os movimentos da alma, e os bens do
mundo se acumulam em sua volta, sufocando-a e impedindo que se desenvolva
harmoniosamente.
Por conseguinte, para o homem que pretende
libertar-se do seu próprio "eu" é esperada uma árdua luta. Esta luta
é entre o "eu" que
pertence ao mundo com o "Eu" superior e ideal que possibilitará ao
homem apresentar-se diante de Deus. Neste esforço, tal como declarou Jesus
Cristo, o homem deverá submeter-se a si mesmo como também seus actos a um
rigoroso exame. É necessário abandonar muitos bens mundanos para obter o tesouro
celestial e submeter-se a prova do sofrimento para purificar sua vontade.
Baseando-se nestes princípios, os primeiros cristãos
viviam de acordo com um plano moral excepcionalmente elevado; mas alguns deles
quiseram ascender a uma austeridade maior, privando-se de mais bens e
submetendo-se a uma maior auto-moderação, com jejuns e oração.
Para um cristão o matrimónio é algo honrável, um
grande Sacramento, mas não deixa de ser uma instituição deste mundo. Por esta
razão, quem podia, evitava-o; alguns buscaram uma alternativa, substituindo-o
por uma espécie de matrimónio espiritual, na qual o homem e a mulher conviviam
em pureza (1 Cor 7, 36 ss). Muitas viúvas evitavam um
outro matrimónio, e as virgens se negavam a casar. Estas mulheres
organizavam-se em sociedades especiais, em primeiro lugar para se proteger, e
em segundo, para concentrar suas as actividades em trabalhos sociais. É aqui
onde encontramos a primeira forma de vida monástica que se desenvolveu dentro
das comunidades cristãs organizadas.
Em meados do século III, a perseguição aos cristãos
era tal que muitos se viram obrigados a retirar-se das cidades. No início do
século IV, a situação piorou ainda mais, e as perseguições intensificaram-se.
Aqueles que se tinham retirado anteriormente, deveriam permanecer por mais
tempo. Acostumaram-se tanto a viver nestes lugares a ponto de estabelecer lá
uma morada permanente, longe da sociedade do mundo.
Cessaram as perseguições, mas a perseguição mundana
havia chegado a ser um elemento inseparável da vida dos cristãos, e muitos não
podiam conceber uma vida livre de perseguidores. Deste modo se converteram em
perseguidores deles mesmos: subiram para as montanhas e se submeteram as
privações e sofrimentos. No lugar do "sangue do martírio", resultante
da luta entre homens violentos, submetiam-se, eles mesmos "ao martírio da
consciência", que consistia na luta contra os demónios. Tempos depois, as
montanhas converteram-se em moradas dos eremitas e, gradualmente, em moradas de
comunidades organizadas de monges. Com o passar do tempo, cada vez mais os
lugares remotos eram buscados como refúgios para os ascéticos, como por
exemplo, o Monte
Athos e Meteora. Quanto mais longe viviam os ascetas, maiores eram a
reverência e a admiração que evocavam das pessoas comuns.
O primeiro eremita conhecido foi Paulo de Tebas, mas
o primeiro guia da vida no deserto foi Antão, o Grande (356), cuja vida foi
escrita com perspicácia e amor por Atanásio, o Grande. Viveu no deserto mais de
setenta anos e só ia à Alexandria quando a ocasião requeria, ou seja, quando
sabia de alguma perseguição, dava ânimo aos que sofriam. Sua fama chegou a
Constantino, o Grande, que recorria a ele com frequência para ter seus
conselhos, mediante carta. Mas em particular despertou o entusiasmo de muitos
homens simples que imitaram seu exemplo. Levavam uma vida de total isolamento,
e somente quando necessitavam conselhos visitavam S.
Antão ou algum outro monge maior, ou um Abade. Às vezes sucedia que um
desses monges maiores falecia, mas passavam dias até que os outros soubessem e
pudessem sepultá-los. Cada anacoreta organizava sua a própria oração, refúgio,
vestuário, alimento e trabalho. O trabalho consistia principalmente em fazer
objectos de palha (artesanato) que eram vendidos nos mercados da região.
Somente aos domingos caminhavam até a Igreja mais próxima, para rezarem juntos
e receber a Sagrada Comunhão. Deste modo, a vida dos eremitas ficava fora do control total da Igreja. Era evidente que o isolamento
absoluto conduzia a acções arbitrárias e não aderia a todas as exigências do
Evangelho cristão. Em primeiro lugar, não havia supervisão espiritual dos
eremitas e em segundo, as suas actividades eram concentradas no serviço ao
próximo. Disto se deram conta alguns dos grandes ascetas que empreenderam uma
oportuna reforma: Hilário, na região de Gaza; Amônio, em Nitria e Macário em
Sketis (Egipto). Os três viveram durante o século IV. Fizeram do principal
mercado da região, onde os monges vendiam seus produtos, seu centro de acção.
Estes mercados receberam o nome de "lavras", mais tarde os estabelecimentos
de mercado junto aos monastérios receberam este mesmo nome.
Os eremitas viviam em numerosos aposentos
construídos em torno às lavras a tal distância que não se podiam ver nem ouvir
uns aos outros. Nesta vida comunitária, a independência se submetia a um certo
limite; ademais, na ascese era possível um elemento de flexibilidade. De tempo
em tempo, o chefe da lavra examinava os aposentos e exercia certo grau de
autoridade sobre os monges. Todos se reuniam para a oração em comum aos sábados
e domingos.
Pacômio (346), no Egipto, deu um passo adiante. Além
da administração e da oração, colocou sob sua supervisão o refúgio, as vestes,
a dieta e o trabalho dos monges. Habitualmente viviam em dormitórios espaçosos.
Pode-se dizer que, com o sistema de vida monástica, onde os monges vivem
juntos, seria mais fácil viver.
O sistema de vida comum permitiu que também as
mulheres se dedicassem a ascese, optando pela vida monástica. Para elas era
perigoso viver totalmente no isolamento. A principal vantagem deste sistema era
que o monaquismo poderia participar das actividades filantrópicas.
Que a vida monástica tomasse esta direcção, foi a
principal obra de Basílio,
o Grande (378), Bispo de Cesaréa. Viveu em solidão durante algum tempo em seu
sítio, em Ponto, com os membros da sua família. Ali escreveu sua principal
obra, "Ascética", que se transformou na base da organização do
monaquismo durante o período seguinte. Recomendava aos monges que se reunissem
em grupos organizados, de acordo com a natureza social do homem: "O homem é um ser dócil e social e não um
selvagem e solitário. Já que não há nada que caracterize mais nossa natureza
que a de associarmo-nos uns aos outros, necessitamos uns dos outros, e
necessitamos amar nossa espécie" (Normas gerais 3,1 Pg 31, 947). De acordo com esta norma, os monges deveriam
voltar do deserto às cidades e fundar nelas cenóbios filantrópicos. O mesmo
Basílio voltou à Cesaréa e organizou um grupo inteiro de instituições
beneficentes, que mais tarde receberam, em sua honra, o nome de basílios. Desde
o início a direcção destes basílios estava nas mãos dos monges a quem chamavam
"pais dos órfãos".
O cenóbio poderia considerar-se como a forma final
do monaquismo, mas não é assim. Num primeiro momento necessitou o jugo dos
ascetas, mais tarde, com certeza, foi mais difícil de suportar. Por este
motivo, surgiu na Idade Média uma tendência dirigida a um modo de vida menos
estrito que resultou na constituição de uma vida "idiorritmica". Os
"contemplativos", isto é, aqueles que se dedicam à contemplação de
Deus, tratavam de exonerar-se de trabalhos práticos e sociais, cuja finalidade
era de que nada impedisse o seu trabalho espiritual, ao mesmo tempo, os monges
mais idosos (ou enfermos) buscavam uma suavização da disciplina.
Nos mosteiros idiorritimicos, a administração, as
vestes, a oração, e até certo ponto, a residência, eram comuns. A dieta e o
trabalho ficavam fora de control. Assim aos monges se lhes permitiu a aquisição
de propriedades privadas que não poderia superar certos limites. Deste ponto de
vista, a vida idiorritimica se pode considerar como um retorno ao sistema comum
da "lavra". Também é uma combinação dos modelos eremitas e comunal de
monaquismo. Estes diferentes tipos de monaquismo seguem paralelos ao longo dos
séculos. Dentro da tradição eremítica surgiram variações diferentes e
interessantes, adoptando em certas ocasiões formas extremas. Os confessores
fechavam-se durante muitos anos em seus aposentos, comunicando-se com o mundo
exterior unicamente mediante carta, e para receber sua exígua porção de comida.
Os estilitas viviam em ruínas semi-destruídas. Os "loucos por Cristo"
viajavam ostentando sua loucura por humildade.
Todas essas modalidades de vida monástica até hoje
existem. Os eremitas, podemos encontrá-los quase que exclusivamente nos pontos
mais remotos da península do Monte Athos. Os outros dois sistemas, o cenobítico
e idiorritimico, nos mosteiros que se espalham em todas as regiões católicas
ortodoxas.
Hoje em dia a vida monacal se estendeu por todo o
mundo, mas muitos esforços foram necessários para alcançar esta realidade. O
movimento teve seu início, como vimos, no Egipto, onde importantes centros
monásticos, com milhares de monges, se desenvolveu com rapidez, vivendo os
monges em suas celas, em lavras e
Os ascetas fizeram sua aparição na Síria nas
primeiras décadas do século IV. Normalmente se tratava de homens e mulheres
ambulantes; estas últimas se vestiam como homens. Pretendiam abolir todo o tipo
de diferença entre os sexos e evitavam trabalhar. Devido á posição dominante
que outorgavam a oração foram chamados de "euquitas" ou, em língua
siríaca, "mesalianianos". Devido a alguns desvios, recebiam
críticas por parte da Igreja.
Ao mesmo tempo, a forma mais moderada de monaquismo
organizado chegava á Síria. O grande hinógrafo e teólogo Efrain, o Sírio,
também fez esforços frutuosos com intenção de
organizar a vida monástica. O monaquismo começou a perder terreno nestes três
países desde o início do século VII, quando os árabes invadiram estas regiões.
Mas nunca desapareceu por completo. Actualmente, além dos ortodoxos, os coptas,
os arménios e os nestorianos têm os seus monastérios nestas regiões.
Através da Capadócia e da Ásia Menor, o Monaquismo
chegou à Capital do Império, Constantinopla. Muitos dos mosteiros que foram
fundados nos subúrbios de ambas as partes do Bósforo, converteram-se em
organizações florescentes; e, através das suas actividades, exerceram uma
influência no curso dos assuntos eclesiásticos e também políticos. O mosteiro
dos Insomnes, fundado por Alexandre (430), recebeu este nome porque os monges oravam
a Deus durante dia e noite, dividindo-se em três grupos que se alternavam na
Igreja.
O mosteiro de Studion,
fundado também no século V, pelo patrício romano Studios, chegou a ser o centro
do desenvolvimento litúrgico da Igreja Oriental. Teodoro, o estudita, século
IX, foi um exemplo para todos os monges, devido a seu comportamento heróico. Em
todas estas regiões as conquistas turcas acabaram com os mosteiros.
Na Grécia, no entanto, já se haviam formado fortes
centros de monaquismo. Entre os quais destaca-se o Monte Athos, desde o século
XI. Quando, a partir de então, recebeu a denominação de "Santa
Montanha" ou "Montanha Sagrada".
Em 963, o imperador Nicéforo
Focas decretou que concedia ao monge Atanásio o direito de fundar naquele lugar
uma grande lavra, e assim o fez. Num breve espaço de tempo estabeleceram-se ali
outras comunidades de monges e submeteram a supervisão geral de Protos. Com o fim de promover a difusão do monaquismo na
região, o Imperador Alexius Comnenus
determinou que todos os centros de Monte Athos ficassem sob a jurisdição do
Bispo mais próximo, o de Lerissos. E naturalmente
produziu-se dificuldades entre Lerissos e Protos, o qual fez necessária a abolição da jurisdição do
Bispo Lerissos. Isto aconteceu no final do século
XIV.
Protos do Monte Athos tomava
posição, uma vez obtida a aprovação por parte do Patriarca de Constantinopla. A
principio, o cargo era vitalício, e quem o ostentava
vivia em Karyes, a Capital da comunidade monástica.
Ocupava-se exclusivamente dos problemas externos gerais da comunidade, porque
os mosteiros gozavam de auto-governo interno.
As moradas na Montanha estão situadas num ambiente
impressionante e tranquilo.
O aumento dos ataques piratas que agravaram ainda
mais o enfraquecimento do Império Bizantino, bem como a conquista turca,
influenciaram na arquitectura das construções. As celas eram construídas na
parte superior dos muros das fortalezas com três até seis andares. No meio do
pátio havia um "katholikón", a igreja
central, ladeada por capelas.
A grande ocupação estrangeira provocou muitas
oscilações no poder e na força destes estabelecimentos. Hoje, o território
desta região autónoma esta dividido entre vinte mosteiros auto-suficientes. Um
representante de cada mosteiro, eleito anualmente, é enviado a Karyes, onde a Sagrada Comunidade, uma espécie de
parlamento, se reúne. Os mosteiros estão divididos em cinco grupos de quatro,
cada um encabeçado pelos mosteiros mais importantes: Lavra, Vatopedi,
Iviron, Hilandari e
Dionisios. Cada grupo se alterna para o exercício das funções administrativas
pelo período de um ano. Deste modo, dos vinte representantes, quatro compõem o
órgão executivo e o comité de superintendentes. Cada um deles conserva um
quarto do "selo da comunidade monástica".
Onze dos mosteiros, principalmente na parte
ocidental, são cenobíticos e estão governados por um Abade eleito e tem um
conselho de monges maiores que o aconselha. Nove, em sua maioria na parte
oriental, são idiorritimicos, governados por uma comissão de três superiores (proistamenoi) eleitos por um ano. O mosteiro de Hilandari é sérvio, o de Zografos
é búlgaro; o de Pantaleimon é russo. Há também um
eremitério romeno. O mosteiro de Iviron, que agora é
grego, foi anteriormente Georgiano (ibério). Até ao século XIII, existiu também
o mosteiro latino dos Amalfitanos.
Assim, a Montanha Sagrada converteu-se em símbolo da
catolicidade e unidade da Ortodoxia; e continua sendo o principal centro
monástico do Patriarcado Ecuménico, o único em seu género em todo o mundo
cristão. Infelizmente o número de monges diminuiu consideravelmente, o que fez
diminuir o vigor da vida monástica no lugar.
Durante os anos do Déspota de Elpiro,
Meteora converteu-se num célebre Centro Monástico. Construíram impressionantes
mosteiros sobre abruptos precipícios que, vistos de longe,
parecem ninhos de águias, onde foram cavadas inúmeros eremitérios nas rochas.
Até há pouco tempo, somente se poderia subir aos mosteiros através de cordas ou
redes. Só funcionam hoje em dia quatro dos vinte e quatro mosteiros da região, com
um pequeno número de monges. Muitos mosteiros permanecem e continuam
funcionando longe ou perto da Grécia, mas o número de monges não cessa de cair.
Do Oriente a vida monástica passou para o Ocidente,
já no século IV. Floresceu na Idade Média quando se organizaram as principais
ordens monásticas. Sua contribuição ao cristianismo e civilização dos povos da
Europa do Norte foi muito importante. O monaquismo juntamente com o
cristianismo, foi transmitido também aos povos do
norte da Grécia, aos eslavos, romenos entre outros. Célebres foram os líderes
russos António e Sérgio. Os primeiros ascetas da Rússia, os starsti,
eram bem conhecidos e inúmeros grupos de pessoas solicitavam seus conselhos.
Quando os primeiros ascetas se retiraram do mundo
para o deserto, abandonavam os bens mundanos: matrimónio, riqueza e actividades
independentes. O celibato era vivido de maneira parcial ou de forma absoluta.
Quanto à pobreza, antes vivida de maneira intensa, houve modificação se
comparada à vida idiorritmica, sem perder, no entanto sua essência, uma vez que
a propriedade dos monges não lhes dava condições de viver uma vida cómoda.
Quanto à obediência, seja prestada a um Abade ou a um Pai espiritual do
deserto, constituía uma inquietude primordial para os monges. O espírito
egoísta e independente representava o mundo secular, por isso deveria ser
eliminado por completo. O jovem asceta devia renunciar á própria vontade por
Deus na pessoa de seu pai espiritual, para tornar boa a sua vontade. Sobre isto
há um conto que diz que um Abade, desejando colocar á prova o progresso de seu
filho espiritual, perguntou-lhe se via os chifres (que não existem) de um asno
que naquele momento por ali passava. Logo o monge respondeu, sem titubeios: "Sim, os vejo, Abade".
A observância destas três virtudes assumia os
noviços por meio de um juramento especial, durante a tonsura. A formulação
deste voto coincidiu com a fundação do sistema cenobítico, no entanto, a base
doutrinal e escriturária foi elaborada pouco depois. Sem ele, o monaquismo
corria o perigo de desviar-se na direcção dos itinerantes
"mesalinianos". Deste modo o monaquismo submetia-se à Igreja. Esta
submissão foi confirmada por Justiniano e incorporada às leis eclesiásticas.
Mas, não são apenas estes três vícios que constituem
uma ameaça para a integridade moral dos ascetas. Outros vícios, como os já
citados, constituem os oito pecados capitais: gula, fornicação, avareza, ira,
tristeza, abatimento, vanglória e orgulho. As paixões correspondentes a estes
pecados devem-se atenuar para alcançar um estado de ausência de paixão. O auto-exame e a auto-censura,
especialmente antes de deitar, proporcionam ao monge armas poderosas, quando se
dispõem a enfrentar os demónios. Mas a sua arma principal é a oração (a oração
contínua e intensa). A vida inteira dos monges está dominada por esta
afirmação: "a vida inteira é um momento para orar" (São
Basílio, Discurso Ascético, PG 33, 877).
A jornada dos monges está dividida em três períodos
de oito horas: um para rezar, outro para descansar e a último para trabalhar. O
trabalho intenso tem três objectivos: assegurar o próprio sustento e o da
Comunidade, ajudar os seus companheiros, e evitar os maus pensamentos que
acercam a consciência humana, especialmente quando se está ocioso.
O artesanato, a pintura e outros tantos itens que os
monges produzem com o seu trabalho, têm sido sempre de boa qualidade, e por
isso mesmo, sempre muito procurados, em particular as pinturas e as esculturas.
Do mesmo modo as obras de literatura clássica cristã que se conservaram graças
às copias realizadas nos mosteiros.
As actividades filantrópicas dos monges estavam
relacionadas com seus trabalhos. Como vimos, esta vocação para as actividades
beneficentes foi promovida e sistematizada por São Basílio, o Grande. Na época
posterior a São Basílio, era inconcebível um monastério que não dispusesse um
espaço para hóspedes, para um hospital e para uma escola. Podemos mencionar
como exemplo o Mosteiro Pantokrátor, em Constantinopla, fundado no século XII,
que dispunha de um hospital, com médicos para homens e mulheres, cuja
organização lembra muito os hospitais modernos. Estava dividido em quatro
secções: médica, cirúrgica, ginecológica, enfermaria dos olhos e dos ouvidos.
Hoje ainda podemos apreciar reminiscências destas
actividades filantrópicas em alguns mosteiros. Os beduínos que vivem próximo do
Mosteiro do Sinai, não fazem seu próprio pão, pois o mosteiro de Santa Catarina
proporcionam-lhos gratuitamente; também todas as pessoas que visitam um mosteiro
ortodoxo recebem hospitalidade gratuita. Os monges que se dedicavam a
trabalhar, como já vimos anteriormente, canalizam os trabalhos para libertar-se
das paixões com os serviços aos necessitados, e recebiam o nome de "monges
activos" (praktikoi). Além da actividade, há um estágio superior na
escalada da perfeição monástica: a contemplação. Era vista como um esforço pela
comunicação directa com Deus. Esta diferenciação das actividades (práticas e
contemplativas) dos monges encontramos num poema de S. Gregório, o Teólogo: "Preferirás
a actividade ou a contemplação? A contemplação é a ocupação dos
perfeitos, a acção pertence a muitos. Ambas são boas e queridas.
Eleja aquela que se ajuste a ti".
O silêncio era uma condição indispensável para o
asceta em sua busca da perfeição. Por silêncio entende-se paz interior e a
relativa quietude exterior, através da qual se eliminam as paixões. Este estado
foi chamado no último período brilhante da teologia mística bizantina de
"hesicasmo". O silêncio estava unido inseparavelmente à ascese
cristã. Os esforços dos primeiros monges nesta direcção adoptaram a forma de um
silêncio balbuciante e permanente quando as circunstâncias o requeriam. Diz-se
que o Abade Poimen afirmou: "Quem fala
por amor a Deus age correctamente e quem permanece em silêncio pelo mesmo amor
a Deus age, de igual modo, correctamente". (ditos dos
Padres, 721)
O Silêncio não era predominante como regra de vida
monástica; recebeu mais tarde ênfase maior devido a sua conexão com a oração
interior. Considerava-se a oração como resultado da disposição do coração; não
necessitava ser expressa oralmente, pois poderia, ao se expressar, produzir
estímulos externos que interromperiam a concentração para a oração perfeita.
Surgiu por isso a oração interior e mental, que se cristalizou na breve Oração
do Nome de Jesus, repetida sem cessar. "Senhor Jesus Cristo, Filho
de Deus vivo, tem piedade de mim, pecador!"
Rodeados pelo Absoluto, pelo silêncio espiritual, os
olhos espirituais dos monges "contemplativos" abrem-se. Fazem-se
merecedores de visões e desfrutam de experiências espirituais inefáveis. Vivem
em um estado de iluminação contínua da visão da luz e de comunhão com as coisas
da Luz. A palavra "luz" e outros termos relacionados encontram-se em
quase todas as obras de Simeão,
o Teólogo e de Gregório Palamás. Esta Luz é parte de
Deus. Mediante uma paradoxa fusão do histórico e do meta-histórico,
a experiência da deificação (theosis) faz-se possível
aqui e agora. A luz que viram os discípulos de Cristo no Monte Thabor, a luz que os hesicastas
vêem hoje e a natureza do mundo futuro, constituem três fases do mesmo
acontecimento espiritual, fundidos numa realidade supra-temporal.
A unilateral denominação de
"contemplativos" ajudou no esquecimento da dimensão da missão social
da vida monástica no Oriente, em contraste com o desenvolvimento dos
acontecimentos no Ocidente, apesar dos repetidos esforços realizados, para a
reorganização da vida monástica por São Basílio, o Grande.
Sem deixar de lado a "contemplação", a que
tanto devem a devoção e a literatura religiosa, é
necessário insistir uma vez mais para que se fundem mosteiros que promovam os
ideais cristãos dentro da sociedade organizada da humanidade.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)