A EUCARISTIA E O
SACRIFÍCIO
O
SACRIFÍCIO
Todas as religiões giram em torno do sacrifício,
cujo significado cada vez mais se afasta do original. É que, culturalmente,
mudou tanto de sentido que não mais reflecte a mesma realidade. Por causa
disso, nem mesmo um dicionário actual registra aquilo que correspondia ao seu
significado, principalmente entre os judeus ou israelitas. Pelo menos
biblicamente tem um sentido bem mais profundo até mesmo que o, "a grosso
modo" perceptível, sentido de "sacri-ficar" =
"ficar-sagrado".
Quando Jesus a ele se referiu ou o insinuou,
confundiu os chefes religiosos e os de seu povo, seja por ocasião da "expulsão
dos vendilhões do Templo" (Jo. 2, 13-22), seja por ocasião do Anúncio
da Eucaristia,
ao dizer-se "comida" (Jo. 6, 50-52). No primeiro caso Jesus não tinha
nenhum direito de fazer o que fez, eis que, não pertencendo à Tribo de Levi ou
à Casa de Aarão, não era sacerdote e não lhe competia a administração do
Templo. Além de tudo isso, aquela área fora destinada para o que lá se
praticava, qual seja, a troca de moeda estrangeira e a venda de animais, para
as oferendas, a fim de que os judeus e os da "diáspora" pudessem
cumprir os seus votos e deveres religiosos. Em si, nada havia de erróneo no que
lá se fazia e, por causa disso, em face de sua atitude, dois factos acontecem.
Primeiro, "os sacerdotes e escribas" perguntam a Jesus "com que
autoridade fazia estas coisas" (Mt. 21, 23), e "que sinais lhes
mostraria para assim agir" (Jo. 2, 18), e, por segundo, o Evangelista
"recorda que os discípulos pensaram" que agia assim porque "o
zelo pela casa de seu Pai o dominara" (Jo. 2, 17; Sal. 69, 10). A
resposta de Jesus foi por demais desconcertante, tanto que os seus discípulos
só a compreenderam após a sua Ressurreição. Desafiara a "destruição do
Templo e a sua reconstrução por Ele em três dias"... "Referindo-se
ao seu próprio Corpo" (Jo. 2, 18-22), com o que iria se tornar o único
sacrifício. Tornava-se assim tudo aquilo obsoleto, sem sentido e, então, "fazendo
da Casa do Pai uma casa de comércio" (Jo. 2, 16), pela perda do
objectivo a que se destinara. No segundo caso, ao dizer que "meu corpo
é verdadeiramente comida", confunde os judeus de tal forma que, após
dizerem "como pode este homem nos dar a sua carne para comer"
(Jo. 6, 52), "o abandonam" (Jo. 6, 66).
O sacrifício tanto fazia parte da compreensão
cultural israelita, que estava impregnado em seus hábitos ou costumes, até
mesmo os especificamente não-religiosos. Mesmo quando participavam de uma
refeição comum ou trivial, era-lhes necessário "derramar o sangue na
terra" (Lv. 17, 13 ss; Dt. 12, 16.23), a abster-se do
"impuro" (Lv. 11, 1) e a seguir determinadas normas de "purificação"
(Mc. 7, 4), sem o que não deveriam tomar alimento. Percebe-se que toda refeição
tinha algo de sagrado e a ideia de sacrifício era-lhe vinculada pelo comer que
nela se pratica. O seu uso, mesmo ao tempo de Cristo, já era milenar, eis que a
Bíblia, apesar de não informar a sua origem, relata ter sido ele a causa da
desgraça de Caim, que matou Abel porque "Deus agradou-se da oferenda dele
(em "sacrifício") e não da sua" (Gn. 4, 3-8).
Relata também que Noé o ofereceu quando do término do Dilúvio (Gn. 8, 20) e, a
partir de Abrão, desde a Promessa, registra o seu uso como forma de expressão
da fé em Iahweh (Gn. 12, 7 e 12, 8). Prossegue com a Aliança então contraída
com Abraão, e com os demais Patriarcas Isaac e Jacob (Gn. 17, 4-14; 26, 3-24;
28, 13-15) que a ratificaram (Gn. 12, 7.8; 26, 25; 28, 17-22). E, em virtude
dessa mesma Aliança, torna-se o centro gravitacional do culto. De Jacob adveio
o povo israelita, formado pelas doze tribos oriundas de seus doze filhos.
Moisés, descendente de um deles, da Tribo de Levi, confirma e repete essa
Aliança, agora com todo o povo, no Monte Sinai, selando-a também com o sangue
de um sacrifício (Ex. 24, 1-8).
O sacrifício torna-se essencial ao culto, para
significar, realizar e actualizar a união de Iahweh-Deus com o Seu Povo pela Aliança.
Após a Instituição da Páscoa (Ex. 12), que era inicialmente uma comemoração
familiar, institui-se o sacerdócio, indispensável para a celebração dele (Hb.
8, 3), separando-se para o seu exercício a Casa de Aarão (Ex. 28-29),
"figura" do que Cristo fará quando da Instituição da Eucaristia, na
inauguração da Páscoa Cristã, instituindo os Apóstolos para que a celebrassem
"em sua memória" (Lc. 22, 19-20; 1 Cor. 11, 23-25). O Sacerdócio
Pleno da Casa de Aarão e o Auxiliar constituído pelo restante da mesma Tribo de
Levi, completam a organização religiosa e de cúpula de Israel, e se tornam um
centro de unidade de todo o Povo de Deus pela consagração, significação e
difusão da santidade de Iahweh entre as demais tribos, por meio deles (Lv. 21,
8), medianeiros entre o Povo e Iahweh.
Em outra ocasião Jesus se refere ao sacrifício ao
dizer que "é o altar que santifica a oferenda" (Mt. 23, 19). É
que, desde o Sinai, o altar era "ungido", tal como os
"sacerdotes", com o "Óleo da Unção" (Ex. 30, 25-30),
preparado de acordo com normas do próprio Iahweh, em virtude do que
"santificava tudo que o tocasse":
"Oferecerás pelo altar um sacrifício pelo
pecado, quando fizeres por ele a expiação ("com sangue"), e o
ungirás para consagrá-lo. (...); assim o altar será santíssimo e tudo que o
tocar, será santificado" (Ex. 29, 36-37).
Um novo elemento aparece aqui, com o rito do
sacrifício pelo pecado, a expiação, que tem como integrante essencial o sangue
que expia (Lv. 17, 11), sem o qual não há remissão (Hb. 9, 22). Ao que se conclui
que, pela unção sagrada se santifica o altar e o sacerdote, completando-se a
eficácia do ato com o sangue do sacrifício pelo pecado (Lv. 6, 17-22; Hb. 9,
22). E, a partir desta Aliança, organizou-se o ritual, sabendo-se que sem
altar, sacerdote, sangue e vítima (= hóstia) não há sacrifício, nem se consegue
a santificação (Hb. 9, 19-22), um de seus objectivos. Jesus resume tudo isso
numa frase apenas.
Também,
somente poderia participar do sacrifício quem estivesse em estado de pureza
legal (Lv. 7, 20-21; 11, 44-45) e de santidade. Caso algo as comprometesse, o
israelita deveria purificar-se antes, conforme os rituais legais (Lv. 11,
25.28.32.40). No caso da santidade comprometida havia os sacrifícios para a
remissão: o holocausto e o sacrifício de expiação ou de reparação ou pelo
pecado. Têm em comum que o ofertante impunha as suas mãos na cabeça da vítima
perfazendo assim a substituição dele por ela (Gn. 22, 13), e o sacerdote
completava o ritual a partir do oferecimento do sangue (Lv. 1, 4-5). No holocausto
a vítima (ou hóstia) era toda queimada, nenhuma de suas partes era comida por
ninguém; já, nos sacrifícios pelo pecado, algumas partes eram comidas pelo
sacerdote apenas (Lv. 6, 19-23), e outras queimadas, significando a
"participação e satisfação" do próprio Deus (Lv. 7, 1-10; Gn. 15,
17). Havia ainda o sacrifício de comunhão ou refeição sagrada, do qual todos
"comem" (Lv. 3, 1-7), cada qual a sua parte: o ofertante e seus
familiares ou amigos, o sacerdote e o próprio Deus, "aspirando a oferenda
queimada em perfume de suave odor a Iahweh" (Lv. 3, 5):
"Iahweh falou a Moisés e disse: ‘Ordena aos
filhos de Israel o seguinte: Tereis cuidado de me trazer no tempo determinado a
minha oferenda, o meu manjar, na forma de oferenda queimada de perfume agradável" (Nm. 28, 1).
É São Paulo
quem melhor nos esclarece do fundamento teológico de toda a instituição, ao
dizer:
"Aqueles que comem as vítimas sacrificadas, não
estão em comunhão com o altar?" (1 Cor 10, 16-18).
Deduz-se destas palavras que pelo sacrifício se
estabelece íntima comunhão entre o Ofertante, o Altar e Deus, com a expiação do
pecado pelo sangue. Assim, quando se fala em "altar", se fala em
"vítima" e em "sacerdote"; quando se fala em
"sacerdote" se fala em "Deus" e no "sangue que
expia"; quando se fala em "sangue que expia" se fala em
"vítima ou hóstia" de que se alimenta em comum e em
"santificação"; e, quando se fala em "santificação", se
fala em "comunhão" de pessoas, a partir da "comunhão" com
"altar" formando-se uma "comunidade" de todos com
"Deus".
Além da substituição há outra conotação cultural do
sacrifício israelita que é necessário mencionar. É que não deixa de ser muito
curiosa a distribuição das partes da vítima do sacrifício (a serem
"comidas"), entre o ofertante, o sacerdote e Iahweh, com a queima do
"pão de Deus" (Lv. 21, 8; Nm. 28, 1). Mesmo as oferendas ou dízimos
estavam sujeitos a essa distribuição sacrificial, sendo entregues num ritual
onde uma parte apenas era "comida":
"Em relação a Iahweh, vosso Deus...
buscá-lo-eis somente no lugar... escolhido... para aí colocar o seu nome e
fazê-lo habitar. Levareis para lá os vossos holocaustos e vossos sacrifícios,
vossos dízimos e os dons de vossas mãos, vossos sacrifícios votivos e vossos
sacrifícios espontâneos, os primogénitos de vossas vacas e das vossas ovelhas.
E comereis lá, diante de Iahweh, vosso Deus,... vós e vossas famílias... (...).
Não poderás comer em tuas cidades o dízimo do teu trigo, do teu vinho novo e do
teu óleo, nem os primogénitos das tuas vacas e ovelhas, nem algo dos
sacrifícios votivos que hajas prometido, ou dos sacrifícios espontâneos, ou
ainda dons da tua mão. Tu os comerás diante de Iahweh, teu Deus, somente no
lugar que Iahweh, teu Deus, houver escolhido, tu, teu filho, tua filha..." (Dt. 12, 4-18; leia-se
ainda Dt. 12, 11-12; 14, 22-26).
Da citação acima vê-se que somente no lugar indicado
por Deus é que se podia comer os sacrifícios, incluído como um deles as
oferendas constituídas pelos primogénitos do gado, pelas primícias das
plantações, vinho, óleo, pão, pelos dons etc. É de se observar que as oferendas
ou dízimos não podiam ser "totalmente comidos", mas apenas "uma
parte deles", sabendo-se que pertenciam por direito aos sacerdotes (Nm.
18, 9.20.23-24). Fossem "todos comidos" nada se lhes entregaria.
Somente "uma parte" era objecto da "santificação
sacrificial", entregando-se o "todo" no Templo. Nessa
perspectiva, é São Paulo quem esclarece da outra concepção vigente, fazendo com
que se entenda melhor o alcance do sacrifício, qual seja a existência de uma
solidariedade da parte com o todo, de modos que "à santificação da parte
corresponde a santificação do todo":
"E se as primícias são
santas, a massa também o será; e se as raízes são santas, os ramos também o
serão" (Rm. 11, 16).
Fundamentou-se naturalmente no que se prescreveu a
respeito das primícias da massa do primeiro pão a ser preparado em Israel, qual
seja:
"Quando
tiverdes entrado na terra para a qual eu vos conduzo, devereis oferecer uma
oferenda a Iahweh, tão logo comais do pão dessa terra. Como primícias da vossa
massa separareis um pão; fareis esta separação como aquela que se faz com a
eira. Dareis a Iahweh uma oferenda do melhor das vossas massas" (Nm. 15,
18-21). "Cada dia de sábado serão colocados, permanentemente, diante de
Iahweh...; pertencerão a Aarão e seus filhos, que os comerão no lugar santo,
pois é coisa santíssima para ele,..." (Lv. 24, 8-9).
Viu-se que toda e qualquer oferenda se reduzia a um
sacrifício, pelo qual se buscava a comunhão com Deus, significada pela
manducação, por cada qual, da parte da vítima oferecida e em uma refeição
sagrada. A manducação da parte traduzia a santificação e a comunhão
estabelecida de toda a oferenda, dos participantes dela e do ofertante, e
Iahweh-Deus.
Com base nessa comunhão é que os primeiros cristãos
consideravam a Eucaristia um Sacrifício, tal como o próprio São Paulo o diz:
"Considerai o Israel segundo a carne. Aqueles
que comem as carnes sacrificadas, não estão em comunhão com o altar? Que
quero dizer com isto? Que a carne sacrificada aos ídolos seja alguma coisa? Ou
que os ídolos mesmo sejam alguma coisa? Não! Mas aquilo que os gentios imolam,
eles o imolam aos demónios,
e não a Deus. Ora, não quero que entreis em comunhão com os demónios.
Não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demónios" (1 Cor.
10, 18-21).
Esta perícope não teria sentido não fosse a
concepção sacrificial da Eucaristia ou Mesa do Senhor. É exactamente pelo fato
da "comunhão com o altar", que se estabelece pela manducação da
vítima nele santificada, que não se podia participar dos sacrifícios pagãos,
como e onde se estabelece a "comunhão com os demónios", também pela
manducação, facto incompatível com a "comunhão com o Senhor" no
"sacrifício Eucarístico". E, não poderia ser de outra forma, eis que
Jesus havia já dito:
"Eu sou o Pão Vivo descido do céu. Quem comer
deste Pão viverá eternamente. O Pão que Eu darei é a minha carne para a vida do
mundo" (...) Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do
Filho do Homem e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come
a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no
último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é
verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo
pelo Pai, também aquele que comer de mim viverá por mim. Este é o pão que
desceu do céu...; quem come deste pão viverá para sempre" (Jo. 6, 51-58).
É necessário esclarecer aqui que os Evangelistas não
se detiveram em explicar o que lhes era peculiar culturalmente. Assim, as
características de um sacrifício não foram narradas, bem como o motivo pelo
qual os ouvintes entenderam assim ou de outro modo, o anúncio que Jesus então
fazia, eis que do conhecimento de todos o que escreviam.
Por outro lado, quando Ele diz "não tereis a
vida em vós" remete a outro trecho onde anunciou que "Eu vim para que
tenham a vida e a tenham em abundância" (Jo. 10, 10), tal como
havia esclarecido: "..., mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do
céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo"
(Jo. 6, 32-33); e, confirmado, que "Eu sou o Pão vivo descido do
céu", "quem comer deste pão viverá eternamente" e "o pão
que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (Jo 6, 51). Ao ouvirem
Jesus afirmar que "se não comerdes a carne do Filho do Homem e não
beberdes o meu sangue não tereis a vida em vós", assustam-se.
Compreenderam que Jesus anunciava que iria entregar a sua própria carne para
ser "realmente comida" em um sacrifício, não tendo feito uso de
metáfora ou símbolo ou muito menos de uma parábola. Assim o fizesse não o
teriam abandonado (Jo. 6, 66). Os discípulos não o abandonam quando se dissera
"luz" (Jo. 8, 12), "porta" (Jo. 10, 7), "a
ressurreição e a vida" (Jo. 11, 25), "o caminho, a verdade e a
vida" (Jo. 14, 6), "a verdadeira vide" (Jo. 15, 1), afastaram-se
somente quando se disse "carne, comida". O motivo não pode ser outro
que o de comunicar-lhes de que seria a vítima de um sacrifício. Foi essa ideia
que não suportaram, abandonando-o. Apesar disso Jesus, desafiando os que lhe
ficaram fiéis, pergunta-lhes "se também queriam ir embora"
(Jo. 6, 67), como os outros fizeram, confirmando assim a exactidão da conclusão
a que chegaram os dissidentes: - Jesus estava realmente anunciando o
"próprio sacrifício". Os que "ficaram" também confirmam com
sua resposta o que foi por todos entendido: "... Tens palavras de vida
eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus" (Jo. 6,
68-69). É que Jesus se disse "aquele que, em sendo comido no sacrifício,
santifica", ou seja, "a vítima ou a hóstia", "o Santo de
Deus"! Apesar da séria dificuldade ensejada, -
pois perguntam: "a quem iremos?" (Jo. 6, 67), -
creram em Jesus. Naturalmente não teria havido nenhum óbice, fosse uma ou outra
figura de linguagem então usada.
São João Evangelista coloca, significativamente, o
Anúncio da Eucaristia logo em seguida à Multiplicação dos Pães, após a qual
ocorreu sério desencontro. Ora, os Evangelistas não escreveram nada à toa, nem
a disposição dos assuntos foi aleatória, sem motivo. Assim, quando João registra
que os opositores de Jesus o desafiaram com o Maná, indica o motivo, o teor e a
evocação do debate, e qual o significado que a Multiplicação dos Pães adquiriu
para os Apóstolos, tal como ensinado pelo próprio Jesus. É que, após o milagre,
protestaram os dissidentes:
"... Que sinal realizas, para que vejamos e
creiamos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como
está escrito: ‘Deu-lhes Pão do Céu a comer’" (Jo. 6, 30-31).
Queriam dizer com isso que Moisés
fizera muito maior milagre, alimentando o Povo de Deus no deserto, durante
quarenta anos, do que "uma simples distribuição de pães e peixes para
cinco mil pessoas", tal como acontecera ali. Jesus lhes dá a resposta e,
como de seu costume, contesta-os doutrinando:
"Em verdade, em verdade, vos digo: não foi
Moisés quem vos deu o Pão do Céu, mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro
Pão do Céu; porque o PÃO DE DEUS é o Pão que desce do Céu e dá VIDA ao
mundo"
(Jo. 6, 32-33).
Assim Jesus identifica o VERDADEIRO PÃO DO CÉU como
o PÃO DE DEUS, QUE DESCE DO CÉU E DÁ VIDA AO MUNDO, o que não deixa de ter
referência clara com o Maná, agora aperfeiçoado pelo "pleno
cumprimento" (Mt. 5, 17) que Ele próprio lhe imprime, por cujo meio DÁ
VIDA AO MUNDO. O Maná, por si só, não possuía essa virtude vivificante,
tendo sido dado para alimentá-los, tão-somente, mesmo que material e
espiritualmente, como resposta de Iahweh às murmurações do Povo de Israel:
"Antes fôssemos mortos pela mão de Iahweh na
terra do Egipto, quando (...) comíamos PÃO com fartura! (...) Iahweh disse a
Moisés: ‘Eis que vos farei chover PÃO DO CÉU; sairá o povo e colherá a porção
de cada dia..." (...) "Isto é o Pão que Iahweh vos dará para vosso
alimento"
(Ex. 16, 3-4.15).
"Todos comeram o mesmo alimento
espiritual" (1 Cor. 10, 3).
Assim, tal como o Maná é o PÃO DO CÉU e ALIMENTO, da
mesma forma a vítima do sacrifício recebe a mesma denominação, tal como se vê
na recomendação de Iahweh com respeito aos sacerdotes:
"Serão consagrados a seu Deus e não profanarão
o nome do seu Deus, porque são eles que apresentam as oferendas queimadas a
Iahweh, O PÃO DO SEU DEUS, e devem estar em estado de santidade. (...) "Tu
o tratarás como santo, pois oferece o PÃO DO TEU DEUS" (Lv. 21, 6-8).
Ora,
quando se fala em "alimento e pão" se fala em "sacrifício ou
refeição sagrada", donde se deduz a que Jesus também se refere ao
mencionar o "PÃO DO CÉU OU PÃO DE DEUS", manifestando quem Deus daria
para ser vítima para a vida do mundo, recordando-se da missão dos sacerdotes
desde sua instituição, ainda no deserto, agora os substituindo (Hb. 9, 11-14).
Pois, a vítima imolada num sacrifício (ou a "oferenda queimada a
Iahweh") era considerada "Pão ou Alimento de Deus", aqui e em
outros lugares (destacando-se: Lv. 1, 9; 3, 3.11.16; 21, 17.21; Nm. 9, 13; 28,
1). Também o Maná, da mesma forma que a Vítima dos Sacrifícios, era conhecido
simplesmente por "PÃO DO CÉU" ou "ALIMENTO" (‘espiritual’,
diz São Paulo), como nos textos acima transcritos. Não foi sem motivo que Jesus
faz referências ao PÃO DE DEUS e ao PÃO DO CÉU (Jo 6,33.58), na discussão que
travou, identificando-se com ambos e mostrando as diferenças
"cumpridas" por Ele (Mt. 5, 17):
"Este é o PÃO QUE DESCEU DO CÉU, ELE NÃO É COMO
O QUE OS PAIS COMERAM E PERECERAM; QUEM COME ESTE PÃO VIVERÁ
PARA SEMPRE" (Jo. 6, 58).
Além disso, existem aspectos na narrativa da
Multiplicação dos Pães
Por outro lado, João também relata que:
"Os judeus murmuravam, então, contra ele,
porque dissera: ‘Eu sou o PÃO descido do céu" (Jo. 6, 41).
Fosse alguma figura de linguagem não haveria motivo
para isso. "Murmuravam" porque a afirmação foi muito séria, Jesus se
referia a si mesmo e eles entenderam-no. Jesus nada corrige e ainda prossegue
mais incisivo:
"Eu sou o PÃO VIVO DESCIDO DO CÉU. Quem comer
deste PÃO viverá eternamente. O PÃO que eu DAREI é a minha carne para a VIDA DO
MUNDO"
(Jo. 6, 51).
Jesus usa o futuro "DAREI a minha carne para a
vida do mundo", anunciando a futura doação, seja na Instituição da
Eucaristia seja na Cruz, pelo que, da mesma forma, falando sempre numa
concretização a se realizar, após a altercação novamente advinda (6, 52), é
mais incisivo:
"Em verdade, em verdade, vos digo: se não
comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a
vida
Neste ponto e ao finalizar o debate, diz
especificamente e se identifica ao Maná, o Pão que desceu do Céu:
"Este
é o PÃO que desceu do céu. Ele não é COMO O QUE os pais comeram e pereceram;
QUEM COME ESTE PÃO VIVERÁ PARA SEMPRE" (Jo. 6, 58).
Quando João narra tal acontecimento com tantos
detalhes e diz que "estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus"
(6, 4), relaciona-o directamente com Ela. É que Jesus estava anunciando e começando
então o que iria se "cumprir" nela. Só se pode concluir então que a
Multiplicação dos Pães é o "Anúncio da Eucaristia", UM SACRIFÍCIO
A Páscoa foi instituída quando e em comemoração da
saída do Povo de Deus do Egipto e deveria ser comemorada em família, como uma
espécie de refeição sagrada, por ser uma festa e um sacrifício (Ex. 12, 25-28;
Nm. 9, 13), presidida pelo pai, que actuava como sacerdote. Posteriormente, com
a centralização do culto, na reforma de Josias, passou a ser imolada no Templo
pelo sacerdote, que derramava o sangue no altar, prosseguindo-se o cerimonial
em família ou com amigos ou parentes, em outros lugares (Dt. 16, 5-7; 2 Cro.
30, 15-17; 35, 10-14), assim vigorando ao tempo de Cristo. Algumas
significações se incorporaram ao cerimonial tais como, dentre elas, além da de
um banquete, a de libertação e a de Aliança. A libertação que impregna a
celebração da Páscoa não se resume ao aspecto político, de um povo em busca de
sua realização nacional, mas tem o sentido especificamente religioso que
inaugura a formação do "Povo de Iahweh-Deus", a partir da Aliança com
Abraão, conforme vários trechos:
"Eu farei de ti um grande povo..." (Gn. 12, 2). "...
Teus descendentes serão estrangeiros num país que não será o deles... (...)...
sairão com grandes bens" (Gn. 15, 13-14). "(‘Jacob’) Não temas
descer ao Egipto, porque lá eu farei de ti uma grande nação" (Gn. 46,
3). "Deus lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacob"
(Ex. 2, 24). "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egipto...
(...) Por isso desci a fim de libertá-lo..., e para fazê-lo subir daquela terra
para uma terra boa e espaçosa..." (Ex. 3, 7-8).
E, da mesma forma, como Moisés anuncia:
"Iahweh disse a Moisés: ‘Farei vir mais uma praga
ainda contra o Faraó e contra o Egipto. Então ele vos deixará partir (...) e
ele até mesmo vos expulsará daqui. (...) Assim diz Iahweh: à meia-noite
passarei pelo meio do Egipto. E todo o primogénito morrerá na terra do
Egipto... Mas, entre todos os filhos de Israel, desde os homens até os animais,
não se ouvirá o ganir de um cão, para que saibais que Iahweh fez uma distinção
entre o Egipto e Israel" (Ex. 11, 1-7).
E Deus institui a Páscoa:
"Este mês será para vós... o princípio dos
meses...: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro por família, um
cordeiro para cada casa... O cordeiro será macho, sem defeito e de um ano...
(...); e toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo.
Tomarão do seu SANGUE e pô-lo-ão sobre os dois marcos e a travessa da porta...
(...); o que, porém, ficar até pela manhã,
queimá-lo-eis ao fogo. NÃO ("se lhe") QUEBRARÁ OSSO ALGUM (‘cfr. texto grego e Ex.
12,
Mesmo que o texto nada diga, a instituição traz
todos os integrantes de um sacrifício (a vítima imolada em oferenda a Iahweh, o
sangue "derramado nas casas" como "vida" e protecção do
Povo de Deus, a refeição sagrada compartilhada por familiares, a queima do que
sobeja por ser "santo"), e possui duas características fundamentais:
foi directamente determinada pelo próprio Deus, para ser celebrada como um
MEMORIAL e estava vinculada indestacavelmente à ALIANÇA pela libertação do Povo
por Iahweh, "que se lembrou da sua ALIANÇA com Abraão, Isaac e Jacob"
(Ex. 2, 24). Além disso, a expressão "Farei justiça sobre todos os deuses
do Egipto" e "a morte dos primogénitos do Egipto" têm um
significado profundamente religioso, a partir de uma instituição muito cara aos
antigos: a PRIMOGENITURA, que, evidentemente, era estruturada com base
nos primogénitos, na concepção deles, "aqueles que abrem o seio
materno" (Ex. 13, 2) e se destinavam ao sacerdócio (Nm. 3, 45).
Era tão séria a instituição que, por não a
respeitar, Caim teve sua oferenda rejeitada por Deus, que acolheu o sacrifício
de Abel por ter oferecido "os primogénitos de seu rebanho"
(Gn. 4, 4); na relação das genealogias só se mencionava o nome deles (Gn. 5), e
quando se mencionavam os outros nomes o deles era o primeiro (Gn. 10); o
desprezo de Esaú por ela (Gn. 25, 29-34) fê-lo perdê-la, ocasionando inimizade
mortal entre ele e Jacob, que usurpou "sua bênção" (Gn. 27), muito
cobiçada, por sinal. A ameaça de Deus ao Faraó de eliminar todos eles do Egipto
(Ex. 11, 4-10) e o cumprimento dela ocasionou a expulsão dos israelitas pelo
Faraó (Ex. 12, 31-33), terminando este por dizer: "...parti e abençoai
a mim também" (12, 32), por se submeter e se render ao poder de Deus
que, ao mesmo tempo que eliminou os dos egípcios poupou os dos israelitas,
vencendo e assim "fazendo justiça sobre os deuses do Egipto". Em
consequência, foram os dos israelitas oficialmente "consagrados a
Iahweh, homens e animais; aqueles para seu serviço e estes para o
sacrifício" (Ex. 13). No deserto, quando da unificação do sacerdócio,
todos os dos homens foram "substituídos", no sacerdócio que já
exerciam, pelos Levitas (Nm. 3, 45; 8, 14-18). São eles (‘inexistia outra
possibilidade’) os que são mencionados como "sacerdotes", antes da
sua oficialização e unificação nos levitas (Ex. 19, 22.24) e os "jovens
que ofereceram holocaustos e sacrifícios de comunhão" no Sinai (Ex. 24,
5), quando da ratificação da ALIANÇA:
"Moisés escreveu todas as palavras de Iahweh;
e, levantando-se de manhã, construiu um altar... Depois enviou alguns jovens
dos filhos de Israel, e ofereceram os seus holocaustos e imolaram a Iahweh
novilhos como sacrifício de comunhão. Moisés tomou a metade do sangue e
colocou-a em bacias, e espargiu a outra metade do sangue sobre o altar. Tomou o
Livro da Aliança e leu para o Povo; e eles disseram: ‘Tudo o que Iahweh falou,
nós o faremos e obedeceremos. ‘Moisés tomou do SANGUE e aspergiu-o sobre o
Povo, e disse: ‘ESTE É O SANGUE DA ALIANÇA QUE IAHWEH FEZ CONVOSCO, através de
todas essas cláusulas" (Ex. 24, 1-8)
Viu-se como entre os antigos os PRIMOGÉNITOS eram
destinados ao exercício do sacerdócio, motivo da "justiça de Iahweh sobre
os deuses do Egipto". Com a morte deles estava destruída a religião
egípcia, inexistindo o sacerdócio que era exercido por eles. A Páscoa então
comemora também este facto que caracteriza a perenidade do sacerdócio israelita
(Ex. 19, 6), e em consequência, a da Aliança:
"... Iahweh... disse-lhe: ‘Assim dirás à Casa
de Jacob... Vós mesmos vistes o que eu fiz aos egípcios... Agora, se ouvirdes a
minha voz e guardardes a minha Aliança, sereis para mim uma propriedade
peculiar entre todos os povos, porque toda a terra é minha. Vós sereis para mim
um reino de sacerdotes e uma nação santa. (...) Veio Moisés... expôs diante
deles todas estas palavras que Iahweh lhe havia ordenado. Então todo o povo
respondeu: ‘Tudo o que Iahweh disse, nós o faremos" (Ex. 19, 3-8). "Tomou
o Livro da Aliança e o leu para o povo; e eles disseram: ‘Tudo o que Iahweh
falou, nós o faremos e obedeceremos.’ Moisés tomou do sangue e o aspergiu sobre
o povo, e disse: ‘Este é o Sangue da Aliança que Iahweh fez convosco, através
de todas essas cláusulas" (Ex. 24, 7-8).
Iahweh havia dito ao Faraó por meio de Moisés:
"Assim falou Iahweh: ‘o meu primogénito é
Israel’. E eu disse-te: ‘Faz partir meu filho, para que me sirva!’ Mas, uma vez
que recusas deixá-lo partir, eis que farei perecer o teu filho
primogénito" (Ex. 4, 22-23).
E é o próprio Jesus que ao instituir a Eucaristia,
após o ritual da PÁSCOA DOS JUDEUS, vincula tudo isto ao que denominou Nova
Aliança, institui o Sacerdócio dela e inclui o Memorial. É Ele que as
relaciona, mostrando assim o "pleno cumprimento" (Mt. 5, 17) que Ele
mesmo lhes imprimiu:
"Bebei dele todos, pois isto é o MEU SANGUE, O
SANGUE DA ALIANÇA, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados" (Mt. 26, 27-28; Mc. 14, 24;
Lc. 22, 20; 1 Cor. 11, 25).
"Este
cálice é a NOVA ALIANÇA
É por isso tudo que São Paulo, São João e São Pedro
têm condições para dar a Jesus o título de CORDEIRO identificando-o ao PASCOAL:
"Pois
NOSSA PÁSCOA, Cristo, foi imolada" (1 Cor. 5, 7).
Em São João é preciso combinar o brado de João
Baptista com a conclusão do Evangelista quando Jesus morre na Cruz, partindo-se
da "figura" do cordeiro anunciado pelo Servo de Deus (Is. 53, 7.12),
vai-se num "crescendo" até atingir a do Cordeiro Pascal na Cruz:
"No dia seguinte, ele (‘João Baptista’) vê
Jesus aproximar-se e diz: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ (Jo. 1, 29).
"Ao ver Jesus que passava, disse: ‘Eis o
Cordeiro de Deus’" (Jo. 1, 36).
"Chegando a Jesus e vendo-o já morto, não lhe
quebraram as pernas (...), pois isto sucedeu para que se cumprisse a Escritura:
‘Nenhum osso lhe será quebrado’ (Jo. 19, 33-37).
E,
Para realçar esse facto, da identidade de Jesus como
o Cordeiro Pascoal, é que os Evangelistas que narram a Instituição da
Eucaristia, dispõem-na no mesmo dia da Sua Morte, levando-se em conta que o dia
para o judeu começava à tarde e terminava na tarde seguinte. É o próprio Jesus
que vinculou todas, - Páscoa e Aliança, Eucaristia e
Morte na Cruz, - tornando-as inseparáveis:
|
Mt. 26, 26-28:
"Enquanto comiam,
Jesus tomou um pão e, tendo-o abençoado, partiu-o e, distribuindo-o aos
discípulos, disse: Tomai e comei, isto é o meu corpo.’ Depois, dando graças, tomou um cálice , e deu-lho dizendo: ‘Bebei dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para remissão dos
pecados." |
Mc. 14, 22-24:
"Enquanto comiam, ele tomou um pão, abençoou, partiu-o e distribuiu- lhes, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo.’ Depois, dando graças, e, tomou um cálice deu-lhes e todos dele beberam. E disse-lhes: ‘Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos." |
Lc. 22, 19-20:
"E tomou um pão, deu graças, partiu e distribuiu-o a eles, dizendo: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória.’ E, depois de comer, fez o mesmo com o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós." |
1 Cor. 11,
23-25:
"...: na noite em que
foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim.’ após a ceia, Do mesmo modo, também tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele
beberdes, fazei-o em memória de
mim." |
Apesar de cada narrador pretender abordar um ângulo
diferente, existem detalhes que lhes são comuns. Destaca-se, para o nosso
exame, o Sangue da Aliança, em Mateus e Marcos, e a Nova Aliança
"Eis que virão dias -
oráculo de Iahweh - em que selarei com a casa de Israel (e a casa de Judá) uma
Nova Aliança. Não como a Aliança que selei com seus pais, no dia em que os
tomei pela mão para fazê-los sair do Egipto - minha
Aliança que eles mesmos romperam, embora eu fosse o seu Senhor... Porque esta á
a Aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias,... Eu porei a
minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei o seu Deus
e eles serão o meu povo. (...). Porque todos me conhecerão, (...), perdoarei a
sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado" (Jr. 31, 31-34). "Selarei
com eles um Aliança Eterna..." (Jr. 31, 39).
Ao que se percebe, a Nova Aliança já era um termo
conhecido da Sagrada Escritura, com o que Cristo era familiarizado e pretendeu
inaugurá-la durante aquela cerimónia e determinando a sua repetição. Também,
vários outros Profetas referiram-se ao advento do Messianismo (Ez. 16, 62; 34,
23 ss; 36, 26 ss; 37, 24.26-28) com tal anúncio, traduzindo a consolidação da
Aliança com a expiação dos pecados e, dentre outros factos, como que coroando
sua obra, a vinda do Espírito Santo, tão bem revelado por São Pedro no dia de
Pentecostes (Act. 2, 16-21; Jl. 3, 1-5). Da mesma
forma, confirmando o seu "cumprimento" em Cristo, "São
Paulo" a ela se refere categoricamente:
"Eis por que Ele é mediador de uma Nova
Aliança. A sua morte aconteceu para o resgate das transgressões cometidas no
regime da Primeira Aliança; e, por isso, aqueles que são chamados recebem a
herança ETERNA que foi prometida. (...) Ora, nem mesmo a Primeira Aliança foi
inaugurada sem efusão de sangue. De facto, depois que Moisés proclamou a todo o
povo cada mandamento da lei, ele tomou o sangue de novilhos e de bodes (...) e
aspergiu o próprio livro e todo o povo, anunciando: Este é o Sangue da Aliança
que Deus vos ordenou. Segundo a Lei, quase todas as coisas se purificam com
sangue; e sem efusão de sangue não há remissão" (Heb.
9, 15-22).
Cristo, na Ceia Eucarística, confirmando o que
anunciara na Multiplicação dos Pães, estabelece indissolúvel união dela com o
sangue derramado na Cruz e o sangue aspergido por Moisés no Sinai:
"Moisés tomou do sangue e o aspergiu sobre o
povo, e disse: -‘Este é o SANGUE DA ALIANÇA que Iahweh fez
convosco...’" (Ex. 24, 8).
É a esse Sangue da Aliança que Cristo se identifica,
como Cordeiro Pascal, na Instituição da Eucaristia, tornando-o "o cálice
da Nova Aliança
MATEUS E MARCOS
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LUCAS E PAULO |
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Depois, tomou um cálice e
dando graças deu-lho dizendo: ‘Bebei dele
todos, pois ISTO É O MEU SANGUE, O SANGUE DA ALIANÇA, que é derramado por muitos
para remissão dos pecados." |
Depois, tomou um cálice e, dando graças, deu-lhes e
todos dele beberam. E disse-lhes: ISTO É O MEU SANGUE, O SANGUE DA ALIANÇA, que é derramado em favor de muitos." |
E, depois de comer, fez o mesmo
com o cálice, dizendo: ‘ESTE CÁLICE É A NOVA ALIANÇA que é derramado em favor de vós." |
Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice,
dizendo: ESTE CÁLICE É A NOVA ALIANÇA fazei-o em memória de mim todas as vezes que dele
beberdes, |
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Para Mateus, Jesus deveria se identificar com
Moisés, e assim, com "a Lei e os Profetas" (Mt. 5, 17), motivo por
que o sangue deveria ser "derramado por muitos para a remissão dos
pecados", lembrando os sacrifícios levíticos, bem como o da própria Páscoa
após Josias, em que "sem efusão de sangue não há remissão" (Hb. 9,
22):
"Porque a vida da carne está no sangue. E este
sangue eu vo-lo tenho dado para fazer o rito da
expiação sobre o altar, pelas vossas vidas; pois é o sangue que faz expiação
pela vida" (Lv. 17, 11; Hb. 9, 22). "O sacerdote fará por ele o rito da
expiação diante de Iahweh, e ele será perdoado, qualquer que seja a acção que
ocasionou a sua culpa" (Lv. 5, 26).
O derramar o sangue, a que Cristo em Mateus se
refere, é o rito de expiação:
"Se a sua oferenda consistir em holocausto de
animal grande, oferecerá um macho sem defeito... Porá a mão sobre a cabeça da
vítima e esta será aceita para que se faça por ele o rito de expiação.
Em seguida imolará o novilho diante de Iahweh, e os filhos de Aarão, os
sacerdotes, oferecerão o sangue. Eles o derramarão ao redor sobre
o altar..." (Lv. 1, 3-5.11-12).
Mas, esta expiação dá-se na Cruz:
"..., se alguém pecar, temos como advogado,
junto do Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação pelos
nossos pecados..." (1 Jo. 2, 1-2). "Nisto consiste o amor: não fomos nós que
amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos o seu filho como vítima
de expiação pelos nossos pecados" (1 Jo. 4, 10)
São Paulo vai mais longe ainda, ao dar-lhe a
denominação de "propiciatório", no qual a aspersão do sangue traduzia
o perdão dos pecados de toda a comunidade (Lv. 16, 14-22):
"Deus
o destinou a ser o propiciatório, por seu próprio sangue, mediante a fé"
(Rm. 3, 25).
Jesus ao dizer-se SANGUE E SANGUE DA ALIANÇA durante
a cerimónia da Ceia Eucarística, antecipa a expiação
do sacrifício da Cruz. Esse é o motivo que levou os Sinópticos a situá-los no
mesmo dia, fazendo de ambos um só facto; e, São João, a aditar no seu Evangelho
a menção de que ao pretenderem quebrar os ossos dos crucificados, não o fizeram
com Jesus que já estava morto. Revela o Evangelista que se cumpria a prescrição
referente ao Cordeiro Pascal, de que "nenhum osso lhe será
quebrado" (Ex. 12, 46), e assim identifica-o com Jesus. Também, tão
clara como a relação sacrificial, é a "memória" dessa vinculação
indestacável ao Calvário:
“Depois, tomou um cálice e dando graças deu-lho
dizendo: ‘Bebei dele todos, pois ISTO É O MEU SANGUE, O SANGUE DA ALIANÇA, que
é derramado por muitos para remissão dos pecados." "...fazei-o em
memória de mim" (Mt. 26, 26-28; Mc. 14, 22-24; Lc. 22, 19-20; 1 Cor. 11, 23-25).
Além da relação sacrificial e de comunhão de uma
refeição sagrada, e como bebendo o seu sangue recebe-se sua vida (Lv. 17, 11a),
a EUCARISTIA É O SACRIFÍCIO PERFEITO DA NOVA ALIANÇA E FONTE DE VIDA,
SACRAMENTO, FONTE DE SANTIFICAÇÃO, tal como dissera, "Eu vim para que
tenham vida e a tenham em plenitude" (Jo. 10, 10).
A Eucaristia actualiza e realiza todos aqueles
valores que em "figura" eram pertinentes à Páscoa dos Judeus, que
pela Aliança libertou o Povo de Deus do Egipto e o conduziu à Terra Prometida;
e, agora, " cumprindo-se " na Páscoa Cristã, pela Nova Aliança,
liberta o Homem do pecado e o conduz à Vida Eterna.
A Eucaristia tem uma dimensão muito mais ampla que a
celebração de um banquete ou uma refeição sagrada e sacrificial. Vai muito mais
longe e não se exaure, como todo sacrifício, na comunhão que se estabelece no
momento da celebração. Isto pelo simples facto de se dever repetir sempre em
memória de Cristo, que não se confinou na Ceia Eucarística.
Até mesmo nos ambientes profanos, por assim dizer,
uma refeição não se limita a uns simples alimentação, destinada tão somente à sobrevivência, tal como no meio animal. É
muito mais que isso. Traduz-se as mais das vezes em uma espécie de
solidariedade profunda, reflectindo e até mesmo conduzindo a uma identidade e
comunhão de vidas, afectos ou sentimentos, concorrendo para a paz social,
compartilhada no alimento comum.
Esse aspecto da refeição profana reflecte assim, em
dimensão terrena, um dos efeitos "naturais" daquela refeição sagrada
que é a Páscoa Israelita. Porém, tendo sido esta instituída com dimensão
religiosa, "figura" da Páscoa Cristã, supera em muito aquela refeição
profana. Além disso, em virtude de "cumpri-la" em uma comunhão
sacrificial com Cristo, repetindo-se tal como ela em um memorial, dá-lhe então
uma dimensão eterna, comparando-se as duas:
"Este será para vós um memorial, e o
celebrareis como uma festa para Iahweh; nas vossas gerações a festejareis; é um
decreto perpétuo" (Ex. 12, 14). "Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei
isto em minha memória" (Lc. 22, 19). "Este cálice é a Nova
Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de
mim. Pois todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais
a morte do Senhor ATÉ QUE ELE VENHA. Eis porque todo aquele que comer do Pão ou
beber do Cálice do Senhor indignamente, será réu do
Corpo e do Sangue do Senhor" (1 Cor. 11, 25-27).
O "fazei-o em memória de mim" e o
"anunciais a morte do Senhor até que Ele venha" formam uma unidade de
expressão, consubstanciada no binómio "fazei-o / anunciais".
Traduz ela assim a ocorrência de profunda igualdade, anunciada pelo próprio
Jesus, com a Sua Morte antes da sua Crucifixão e até mesmo antecipando-a, e ao
mesmo tempo INSTITUINDO O SACERDÓCIO CRISTÃO, para torná-la
"presente" com a cerimónia "ATÉ QUE ELE VENHA". Além do
sentido escatológico, tal como aconteceu na instituição da Páscoa Israelita,
pelo memorial, a Ceia Eucarística "exala um perfume de suave odor para
Deus" (Ex. 29, 18). O termo memorial ou memória, quando é a
"lembrança" de Deus, sempre se traduz em uma atitude dinâmica, as
mais das vezes, libertadora e vinculada à Aliança:
"..., e os filhos de Israel, gemendo sob o peso
da servidão, clamaram; e... o seu clamor subiu até Deus; Deus lembrou-se de sua
Aliança..." (Ex. 2, 23-25). "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está
no Egipto... Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios..."
(Ex. 3, 7-8). "... Iahweh... Este é o meu nome para sempre, e esta será
a minha lembrança (lit.: "memória") de geração em
geração" (Ex. 3, 15). "Nos vossos dias de festas, solenidades
ou neoménias, tocareis as trombetas nos vossos holocaustos e sacrifícios de
comunhão, e elas vos serão como MEMÓRIA diante do vosso Deus" (Nm. 10,
10).
Essa significação, que vincula a acção de
Iahweh-Deus em favor de seu Povo, é conhecida e dela participam até mesmo na
sua época os primeiros cristãos:
"As tuas orações e as tuas esmolas subiram em
memorial diante de Deus, e ele se lembrou de ti." (Act 10, 4). "Cornélio,
tua oração foi ouvida e tuas esmolas foram rememoradas diante de Deus"
(Act 10, 31).
Essa vinculação de Deus pela memória a um
compromisso que tenha contraído, - a Aliança, por
exemplo, - fica bem mais clara em vários e outros trechos da Escritura, tanto
do Antigo como do Novo Testamento:
"Eis o sinal da Aliança que instituo entre mim
e vós e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações
futuras: porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim
e a terra. (...) Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e ME LEMBRAREI DA
ALIANÇA ETERNA que há entre Deus e os seres vivos..." (Gn. 9, 12-17). "Socorreu
Israel, seu servo, LEMBRADO de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais,..."
(...) "...; para fazer misericórdia com nossos pais, LEMBRADO DE SUA
ALIANÇA SAGRADA, do juramento que fez ao nosso pai Abraão..." (Lc. 1,
54.72 ss). "E ouvi o gemido dos filhos de Israel, aos quais os egípcios
escravizavam, E ME LEMBREI DA MINHA ALIANÇA. Portando, dirás aos filhos de
Israel: Eu sou Iahweh, e vos farei sair debaixo das cargas do Egipto, vos
libertarei da sua servidão... Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso
Deus" (Ex. 6, 5-7).
Pode-se
então compreender que o memorial da Eucaristia tem essas conotações, a começar
por aquela que reflecte a libertação do Egito e,
agora, a da escravidão do pecado, como um acto de extremo amor do Filho
Unigénito do Pai. Antes, com o sangue "derramado" nos portais dos
israelitas e, agora, com o "sangue derramado em favor de muitos", "cumprindo"
(Mt. 5, 17) assim a Nova Aliança. Esse memorial é a repetição da Morte de
Cristo na Cruz, pois "a proclama até que ele venha" (não se pode
proclamar o que não acontece) e "aquele que comer do pão ou beber do
cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor", e
ainda "aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria
condenação" (1 Cor. 11, 26-28). Não se trata, portanto, de uma simples
lembrança do gesto de Jesus entregando-se à morte, "e morte de Cruz"
(Flp. 1, 8), mas da presença real do Corpo e do
Sangue de Jesus, separados antecipadamente como na Cruz, pela imolação. Também,
"derramado" o sangue, tal como no cerimonial da Páscoa Judaica;
agora, porém, no ritual da Páscoa Cristã, no altar da Mesa da Cerimónia
Eucarística, tal como na Cruz, "em favor de muitos". Não fora assim
seria impossível ser "réu do corpo e do sangue do Senhor", ou
"comer e beber a própria condenação". E é somente por causa disso
que, por ter assim reconhecido o Cristo, com São Paulo, se pode dizer:
"... Cristo, NOSSA PÁSCOA, foi
imolado"
(1 Cor. 5, 7).
Por
outro lado, João Evangelista, ao narrar o Lava-Pés (Jo. 13), dá as linhas
mestras de alguns elementos que compõem a dimensão escatológica ("até que
Ele venha") do ritual Eucarístico. Principalmente, quando Pedro resiste e
não quer ter os pés lavados pelo Mestre e Jesus lhe diz que "se não lhe
lavar os pés não terá parte com Ele" (13, 6-9). Exibe Jesus, com isso, uma
dimensão apostólica, com significado bem mais amplo do que um humilde e
exclusivo acto de "lavar-pés". É tal como um complemento daquela
"purificação de que foram alvo" (13, 9-10), que deverá também "
repetir-se sempre" (13, 12-20), e cujo prolongamento atinge uma dimensão
missionária, clara por demais, ao Jesus dizer:
"... quem recebe aquele que eu enviar, a mim
recebe e quem me recebe, recebe aquele que me enviou" (13, 20)
Além disso, João com essa sua narrativa da
Eucaristia (Jo 13, 2... "durante a CEIA"), manifesta um sentido bem
diferente e mais amplo que o dos Sinópticos quanto à Instituição do Sacerdócio.
Para isso, exibe também uma dimensão de serviço, aí imanente:
"Dei-vos o exemplo para que, como eu vos
fiz, também vós o façais... o servo não é maior que o seu Senhor, nem o
enviado maior do que quem o enviou" (Jo. 13, 15-16).
E, da mesma forma, vai exprimir uma dimensão
comunitária da santificação advinda. Jesus "coloca água numa bacia e
começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha..."
(13, 5; 2 Sam. 25, 41). Acto de "servo", "o Servo do
Senhor" profetizado por Isaías (Is. 53), que deverá também ser praticado
por eles, "que não são maiores que o seu Senhor nem daquele que os
enviou", "lavando os pés uns dos outros", e enviando
outros para a Evangelização do Mundo. Darão, assim, prosseguimento à dimensão
missionária, que nasce na comunhão estabelecida com o próprio Cristo,
tornando-se um só corpo com Ele, a partir da Eucaristia.
João, assim detalhando, oferece mais elementos às
genéricas narrações dos Evangelhos de Mateus (Mt. 10) e Lucas (Lc. 22, 19-27).
Mateus apresenta no capítulo dez o que se denomina por vezes de "Discurso
Missionário", entre cujas recomendações de Jesus se destacam as mesmas de
João, acima transcritas, se bem que "antes" da sua narrativa da
Instituição da Eucaristia (Mt. 26):
"Não existe discípulo superior ao mestre, nem
servo superior ao seu senhor. (...) Quem vos recebe, a mim me recebe, e quem me
recebe, recebe ao que me enviou" (Mt. 10, 24.40).
Por sua vez, também, insinua uma identidade com a
Páscoa dos Israelitas, pelas mesmas palavras que usa, reflectindo uma situação
a Ela vinculada, ao narrar e comparando-as:
"Não leveis ouro, nem prata, nem cobre nos
vossos cintos, nem para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem
cajado..." (Mt. 10, 9-10).
"É assim que devereis comê-lo (Cordeiro Pascoal): com
os lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado nas mãos..." (...)
"Os filhos de Israel fizeram como Moisés havia
dito, e pediram aos egípcios objectos de prata, objectos de ouro e roupas (...)
os egípcios davam-lhes o que pediam;..." (Ex. 12, 11.35-36).
Dispondo-as em duas colunas e remanejando-as para
melhor visão, vê-se a semelhança de palavras e a diferença de situações, tal
como desejou Jesus:
Mt. 10, 9-10 |
Ex. 12, 11.35-36 |
|
Não leveis cobre nos vossos cintos, nem sandálias, nem cajado. Não leveis ouro, nem prata nem cobre nos vossos cintos,
nem para o caminho, nem duas túnicas. |
É assim que devereis
comê-lo: os lombos cingidos sandálias nos pés cajado nas mãos. Os filhos de Israel
fizeram como Moisés havia dito, e pediram aos egípcios objectos de ouro, objectos de
prata e roupas. |
É que, na Páscoa Israelita, o Cordeiro seria
"comido às pressas" pelos israelitas, já preparados para uma longa
viagem (Ex. 12, 11) e para a conquista da Terra Prometida (Nm. 13-14) enquanto
que, agora, na Páscoa Cristã, iriam em Missão de Paz, "armados" para
uma conquista diferente:
"...proclamai que o Reino dos Céus está
próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos,
expulsai os demónios.
De graça recebeste, de graça dai" (Mt. 10, 7-8).
Essa dimensão "missionária" e de
"serviço" é diferentemente demonstrada por Lucas, quando, após a
narração da Instituição da Eucaristia, na Última Ceia, traz a cena da discussão
dos discípulos sobre "quem seria o maior" (Lc. 22, 24-30), cuja
orientação dada por Jesus mostra o exemplo da Sua TOTAL DOAÇÃO:
"..., qual é o maior; o que está à mesa, ou
aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? EU, PORÉM, ESTOU NO MEIO DE VÓS
COMO AQUELE QUE SERVE" (Lc. 22, 27).
Não é outro o centro da Eucaristia, que esse acto de amor de Jesus
doando-se todo para o Pai e o Homem, dimensão que deverá nortear a actividade
apostólica, alimentada e "em comunhão" com o Cristo Eucarístico. Isso
leva ao mesmo episódio segundo Mateus,
"...o
que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso
servo. ...o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a
sua vida em resgate por muitos" (Mt. 20, 27-28).
É o AMOR-DOAÇÃO de Jesus, que se deverá repetir na
comunhão fraterna, "em resgate por muitos", essa a principal dimensão
que se inaugura na Ceia Eucarística, na comunhão ensejada pela refeição
sacrificial. Não se trata, porém, de um valor "pago" "em resgate",
como se a salvação tivesse o "credor de um preço", mas de um acto de
extremo amor, de um Deus que "nos amou primeiro" (1 Jo. 4, 10), pelo
que a comunidade deve fazer o mesmo, "servir":
"Antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que
chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo. 13, 1). "Dou-vos um mandamento
novo: Que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros.
Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos
outros" (Jo. 13, 34-35). "..., e fazei que todas as nações se
tornem discípulos,..." (Mt. 28, 19).
Qual
seja, VIVER A CARIDADE (AMOR DE DEUS)
"..., se estiveres para trazer a tua oferta ao
altar e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a
tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e
depois virás apresentar a tua oferta" (Mt. 5, 23-24).
Jesus refere-se aqui ao altar, local dos sacrifícios,
norma que não teria sentido se tivessem sido abolidos por Ele. Não os aboliu,
ao contrário, tornou-se a única vítima, A HÓSTIA SAGRADA, deixando clara a
condição de amor para "estar em comunhão com o altar", ou melhor,
agora, com o próprio Jesus, tal como disse São Paulo (1 Cor. 10, 18-21). Ainda
torna-se mais claro se for considerada a continuidade do "Discurso
Eucarístico" de São João, comparando-o com as Palavras de Cristo na
Multiplicação dos Pães:
"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. Quem
come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o
Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também
aquele que comer de mim viverá por mim" (Jo. 6, 54-57).
Desde o Lava-Pés (Jo. 13) até o final do capítulo
dezessete, João descreve os acontecimentos na Ceia Eucarística até a estada no
Monte das Oliveiras (Jo. 18), onde Jesus foi preso. Não se pode separar esses
capítulos como se fossem compartimentos estanques, cada um com o seu tema.
Formam uma unidade com a Ceia Eucarística. Confirma assim João a exactidão dos Sinóticos, quando colocam a Instituição da Eucaristia e a
Paixão de Cristo num mesmo dia. Devem ser lidos sob a mesma perspectiva
sacrificial e comunitária da Fracção do Pão, e sem solução de continuidade,
lembrados de que a divisão em capítulos nos Livros Sagrados vem mais como
auxiliar aleatório de localização, e não como nos dos profanos, separados por
assunto ou abordagem, muitas vezes distintos e definitivos. Observando-se isso,
essa última perícope transcrita deverá ser conjugada à que se segue, do
"Discurso Eucarístico", para, comparando-as, se compreender melhor a
dimensão da unidade advinda da manducação da Hóstia Sagrada:
"Permanecei em mim, como eu
Jesus coloca assim a Eucaristia como centro
gravitacional da Unidade do Seu Corpo Místico, sacramento e fonte do amor,
veículo e meio da permanência dos fiéis nele e dele nos fiéis, tornando-se uma
unidade com o Pai:
"Como tu me enviaste ao mundo, também eu os
enviei ao mundo. (...) Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de
sua palavra crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em
mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me
enviaste"
(Jo. 17, 18-26). "Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o
amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos morada" (Jo. 14, 23).
São Paulo confirma essa vinculação do Corpo Místico
de Cristo à Eucaristia, quando diz, e alhures
esclarece:
"Já que há um único Pão, nós, embora muitos,
somos um só corpo, visto que todos participamos desse único
Pão"
(1 Cor. 10, 17). "Cabeça da Igreja, que é o Seu Corpo: a PLENITUDE
DAQUELE QUE PLENIFICA TUDO EM TODOS" (Ef. 1, 22).
Com uma visão assim mais abrangente é de se
compreender melhor o Sacrifício Eucarístico e o da Cruz. Por isso dissemos no
início que hoje não se tem a mesma noção cultural do sacrifício, tal como os
antigos, bem como israelitas ou judeus. Pelo conhecimento e compreensão dos
seus fundamentos, aceitaram e acataram facilmente a Celebração Eucarística,
legando-nos da Tradição
Apostólica, a Santa Missa.
****************************************
1. Introdução à Bíblia - 10
vols. Direção Geral: P. Teodorico Ballarini, OFM Cap.,
VOZES.
2.
3. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo - Russell Norman Champlin.
4. Los Evangelios
Apocrifos - Aurelio de Santos Otero.
Biblioteca de Áutores Cristianos.
5. Nuevo Testamento Trilingüe - José Maria Bover y José O’Callaghan - BAC,
Madrid.
6. Chave Linguística do N. Testamento Grego - Fritz Rienecker/Cleon Rogers. Vida Nova.
7. Vida de Cristo - Giuseppe Ricciotti.
8. Antologia dos Santos
Padres - Cirilo Folch Gomes,
OSB.
9. Patrologia - Berthold Altaner e Alfred Stuiber
10. Verbum Dei, Comentario a
11. Novo Testamento -
Tradução Portugueza, 1909, Bahia,
Typ. de S.
Francisco.
12. Teologia do Evangelho de São João - Bento Silva Santos, OSB.
14. O Evangelho de São João -
Juan Mateos e Juan Barreto.
15. Synopse des Quatre Évangiles
- P. Benoit & M. -E. Boismard Tome I Textes Tome II
(Apresentam uma teoria de "Como se formaram os Evangelhos") Tome III - L’Évangile de Jean
16. O Antigo Testamento, Fonte de Vida Espiritual - Paul-Marie De
17. O PAI: Deus
18. Vários Comentários ao Evangelho de Lucas e dos
demais.
19. Metodologia do Novo Testamento - Wilhelm Egger.
20. Jesus Existiu? - René Latourelle.
21. Mysterium Salutis - 27 vols.
- Diversos Autores - Vozes.
22. Suma Teológica - São
Tomás de Aquino, 3ª Parte, Questões
23. Catecismo da Igreja Católica -
João
Paulo II; e, nºs.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)
Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009