CATECISMO ORTODOXO
A. A. As Fontes da Doutrina Cristã
No significado original preciso da palavra, Tradição
Sagrada é a tradição que vem da Antiga Igreja dos tempos Apostólicos. Do
segundo ao quarto século esse facto foi chamado de "A Tradição
Apostólica".
Deve-se ter em mente que a Igreja primitiva guardava
cuidadosamente a vida interior da Igreja daqueles que estavam fora delas; seus
Santos Mistérios eram secretos, mantidos fora dos conhecimentos dos
não-cristãos. Quando esses Santos
Mistérios eram realizados — Baptismo
ou a Eucaristia
— aqueles que não eram da Igreja não estavam presentes; a ordem dos ofícios não
era escrita mas só transmitida oralmente; e no que era preservada em segredo
estava contido o lado essencial da fé. São
Cirilo de Jerusalém (4º século) apresenta-nos isso de maneira especialmente
clara. A respeito de instruções Cristãs para aqueles que ainda não tinham
expressado a decisão final de se tornarem Cristãos, o Hierarca
precede ensinamentos com as seguintes palavras: "Quando o ensinamento
catequético é pronunciado, se um catecúmeno te perguntar, ‘O que o instrutor disse?’ tu não deves repetir nada para aqueles que estão sem
(Igreja). Pois nós estamos dando-te um mistério e esperança da era futura.
Mantenha o Mistério daquele que é o doador de recompensa, que ninguém diga a
ti: ‘Qual é o mal se nós descobrimos também?’ Pessoas
doentes também pedem por vinho, mas se lhes for dado na hora errada ele produz
desordem na mente, e existem duas consequências malignas; o doente morre e o
médico é difamado" (Prologue to the Catechetical Lectures, cap. 12).
Em uma de suas homilias seguintes, São Cirilo de
novo observa: "Incluímos o ensinamento completo da fé em poucas linhas, e
eu desejaria que vocês lembrassem dele palavra por palavra e deveriam repeti-lo
entre vocês com todo fervor, sem escrevê-lo em papel, mas anotando-o por
memória no coração. E vocês deveriam precaver-se pelo menos durante o tempo de
vossa ocupação com esses estudos para que nenhum dos catecúmenos venha a ouvir aquilo
que foi passado para vocês" (Fifth Catechetical Lecture, ch. 12). Nas palavras introdutórias que ele escreveu para
aqueles que iriam ser "iluminados" — isto é, aqueles que já estavam
para o Baptismo — e também para aqueles prestes que eram baptizados, ele dá o
seguinte aviso: "Esta instrução para aqueles que estão sendo iluminados é
oferecida para ser lida por aqueles que estão vindo para o Baptismo, e também
pelos fieis que já receberam o Baptismo; mas de modo
nenhum não a dêem nem para catecúmenos nem para qualquer outro que ainda não se
tornara Cristão, senão terão que responder ao Senhor. E se vocês fizerem cópia
dessa leitura catequética, então, como diante do
Senhor, copie isso também". (Fim do Prologue para Catechetical
Lectures). (Essas três citações são encontradas nas «Catechetical Lectures», Eerdmans ed. pes. 4, 32, 5. Esse rigor com
respeito a revelação dos Mistérios Cristãos (Sacramentos) para estranhos á
Igreja não é mais preservada em tal nível na Igreja Católica Ortodoxa. A
exclamação "Retirai-vos catecúmenos!" antes da Liturgia dos fieis
ainda é proclamada, é verdade, mas dificilmente em qualquer lugar do mundo
ortodoxo os catecúmenos ou não ortodoxos são instruídos a deixar a Igreja nesse
instante. (
Nas palavras que se seguem São
Basílio, o Grande dá-nos um claro entendimento da Sagrada Tradição
Apostólica: "Dos dogmas e sermões preservados na Igreja, alguns nós temos
por instrução escrita, e alguns nós recebemos da Tradição Apostólica, passados
Dessas palavras de São Basílio, o Grande devemos
concluir: primeiro, que a sagrada tradição do ensinamento da fé é aquela que
pode ser rasteada até o período mais antigo da Igreja, e segundo, que tenha
sido cuidadosamente preservada e unanimemente reconhecida entre os padres e
professores durante a época dos grandes padres e o início dos Concílios
Ecuménicos.
Apesar de São Basílio ter dado uma série de exemplos
da "tradição oral", ele próprio nesse mesmo texto deu passos na
direcção de "gravar" essas palavras orais. Durante a era de liberdade
e no triunfo da Igreja no quarto século, quase toda tradição em geral recebeu
uma forma escrita e está agora preservada na literatura da Igreja, e que
resulta num suplemento da Sagrada Escritura.
Nós encontramos essa antiga sagrada Tradição no mais
antigo texto da Igreja, os cánones dos Santos Apóstolos; (Ver páginas
anteriores nota sobre Cánones dos Santos Apóstolos); nos símbolos da fé (Credo)
das antigas Igrejas locais; nos antigos Actos dos mártires Cristãos. Os Actos
dos mártires não entravam em uso pelos fiéis até que eles tivessem sido
examinados e aprovados pelos Bispos locais; e eram lidos em reuniões públicas
de Cristãos sob a supervisão dos líderes das Igrejas. Neles nós vemos a
confissão da Santíssima
Trindade, a Divindade do Senhor Jesus Cristo, exemplos de invocação
de santos, a crença na vida consciente daqueles que haviam repousado em
Cristo, e muito mais; nos registros antigos da história da Igreja especialmente
no livro de Eusébio Pamphilo, Bispo de Cesareia (Tradução inglesa: Eusebius: «The History of Church
from Christ to Constantine», tradução por G. A. William,
Peguin Books, Baltimore, 1965) onde estão reunidas muitas tradições antigas de
rito e dogma — em particular, ali é dado o cánon dos livros sagrados do Antigo
e Novo Testamento; nos trabalhos dos antigos padres e professores da Igreja; e
finalmente, no verdadeiro espírito da vida da Igreja, na preservação da
fidelidade a todas as suas fundações que vem dos Santos Apóstolos.
A Tradição Apostólica que tem sido preservada e
guardada pela Igreja pelo simples facto que ela tem sido mantida pela Igreja,
torna-se a própria Tradição da Igreja, "pertence" a ela, e testifica
sobre ela, e, em paralelo à Sagrada Escritura é chamada pela Igreja,
"Sagrada Tradição".
O testemunho da Sagrada Tradição é indispensável
para nossa certeza que todos os livros da Sagrada Escritura nos foram entregues
vindos dos tempos Apostólicos e são de origem apostólica. A Sagrada Tradição é
necessária para o correcto entendimento de passagens separadas das Sagradas
Escrituras, e para refutar interpretações heréticas, e, em geral, para evitar
interpretações superficiais, unilaterais, e às vezes até mesmo prejudiciais e
falsas.
Finalmente, a Sagrada Tradição é também necessária
porque algumas verdades da fé são expressas numa forma completa e definitiva
nas Escrituras, enquanto outras não estão claras e precisas e por isso precisam
confirmação pela Tradição Apostólica Romana.
O Apóstolo comanda: "Então, irmãos, estais
firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja
por epístola nossa".
Além de tudo isso, a Sagrada Escritura é valiosa
porque dela nos vemos como a ordem completa da organização da Igreja, os
cánones, os Ofícios Divinos e ritos são enraizados no modo de vida da Igreja
dos tempos antigos. Assim, a preservação da "Tradição" expressa a
sucessão da verdadeira essência da Igreja.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)