CATECISMO ORTODOXO
Parte I
Deus em Si próprio
2. O dogma da Santíssima Trindade
d - O dogma da
Santíssima Trindade na Igreja Antiga
A Igreja de Cristo em toda a sua complexidade confessou a
verdade da Santíssima
Trindade desde o seu início. Por exemplo, Santo
Irineu de Lion, um discípulo de São Policarpo de
Esmirna, que foi instruído pelo Apóstolo João, o Teólogo, fala claramente da
universalidade da fé na Santíssima Trindade: "Apesar da Igreja estar
dispersa pelo mundo habitado inteiro, aos confins da terra, ela recebeu fé
Defendendo a verdade católica da Santíssima Trindade
contra os heréticos, os Santos
Padres não só citaram como prova o testemunho da Sagrada
Escritura mas eles também confiaram no testemunho dos primeiros cristãos.
Eles indicaram:
1 - o exemplo dos mártires
e confessores que não tiveram medo de declarar sua fé no Pai, no Filho e no
Espírito Santo;
2 - os escritos dos Padres
Apostólicos, e em geral, os escritores cristãos antigos;
3 - as expressões que são
usadas nos Ofícios Divinos.
Assim São
Basílio, o Grande cita a Pequena Doxologia: "Glória ao Pai, ao Filho
no Espírito Santo"; e outra: "A Ele (Cristo) com o Pai e o Espírito
Santo seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos". E São Basílio
diz que essa doxologia era usada nas Igrejas desde o tempo em que o Evangelho
foi anunciado. Ele também aponta para a Oração de Agradecimento no acender das
luzes, ou o Hino de Véspera, chamando-o de hino "antigo" legado
"pelos padres" e, ele cita as palavras "Nós cantamos o Pai, o
Filho e o Espírito Santo de Deus", de modo que a mostrar a fé dos antigos
Cristãos no louvor igual do Espírito Santo com o Pai e com o Filho.
Existem igualmente muitos testemunhos dos antigos
padres e professores da Igreja a respeito do facto de que a Igreja desde os
primeiros dias de sua existência fez os Baptismos em nome do Pai e do Filho e
do Espírito Santo, como três Pessoas Divinas, e acusou os heréticos que
tentaram baptizar ou em nome somente do Pai, considerando o Filho e o Espírito
Santo serem poderes inferiores ou em nome do Pai e do Filho, e mesmo do Filho
sozinho, minimizando assim o Espírito Santo (ver os testemunhos de Justino,
o Mártir, Tertuliano, Irineu, Cipriano,
Atanásio,
Hilário,
Basílio, o Grande e outros).
A Igreja, no entanto, experimentou grandes
perturbações e passou por uma grande batalha na defesa do dogma
da Santíssima Trindade. A batalha foi travada principalmente em dois pontos:
primeiro na afirmação da verdade da unidade de louvor do Espírito Santo com
Deus Pai e Deus Filho.
No período antigo, o objectivo dogmático da Igreja
foi achar palavras precisas para esse dogma que pudessem proteger melhor o
dogma da Santíssima Trindade contra as re-interpretações dos heréticos.
Desejando trazer o mistério da Santíssima Trindade um pouco mais perto dos
nossos conceitos terrenos, trazer o que está além da compreensão um pouco mais
perto daquilo que é compreensível, os Padres na Igreja usaram comparações na
natureza. Entre elas estão:
a - o sol, seus raios e a
luz;
b - a raiz, o tronco e a
fruta de uma arvore;
c - a nascente de água, a
fonte e o rio que dela sai;
d - três velas que queimam
simultaneamente e que dão uma luz única e inseparável;
e - o fogo, a luz e o calor
que vem dele;
f - mente, vontade, memória;
g - consciência, conhecimento
e desejo; e assim por diante.
Mas eis o que diz São
Gregório, o Teólogo a respeito dessas tentativas de comparação: "Eu
examinei cuidadosamente essa questão em minha mente, e olhei-a sobre todos os
pontos de vista, de modo a encontrar alguma semelhança com o mistério, mas fui
incapaz de encontrar qualquer coisa na terra que pudesse ser comparada à
natureza da divindade. Pois, mesmo que eu percebesse alguma pequena parecença,
esta escapava-me na sua maior parte, e derrubava-me junto com meu exemplo. Eu
pintei para mim uma nascente, uma fonte e um rio, como outros haviam feito
antes, para ver se a primeira poderia ser análoga ao Pai, a segunda ao Filho e
o terceiro ao Espírito Santo. Pois para as Três Pessoas não há distinção no
tempo, nem Elas são tiradas de suas conexões com a de cada uma das outras,
apesar delas parecerem estar partidas em três personalidade. No entanto, eu
estava em primeiro lugar temeroso de ter que apresentar um fluxo da divindade,
incapaz de permanecer imóvel; e em segundo lugar, que por essa figura fosse
introduzida uma unidade numérica. Pois a nascente, a fonte e o rio são
numericamente um, apesar de formas diferentes".
"Novamente, eu penso no sol, no raio e na luz.
No entanto, aqui também houve um temor que no mínimo as pessoas viessem a ter
ideia de composição na incomposta natureza, tal como se existe no sol e as
coisas que estão no sol. E além disso nós estaríamos dando Essência ao Pai e
negando personalidade aos outros fazendo-os somente poderes de Deus, existindo
Nele e não pessoalmente. Pois nem o raio nem a luz é outro sol, mas eles são só
emanações do sol, e qualidades de sua essência. E assim, finalmente, seguindo
com a ilustração, nós estaríamos atribuindo a Deus tanto ser quanto não ser, o
que é ainda mais monstruoso... Numa palavra, não há nada que apresente um ponto
firme nessas ilustrações do qual eu possa considerar o objecto que eu estou
tentando representar para mim, a menos que se possa indulgentemente aceitar um
ponto na imagem enquanto rejeitando o resto. Finalmente, parece melhor para mim
que eu deixe que se vá a imagem e também a sombra, por serem enganosas e muito
distantes da verdade, e inclinando-me para a concepção mais reverente, e
apoiando-me em algumas palavras, usando a orientação do Espírito Santo,
mantendo até o fim como minha genuína camarada e companheira iluminação que eu
recebi dele, e passando por esse mundo a persuadir outros com o melhor do meu
poder a adorar o Pai, Filho e o Espírito Santo, a Divindade e Poder Uno"
(São Gregório, o Teólogo, Homília 31, "On the Holy Spirit" secções 31-33;
tradução inglesa em Nicene and
Post-Nicene Fathers, second series, Vol. VII, p. 328; Eederman).
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)