CATECISMO ORTODOXO
Parte I
Deus em si próprio
1. Nosso conhecimento de Deus
i - Deus é
Espírito
"Deus é Espírito" (Jo.
4, 24; as palavras do Salvador na conversa com a mulher Samaritana). "O
Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ai há liberdade"
(2 Cor. 3, 17). Deus é alheio a todo tipo de natureza corpórea ou
materialidade. Ao mesmo tempo em que a espiritualidade que pertence aos seres
espirituais criados e á alma do homem, que manifesta em si somente uma
"imagem" da natureza espiritual de Deus. Deus é um Espírito que é o
mais elevado, mais puro, mais perfeito. É verdade que na Sagrada
Escritura nós encontramos muito, vários lugares onde alguma coisa corpórea
é simbolicamente atribuída a Deus, no entanto, concernente à natureza
espiritual de Deus, a Escritura começa por falar com as primeiras palavras do
livro do Génesis, e ao Profeta
Moisés, Deus revela-se como Aquele que é, como a pura, espiritual e mais
elevada existência. Assim, por símbolos corpóreos a Escritura ensina-nos a
compreender os atributos espirituais e as acções de Deus.
Tomemos aqui as palavras de São
Gregório, o Teólogo. Ele diz: "De acordo com as Escrituras Deus dorme,
Ele desperta, torna-se irritado, Ele activa, Ele tem os Querubins como seu
trono mas quando Ele teve uma enfermidade? Além disso, alguma vez ouviste que
Deus é um corpo? Alguma coisa é apresentada aqui, que não existe na realidade
de acordo com o nosso próprio entendimento, nós demos nomes para as
características de Deus, que são derivadas de nós próprios. Quando Deus, por
razões que só Ele conhece, abandona os seus cuidados, como estava tendo, e não
se preocupa mais connosco, isso significa que Ele está "dormindo" —
porque o nosso dormir é uma falta similar de actividade e cuidado. Quando, ao
contrário, Ele subitamente começa a fazer o bem, isso significa que Ele
"acordou". Ele castiga e por isso, nós imaginamos que Ele está
"raivoso" pois o castigo entre nós é com raiva. Ele age às vezes
aqui, ás vezes Ele repousa e como se Ele morasse em santos poderes nós chamamos
a isso de "sentar-se" e Ele "senta-se num trono", que é uma
coisa característica nossa. Também, pois a divindade não repousa em lugar
algum, nem entre os santos. A um movimento veloz, nós chamamos "Voo".
Se há uma contemplação, nós falamos numa "face"; se há um dar e
receber, nós falamos de uma "mão". De outra forma, e uma maneira
tomada das coisas corpóreas" (homilia 31, Fifht Teological Oration "On the Holy
Spirit," ch 22; Eerdmann’s Nicene Fathers, Series Two, vol VII, pg.
324-325).
Ligado com os relatos das acções de Deus, no segundo
e terceiro capítulos do Livro da Génesis, São
João Crisóstomo instrui-nos: "Não passemos sem atenção, amados, pelo
que é dito pela Divina Escritura, e não olhemos só para as palavras, mas
pensemos que simples palavras são usadas por conta de nossa enfermidade, e que
tudo é feito do jeito mais adequado para a nossa salvação. Depois de tudo,
diga-me, se quisermos aceitar as palavras num sentido literal e não entendermos
o que é comunicado de modo adequado a Deus, tudo isso então não se tornaria
muito estranho? Olhemos no começo da leitura presente. Ela diz: "E
ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia:... e estavam com medo" (Gén.
3, 8). O que tu dizes: Deus anda? Tu atribuis pés a Ele? Não deveríamos
entender isso num sentido mais elevado? Não, Deus não anda — nem penses nisso!
Como, de facto, poderia Ele que está em tudo e enche tudo, cujo trono é o céu e
a terra o escabelo de seus pés — como poderia Ele andar no Paraíso? Que pessoa
racional diria isso! No entanto o que significa: "Eles ouviram a voz de
Deus andando no Paraíso na viração do dia?" "Ele quis criar neles um
tal sentimento (de proximidade de Deus) que deveria fazer com que eles ficassem
preocupados com o que de facto havia acontecido. Eles sentiram isso e tentaram
esconder-se de Deus que se estava aproximando deles. O pecado havia ocorrido, e
a transgressão e vergonha caíram sobre eles. O juiz não hipócrita que é a nossa
consciência, tendo sido acordada, clamou com alta voz, recriminando-os, e
exibindo diante de seus olhos o peso da transgressão. O Mestre criou o homem no
começo e nele colocou um acusador que nunca se cala e que não pode ser seduzido
ou enganado".
A respeito da imagem da criação da mulher, São João
Crisóstomo ensina, "É dito, ‘e tomou uma de suas costela’” (Gén. 2, 21). Não entendam essas palavras de maneira humana,
mas entendam que a crua expressão usada é adaptada à fraqueza humana. Pois, se
a Escritura não tivesse usado essas palavras, como poderíamos entender tais
mistérios inexprimíveis? Não olhemos só para as palavras mas recebamos tudo de
maneira ajustada, no que se refira a Deus. Essa expressão "tomou" e
todas as expressões similares são usadas em função de nossa fraqueza". De
maneira similar São João Crisóstomo expressa-se com respeito ás palavras: "E
formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes"
(Gén. 2, 7; Works of St. John Chrisostom,
Vol IV, parte um). (Não se deve pensar que o Padre
Michael está afirmando aqui, que São João Crisóstomo era em geral opositor a
"interpretações literais" da Escritura; quando o sentido literal era
necessário, São João Crisóstomo era bastante literal na sua interpretação. O
seu ponto de vista e o do Padre Michael era que toda interpretação da Escritura
deve ser "ajustada a Deus" e isto ás vezes requer uma interpretação
literal, às vezes uma interpretação metafórica. No mesmo Comentário do livro da
Génesis, por exemplo, São João Crisóstomo, escreve: "Quando vós ouvis que
"Deus colocou o Paraíso do Éden no leste, acrediteis precisamente que o
próprio Paraíso foi criado no exacto lugar que a Escritura assegurou que
foi" (Homilies on
Génesis, XIII, 3). Ele também, proibiu uma interpretação alegórica de
"rios" e "águas" do Paraíso, insistindo que "os rios
são rios na realidade e as águas são precisamente águas" (XIII, 4). Assim,
quando São João Crisóstomo afirma que a palavra "tomou" na Génesis
deve ser entendida numa maneira ajustada a Deus (isto é, não deve ser entendida
literalmente, porque Deus não tem "mãos"). Ele não nega que Eva foi
realmente criada de uma das costelas de Adão, ainda que precisamente como isso
foi jeito, permaneça um mistério para nós (Homilies on Génesis, XV, 2-3).)
São
João Damasceno devota um capítulo a esse tema na sua «Exact
Exposition of the Orthodox Faith».
Esse capítulo é chamado "Sobre as coisas que se afirma de Deus como se Ele
tivesse um corpo", e ali ele escreve: "Como encontramos na Divina
Escritura muitas coisas que são ditas de Deus como se Ele tivesse um corpo,
nós devemos saber que é impossível para nós que somos homens que estamos
vestidos com essa crua carne, pensar ou falar sobre as imponentes e imateriais
acções de divindade, a não ser que usemos similaridade, imagens e símbolos que
correspondam a nossa natureza." Além disso, as expressões a respeito dos
olhos, ouvidos, mãos e similares de Deus, ele conclui: "Para dizer de modo
simples, tudo que é afirmado de Deus como se Ele tivesse um corpo contém um
certo significado escondido" (Exact Exposition oh the Orthodox Faith, part one, Ch11; The Father of the
Church Traslation, p
191-193).
Hoje em dia tornamo-nos bastante acostumados com a
ideia de que Deus é puro Espírito. No entanto, a filosofia do panteísmo (que
significa "Deus é tudo"), que está bem espalhado no nosso tempo,
procura contradizer essa verdade. Por isso, ainda hoje no Rito da Ortodoxia
cantado no Domingo da Ortodoxia o, primeiro domingo da Grande Quaresma, nós
ouvimos "para aqueles que dizem que Deus não é Espírito mas carne —
Anátema! (o Rito da Ortodoxia é celebrado depois da Liturgia no primeiro
Domingo da Grande Quaresma
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)