CATECISMO ORTODOXO

 

  

                                                                                                                  Parte I

 

Deus em Si Próprio

 

1. Nosso conhecimento de Deus

e - A natureza de nosso conhecimento de Deus

Deus em Sua essência é incompreensível. Deus habita "... na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver;..." instrui o Apóstolo Paulo (1 Tim. 6, 16).

Em suas leituras catequéticas São Cirilo de Jerusalém instrui-nos: "Nós não explicamos o que Deus é, mas candidamente confessamos que nós não temos um conhecimento exacto a respeito dele. Pois com respeito a Deus, confessar a nossa ignorância é o melhor conhecimento" (6ª Catechetical Lecture, Eedrmans p. 33).

Eis aí porque não existe valor dogmático a ser encontrado nos vários tipos da vasta e abrangente lista de concepções e buscas racionais sobre o assunto da vida interior de Deus, e da mesma forma nos conceitos fabricados por analogia com a vida da alma humana. A respeito dos "companheiros — inquiridores" de seu tempo, São Gregório de Nissa, o irmão de São Basílio, o Grande escreve: "Homens, tendo deixado de "... deleitar-se no Senhor..." (Sal. 37, 4) e de rejubilar-se na paz da Igreja, entram em refinadas buscas a respeito de alguns tipos de essências e medem magnitudes, medindo o Filho em comparação com o Pai, concedendo uma maior medida ao Pai. Quem dirá a eles, que aquilo que não é sujeito a números não pode ser medido; o que é invisível não pode ser avaliado; que o que é sem carne não pode ser comparado não pode ser entendido como maior ou menor, porque nós sabemos que alguma coisa é "maior", comparando-o com outras coisas, mas com alguma coisa que não tem fim, a ideia de "maior" é impensável. "Grande é o Nosso Senhor, e de grande poder; o Seu entendimento é infinito" (Sal. 147, 5). O que isso significa? Numere como foi dito e compreenderás o mistério.

O mesmo Hierarca escreve adiante: "Se alguém está fazendo uma viagem no meio do dia, quando o sol com seus raios quentes queima a cabeça, e por seu valor seca toda coisa líquida do corpo, e sob seus pés está a terra dura que torna difícil o caminhar e é ressecada; e então tal viajante encontra uma fonte com jactos saindo esplêndidos, transparentes, agradáveis e refrescantes e mais ainda abundantes, ele sentar-se-á na água e começara a raciocinar sobre sua natureza, procurando de onde ela vem, como, do que, e todas as outras coisas como tais, que oradores preguiçosos estão acostumados a julgar; por exemplo: é uma certa mistura que existe nas profundezas da terra que vem à superfície sob certa pressão e torna-se água, ou são canais indo através de longos lugares desérticos e que descarregam água assim que ela acha uma abertura para si? O viajante ao invés não dirá adeus a todas deliberações racionais, inclinará sua cabeça para o jacto e pressionará seus lábios contra ele, aplacará sua sede, refrescará sua língua, satisfará seu desejo, e dará agradecimentos àquele que deu esta água? Assim, imitai vós também esse sedento" (São Gregório de Nissa, "Homily ih His Ordination," de suas obras em russo, vol IV).

No entanto, até certo ponto nós temos conhecimento de Deus, conhecimento até ao ponto do que ele mesmo se revelou para os homens. Deve-se distinguir entre a compreensão de Deus, o que em essência é impossível, e o conhecimento dele, ainda que incompleto, como diz o Apóstolo Paulo: "Porque agora vemos por espelho em enigma... e agora conheço em parte" (1 Cor. 13, 12). O grau desse conhecimento depende da habilidade do próprio homem em conhecer (Essa distinção entre aquilo que se pode chamar de "absoluta" incognoscibilidade de Deus e a "relativa" cognoscibilidade Dele é apresentada por São João Damasceno no Livro I, capítulo I da «Exatc Exposition oh the Orthodox Faith»).

De onde derivamos nós o conhecimento de Deus?

a - É revelado ao homem do conhecimento da natureza, do conhecimento de si próprio, é do conhecimento de toda criação de Deus em geral. "Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a Sua divindade, entendem-se e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas..." (Rom. 1, 20); isso é, o que é invisível nele, Seu eterno poder e Sua divindade, é tornado visível pela criação do mundo através da observação das coisas criadas. Por isso, estão sem desculpa aqueles homens que tendo conhecido Deus, não o glorificam como Deus e não dão graças, mas se desvanecem em seus discursos (Rom. 1, 21). "O mundo é o reino do pensamento divino" (São João de Kronstadt).

b - Deus manifestou-se ainda mais em revelações sobrenaturais e através da encarnação do Filho de Deus, o Deus "havendo falado antigamente muitas vezes e de muitas maneiras, aos nossos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho" (Heb. 1, 1). "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigénito, que esta no seio do Pai, Este o fez conhecer" (Jo. 1, 18).

Assim, o próprio Salvador ensina a respeito do conhecimento de Deus. Tendo dito "Todas as coisas Me foram entregues por meu Pai: e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt. 11, 27). O Apóstolo João escreve na sua Epístola: "E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e deu-nos entendimento... para que conheçamos o Deus verdadeiro..." (1 Jo. 5, 20).

A Revelação Divina é-nos dada em toda Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição. E a preservação, instrução e interpretação verdadeira dessa revelação divina é obrigação e preocupação da Santa Igreja de Cristo.

Mas mesmo dentro dos limites que nos são dados à luz da Divina Revelação, devemos guiar-nos naqueles que purificam as suas mentes por uma vida Cristã elevada e fizeram as suas mentes capazes de contemplar verdades exaltadas, isto é a respeito disso, São Gregório, O Teólogo, instruiu-nos: "Se desejas ser um teólogo e digno do divino, mantém as leis; por meio das leis divinas vai para um objectivo elevado; pois a actividade é a ascensão para a visão" ("actividade" aqui é um termo técnico frequentemente encontrado nos textos ascéticos Ortodoxos; ele refere-se aos meios (mantendo os Mandamentos, disciplina ascética, etc...) que conduz alguém ao fim da vida espiritual ("visão" ou “contemplação" de Deus).

É isso, empenha-se e atinge a perfeição moral, pois só esse caminho dá a possibilidade de ascender às alturas de onde as verdades divinas são contempladas (homilia de São Gregório, o Teólogo).

O próprio Salvador proferiu: "Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus" (Mt. 5, 8).

A impotência da nossa mente para compreender Deus é expressa na Igreja, nos Ofícios Divinos: "Por não termos palavras para expressar o significado de Tua incompreensível Tri-radiante divindade, com os nossos corações nós Te glorificamos, ó Senhor" (do cánon do Ofício de Meia-noite do Domingo, tom 7, cánon 4).

Na antiguidade certos heréticos introduziram a ideia de que Deus é totalmente incompreensível, inacessível ao entendimento. Eles construíram as suas afirmações sobre a ideia de que Deus é uma Essência simples, que não tem conteúdo interior ou qualidades. Por isso foi suficiente, dar Nomes a Deus — por exemplo Theos (Deus — "Aquele que vê"), ou Jeová ("aquele que é"), ou indicar a sua característica singular, a sua "não-origem", de maneira a dizer tudo o que pode ser dito a respeito de Deus (alguns dos gnósticos raciocinavam dessa maneira, por exemplo, Valentino no século segundo, e os Anomoenses no século quarto, pensaram nessa maneira). Os Santos Padres responderam a essa heresia com um protesto fervoroso, vendo nisso uma destruição da essência da religião. Respondendo aos heréticos, eles esclareceram e provaram, tanto pelas Escrituras quanto pela razão:

1 - que a simplicidade da essência de Deus é unida com a completude de Seus atributos, a completude do conteúdo da vida divina,

2 - e que os próprios Nomes de Deus na Divina Escritura — Jeová, Eloim, Adonai e outros — expressam não a verdadeira essência de Deus, mas primeiramente mostram as relações de Deus com o mundo e com o homem.

Outros heréticos na antiguüidade, por exemplo os Marcionitas, afirmaram que Deus é completamente desconhecido e inacessível à nossa compreensão. Por essa razão, os Padres da Igreja mostraram que existem graus do nosso conhecimento de Deus, o que é possível, útil e necessário para nós. São Cirilo de Jerusalém, em suas Leituras Catequéticas, ensina: "Se alguém diz que a essência de Deus é incompreensível, então porque falamos a respeito dele? No entanto, é verdade que, por que eu não posso tomar o rio inteiro eu não tomarei água dele com moderação para meu benefício? É verdade que, porque meus olhos não podem enxergar tudo o que o sol ilumina, eu sou incapaz de contemplar aquilo que é possível e necessário para mim? E se vou a um grande pomar, e não consigo comer todas as frutas dali, queres que eu vá embora do pomar completamente faminto?" (Catechetical Lectures, VI, 5).

É bem conhecido como o abençoado Agostinho, quando andava numa praia pensando acerca de Deus e do mistério da Santíssima Trindade, viu um menino sentado na beira da água, tirando água do mar com uma concha e colocando-a num buraco na areia. Essa cena inspirou-o a pensar na desproporção entre nossa mente rasa e a grandeza de Deus. É tão impossível ter-se uma concepção de Deus em toda Sua grandeza, quanto esvaziar-se o mar com uma concha.

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009

 

 

 

 

 

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