UM POUCO DE HISTÓRIA DA ORTODOXIA
E DAS CISÕES NO SEIO DA IGREJA UNA
A visão de um leigo
católico-romano de coração ortodoxo
A Una, Santa, Católica, Apostólica e Ortodoxa Igreja
de Nosso Senhor Jesus Cristo fora governada, a partir do Século V, por cinco
Patriarcas estabelecidos pelo Concílio
Ecuménico de Calcedónia (451 d. C.), a saber, em ordem
honorífica, Roma,
Constantinopla,
Alexandria,
Antioquia
e Jerusalém.
A precedência de Constantinopla sobre Alexandria, negada desde então pelos
Romanos Pontífices à revelia do Cánon 28 de mencionado concílio, só foi
reconhecida no pontificado de Adriano II, no VIII Concílio Ecuménico de
Constantinopla (869-870), para os romano-católicos. Os patriarcados de Roma,
Alexandria e Antioquia foram fixados em Nicéia (325); o de Constantinopla, em
381, visto que a cidade (nova capital do império romano) fora fundada em 330
por Constantino Magno; já o de Jerusalém foi estabelecido em Calcedónia (451),
formando-se então o conceito de Pentarquia, ou seja, o governo da Igreja
exercido pelos cinco Patriarcas acima, em perfeita sintonia e harmonia, ao
menos em teoria. Na prática, entretanto, desde o início da história desses
patriarcados houve rivalidades por vezes cabais entre suas respectivas sés.
Enquanto no Oriente se desenvolvia o conceito teológico-especulativo, no
Ocidente predominava a tendência jurídico-organizativa.
Os primeiros conflitos surgiram no Século V entre as
escolas teológicas Antioquina e Alexandrina: conquanto ambas reconhecessem a
dupla natureza de Cristo, a primeira sopesava Jesus-Humano e a segunda
enfatizava Jesus-Divino. Longe do desejo de ferir a verdadeira religião e –
portanto – a pureza da fé
ortodoxa, muitos Bispos de ambos os lados radicalizaram o debate
de suas posições extremistas e se separaram da recta doutrina expressa nos
Concílios Ecuménicos de Éfeso (431) e de Calcedónia (451). Desta seara,
surgiram as igrejas nestorianas, monofisitas e – mais tarde – monotelitas
(como, por exemplo, a actual de rito maronita, antes de sua reintegração a Roma
no Século XII).
Na tentativa de conciliar heresia e ortodoxia,
grande parte dos imperadores bizantinos dos Séculos V, VI e VII, em linha
cesaropapista, tentou buscar junto a seus teólogos (na maioria bizantinos,
visto serem inegavelmente os mais cultos) fórmulas de fé que garantissem o
restabelecimento da unidade religiosa há muito perdida.
De outra banda, regiões afectas às supostas
heresias, como Egipto, Arménia, Síria e Pérsia (império rival), demonstravam
pouco interesse em acatar ordens e decretos imperiais de Constantinopla, dado
seu carácter nacionalista e o desejo de independência política de Bizâncio. A
parcela dessas igrejas regionais que aderiu às posições do governo imperial e,
por conseguinte, à linha de Calcedónia, foi alcunhada pelos opositores de
melquita, ou seja, partidária do basileu, e traidora das causas políticas
nacionais. Logo, percebe-se que a separação religiosa de nestorianos e
monofisitas foi reforçada por factores de ordem política, dentre os quais o
sentimento de rejeição ao governo imperial de Constantinopla.
Na longa história dos oito primeiros sínodos gerais,
eram comuns grupos de Bispos (na maioria do Oriente) pedirem a Roma o arbítrio
de seus pontos de vista divergentes em matéria de teologia. Entretanto, aqueles
que tinham seu ponto de vista derrotado negavam à Igreja Romana autoridade
quanto à decisão proferida e não raro exigiam do imperador bizantino a
decretação de Concílios Ecuménicos. A fim de estabelecer a paz religiosa, a
qual certamente fortaleceria a unidade e hegemonia política do império, o
basileu não só convocava concílios como determinava a todos os Bispos do
império e adjacências que a eles comparecessem e votassem as matérias
Na tarefa de conciliar erro e verdade, por vezes os
patriarcas (não exceptuado o Papa de Roma) eram arrastados à heresia para
satisfazer a vontade do imperador. Assim aconteceu, por exemplo, com os Papas
Virgílio e Honório (de Roma) e com os Patriarcas Acácio e Sérgio (de
Constantinopla). Virgílio, por exemplo, hesitara em subscrever a condenação,
ainda no II Concílio de Constantinopla (553), dos famosos três capítulos de
escritores de tendência antioquino-nestoriana. Já Acácio de Bizâncio fora
excomungado por Félix, Bispo de Roma, uma vez que para este a sé imperial havia
se afastado da linha de Calcedónia ao impor a seus súbditos uma solução
intermediária cognominada “Henotikon”, decretada pelo basileu em 482,
sem nem mesmo mencionar a Carta de São Leão Magno, papa romano, cujo conteúdo
servira de base para a formulação da doutrina das duas naturezas de Cristo no
sínodo calcedoniano. Um pouco mais tarde, em 519, o imperador Justino
restabeleceu a linha de Calcedónia e a comunhão com a Santa Sé de Roma.
Já no Século VII, o papa romano Honório – embora não
tenha sido propriamente autor de doutrina herética – julgou de bom alvitre
evitar maiores discussões em torno das naturezas e vontades de Cristo, apoiando
genericamente a doutrina do Patriarca Sérgio de Constantinopla exposta em lei
imperial denominada “Ekthesis”, uma vez mais a pedido do basileu para
novamente se tentar a reunificação das igrejas separadas. É interessante
observar que estes dois últimos Patriarcas (Honório e Sérgio) foram solenemente
condenados no VI Concílio Ecuménico (III de Constantinopla) em 681, mas o
espírito de condescendência e subserviência da igreja ao poder imperial cobriu
de silêncio todos imperadores que patrocinaram mais essa heresia.
De toda a exposição acima, pode-se depreender que
apesar de o poder político imperial ter proporcionado a consolidação e expansão
missionária do catolicismo “uno e indiviso”, de outro lado ele trouxe sérios
problemas internos às igrejas apostólicas, uma vez que em várias ocasiões, como
se viu anteriormente, tentara usurpar o direito inalienável do colégio
episcopal de legislar a respeito de teologia e doutrina. Ao imiscuir em
assuntos eclesiásticos, os imperadores mais atrapalhavam que ajudavam as
comunidades a reconstruir a autêntica unidade de fé. Vale lembrar que o
Ocidente, em linhas gerais, nunca concordou com tal estado de coisas.
Sobre as relações dos Patriarcados
Ortodoxos do Oriente com a Santa Sé Romana entre os Séculos V e XI, deve-se
ressaltar que a igreja ocidental sempre estivera – em teoria – menos afeita às
questões políticas do império bizantino que as demais sedes do Leste. Na
prática, contudo, os papas se ressentiram contra os imperadores bizantinos que,
aos poucos, iam diminuindo os territórios de jurisdição patriarcal romana – a
leste da Itália – em favor do Patriarcado Ecuménico. Em tal cenário, o
cesaropapismo bizantino começou a ser repelido pelos papas romanos e, com o
passar do tempo, novos poderes políticos, alguns bastante efémeros,
estabeleciam-se na parte ocidental do antigo império romano com apoio papal.
Logo, apesar de amplamente reconhecida por toda a igreja como primeira Sé da
Cristandade, com o direito de atender a chamados de diversas partes do orbe,
Roma – por estar fora da influência política e cultural de Bizâncio – acabou se
afastando e se isolando do mundo católico dos gregos, tornando-se mesmo até
estranha para estes. Como ela podia, no campo político, estabelecer alianças
com estranhos, visto ser o império bizantino de facto o legítimo herdeiro da
antiga tradição romana?
Os conflitos de ordem cultural, política, racial e
até mesmo religiosa tornaram-se inevitáveis e o bispo romano passou a ser
considerado traidor (persona non grata) da causa bizantina de expansão e
reconquista política e territorial do ocidente. Como podiam os bizantinos
aceitar, na prática, o primado fático de um bispo que, em tese, estava fora de
sua esfera política e cultural? É nesta óptica, pois, que também deve ser
analisado todo o processo de cisma entre as igrejas latina e grega, integrantes
da ortodoxia cristã central protomilenar. Não fossem ainda outras causas de
cunho teológico, disciplinar e de costumes, poder-se-ia restabelecer o estado
de coisas anteriormente reinante, ou seja, a unidade na diversidade.
Inovações como o filioque dos Católicos Romanos, a imposição
de um primado
jurisdicional de Roma sobre toda a igreja, o celibato obrigatório para diáconos
e presbíteros no Ocidente, bem como o uso de pão ázimo na Eucaristia,
dentre outros elementos, acirraram ainda mais os ânimos de lado a lado e
tornara-se impossível uma comunhão de vida e pensamento entre orientais gregos
e ocidentais latinos. O Patriarca de Roma passou a ser considerado um bispo de
origem bárbara, e para os bárbaros do Ocidente!
Mesmo diante de todo o quadro político-histórico já
elucidado, o Oriente jamais deixara de reverenciar o Bispo de Roma – mesmo nos
tempos de crise entre as partes – e nele reconhecer a primazia de amor entre os
irmãos patriarcas. Tanto assim que o Patriarca Bizantino Inácio (Século IX),
sentindo-se injustiçado por sua abdicação forçada pelo poder temporal, recorreu
a Roma para tentar reverter a situação. Partidários seus também o fizeram. Por
outro lado, o novo patriarca entronizado (o polémico mas douto Fócio) anunciou
ao papa romano Nicolau I (o intransigente) sua posse no trono Patriarcal de
Bizâncio e de plano aceitou o inquérito promovido pelos delegados papais quando
de sua visita a Constantinopla em 861, a pedido do Imperador Miguel III. No
entanto, o facto de o papa romano Nicolau ter se recusado a ratificar o
procedimento de seus legados, os quais reconheceram a nomeação de Fócio e a
destituição de Inácio, causou profunda indignação no seio da Igreja Bizantina.
Para esta, a atitude papal era tida como intervenção anti-canónica em assuntos
internos do patriarcado. O que pretendia o papa? Julgar outra vez sua igreja?
Mas ele teria esse direito? Com base em que decisão conciliar anterior? O
Concílio de Sárdica (343) previa tão-só a possibilidade de recurso à Santa Sé
Romana dos clérigos condenados por suas autoridades locais ou regionais em toda
parte. Mas querer julgar novamente a sua igreja e se portar como juiz supremo
numa questão que não era de fé, mas muito mais político-administrativo e
interna da igreja de Bizâncio, era um pouco demais.
Graças ao Espírito Santo, todavia, e após os
concílios gerais de 869-870 (ecuménico para os romano-católicos) e de 879-880
(ecuménico para os grego-ortodoxos), ou seja, pouco mais de vinte anos depois,
Oriente e Ocidente restabeleceram laços de amizade e a paz voltou a reinar na
cristandade. O papa romano João VIII e o Patriarca Ecuménico Fócio chegaram a
manter relações pacíficas em época posterior a esses tristes factos e somente
cerca de duzentos anos mais tarde (1054) ocorreria a excomunhão
recíproca entre as igrejas, nas ilustres pessoas do Patriarca
Miguel Cerulário e do Cardeal Humberto da Silva Cândida. Observe-se – salvo
melhor juízo – que as excomunhões eram pessoais e não atingiam as Igrejas
Bizantina e Romana enquanto tais.
Finalizando a presente exposição, volta-se ao
objectivo inicial: todos os cismas e heresias havidos na Igreja Una e Indivisa
Protomilenar foram causados por exageros em torno de verdades consensuais, isto
é, os homens daquela igreja em geral não tinham a intenção de macular a íntegra
e pura fé; antes, baseados em suas opiniões e paixões pessoais, levavam a cabo
suas teses, radicalizando-as. Se não vejamos: os nestorianos foram longe demais
em sua abordagem acerca do Jesus-Humano, como se este nunca houvera sido Deus;
já os monofisitas foram igualmente longe demais em sua abordagem acerca do
Jesus-Divino, como se este nunca houvera sido Homem; os católicos-romanos,
longe demais ao afirmar a primazia de sua sede sobre as outras, a qual sempre
fora reconhecida no plano fático e da honra, mas não em termos de uma infalibilidade
pessoal e de uma jurisdição universal do pontífice romano. E todos os
Patriarcados, excepto o de Jerusalém – talvez por ter sido o mais novo em ordem
de criação e o menos influente nas decisões da Igreja no curso de sua história
– cometeram lá suas heresias:
1. Antioquia e Alexandria,
conforme já visto (nestorianismo e monofisismo);
2. Constantinopla, na tentativa de restabelecer a
unidade com os grupos orientais dissidentes, entrou em cisma com Roma pelo “Henotikon”
– já elucidado anteriormente – e foi a autora do monotelismo na pessoa do
Patriarca Sérgio, com apoio genérico do papa ocidental romano; foi também no
patriarcado de Constantinopla que veio à tona o sangrento iconoclasmo,
combatido ferozmente pelos monges e pelo povo simples do império. Foram
necessários dois Concílios para sepultar de vez a perigosa heresia de
destruição das imagens sacras: o VII Ecuménico – II de Nicéia, em 787, e o constantinopolitano
de 861. Mesmo assim, as estátuas são até hoje proibidas nas Igrejas Ortodoxas,
permitindo-se apenas ícones (imagens planas);
3. Roma, com suas inovações teológicas (exemplos
principais: filioque, purgatório, Imaculada Conceição
de Nossa Senhora e insistência no primado jurisdicional e, mais tarde, na infalibilidade
do papa romano), litúrgicas e disciplinares (as quais são tantas
que não convém enumerar).
Convém lembrar aqui o heroísmo do Patriarca Sofrónio de Jerusalém, o qual se insurgiu contra as teses
do monotelismo em meados do Século VII, denunciando-as. Apesar de todas as
falhas humanas dos eclesiásticos, a unidade era preservada à medida que os
Patriarcados voltavam às decisões conciliares e retomavam a fé tradicional.
Seguramente, nos oito primeiros séculos, o patriarcado ocidental romano foi o
que menos vacilou em termos de fé, mantendo virtualmente intacta a ortodoxia
doutrinária (talvez pela mera falta de criatividade de seus teólogos, os quais
consideravam fúteis os debates teológicos do Oriente, cujos protagonistas eram
inegavelmente mais cultos e combativos). Constantinopla – sede do poder
temporal – sempre tentou apaziguar os ânimos e propor soluções intermediárias e
conciliatórias, como se observou antes, e o resultado prático eram mais
conflitos ou novas heresias, nunca o restabelecimento da unidade eclesial.
Destarte, faz-se necessário um encontro entre todas
as lideranças das igrejas apostólicas a fim de que tais questões possam ser
colocadas à mesa, discutidas e, assim, buscadas soluções conjuntas, livres de
paixões pessoais, ressentimentos, antipatias raciais, orgulho e outros
preconceitos. Só assim se poderá restabelecer a unidade e a ortodoxia da Grande
Igreja UNA, SANTA, CATÓLICA e APOSTÓLICA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!
Alguns exemplos de visão ortodoxo-bizantina do
primado romano
Carta do Arcebispo de Nicomédia, Nicetas, a um Bispo
da Igreja Ocidental (1136 d.C.)
“Meu caríssimo irmão [...] nós não negamos à Igreja
de Roma o primado entre os irmãos patriarcas; e reconhecemos seu direito de
ocupar o lugar de maior honra em um concílio ecuménico. Mas ela separou-se de
nós por seu orgulho, ao usurpar uma monarquia que não era própria de seu ofício
[...] Como poderíamos aceitar seus decretos, promulgados sem que fôssemos
consultados, e até sem o nosso conhecimento? Se o pontífice romano, assentado
no sublime trono de sua glória, quer trovejar contra nós e, por assim dizer,
gritar-nos do alto as suas ordens, e se ele pensa em julgar-nos, e mesmo em
governar-nos a nós e a nossas igrejas, não com o nosso conselho, mas de modo
arbitrário e a seu bel-prazer, que espécie de fraternidade, ou mesmo, que
espécie de paternidade é esta? [...] Seríamos escravos e não filhos de tal
Igreja, e a Sé Romana, deixaria de ser a mãe piedosa de filhos para tornar-se
uma severa e arrogante senhora de escravos [...] Peço-lhe perdão por falar
assim da Igreja de Roma, que eu venero tanto como você, mas eu não posso
segui-la em tudo, como você; e penso mesmo que ela não deve ser necessariamente
seguida em tudo”.
Esta era, na época, a atitude característica do
sector esclarecido e expressivo da Igreja Bizantina, num momento em que as
divisões entre Oriente e Ocidente ainda não se haviam solidificado em cisma
definitivo. O reconhecimento do primado pontifício ligava-se à convicção de que
um governo monárquico da Igreja universal era contrário tanto aos cánones como
à Tradição;
o respeito pela Sé romana e seu titular aliava-se à crença de que a
infalibilidade doutrinária da Igreja não se exprimia pela voz de um só bispo,
por mais alta que fosse sua posição, mas pela Igreja toda, representada pelos
bispos reunidos em Concílio Ecuménico. A veracidade desta tese pode ser
atestada pelas solenes exclamações dos bispos ao término dos actos conciliares
ecuménicos de Calcedónia (451) e de Constantinopla III (681): “Pedro falou
pelos lábios de Leão”; “Pedro falou pelos lábios de Agatão”. Em suma, até
meados do Século XI da história do cristianismo universal, e em alguns casos
até um pouco mais tarde (início do Século XIII, funesto período das Cruzadas),
o primado papal era explicitamente reconhecido pela maioria do clero bizantino,
mas sempre num contexto colegiado, ou seja, do Romano Pontífice – como sucessor
de São Pedro de uma forma especial – à frente do processo, porém nunca sozinho.
Apesar de a data de 16 de Julho de 1054 representar
oficialmente a ruptura entre as cristandades oriental e ocidental (a bem da
verdade, leia-se entre Constantinopla e Roma), o mesmo não pode ser dito
relativamente a dois dos demais patriarcados melquitas do Oriente: em
Antioquia, somente a partir de 1100 d. C. passaram a existir, lado a lado, duas
hierarquias eclesiásticas rivais – a grega e a latina; já em Jerusalém, somente
a partir do ano de 1188, aproximadamente (portanto às vésperas da sangrenta
cruzada dos ocidentais latinos sobre Constantinopla – 1204 d.C.), o patriarca
ortodoxo local passou a não reconhecer mais o patriarca latino. Logo, o primado
da Santa Sé Romana e de seu titular era visto pelo Oriente numa perspectiva
horizontal e de liderança (como numa fila: primeiro Roma, após Constantinopla,
depois Alexandria, e assim sucessivamente), ao passo que pelo Ocidente, numa
perspectiva vertical e centralizadora (hierarquicamente, ou seja, Roma sobre
Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém).
A visão do primado de Roma expressa por um teólogo
ortodoxo de grande liderança
“A Igreja una, santa, católica e apostólica deve
existir no mundo como uma Igreja unida, ordenada e visível, uma Igreja
universal; e a função e o carisma dos primados consistem em servir de centros
de comunhão, unidade e coordenação. Existem primados locais e regionais
(metropolitas, patriarcas) e um primado universal. A eclesiologia ortodoxa
nunca negou que, tradicionalmente, esta última primazia – universal – pertencia
à Igreja de Roma. No entanto, foi a interpretação de tal primado em termos de
uma infalibilidade pessoal do Romano Pontífice e de seu poder jurisdicional
universal que levou o Oriente ortodoxo a rejeitá-lo.”
Observe-se, a propósito, que as Igrejas Ortodoxas
Orientais viveram séculos e séculos mantendo a união com Roma, sem jamais
concordar plenamente com todas as declarações dos papas feitas a respeito do
primado e da jurisdição universal, embora ainda aceitando o facto do primado,
conforme já visto anteriormente.
Cânon 28 do Concílio Ecuménico de Calcedónia: Acerca
da primazia de Constantinopla após Roma e sobre os demais Patriarcados de
Alexandria, Antioquia e Jerusalém.
“Tendo escrupulosamente presentes as decisões dos
Santos Padres Conciliares, eis o que deliberamos e votamos acerca do Santo
Sólio de Constantinopla, a Nova Roma: ‘Os antigos e veneráveis Padres da Igreja
atribuíram poderes especiais ao Santo Sólio da Velha Roma em virtude do poder
régio de que gozava a cidade; pela mesma razão, cento e cinquenta bispos pios
atribuíram os mesmos privilégios e a mesma dignidade ao Santo Sólio de
Constantinopla, a Nova Roma, alegando justamente que a cidade, Sede do Reino e
do Senado, deve usufruir das mesmas prerrogativas da antiquíssima rainha Roma,
ficando em segundo plano (lugar), nos assuntos eclesiásticos, após aquela, na
ordem dos poderes.’”
Pelo teor do enunciado em epígrafe, conquanto seja
inegável o fato de a Igreja Bizantina ter sempre reconhecido historicamente à
Sé de Roma a primazia sobre todas as outras Igrejas e ao papa romano o título
de primeiro bispo da Cristandade, percebe-se que a natureza deste primado nunca
foi por ela definido com bastante precisão; os orientais o atribuíam menos à
origem apostólica da Sé Romana (São Pedro), que à sua localização na antiga
capital do Império Romano, bem como ao facto de ter guardado virtualmente
intacta a ortodoxia doutrinária. Era, assim, pouco mais que um primado de honra
e, pelo menos em algumas ocasiões, incluía o reconhecimento do direito de um
clérigo, condenado por suas autoridades eclesiásticas, apelar para Roma de
acordo com os cánones 3, 4 e 5 do Concílio de Sárdica (343 d.C.).
Uma visão catequético-romana do cisma entre Oriente
e Ocidente
Embora um pouco superada em face do diálogo
inter-eclesial católico-ortodoxo, eis o que ensinava um livro de religião
escrito nos anos 70 e muito utilizado nos colégios religiosos brasileiros –
como salesianos, jesuítas e outros – para a juventude cristã romano-católica em
nível secundário. Após brevemente descrever as razões históricas do cisma, como
o cesaropapismo bizantino, a questão de Fócio e a recíproca excomunhão entre
gregos e latinos em 1054, finaliza como segue:
“A Igreja Ortodoxa manteve suas doutrinas e formas de culto originais com grande fidelidade. Seus sacerdotes são verdadeiros sacerdotes que ministram sacramentos válidos. Mas, quando se isolou da unidade papal, afastou-se do fluxo principal da Igreja. As tentativas para fechar a brecha (no décimo quarto Concílio Ecuménico, em Leão, em 1274, e no décimo sétimo, em Florença, em 1438), fracassaram mais devido ao preconceito e suspeita mútuas que por diferenças dogmáticas. Esse preconceito ainda subsiste, mas há esperança de que, com a boa vontade de ambas as partes, venha a diminuir gradativamente e de que a unidade entre Oriente e Ocidente seja afinal restaurada. Os católicos do Ocidente têm pensado, com demasiada frequência, que a Igreja é apenas latina e que sua parte Ortodoxa é apenas grega: na verdade, ela é católica e universal.”
Considera-se em parte ultrapassada a visão acima em
razão de a Igreja Ortodoxa não ser mais vista por sua irmã Romana como “a
ovelha desgarrada”, ou “a cismática contumaz”, ou ainda “o ramo separado que
deve ser lançado ao fogo”, como preleccionavam os antigos catecismos e livros
de história romano-católicos. Graças ao Espírito Santo que não seja mais assim;
isto é o sinal dos tempos, de bons tempos em busca de perdão e compreensão
recíprocos, amizade, entendimento e unidade. Mas, embora conservador na prática
e mais pró-romano, tal ensinamento reconhece acima de tudo a índole histórica
da Igreja Ortodoxa (com “o” maiúsculo – institucional – e minúsculo –
correspondente de facto à verdadeira igreja), ao afirmar que ela “manteve suas
doutrinas e formas de culto originais com grande fidelidade”; e reconhece de
plano, ainda, seus sacerdotes e a validade dos sacramentos
por eles ministrados em virtude de inegável sucessão
apostólica (material e espiritual), bem como parcela de
responsabilidade da Igreja de Roma no grande cisma ao utilizar termos como
“preconceito e suspeita mútuas” e “boa vontade de ambas as partes”. Há anos
atrás, dizia-se impropriamente “O Grande Cisma Oriental”. Mas o catecismo
romano-católico dos bispos holandeses – felizmente em trecho não impugnado pelo
Vaticano – veio corrigir essa distorção da verdade histórica: “Desde aquela
época (1054), as igrejas orientais se encontram separadas da Sé de Pedro e
vice-versa”, ou seja, a Sé de Pedro também se encontra separada das igrejas
orientais.
Para finalizar, cita-se a oração pela unidade dos
cristãos aposta no actual cánon romano da Santa Missa:
“Senhor Jesus Cristo, dissestes a Vossos Apóstolos:
Eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a
fé que anima a Vossa Igreja; dai-lhe, segundo o Vosso desejo, a paz e a
unidade. Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo. Amém.”
E também a do Missal Bizantino, em sua primeira
súplica da Grande Iriniká:
“Pela paz do mundo inteiro, pela estabilidade das
Santas Igrejas de Deus e pela união de todos, oremos ao Senhor! Senhor, tende
piedade. (Kyrie Eleison)”.
Que chegue logo, enfim, o dia da tão sonhada unidade
eclesial entre as igrejas apostólicas, perfeita e completa, um desejo do
próprio Cristo!
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)