A TRADIÇÃO LITÚRGICA DO PAI-NOSSO
Ao final do período do catecumenato (período
que na Igreja primitiva se estendia por vários anos), o catecúmeno que se
prepara para o Baptismo
recebia da Igreja a "Tradição",
ou a transmissão, da Oração do Senhor, durante o transcurso da seguinte
cerimónia.
Durante a Liturgia,
depois das Litanias, e antes do Prefácio do Ofertório, o Bispo (ou o
presbítero oficiante) dirige-se às Portas Reais, enquanto o diácono se instala
na tribuna do Evangelho. Os catecúmenos (ou Eleitos) ao chamado do diácono
aproximam-se e ficam de frente para o Bispo (ou presbítero) no meio da nave.
Diácono: Catecúmenos, aproximai-vos!
Bispo (ou presbítero): Nosso Senhor e Salvador,
Jesus Cristo entre outras instruções para a salvação, deixou a seus discípulos - que lhe perguntaram como deviam orar - esta fórmula de
prece que a leitura do diácono os fará conhecer melhor.
Sem anúncio prévio, em recto tom, o
diácono
Bispo (ou presbítero): Escutai, amados meus,
escutai agora como Nosso Senhor Jesus Cristo ensina seus discípulos a orar a
Deus, Pai Todo-poderoso: "Quando orares, entra em teu quarto, fecha a
porta e ora a teu Pai que está no segredo". Esta palavra "habitação",
que Ele emprega, não designa um lugar oculto ou retirado, mas recorda que os
segredos de nosso coração são acessíveis só a Ele. Devemos adorar a Deus a "portas
fechadas", ou seja, fechando o coração com uma chave mística e falando a
Deus com a alma pura. Que pela chave da fé, nosso coração -
que é o templo de Deus, de modo que ao habitar Ele em nosso coração, nos
assista em nossas preces. O Cristo, Nosso Senhor, Verbo de Deus, nos ensinou
esta oração, para que oremos desta maneira:
Depois desta exortação, o diácono proclama, uma por uma, as fórmulas da Oração do Senhor e o Bispo (ou o presbítero) as comenta.
Diácono: "Pai nosso
que estás nos céus!"
Bispo (ou presbítero): Amados meus, eis aqui um
grito de liberdade, de esperança. Um grito de liberdade porque vossa vida se
arraiga de agora em diante no único Pai que é plenamente Pai, ou seja,
generoso, cuja geração paterna é um dom gratuito e puro. Pois Ele é o único Pai
que, não tendo pai nem mãe, não pode projectar sobre vós, seus filhos, a sombra
de uma herança mesclada de luz e trevas, de mal e bem. É o Pai luminoso e
amoroso que os liberta de todo apego fatal à cadeia de condicionamentos,
hereditários ou sociais. "Pai-nosso" é também um grito de esperança,
pois uma vida nova começa para vós, que os converteu realmente em seus filhos,
uma vida que os permitirá cumprir em plenitude vossa natureza, curar e
transformar tudo o que haveis recebido da natureza. Unidos a Ele, crede nele,
uni-vos a Ele em tudo, pois está escrito: "A todos os que crêem em seu
Nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo. 1, 12).
Diácono: "Santificado
seja o teu Nome!"
Bispo (ou presbítero): O nome designa a realidade
íntima e fecunda de um ser. O Nome de Deus Pai é Deus Filho pois, Ele só é Pai
por seu Filho a Quem dá a divindade, toda a vida divina. "Santificado seja
teu Nome": isto não quer dizer que Deus vai ficar mais santo por
nossas preces, pois Ele é sempre santo, e o único Santo. Pedimos que seu Nome
seja santificado, ou seja, que sua Presença imensa, sua Luz inacessível, sua
Majestade infinita, se manifeste, se transmita, nos transforme a nós pecadores
e transfigure a terra, assim como brilha nos céus nos exércitos inumeráveis dos
Anjos. Santificados pelo baptismo, transformados, no Nome três vezes Santo da
Trindade, perseverareis no que haveis começado a ser: filhos nomeados pelo Pai,
filhos do Pai e não órfãos, "não estrangeiros, senão concidadãos dos
santos, pois sois da Casa de Deus" (Ef. 2,
19).
Diácono: "Venha
o teu Reino!"
Bispo (ou presbítero): O Reino de Deus é a
irradiação do Espírito Santo e das Energias Divinas, é a respiração vivificante
de Deus
Diácono: "Seja
feita a tua Vontade!"
Bispo (ou presbítero): A Vontade de Deus é a
realização plena da Criação, a deificação do homem, a transfiguração do mundo.
Sua Vontade só pode se realizar com a colaboração consciente e livre de vossa
vontade humana. "Seja feita a tua Vontade" significa: que a vossa
vontade, limitada e inconstante, se una fortemente a vontade amorosa de Deus,
que cultiveis na terra a Árvore do Conhecimento e da Vida, como os santos o
fazem frutificar no Paraíso celestial ao unir-se a Deus para crear o mundo
novo. Pois o salmista canta: "O Senhor está perto dos que O invocam com
verdade, cumpre a vontade dos que nele vibram, escuta seu clamor e os
salva" (Sal. 145 18,20).
Diácono: "O Pão
nosso Substancial dá-nos hoje!"
Bispo (ou presbítero): Nosso Senhor Jesus Cristo
disse: "Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca
de Deus" (Mt. 4, 4; Dt. 8, 3). Revela-nos
qual é o alimento essencial quando diz: "Eu sou o Pão vivo que desceu
dos Céus... Vim para que tenhais vida em abundância...; Eis que estou a tua
porta e bato. Se me abres a porta, entrarei em tua casa e cearei contigo, e tu
comigo" (Jo. 6, 1; 10, 10; Ap. 3, 11-2; 20).
Por esta prece, pedis todos os dias que venha a vós o Pão da Palavra de Deus, o
Pão da Vida, ou seja, o Filho do Pai que se fez homem, o Cristo que se dá em
alimento por seu Evangelho, seu Corpo e Sangue nos Mistérios eucarísticos.
Tende fome deste alimento substancial, o alimento do mundo vindouro, que vem já
hoje para nutrir em vós a Vida eterna, a Vida de Deus.
Diácono: "Perdoa-nos
as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores!"
Bispo (ou presbítero): Por esta regra de vida,
Cristo nos oferece o caminho do progresso espiritual, graças ao sacramento do
perdão. De mil maneiras nos repete
Diácono: "E
não nos deixes cair em tentação!"
Bispo (ou presbítero): São Tiago escreve: "Que
ninguém, quando seja provado, diga: É Deus quem me prova, porque Deus, nem é
provado pelo mal, nem prova a ninguém." (1, 13). E, com certeza, a
experiência da prova, da tentação, é boa para nosso progresso e nossa
transformação, de modo que provemos nossa fidelidade e fortaleçamos nossa vida.
Pedimos, porém, atravessar a tentação como bons nadadores, sem que sejamos
submersos pelas águas da morte, nem afogados no desespero. Para isto, a oração
será uma arma poderosa, e o Cristo nos diz: "Vigiai e orai, para não
cairdes em tentação. (Mc. 14, 18) sem que
tenhamos de ser liberados do maligno, pois o Senhor diz: "Pai, não te
rogo que os retires do mundo, senão que os preserves do maligno". (Jo.
17, 15).
Diácono: "Mas
livra-nos do Mal!"
Bispo (ou presbítero): Que não entreis no fogo das
provas e das tentações, nem no Fogo mesmo do Amor Divino, que virá submeter
tudo à prova, sem que tenhais sido libertados do maligno, que deforma a
tentativa divina em tentação maligno e diabólica. Que não tenhamos que entrar
na prova sem que estejamos providos de força contra o espírito maligno, sem que
estejamos armados com a força do Nome de teu Filho, a força do Reino de teu
Espírito, a força de tua Vontade divina e amorosa, a força de teu Pão substancial,
a força do perdão fraternal, pois a Ti, Pai, pertencem o Reino, o Poder e a
Glória, agora e no mundo vindouro.
Todos: Amém!
Diácono: Estejamos atentos! Em
silêncio!
Bispo (ou presbítero): Haveis escutado, amados
irmãos, o Mistério Santíssimo da Oração do Senhor. Agora, cada dia, guardai e renovai este Mistério em vossos corações, para
que possais crescer pelo Cristo, e receber assim o amor de Deus no Espírito
Santo. O Senhor Nosso Deus tem poder de conduzi-los, a vós que caminhais e
correis na fé, até o novo nascimento, pela imersão nas águas e a infusão do
Espírito. E, convosco, nos dará alcançar a plenitude de seu Reino a nós que
temos transmitido o mistério da fé católica e, hoje, o mistério da esperança
cristã, o grande Sacramento da Oração de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vive, e
reina, e triunfa, com o Pai, no Espírito Santo, nos séculos dos séculos.
Todos: Amém!
Os catecúmenos se retiram para os
fundos da Igreja e a Liturgia prossegue.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)