TORNAR-SE MONGE
Tornar-se Monge na Sociedade Secular de Hoje
O monge
é sempre discípulo. Ele deseja tornar-se o herdeiro autêntico de um mestre, de
viver e transmitir dignamente a santidade dos seus modelos. Ele vê no mestre a tradição
viva e encarnada, e espera tornar-se o próximo elo desta tradição. Seus ombros
ardem, por assim dizer, para receber o manto daquele que o formava. Quando
monges lêem que na hora da sua morte, Santo
Antão, primeiro monge, mandou seu manto para Santo
Atanásio, todo mundo entende o que isto significa.
Os monges do século quarto, o século da explosão do
fenómeno monástico, buscavam não somente pais contemporâneos, mas pais
arquetípicos, patriarcas. Ocupados como estavam muitas horas por dia na
leitura, meditação e proclamação pública dos textos bíblicos, sentiam a
necessidade de descobrir na página sagrada os antepassados espirituais. Uma vez
chegado o tempo de Casiano (séc. 4), a escolha foi feita. O primeiro
"monge", o progenitor da raça monástica, ia ser Elias - Elias na beira do riacho Querith, alimentado pelo corvo,
Elias no cume do monte Horeb, percebendo a voz de Deus como a brisa mansa que
segue o tumulto de furacão, ventania e fogo. Junto como ele, como seu espelho
neotestamentário, os monges escolheram a São João Baptista -
não certamente, o menino das festas juninas de cachos loiros, acompanhado pelo
cordeirinho, mas aquele que vivia escondido no deserto, que abriu a boca só
para pregar a única coisa necessária: arrependimento. Misteriosamente, os
monges não falavam muito a respeito de ser discípulos de Jesus, nem viam seu
próprio rosto espiritual reflectido na fisionomia de seguidores de Jesus como São Pedro,
São Tiago e São João. Isto não quer dizer de maneira alguma que os monges
primitivos não adoravam a Jesus, não percebiam nele o princípio e o fim de
tudo. Pode até ser que evitavam esta comparação por motivos de respeito:
sabemos que a cristologia dos monges era uma cristologia chamada
"alta", isto é, que enfatiza a divindade de Jesus. Mesmo assim, esta
"paternidade mais próxima" de Elias e São João Baptista
necessariamente implica em certas consequências.
Porque Elias e São João Baptista, pelo menos como
compreendidos pelos monges egípcios, eram ascetas. Sua austeridade manifestava
a santidade do Deus inefável; suas austeridades formavam os graus da escada que
levava à experiência do Deus inacessível. A Bíblia chama os dois de
"terríveis" - título de admiração, de certo,
e não de condenação. Sua fidelidade radical ao Deus transcendente os
incendiava, e fazia com que eles queimassem a quem quer que seja que eles
tocassem. Ninguém imaginou ter uma conversa com nenhum dos dois.
Como tornar-se monge, viver como monge, vindo da
sociedade de hoje, e especificamente da sociedade ocidental actual? Esta
sociedade - aqueles que vêm desta sociedade e aspiram
ser monges - precisam de outros pais que Elias e São João Baptista. Precisam
realmente chamar Jesus de pai. Uma longa tradição patrística, iniciando-se na
própria carta aos Hebreus, pensa em Jesus como o pai de seus seguidores, e esta
tradição persiste e se manifesta até na regra monástica mais difundida, a Regra
de São Bento. Vamos considerar brevemente a paternidade de Jesus para aplicá-la
à formação monástica.
Para mim, é de grande
interesse que o brado de São João Baptista, "Convertei-vos" - foi assumido por Jesus no começo de seu ministério. Lemos
no Evangelho de Mateus que quando Jesus voltou da sua prova no deserto e ficou
sabendo da prisão de São João, iniciou a sua própria actividade de pregação,
dizendo exactamente o que São João dizia: "Convertei-vos, porque o
reino de Deus está próximo". Parece que Jesus mesmo ia tomar São João
por seu pai. Só que esta palavra de conversão, ou pelo menos, esta maneira de
abordar o tema de conversão, terminou com este primeiro anúncio. Certamente não
porque Jesus decidiu que a transformação da vida não o interessava mais.
Tranformação da vida, novidade da vida, constituía o núcleo da missão de Jesus.
Contudo, em vez de exigi-la
como São João fazia, Jesus aprendeu que ele estava em condições de comunicá-la. Comunicava-a por meio
de curas, de ensinamento (particularmente as parábolas), e sobretudo de perdão:
"Teus pecados estão perdoados".
Será que foi mais fácil para agente desse tempo de
Jesus receber a vida renovada
do que serem chamados a transformar-se?
Acho que não: acho que a nova vida doía dentro daqueles que a aceitavam, que
sentiam muitas saudades pela vida velha. Acho que finalmente Jesus não pedia
menos do que São João Baptista. Mas ele criava, gerava naqueles que o seguiam a
nova vida que ia depois pedir em prol do seu Reino. Mais ainda, ele implantava
esta vida neles da sua própria vida. Cada vez que ele curava, uma força saia
dele, e ele sentia a diminuição; cada vez que ele perdoava, assumia o pecado em
si mesmo e sentia o aumento. Quer dizer, Jesus vivia todo o seu ministério
eucaristicamente, infundindo nova vida nos outros, ou melhor, fazendo como que
a transfusão de sua vida para os outros. E assim prostitutas, homossexuais,
cobradores de impostos, leprosos e soldados chegaram a uma auto-doacção que São
João Baptista nunca poderia ter provocado neles.
Podemos afirmar, então, que Jesus antecipava durante
o seu ministério a intuição fundamental de Paulo na Carta aos Romanos: a
humanidade não se salva através das chamadas da atenção. Uma humanidade
desfigurada pelo pecado, alienada do Deus que fala nas profundezas da
consciência, só se entristece e se endurece ao ouvir mais um apelo de ser
diferente do que é - ou, em termos da teologia
paulina, de enfrentar a Lei. Somente perdão gratuito, amor abundantemente
derramado da própria fonte de amor - quer dizer,
Graça, - tem a possibilidade de restaurar o homem. Garantia não tem nenhuma - é possível que o amor divino caia às vezes, muitas vezes
até, num solo pedragoso, para morrer lá e apodrecer lá. Mesmo assim, é a única
chance.
Os Jovens de Hoje
Os jovens que vêm buscando a vida
monástica hoje em dia são pessoas admiráveis. Além de um grande idealismo
que eles quase sempre trazem para o mosteiro, chegam com uma generosidade
transbordante, um desejo de experimentar a Deus e uma esperança de viver numa
comunhão de amor fraterno. Mas também chegam carregando um jugo pesado de
sofrimento e de potencialidades ainda adormecidas ou despertadas apenas para
tornar-se frustradas novamente. Vêm com grande frequência de situações de casa
marcadas por todo tipo de abuso, negligência e fracasso. Vêm de lares pobres
que não permitem o desenvolvimento normal de suas capacidades intelectuais,
sociais, ou artísticas. Vêm de famílias onde não há livros ou instrumentos
musicais. Vêm de ambientes onde experimentavam muito e sentiam muito, mas nunca
aprendiam reflectir sobre a própria experiência e ainda menos dialogar sobre
ela. Vêm de pequenos mundos de criança onde as figuras de autoridade com as
quais viviam - o professor, o patrão - nem sempre
mostravam para eles a paciência e a bondade que faziam parte do seu cargo, que
deveriam ter feito parte do seu repertório como adultos. E por tudo isso os
jovens chegam ao mosteiro muito, muito inseguros.
Que sentido faria, portanto, de assumir o tom de um
São João Baptista com estes moços? Há um trabalho enorme a ser feito, sem
dúvida, tanto por eles quanto por aqueles que têm o privilégio de actuar como
mestre de noviços ou superior. Mas este trabalho começa muito quietamente, e
por sua natureza progride muito devagar.
A Vida da
Mente
Vamos olhar primeiro para um tema relativamente
simples: a formação intelectual do novato. Existe toda uma tradição a ser
assimilada, uma tradição riquíssima, alias: a Bíblia, os Padres
da Igreja, os padres primitivos monásticos, os padres cistercienses (século
XII), a teologia sistemática, sacramental, moral, etc. Houve um momento em que
achava que a dificuldade da assimilação baseava-se na grande sofisticação e
abrangência desta tradição. Agora sei que isto é o menos. Em certas condições - disto sou testemunha repetidas vezes -, uma pessoa com
pouca formação intelectual é totalmente capaz de entrar no mundo dos padres com
compreensão, delicadeza e sim, prazer (ser testemunha deste encontro é ao meu
ver uma das grandes alegrias da minha vida). É trágico, sim, que o ocidental
comum receba uma formação que pouco corresponde com sua inteligência inata. Mas
dá para dar uma consertada nisso no mosteiro; afinal, temos livros e temos
professores. Então, não é este o problema. O problema é que por falta da
experiência ou por experiências negativas, o livro, a aula, a biblioteca, o
professor incutem medo. O jovem não sabe que ele tem gosto de ler; ao contrário
tem provas que não. Além disso, se ele lia antes, era sempre assunto de
utilidade (ganhar o pão) ou diversão. O que fazer com uma leitura poética ou
filosófica, cujo valor reside na própria beleza ou simplesmente numa
aproximação maior da verdade?
Vemos assim que trata-se aqui de algo bastante
básico e precioso: a descoberta do intelecto. Falei sobre a experiência
exuberante do monge cair no mundo bíblico, de sonhar e depois acordar como um
personagem a mais na história da salvação, tendo como companheiros David,
Ester, Daniel, Pedro. Imaginem, portanto, o que pode significar acordar dentro
da própria mente! É uma experiência mais cartesiana do que aquela de Descartes.
Seu "Cogito, ergo sum" representava uma tentativa de estabelecer
inabalavelmente sua existência por meio de sua consciência reflexiva. Aqui, porém,
estas mesmas palavras exprimem um estalo, ao mesmo tempo de espanto e alegria.
Penso, reflicto, leio, entendo - e então sou, sou
outro e mais do que jamais imaginava.
Será que uma tal descoberta vai acontecer somente
pela leitura programada dos padres e dos teólogos? Duvido. Cabe ao formador
colocar mais ingredientes na sopa, imitar a Jesus que sempre encontrava um
vinho novo para colocar nos odres novos. No caso ao qual me estou referindo, os
odres seriam as mentes dos jovens. E o vinho novo? Um livro de poesias, um
romance histórico de Alencar, uma sonata literária de Érico Veríssimo, as
cebolas e pimentas de Machado. Inseparável desta tarefa é a de acompanhar o
jovem em sua leitura. Além de comunicar ao noviço o seu verdadeiro entusiasmo
para as obras primas da espiritualidade monástica, reler com ele os livros que
faziam a glória de sua própria juventude, sentir nova -
mente o que sentia quando viajava sentado no lombo do burro ao lado de Dom
Quixote, combatendo contra os moinhos de vento. O livro é o companheiro para a
mente, certo; mas a mente jovem tem necessidade de companheiro vivo para
compartilhar com ele o seu alvoroço. E se o mestre se questiona sobre este
procedimento de dar espaço à leitura "profana", que ele pense no
escriba sábio do Evangelho que sabia tirar de seu armazém coisas velhas e
novas. Minha experiência ensina-me que uma preocupação excessiva neste assunto
atrapalha mais do que protege. O jovem com tempo vai sentir-se atraído à beleza
da literatura mística e patrística da Igreja, e seu contacto com a literatura
nacional e universal vai formar nele uma sensitividade ao enredo,
caracterização, imagem e tema que só pode enriquecer sua lectio da Bíblia e dos
escritos dos santos padres e madres.
Tenho falado, então sobre a bem-aventurança de
conhecer o mundo de livros. Segundo Orígenes, fundador da corrente da teologia
mística cristã (século III), a suma bem-aventurança reside no conhecimento de
si mesmo. Com isto ele quer afirmar que o "self" é o sacramento
primordial de Deus que cada um de nós recebe. Simplesmente existindo, possuímos
em nós mesmos uma reflexão perfeita da Divindade, em cuja
imagem nós fomos feitos. Aquele que consegue ver o fundo em si, vê além de
si, vê o Deus
trino cuja força e sabedoria formam a base do próprio ser. De um certo
modo, cada homem e mulher tem direito de aplicar a si mesmo as palavras de
Jesus, "Quem me vê, vê o Pai".
Esta visão à qual o monge é chamado (junto
com todos os outros seres humanos) não é automática. Necessita um longo
processo paralelo ao despertar do intelecto, isto é, o despertar da
afectividade. E aí encontramos mais um desafio particularmente puxado para os
nossos jovens.
Aqueles jovens ocidentais que vêm ao mosteiro
levando nas costas o peso de seu passado sofrido não tem muito interesse em
viver o primeiro passo desta subida/descida para a descoberta da sua identidade
radical de filho de Deus. Qual é este primeiro passo "impulável"?
A apropriação da própria história de dor, fracasso e
insegurança, uma apropriação que faz se sentir à flor da pele. Sem falar em
fuga, o qual seria um termo injusto, o jovem pobre, ou subdesenvolvido de uma
ou outra maneira, ou negligenciado, olha com desejo para o mosteiro como um
lugar de felicidade. Se ele quissesse ficar mergulhado em seus problemas,
poderia ter permanecido no mundo. Ele busca a Deus, isto sim, mas ainda não
busca a cruz de Cristo. Aquele que já carrega a
cruz da sua vida não precisa a cruz de outrem.
Em pouco tempo porém dá para ver que para a pessoa
sofrida todo lugar mesmo o mosteiro é um lugar de sofrimento. De facto, para
tal pessoa, só tem duas possibilidades: consciência - a qual por
enquanto vai ser necessariamente dolorosa - e distracção: a tentativa de não
conhecer a si mesmo à medida que este conhecimento implica dor. O maior desafio
de todos, portanto, nos primeiros anos da vida monástica é deixar-se
experimentar conscientemente a carga da dor que a gente levava
inconscientemente fora. E "experimentar" no sentido mais forte da palavra:
receber de novo os socos, os traumas que a vida ia distribuindo, sentir de novo
o choque, a decepção, a culpa, o ódio que eles causavam, e reconhecer uma vez
por todas que estes acontecimentos nunca vão ser apagados do livro da vida. Por
isto, eu costumo dizer a respeito da questão de "fuga para o
mosteiro": Pode ser que cada um de nós fugiu para o mosteiro. Que seja
assim. Não importa. O importante é não fugir dentro do mosteiro, não fugir desta responsabilidade
fundamentalmente humana de sentir.
É tempo de reflectir novamente sobre o
papel do mestre, do pai, como alguém que comunica vida, em memória de Jesus.
Ele não pode simplesmente exigir do jovem vivendo este horror (realmente - este
trecho da vida monástica é um horror) de aguentar, fazer pé firme, e quaisquer
outros conselhos que constituem um afastamento afectivo do
"assaltado". Esta seria a fuga do mestre, e uma fuga imperdoável. O
mestre tem que assistir, por meses... anos, a tribulação do seu filho. Tem que
sentir algo da mesma raiva, chorar as mesmas lágrimas, sofrer a mesma
incompreensão diante das injustiças e sujeiras jogadas encima do jovem às vezes
por muitos anos. E não pode neste momento assumir a linguagem da razão para
dizer, "Mas sabe, rapaz, todo mundo passa por tais pedaços". O
problema com todos os amigos de Job é que todos tinham doutorado em filosofia.
Falavam demais. Faltava alguém que só ficava junto com Job não tentando nem
compreender nem comentar, alguém que superava seu medo de enfrentar em Job a
irracionalidade de sofrimento, alguém que sabia calar-se. No Novo Testamento
encontramos este silêncio absolutamente necessário em Jesus ao túmulo de
Lázaro, e em Maria, ao pé da cruz de Jesus. Como é que o mestre vai poder viver
isto, talvez com cinco, seis, sete jovens à uma vez? Tem que ser ele mesmo um
homem das dores. Vai precisar muito a consciência de suas próprias dores como
base de seu silêncio.
Ao mesmo tempo, o jovem não pode ficar vítima. Não
foi por isso que Deus o trouxe para o mosteiro, simplesmente para chegar a medir
o mar de sua dor. Ele tem vocação de ressuscitado, de passar por todos os
quartos da sua interioridade e finalmente dar-se com o espelho na parede onde
ele contempla-se a si mesmo como imagem de Deus. O novo mandamento de Jesus,
pelo menos o mandamento mais frequentemente enunciado por ele, é
"levanta-te". Este "levantamento" faz-se por uma
experiência muito paradoxal, mas de valor ilimitado. É uma experiência de
compreensão, de percepção espiritual tímida, através da qual o jovem começa a
conhecer-se como radicalmente fundado e seguro
Não é o mestre que comunica esta intuição, que não é
sugestão de fora, mas certeza brotando de dentro, aquela certeza que somente
Deus é capaz de produzir. Mas o mestre tem a tarefa de confirmar o que o jovem
vê passageiramente, num triz de densidade ontológica enorme. Se é possível
falar de uma certeza fraca, é isto que o jovem conhece a respeito daquilo que
viu ou ouviu no momento inesquecível de descobrir a própria identidade
Falamos sobre dois aspectos do mundo interior do
jovem monge - a apropriação de sua herança humana como
intelectual e como poeta, isto é, como alguém que pensa e alguém que sente.
Falamos, então, sobre o ser humano em sua "solidão", em sua
experiência de si mesmo. Mas sabemos que solidão representa um polo da vida
humana e que necessita para completar-se o polo da comunhão. O poeta checo
Rilke afirmou que cada um de nós tem o dever de tornar-se um universo inteiro
para depois entregar-se a um outro como dom. As constuições trapistas comunicam
esta mesma intuição quando dizem que a vivência monástica exige tanto uma
grande capacidade para solidão como para vida comunitária. E o abade geral
actual gosta de chamá-los de "cenobitas no deserto". Moramos no
deserto monástico, sim, na separação geográfica da cidade e na privacidade de
nosso coração. Mas vivemos juntos, e isto é essencial à nossa vocação monástica
e humana.
O jovem ocidental - e nisto
ele é muito parecido com seus primos, os jovens do mundo inteiro, embora com
uns toques particulares - encontra muito rapidamente dificuldades sérias neste
caminho de comunhão. É quase certo que, provindo da cultura global, ele morava
num ambiente precocemente sexualizado, e absorvia os valores desta cultura.
Aqueles que se apresentam à porta do mosteiro como vocacionados raramente falam
da experiência de uma longa e profunda amizade. Pulam, durante a entrevista, da
família de origem para o primeiro namoro. Este pulo significa mais do que um
lapso de memória. Ao contrário, deixa ver acertadamente um buraco importante em
seu desenvolvimento. Ficou roubado, muitas vezes, da experiência de um
compromisso afectivo, mas não fundamentalmente sexual, a aliança da amizade,
onde realidades como idealismo, admiração, e generosidade costumam despertar e
florescer. Desde Homero na literatura grega e a primeira monarquia no Antigo
Testamento a amizade é visualizado como um dos aspectos mais preciosos da
aventura humana, onde tranquilidade e paixão, sacrifício e realização,
diferença e identidade brincam produtivamente entre si. Sei que nos lares brasileiros
muitas destas qualidades acima mencionadas exprimem-se
num contexto familiar, e também que o namoro/noivado/casamento constitui um dos
mais férteis campos imagináveis para o amadurecimento do ser humano. Mesmo
assim, muitas vezes perde-se o momento entre lar e casamento, um momento que é
mais do que um corredor, um momento que deve representar uma graça particular
estável, uma forma vitalícia da intimidade humana.
Então, os nossos jovens entram no mosteiro. Quer
dizer, para nós mais experientes, depois de muita transformação, é um mosteiro.
Para eles, sobretudo quando entram sem esta experiência profunda de amizades
(amizades particulares e grupos de amigos), a realidade é outra.
Automaticamente, o mosteiro assume a tonalidade - a
cara - de um time ou de uma sala de aula ou de uma vizinhança ou de um
escritório/fábrica ou de um curso pre-universitário, ou simplesmente da rua.
Assim criamos todos nós o nosso mundo. Portanto, espontaneamente os jovens
pegam na pasta de atitudes e práticas conhecidas. Por exemplo:
1 - Desconfiança: O jovem vive com medo de
chamar atenção, acreditando que mais cedo mais tarde, atenção fatalmente vira
zombaria. Se ele faz muito bem, está "puxando saco"; se ele fracassa,
ele era um vaidoso, um idiota, por ter tentado aquilo que não tinha condições
de realizar. Além de abafar a sua criatividade -
melhor ficar cabisbaixo e sumir no rebanho - esta desconfiança generalizada
facilmente leva a um sentimento de hostilidade, tanto de sentir hostilidade
quanto de sentir-se hostilizado. Quando isto acontece (e ainda não vi uma
excepção), surge a tentativa de...
2 - Evasão: Tira o fôlego testemunhar com que
rapidez os jovens podem apagar-se mutualmente do livro da vida: "Ele não
presta". Perdoam uma, duas, até três vezes, e depois (estou falando
ironicamente) "criam juízo". Descobrem que este sujeito é perigoso,
agressivo, mal-educado, racista, etc. Nestas condições, pensam eles, o
comportamento mais acertado é criar uma boa distância afectiva. Você fique em
seu canto do mosteiro e eu fico no meu. Só que isto não pode dar certo. O
mosteiro é pequeno demais, os encontros constantes demais para permitir uma boa
guerra-fria. Mais uma vez a sabedoria da cidade revela-se como penosamente
inadequada no contexto monástico. Espiritualmente, a táctica de evasão
representa um contra-valor inaceitável numa sociedade de comunhão, como o
mosteiro pretende ser. E depois, é um crime sem lucro. Busco com grande empenho
colocar um espaço suficiente entre mim mesmo e aquele que eu chamo (com ênfase
significativa) "Meu irmão", mas ele continua vivendo no mosteiro e
até ocupa alguns andares na casa da minha cabeça. Paciência! Donde vem esta
tendência para desconfiança-hostilidade-evasão? Ao meu ver, em grande parte vem
de...
3 - Treinamento insuficiente das emoções: Um
fenómeno espantoso, que se manifesta hoje em dia como a norma, é a incapacidade
de processar frustrações. Os nossos antepassados aceitavam com relativa calma
que a vida é
frustrante, que todo dia vai trazer sua pitada da contradição e que o ser
humano mostra o seu estado de adulto superando as frustrações, incorporando-as
em sua experiência e assim tornando-se mais livre das circunstâncias e mais
aberto a elas. Os herdeiros de nossos antepassados (quer dizer, nós) em vez que
contemplarmos as frustrações quotidianas da vida como um elemento normal, se
não enriquecedor, consideram-nas como um insulto insuportável. Um golpe! Um
baque! Uma facada! Cito estas três exclamações que ouço todos os dias (tem
outras) para indicar uma resposta às pequenas irritações que já bem enraizou-se
em nossa cultura. Aqui no Ocidente vejo entre os jovens uma oscilação
preocupante entre ira e tristeza, como reacções a estas provocações diárias, e
frequentamente reacções desproporcionais. Parece-me que entre as duas respostas
aquela que mais predomina é a tristeza, e eu gosto de brincar com minha
comunidade que a frase que eu mais escuto é (em voz chorosa): "É
difícil". Alias, para consolá-los digo que se o ocidental é mais
susceptível ao vício de tristeza, cai mais facilmente na armadilha de soberba.
Por alguma razão, esta afirmação normalmente traz alívio.
Parece-me que ele tem que constituir um contrapeso a
estas tendências, ou melhor, fazer exorcismo destes demónios.
Não há dúvida: tal desconfiança, hostilidade, evasão, impaciência, irritação,
melancolia vão alem de ser sintomas do stress do mundo pós-moderno. Surgem de
uma experiência deturpada do próximo e do ambiente interpessoal, uma
experiência que estimula os hormónios de superficialidade, esperteza e
excessiva prudência e que impedem o florescimento de um clima de repouso e
certeza, onde gestos como o sorriso, o aperto da mão, o abraço da paz na Santa
Missa, o pedido de perdão são mini-sacramentos, isentos de uma
interpretação ambígua. São Máximo Confessor, monge e teólogo do século sétimo,
ensinava que os homens são capazes de negligência; quando manifestam
hostilidade e condenação, é um sinal seguro da actuação do Maligno.
O pai espiritual responde a estas forças malignas
por sua recusa de entrar em diálogo com elas. Na presença daqueles sentimentos
que acabei de citar, e que certamente o convidam de "entrar na onda" - convite cuja força ele mesmo sente por causa da
persistência das consequências do pecado - ele vai agir contra a mentira. A
gente pense nos manifestos de Jesus no Sermão da Montanha, de São
Francisco de Assis na oração ("Senhor, fazei de mim um instrumento de
vossa paz"), de Tolstoi e de Gandhi, e a gente vê que a "violência"
de insistir em ver a presença divina no outro, acreditar nele e perseverar em
fazer-lhe o bem é muito mais poderosa do que a nuvem de poeira criada por
nossos medos e agressividades. Tanto quando o mestre encontra-se como alvo da
desconfiança/agressão quanto ele testemunha uma situação negativa entre outros
irmãos, ele vai buscar rasgar o véu da mentira. Seu método não consiste em
desmascarar a projecção ("Você está vendo tal coisa deste jeito por causa
do negativismo você traz em si mesmo"), nem em moralizar, mas em fazer
vísivel de novo o verdadeiro rosto espiritual dos brigados.
Nisso, ele vai encontrar uma grande ajuda no uso
abundante e benevolente do humor. A maior bênção do humor é precisamente
apontar numa maneira aceitável para o exagero, a dureza, a amargura, a
autopiedade - em breve, para o venenoso numa
determinada tomada de atitude. O humor contemplativo identifica-se com o irmão
irracional ("Veja como nós dois podemos agir como loucos, quando
queremos"), e o chama de volta para a razão e a paz. O humor contemplativo
admite que o irmão irritado tem razão, pelo menos em parte, mas coloca a
pergunta: O que você - o que nós - vamos ganhar se
você continuar resmungando; o que você - o que nós -
poderíamos ganhar se você parasse de resmungar e começasse a cantar de novo com
a gente? O humor contemplativo aproveita do direito de cutucar sem magoar.
Diz-se que o que o diabo mais teme é ser ridicularizado; quando o pai
espiritual consegue mostrar a bobagem no comportamento do irmão por uma
cutucada que dá em cheio, o demónio foge e o irmão retorna a ser ele mesmo.
Assim como disse que quando trata-se da apropriação de uma história dolorosa
por parte de um noviço o mestre tem que saber chorar e calar-se, quando o
assunto é a purificação da comunidade das tendências belicosas e afastadoras, o
mestre tem que rir e fazer o outro rir. Isto já é conversão, quando a
dificuldade reside em vaidade e hiper-sensabilidade. Várias parábolas de Jesus
pretendem levar pessoas do mundo fechado deles para o reino de Deus justamente
por meio de uma gargalhada.
Alguns anos atrás, um professor de sociologia deu um
curso para os professos triennais trapistas norte-americanos. Ao ouvir a
pergunta, se haveria um factor que mais dificultava a formação monástica hoje
em dia, respondeu imediatamente, "Sem dúvida. A impossibilidade do jovem
comprometer-se". Provavelmente, esta resposta não nos surpreende, porque o
fenómeno da instabilidade é mundial em suas dimensões, mas não deve faltar de
deixar-nos assustados. Apesar da afirmação recente de um presidente de uma
faculdade "Ivy League", Yale, "Vemos agora que uma vida bem
sucedida não é uma linha recta, mas uma série fecunda de zigue-zagues",
não podemos perder a consciência que compromisso é a grande condição para comunhão,
para maturidade, para verdadeiro bem estar, e finalmente, para a manutenção do
contrato social, isto é, para a continuação da sociedade. Foi Kierkegaard que
asseverou, no título de um de seus livros, "Pureza de coração significa
desejar uma coisa só"; foi Jung que insistiu que as tarefas mais profundas
da vida só podem ser cumpridas por aqueles que permanecem fielmente num único
propósito.
O grande bloqueio surge de uma ignorância e uma
impotência. A ignorância consiste em não saber que a nossa identidade é
necessariamente social. Ninguém entra na gruta de tesouros do seu próprio ser a
não ser por uma interacção estável com uma comunidade. Identidade depende da
identificação. Aquele que borboleteia na sua vida acaba sendo apenas um punhado
de pó colorido. A impotência consiste em não poder assumir o trabalho
sacrificante de tornar-se peça viva e vivificante de um organismo
meta-individual, de morrer à uma identidade independente e ressurgir como parte
de um ou outro corpo místico (no fim das contas, qualquer família, qualquer
verdadeira comunidade é também um corpo místico). Lembra-se da citação de Rilke
- Primeiro a gente tem que crescer para ser um
universo para depois dar-se a um outro. Aqui estamos tratando deste segundo
momento, do dom mútuo dos universos. Igualmente São Bento ensina que o monge
que pretende unir-se com Deus e consigo mesmo vai chegar ao seu objectivo
somente mergulhando-se, activa e afectivamente na comunidade, suas tradições e
mais ainda, com o seu pessoal.
Isto traz à tona um desafio particular do
compromisso monástico. O que o monge deseja acima de tudo é unir-se com Deus.
Neste caso, não há ignorância nenhuma que a sua própria auto realização depende
de uma sintonia progressiva com Deus, uma "união de Espírito" com Deus,
para empregar o termo clássico. Por outro lado, a dificuldade de abrir-se à
irrupção da vida divina em sua vida é enorme, é literalmente espantosa. Uma
activa receptividade às "mexidas" de um Deus invisível, transcendente
e não sempre delicado constitui a grande aventura e o grande sofrimento da
vocação contemplativa. De facto, esta irrupção de Deus na vida da gente forma o
drama inteiro da nossa vivência. A luta para conhecimento de si mesmo, para
desenvolvimento do intelecto, para a superação das paixões nas interacções
comunitárias - todas estas realidades são reflexos da
grande iniciativa de Deus de formar uma só coisa com um pobre mortal. É a
sombra jogada por sua aproximação que põe em movimento todos estes processos.
A grande tentação do jovem monge é de dissociar os
elementos desta actividade única: o unir-se de Deus com sua criação. O jovem
quase morre de medo e de dor, sentindo os dedos de Deus nele, dedos que segundo
São João da Cruz são perfeitamente capazes de queimar e não somente acariciar.
O jovem sente que uma fresta - qual! - um abismo está
abrindo-se nele para deixar o Todo Poderoso (bom, ruim?) entrar e não sabe se
vai aguentar, tem quase certeza que não. Portanto, ele quer negar a necessidade
de viver estes dois processos simultaneamente. Para unir-se a Deus, pensa ele,
não deve ser indispensável passar por tudo isto com os irmãos. Ele vem a
perceber que a comunidade é impiedosa, que ela insiste em mantê-lo no centro da
arena, e também que em vez de suavizar o sofrimento vertical místico acrescenta
o sofrimento horizontal, através de transtornos, friezas, grosserias. Quando
damos conta da fragilidade dos jovens, vemos o tamanho de heroísmo pedido por
nossa vida simples e repetitiva. E percebemos que a perseverança na fé,
esperança e caridade é um milagre.
Se o pai espiritual pode ajudar aqui? Certamente por
meio da oração, porque o mistério fica essencialmente entre Deus e o jovem.
Rezando igualmente para si mesmo, para não forçar a liberdade do jovem (e assim
prejudicá-la permanentemente), mas ao mesmo tempo para não deixar esta
liberdade do jovem sem as dicas que ela necessita. Além disso, há duas formas
de ajuda que o pai pode prestar. Cada vez que ele percebe a mão do Senhor tocar
num de seus irmãos para prová-lo, ele deve viver seu próprio compromisso com
uma pureza e fidelidade intensificada. Se o assunto é de identificação, ele em
primeiro lugar tem que identificar-se com o provado, o purificado, em oração
assídua e em oferta de si mesmo. Ficar com ele, à medida que isto é possível,
entrar livremente em comunhão com este irmão em tudo o que este sofre, como
prece silenciosa que o irmão chegue àquela comunhão profunda com Deus e com a
comunidade que o impelia a entrar no mosteiro.
A segunda forma de ajuda é de abrir seu coração,
revelar seus segredos. Tem muita coisa hiper pessoal na vida monástica - toda a história de intimidade e dor entre Deus e a gente -
que nunca deve ser falada. (Foi São
Bernardo que gostava de repetir, "O meu segredo é meu").
A grande excepção encontra-se nestes tempos de
provação do discípulo. Nestes momentos, o mestre pode falar do mistério que
ninguém conhece, este mistério que pode exercer um poder divino por ser o mais
precioso, quase o único bem precioso que ele possui. É o vaso de bálsamo que
ele quebra e jorra sobre seu discípulo para ungi-lo em sua hora. Assim como
Jesus fez do fim do seu ministério um desvelar-se absoluto: "Agora eu
posso chamar-vos de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a
conhecer" (Jo. 15, 15).
"Primeiro foi feito não o que é espiritual, mas
o que é psíquico; o que é espiritual vem depois". Assim fala São Paulo na
sua primeira carta aos Coríntios (15, 46). Nos últimos anos fala-se muito entre
formadores sobre a necessidade de uma forte base humana como pré-requisito para
uma vocação religiosa. Onde falta a maturidade afectiva, diz-se, falta a
esperança para o desenvolvimento saudável do vocacionado. Estou totalmente
convicto da importância de tais elementos humanos no processo de crescimento e
transformação dos jovens; por isso decidi tratar os temas que consideramos
nesta palestra em vez de reflectir sobre jejum, vigílias e salmodia. Mas quando
estas condições prévias não existem, e esta privação não se refere a um ou dois
casos mas a quase todos, se não a todos, então como proceder? A gente pode
fechar a loja ("close shop"), ou a gente pode rever o projecto e
dizer com São Paulo, "Primeiro o psíquico e depois o espiritual". Mas
não o psíquico como missão cumprida antes da entrada no mosteiro; antes os dois
feitos juntos no mosteiro. Será que este representa um projecto realista?
Como vocês já perceberam, a minha posição é que tal
processo duplo é possível, mas somente quando o monge formador (o superior, o
mestre dos noviços) identifica-se mais com o modelo de formação de Jesus do que
aquele de João Baptista. Como sempre, o mistério chave é a Encarnação: a
descida alegre e amorosa ao nível do outro para estar com ele lá, e de lá, pela
força quieta da auto-doação, fazer o outro subir.
Quando São Bernardo busca a imagem certa para a Encarnação
e sua necessidade, ele a descobre na história do profeta Eliseu e o menino.
Eliseu tinha feito a bobagem de prometer um filho a um casal estéril. A senhora
não quis, não acreditou muito, talvez pressentisse dificuldades futuras. O
profeta insistiu. No ano seguinte nasceu um menino e por doze anos tudo ia bem.
Um dia o menino trabalhando com seu pai na lavoura queixou-se de enxaqueca. O
pai o levou para a casa mas o menino morreu ainda nos seus braços. Desesperada,
a mãe mandou chamar o profeta que em vez de comparecer imediatamente enviou seu
servo junto com seu cajado profético para tocar no menino. Isto não produziu
efeito algum. Agora, enfurecida, a mãe quase voa no caminho para a casa do
profeta, com o pensamento, "Este menino foi ideia sua. "Eliseu já
estava no caminho para a casa do casal. Chegando lá, ele sobe para o quarto
onde o menino jazia e fecha a porta. À sós com a criança morta, ele deita-se
encima do cadáver, suas mãos sobre as mãos dele, seus pés sobre os pés dele,
seus olhos sobre os olhos dele, sua boca sobre a boca dele, como o livro dos
reis conta em grande detalhe. "Então", como diz a Bíblia com o toque
mais caseiro imaginável, "o menino espirrou, e abriu seus olhos". E o
profeta o devolveu a sua mãe. Assim agiu Jesus com a humanidade necessitada,
diz São Bernardo, "encolhendo-se e adaptando-se à nossa pequenez".
Assim tem que agir o mestre com os jovens que Deus manda para sua comunidade.
Se não, por que chamá-lo de "pai espiritual"?
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)