COMENTÁRIO SOBRE O EVANGELHO DE SÃO JOÃO
São
Cirilo de Alexandria (+ 444)
“Eu sou o Pão da Vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e
morreram.
Eis o Pão que desceu do Céu: quem come dele não morrerá” (Jo. 6, 48)
Podemos ver claramente nestas palavras aquilo que foi predito por Isaías profeta: "Manifestei-me aos que não me buscavam, fui encontrado pelos que não me procuravam. Eu disse: 'eis aqui', a uma nação que não invocara meu nome, e estendi minhas mãos todo o dia para um povo infiel e rebelde" (Is. 65, 1-2).
Desnudando toda a palavra e como que despojando-se
de todo véu, mostra-se Jesus aos israelitas, dizendo-lhes: "eu sou o
pão da vida". Saibam, portanto, se querem imunizar-se contra a
corrupção e livrar-se da ameaçadora morte, fruto da prevaricação, que devem
aproximar-se daquele que os pode vivificar, daquele que destrói a corrupção e
vence a morte: este proceder é análogo ao que se dá na vida natural.
Em seguida, argumentando eles que o maná fora dado aos pais no deserto, disse-lhes que não receberam o pão descido realmente do céu, isto é, o Filho, e estabeleceu uma comparação entre o tipo e a verdade, a fim de reconhecerem que aquele pão não descera do céu, mas era um pão natural, como o mostra a experiência. Vossos pais e vossos maiores, diz, comendo o maná atendiam às necessidades naturais do corpo, refaziam sua vida temporal; nutrindo diariamente a carne com ele, mal escapavam à morte imediata. Demonstra-se com evidência que aquele pão não era verdadeiramente do céu pelo facto de não contribuir em nada para a incorrupção dos que o comiam. O Filho, porém é verdadeiramente o pão da vida, pois se mostram mais fortes que os grilhões da morte os que ao menos uma vez dele participaram e, participando, como que se misturaram a ele. Já anteriormente dissemos que o maná deve ser considerado uma imagem e sombra do Cristo, um simples sinal, e que de facto não é o pão da vida.
O Salmista corrobora de certo modo nossa sentença
quando exclama: "Deu-lhes o pão do céu, o homem comeu o pão dos
anjos" (Sal. 77, 25).
À primeira vista parece que esta palavra do profeta
se aplica a Israel. Mas não é assim; ela antes de tudo nos pertence. Não seria
tolo e insensato julgar que os santos anjos, que estão no céu, e possuem
natureza incorpórea, possam comer um alimento grosseiro, e necessitem, para a
conservação da vida, do que este corpo terreno exige?
Não é difícil conceber que por serem espíritos requerem um alimento espiritual e intelectual. Como pois está dito que aos antepassados dos judeus foi oferecido o pão dos anjos? Como pode o profeta proclamar isto sem mentir? Sem dúvida porque, sendo o maná tipo e figura de Cristo, que tudo sustenta e conserva no ser, alimenta os anjos e vivifica a terra, o profeta atribui à sombra o que dizia da realidade. Os ouvintes, porém, sabendo que os santos anjos não podem partilhar do alimento terreno, afastariam a rude e grosseira consideração do maná e entenderiam a profecia em seu sentido espiritual, isto é, de Cristo, pão dos santos anjos.
Aqueles que comeram o maná morreram, pois não
receberam nele nenhuma participação da vida. O maná não vivificava, sendo
apenas lenitivo para a fome do corpo e figura do verdadeiro maná vindouro.
Aqueles que se alimentam com o pão da vida obterão o prémio da imortalidade,
libertar-se-ão da corrupção e de todos os outros males e alcançarão com Cristo
a vida eterna. Não importa se devam sofrer a morte natural da carne, pois,
embora morrendo como os demais homens, vivem, diz são Paulo, e viverão sempre,
para Deus (Cf. Rm. 6, 10).
João 7, 51: "Eu sou o pão vivo descido do
céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”.
"Falar-vos estas coisas não me custa, e vos é
salutar"
(Fil. 3, 1), escreveu certa vez Paulo, iniciado,
penso, no modo de ensinar do próprio Salvador. Assim como para as feridas
profundas não basta uma única medicação, sendo necessários contínuos e
múltiplos curativos para curá-la, do mesmo modo às almas contumazes e às
inteligências obstinadas devem os mestres prestar frequente e contínua
assistência, não fazendo apenas uma primeira admoestação, mas acrescentando
outras, ainda se com repetição das mesmas palavras.
Por causa disto o Salvador, repetindo várias vezes
aos judeus o mesmo ensinamento, propunha-o de diversas maneiras, ora
enigmaticamente, envolto em obscuridades, ora inteiramente despido de
cobertura, nu e claro, para que os incrédulos não pudessem escapar à condenação
e os maus se perdessem miseravelmente, desembainhando contra si mesmos a espada
da perdição. Não querendo por conseguinte ocultar nada, Cristo repete: "Eu
sou o pão vivo descido do céu". O maná era tipo, sombra e imagem. Ouvi
agora abertamente: "Eu sou o pão vivo. Quem comer deste pão viverá
eternamente". Os que comeram o maná morreram, pois ele não era
vivificante. Mas quem come deste pão, isto é, de mim, da minha carne viverá
eternamente.
Evitemos, pois, diminuir ou endurecer nossa piedade
para com as palavras de Cristo, que nos ensina tantas vezes. Tornam-se réus de
grave pecado os que, chegando ao extremo da insensatez, embriagados por
incrível descrença, não temem insultar impudentemente o doador de tão grandes
benefícios.
Por isto diz ele aos judeus: "Se eu não
viesse e vos falasse, não teríeis pecado; agora porém não tendes desculpa para
vosso pecado" (Jo. 14, 22). Aqueles que não acolherem no coração a
palavra salvífica por não a terem ouvido, encontrarão de certo um juiz mais
manso, quando argumentarem que nada escutaram; embora devendo apresentar a
razão por que não se procuraram instruir. Mas aqueles que muitas vezes ouviram
admoestações e razões para aprender o que lhes convinha, e se deixaram enganar,
julgando estupidamente poder afastar-se do bem, serão punidos com muita
severidade, encontrando sem escusas um juiz ofendido com a própria insensatez
de sua desculpa.
Jo. 6, 52: "E o pão que eu darei é a minha
carne que entrego pela vida do mundo”.
Morro por todos para vivificar a todos por mim
mesmo; fiz da minha carne resgate da carne de todos. A morte morrerá na minha
morte, reerguendo-se comigo a natureza do homem que estava prostrada. Para isso
me conformei a vós, fiz-me homem, filho de Abraão, para em tudo me assemelhar
aos irmãos (Cf. Rm. 8, 29). Compreendendo o que
Cristo nos dissera, São Paulo diz por sua vez: "Assim como as crianças
participam do sangue e da carne, também ele, a fim de quebrar com sua morte o
poder daquele que tem o império da morte, isto é, o diabo" (Hb. 2,
14). Não haveria outro meio de derrubar aquele que tem o império da morte, e a
própria morte, se o Cristo não se entregasse por nós; um para resgate de
muitos, e um que estava acima de todos. Por causa disto no Salmo ele se oferece
por nós a Deus Pai, qual hóstia imaculada, dizendo: "Não quiseste
sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e vítimas
expiatórias não te agradaram; disse então: eis que venho. No cabeçalho do livro
está escrito de mim, decidi cumprir a tua vontade, ó meu Deus" (Sal.
39, 7-9). Como o sangue de touros e de bodes ou as cinzas de novilhas não
bastassem para expiar os pecados, nem a imolação de animais pudesse arruinar o
poder da morte, o próprio Cristo se propõe sofrer os castigos por todos. "Em
suas chagas fomos salvos" (Is. 53, 5), diz o
profeta, "ele levou nossos pecados sobre seu próprio corpo até a
cruz" (1 Pd. 2, 24). Foi crucificado por
todos e por causa de todos, para que, morrendo um sobre a cruz, todos vivessem
nele. A morte não podia dominar, nem a corrupção prevalecer, sobre aquele que
era por natureza a Vida.
Vejamos nas palavras do próprio Cristo como ele
ofereceu sua carne pela vida do mundo: "Pai santo, guarda-os"
(To. 17, 11); e ainda: "eu me santifico por eles" (Ibid. 19).
Ele diz que se santifica, não mediante uma purificação da alma ou do espírito,
tal como nos devemos santificar; nem por uma simples participação no Espírito
Santo, pois nele o Espírito estava por natureza, ele era, é, e será sempre,
santo. Diz porém que se "santifica" significando que se consagra e se
oferece como hóstia santa em odor de suavidade. Santificava-se ou, conforme a
lei, era chamado santo tudo que se oferecia sobre o altar. Por conseguinte o
Cristo deu seu próprio corpo pela vida de todos, e fez, por ele, habitar de
novo a vida em nós, de um modo que explicarei como puder. Desde que o Verbo
vivificante de Deus habitou a carne, transformou-a em seu próprio bem, isto é,
em vida, e, inteiramente unido a ela em inefável união, tornou-a vivificante
assim como ele o é por natureza. O corpo de Cristo vivifica os que dele
participam, pois expele a morte quando está nos mortais, já que em si tem a
causa extintora da corrupção.
Pode ser que alguém, considerando atentamente a
ressurreição dos mortos conclua que todos aqueles que não tiveram fé em Cristo
nem participaram dele, não irão retornar à vida no momento da ressurreição. E
então, como se pode afirmar que todas as criaturas derrubadas pela morte
retornarão à vida? Sim, reafirmamos, a humanidade toda reviverá, os mortos
serão reerguidos. Assim diz a profecia. Trata-se de um mistério que atinge toda
a humanidade por causa da ressurreição de Cristo; nossa fé ensina que nele,
primeiramente, foi destruída a corrupção de nossa natureza. Ressurgimos todos à
semelhança dele, que por nós ressuscitou, e que a todos nos contém em si, sendo
homem. Assim como no primeiro Adão nos tornamos prisioneiros da morte,
igualmente naquele que é por nós o primogénito dentre os mortos, reviveremos
todos: "os que praticaram o bem para a ressurreição da vida, e os que
praticaram o mal para a ressurreição da condenação", conforme está
escrito Jo. 5, 29; Mt. 25, 46. Receber de novo a vida somente para ser
castigado e para sofrer, é pior que permanecer na morte. Por conseguinte, a
vida de Cristo, santa, feliz e eternamente bem-aventurada, é a vida por
Excelência; além disso, o sábio João a reconhece como vida verdadeira ao dizer:
"quem crê no Filho tem a vida eterna, quem porém não crê no Filho não
verá a vida, a ira de Deus permanecerá sobre ele" (Jo. 3, 36). Reparai
bem, reparai como ele diz que quem se abandona à incredulidade não verá a vida,
embora afirmando que todas as criaturas esperam ressuscitar.
O Salvador é chamado, de pleno direito, a vida
preparada para os santos, vida gloriosa e santa, vida que há de ser seguida por
todos os que participam de sua carne vivificante. Eis algo de que ninguém
duvida.
A seguir, considerando que o Salvador muitas vezes
já se denominou pão, veja se o que foi prenunciado por esta palavra pode
contribuir para nossa instrução. Recordemos o que dizem as Sagradas Escrituras,
através das figuras do pão. No livro dos Números está escrito: “E o Senhor
falou a Moisés dizendo: Fala aos filhos de Israel e diz-lhes: - Quando
entrardes na terra para a qual vos conduzo, e comerdes o pão dessa terra,
separareis uma porção do Senhor, as primícias de vossa massa. O pão segregado
será vossa oferta, oferta pela eira; oferecê-lo-eis como primícias de vossa
massa e dá-lo-eis ao Senhor como oferta por vossa descendência" (Nm.
15, 18-21). Em enigma, pois, como que sob a espessa veste da letra, estava a
figura; de algum modo porém previa o verdadeiro pão descido do céu, o Cristo,
que dá a vida ao mundo. Repara que, feito homem, nosso semelhante, ele é como
que as primícias de nossa massa que foi segregada, e oferecida a Deus Pai.
Tendo-se tornado primogénito dentre os mortos, tornou-se também o primeiro na
ressurreição universal e, assim subiu aos céus. Foi assumido do meio de nós, da
descendência de Abraão, como diz Paulo, foi oferecido por todos e para todos, a
fim de vivificar a todos Hb. 2, 16, como primícias oferecidas a Deus Pai.
Ele, a luz verdadeira, concedeu esta mesma graça a
seus discípulos dizendo: "vós sois a luz do mundo" (Mt. 5,
14). Sendo o pão que tudo vivifica e a tudo sustenta no ser, recorreu de novo
ao simbolismo, e, na sombra da lei, figurou pelos doze pães o santo colégio dos
apóstolos. Assim fala no Levítico: "O Senhor falou a Moisés dizendo:
'Ordena que os filhos de Israel tragam para a luz óleo puro de olivas
espremidas a fim de que a lâmpada arda continuamente diante do véu no
tabernáculo do testemunho'. E ajuntou então: 'Apanharás farinha fina e farás
com ela doze pães; cada pão será de dois décimos. Tu os colocarás em duas
pilhas, seis pães sobre a mesa pura diante do Senhor. Sobre eles colocarás
incenso puro e sal, e estes pães serão a memória do que se ofereceu ao Senhor'" (Lv. 24, 1.7).
A lâmpada ardente no tabernáculo santo diante do véu, já o dissemos que é são
João, que era alimentado com óleo puríssimo, isto é, com o brilho do Espírito.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)