ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE O SENTIDO DOS ÍCONES
Ícones iluminados dia e noite podem fazer de uma
Igreja a casa onde Deus nos acolhe sempre. Não são simples decoração. As linhas
abaixo pretendem dar algumas referências àqueles que não tiveram ocasião de
conhecer a tradição oriental da oração com ícones.
Um local de oração onde se encontrem ícones e onde o
olhar seja atraído pelo ícone que representa Cristo reproduz à sua maneira o
quadro desenhado por meio de palavras pela epístola aos Hebreus: "Deste
modo, cercados como estamos de uma nuvem de testemunhas (...) os olhos fixos em
Jesus" (Heb. 12, 1-2). E um pouco adiante: "Vós
aproximaste-vos (...) da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, das
miríades de anjos, da assembleia dos primogénitos" (v. 22). A oração
em comum é uma participação na "assembleia dos primogénitos" do reino
de Deus. A beleza das cores, as candeias e os ícones orientam a nossa
imaginação facilmente distraída e dispersa para a alegria desta festa.
Uma objecção à presença dos ícones vem do mandamento
do Antigo Testamento: "Não farás para ti imagens" (Ex. 20, 4).
Este mandamento proíbe os ídolos esculpidos ou as imagens que pretendem
representar Deus. Não se refere à arte em geral, nem tão pouco à arte sacra. No
próprio coração do Templo de Jerusalém, dois "querubins" estátuas em
ouro representando seres celestes delimitavam um espaço vazio, o local
simbólico da presença de Deus que, Ele, não é representável de forma alguma
(Ex. 25, 17-22).
A imagem de Deus, que as mãos humanas não conseguem
fazer, foi o próprio Deus que a modelou ao criar o homem "à sua imagem
e semelhança" (Gn. 1, 26-27). E pela vinda
de Jesus, realiza-se a promessa contida na Criação da humanidade à imagem de
Deus. Cristo disse: "Quem me viu, viu o Pai" (Jo. 14, 9). Na humanidade, Ele é a imagem perfeita de Deus.
"O ícone é testemunha fiel de que o Verbo se
fez semelhante aos homens" (Teodoro de Stoudion, séc. IX). A confirmação
da Encarnação é a principal base da tradição dos ícones. "As imagens
pintadas estão de acordo com os relatos do Evangelho, são úteis para tornarem
mais crível a Encarnação, real e não fictícia, do Verbo de Deus" (7º Concílio
Ecuménico, em 787, em Nicéia). A ressurreição de Cristo não anula a sua
humanidade, a sua vida, a sua morte, a sua compaixão. "Vós, perante
cujos olhos foi apresentado Jesus Cristo crucificado" (Gal. 3, 1). O ícone de Cristo lembra que o Ressuscitado
conserva, para nós e para sempre, uma face humana. Não de um homem ideal e
generalizado, mas do homem concreto Jesus de Nazaré, nascido de Maria, que
chorou a morte do seu amigo Lázaro e que foi crucificado sob Pôncio Pilatos.
Nesse homem, Deus deixa-se ver.
Ao olhar para os ícones, notamos logo que eles não
são realistas. De forma diferente das ilustrações, não se interessam pelo
detalhe histórico. Isso será contrário à sua função que é a de tornar a
Encarnação mais certa? Não, pois também nesse aspecto estão de acordo com os
Evangelhos que não são biografias, mas sim testemunhos dados a Cristo: "O
Verbo fez-se homem e habitou entre nós e nós vimos a sua glória" (Jo. 1, 14). Os ícones não mostram Cristo como se fossem uma
fotografia que teria podido captar a sua personalidade. Fazem pressentir o segredo
da sua vida em Deus, que os três discípulos reconheceram na montanha da
transfiguração.
O livro do Apocalipse faz compreender o que
caracteriza os ícones. Através de "uma porta aberta no céu"
(4, 1), João viu o Ressuscitado, os santos testemunhos e todo o universo
A origem do ícone a que, em Taizé, gostamos de chamar
"o ícone da amizade" também poderia ser uma visão do Apocalipse. A
sua versão escrita é a seguinte: "Ele pôs sobre mim a sua mão direita,
dizendo-me 'não temas: Eu sou o Primeiro e o Último, O que vive; conheci a
morte, mas eis Me aqui vivo pelos séculos dos séculos" (Apc. 1,
17-18). O ícone, reproduzido nesta página, mostra esta visão. Em conjunto, a
Palavra e a imagem, fazem ver aos nossos olhos interiores o que João viu "no
Espírito" (cf. Ap. 1, 10; 4, 2).
Arranjar no quarto um cantinho para oração, com a
Bíblia, um ícone, uma candeia, e lá permanecer todos os dias durante uns
momentos, pode ajudar a aproximarmo-nos destas palavras do salmo: "Tenho
sempre o Senhor diante dos meus olhos" (16, 8)
Uma aspiração secreta:
Das profundezas da humanidade sobe uma aspiração
secreta. Presos aos ritmos anónimos dos programas e dos horários, muitos dos
nossos contemporâneos têm implicitamente o desejo de uma realidade essencial,
de uma vida interior.
Nada conduz mais à comunhão com o Deus vivo do que
uma oração em comum meditativa, com esse ponto alto da oração que é o cântico,
que se prolonga e que continua no silêncio do coração quando já nos encontramos
sozinhos. Quando o mistério de Deus se toma perceptível pela beleza simples dos
símbolos, quando ele não é sufocado por uma sobrecarga de palavras, então a
oração em comum longe de se destilar na monotonia e no tédio traz a alegria do
céu à terra.
Para numerosos cristãos ao longo dos séculos algumas
palavras retomadas uma e outra vez, até ao infinito, foram um caminho de
contemplação. Quando estas palavras se cantam talvez penetrem ainda mais até às
profundezas do ser humano.
Para celebrar uma ampla oração em comum bastam
algumas pessoas e já o coração se dilata num encontro com Cristo. E a
universalidade da comunhão pode deixar-se pressentir quando jovens se juntam,
pelo menos uma vez por semana, à oração da comunidade local que reúne todas as
gerações, das crianças às pessoas de idade.
A oração é uma força serena que trabalha o ser
humano, transformando-o, cultivando-o, não o deixando fechar os olhos face ao
mal, às guerras, a tudo o que ameaça os inocentes na terra. Da oração tiram-se
forças visando outras lutas, visando transformar a condição humana e tomar a
terra habitável.
Quem caminha seguindo a Cristo mantém-se
simultaneamente perto dos outros e perto de Deus, não separa oração e
solidariedade.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)