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SÃO BASÍLIO, O GRANDE
Uma despedida?
São Basílio nasceu em Cesareia, na Capadócia. Seus
pais eram descendentes de cristãos, que ainda experimentaram as calamidades das
perseguições. A família ficou muito apegada à fé. Mas o pai, que alcançou como
advogado uma grande reputação, entende qual é a importância de uma boa educação
intelectual. O filho mais velho recebe em Cesareia uma instrução que o prepara
para continuar os estudos superiores. Depois, viaja para Constantinopla, onde
se debruça sobre as ciências que constituem a base da carreira retórica. E
afinal completa a sua formação em Atenas, onde os professores cultivam com
fervor uma gloriosa herança.
São Basílio ocupa-se nesses anos com muitas
correntes filosóficas, com muitas disciplinas, que abrangem os terrenos mais
diversos. Sabe-se, porém, que tais matérias nem sempre foram aprofundadas. E as
diversas escolas especulativas se fundiram, em sua maior parte, numa grande
cultura, que lançara raízes em todas as camadas da sociedade.
Pode-se, porém, constatar que o inteligente aluno
conseguiu naqueles anos um bom conhecimento de inumeráveis sábios, escritores e
poetas. Gregório, o amigo dele, nos relata que o colega volta a Cesareia como
um navio completamente carregado de ciência.
Mas é significativo que Basílio tenha conservado, no
mundo turbulento da universidade, uma fé robusta. E ainda que uma carreira como
professor de eloquência pareça inicialmente fasciná-lo, a sua religiosidade
prevalece. Ele procura um outro caminho. Há o ideal ascético que, por meio de
Eustátio de Sebaste, se foi divulgando em Capadócia. O entusiasmo de Eustátio
já tinha raízes na sua família. Após a morte do pai, a irmã mais velha,
Macrina, decidiu-se a buscar, junto com a mãe, a solidão de Anisi, para
encontrar ali a felicidade de uma vida de trabalho, de oração e de
contemplação. E um dos irmãos, Gregório, nos descreve, como aquela mulher abriu
os olhos de Basílio para a realidade mais profunda da nossa vida.
É só mais tarde que Basílio informa-nos a respeito:
"É verdade", assim começa o seu relatório, "que desperdicei
muito tempo e dediquei quase toda a minha juventude ao estudo da sabedoria que
Deus julgou loucura. Mas um dia acordei como de um sono profundo, concentrei o
meu olhar na luz maravilhosa, que resplandece na verdade do Evangelho e entendi
qual é a inutilidade da sabedoria dos grandes deste mundo, que não vai ter
êxito. Então lamentei sinceramente o meu triste passado. E fiquei ansioso por
receber directrizes, que me abrissem o caminho da piedade". Irrompeu uma
nova experiência...
Basílio é empolgado pelo chamado de Deus, que
contrasta tanto com o ideal que predominava até então na sua vida. O que
significa ainda aquela vaidade, aquele orgulho, que tantas vezes perverte o
nosso interesse científico? É preciso buscar uma nova orientação. Mas onde é
que Basílio encontrará as pessoas que poderão ajudá-lo? Ele pensa nos monges.
"Li o evangelho", assim
prossegue, "e reparei, que o grande meio de alcançar a perfeição é vender
os bens, distribuir a renda com os irmãos indigentes e desprender-se completamente
dos cuidados deste mundo. E desejava encontrar algum irmão para que pudesse com
ele atravessar as águas profundas e agitadas da nossa vida".
Basílio vai, portanto, viajar. Ele visita as
regiões, onde os monges se tinham primeiramente estabelecido. "Descobri
muitos deles em Alexandria e no resto do Egipto", continua, "outros
na Palestina, Cele-Síria e Mesopotâmia". Basílio vive lá com os ascetas. E
tal experiência deixa nele uma profunda impressão. Aí se manifesta
concretamente o ideal, que vai determinar a sua escolha.
Depois da volta, Basílio está pronto para receber o baptismo.
E, em seguida, sai de Cesareia para Anisi, lugar onde ainda mora a sua família.
É na serenidade daquele ambiente que Basílio reúne em redor de si um grupo de
amigos, faz a primeira experiência de vida comunitária e começa a elaborar as
suas ideias sobre a formação ascética.
E o que sobra do interesse para o mundo, a
civilização? Da carta, na qual Basílio coloca o seu amigo, Gregório, a par da
sua nova situação, pode-se em todo o caso depreender qual é a sua opção
fundamental. Quem quer tornar-se discípulo de Cristo deve renunciar a si mesmo,
tomar a sua cruz e segui-lo. Eis o fundamento da vida religiosa. E isto exige
de nós um distanciamento do mundo. O coração deve ser purificado de todos os
obstáculos. E isso vale também da educação intelectual. "Da mesma forma
que é impossível escrever na cera sem antes ter apagado as linhas que nela estão
entalhadas", estabelece Basílio, "assim também é em vão que alguém
acredita poder abrir a sua alma para o ensino divino sem antes ter afastado
dela as ideias adoptadas pelo costume". Ter-se-ia realizado uma ruptura
fundamental com o passado?
Basílio poderia imitar o exemplo de Antão. Não eram
poucos que levavam como eremita uma vida de mortificação. E havia também os
grandes mosteiros, onde Pacômio estabeleceu uma vida comunitária. A robusta
simplicidade, a vigorosa disciplina faziam com que muitos encontrassem a
oportunidade para atingir a perfeição. Trata-se de um modelo, que Eustátio de
Sebaste tinha modificado para ser implantado na vizinhança. E o entusiasmo
radical das suas idéias não deixou de empolgar os jovens...
As maravilhas da Criação
Antes de tudo, é preciso constatar, que Basílio, conservou o amor pela natureza. Pois quando o amigo dele,
Gregório, continua adiando a sua vinda, o monge tenta aliciá-lo, pintando com
cores vivas a encantadora paisagem dos arredores do mosteiro. Em cima de uma
montanha, no meio das florestas, fica cercado por profundos barrancos. E há, de
um lado, uma belíssima cascata, que em baixo se torna torrente impetuosa.
"Para mim e todos os outros, esse espectáculo nos parece
inesquecível". Mas, há mais. O passeante percebe os cheiros agradáveis da
natureza. Ele sente o prazer da brisa leve. E os inumeráveis géneros de flores,
peixes, aves e animais terrestres deixam-no cada vez mais admirado. Eis um
ambiente, onde o homem encontra a paz.
Trata-se de uma simpatia que vai ainda ter grande
influência, na hora que Basílio começa a articular a sua concepção de vida
monástica. É um trabalho que avança lentamente. Mas, depois de uns anos ele
completa uma sólida síntese, que proporciona ao leitor a oportunidade para
descobrir qual é o posicionamento de Basílio a respeito da questão que nos
interessa.
É importante, porém, colocar em destaque, que
Basílio apresenta o seu ideal como uma opção, que não é somente um desafio para
os homens. Também as mulheres têm a capacidade para fazer a mesma escolha.
Sabe-se que a sua fraqueza externa é de pouca importância, quando se pensa na
força interior, que revigora o seu comportamento. Muitas delas já deram
exemplos heróicos. E por que os cristãos teriam de estranhar? "Pois não
houve somente homens seguindo o Senhor, quando estava no meio de nós. As
mulheres também se associaram a ele. E ambos foram chamados ao serviço do
Redentor". Trata-se de uma vocação que vale para todos.
Ora bem, qual é então o objectivo principal? Basílio
acha que consiste na busca de Deus, fonte da nossa felicidade. Trata-se, ao ver
dele, de um anseio, que fica arraigado na índole da humanidade. "Por
natureza os homens desejam o belo", acredita Basílio. "Mas
propriamente belo e amável é o bem. Consta, porém, que Deus é o bem. E visto
que todos apetecem o bem, o nosso desejo se dirige logicamente a Deus".
Esta é a sabedoria dos filósofos, que confirma a convicção dos fiéis.
Mas há, contudo, uma diferença fundamental. Pois o
Deus que inspira a fé de Basílio é o Criador do mundo. E disto se depreende,
que a nossa vida terrestre é muito mais do que um fosco espelho da realidade
eterna. Qualquer um, que olhar em torno de si, percebe logo quais são os dons
com que Deus nos regalou.
Eis o firmamento, eis os ventos, as estações, a
terra e o mar e tudo que vive neles! Trata-se de um espectáculo, que é levado à
sua perfeição pela obra que supera todas as outras. "Isto é, Deus criou o
homem à sua imagem e semelhança". Fomos os únicos a receber a faculdade de
conhecer o nosso Criador, que nos estabeleceu como governadores deste mundo.
E, apesar do pecado dos primeiros homens, Deus não
nos abandonou. Ele oferece-nos cada dia de novo a sua ajuda. E afinal fomos
restituídos ao nosso estado original, graças à generosidade de Jesus Cristo,
que tomou sobre si as nossas enfermidades. Mais ainda: "Não lhe bastou
vivificar aqueles que estavam mortos, mas teve ainda a bondade de lhes conceder
a dignidade da divinização". Toda a existência do homem é assumida numa
vida, que acaba por levá-la ao repouso de uma felicidade eterna.
O valor da Comunhão
É evidente, portanto, que o amor para com Deus nos
estimula a buscar a sua amável presença no mundo, no meio dos homens. E tal
desejo corresponde à lei que determina, no fundo, a estrutura da sociedade.
Pois para todos que tiverem bom senso, não há dúvidas de que a humanidade se
distingue pelo relacionamento pessoal dos seus membros. "Quem não sabe que
o homem é um ser manso, que procura a comunhão com os outros", diz
Basílio, "e não uma fera, que busca a solidão?" E por isso é óbvio:
as pessoas que preferem uma vida isolada colocam-se fora da realidade.
"Nada é tão peculiar à nossa natureza", continua Basílio, "como
a vida comunitária, na qual precisamos dos outros e ficamos preocupados pela
sorte de todos que pertencem ao nosso género". Mas o cristão sabe que isto
é só um primeiro passo. Ele tem de alcançar a perfeição. "Depois de termos
recebido aquelas sementes, o Senhor reclama agora os frutos adequados",
frisa Basílio. "Ele diz: Dou-vos um novo mandamento. Amai-vos uns aos
outros!" No próximo se encontra aquele Deus que destarte quer ficar perto
de nós.
Trata-se de um mandamento que vale para todos os
fiéis. Mas o monge sabe que este chamado é para ele a pedra de toque do seu
engajamento. E daí fica claro que se planeja toda a vida em função deste ideal.
Evidencia-se, porém, que isso exige, em primeiro
lugar, cabeça fria. "Pois não dá para forjar metais exercitando-se em
cerâmica". Um bom conhecimento profissional é indispensável. E essa regra
pode também ser aplicada na educação ascética.
Mas em seguida o artesão deve levar em consideração
qual é o intento da pessoa que fez a encomenda. E isso tem de novo
consequências. "Da mesma maneira que um ferreiro faz o seu trabalho, por
exemplo, a produção de um machado, pensando no homem que o encomendou e na
forma e tamanho por ele indicados, e executando-o conforme à vontade do
mandante", diz Basílio, "assim também o cristão deixa determinar
todos os seus actos pela vontade de Deus, tanto faz que sejam de grande
importância ou não". O monge não é diferente dos outros. Ele pensa no
projecto concreto, que tem de orientar a vida dos ascetas.
Eis uma visão que vai ser articulada. Mas é
significativo que Basílio não deixe de salientar a importância do fundamento
que sustenta todos os outros elementos. É preciso que se forje, antes de tudo,
uma sólida comunidade.
Um dos motivos é simplesmente a disposição, que
domina a nossa existência. "Estou convicto", coloca Basílio, "de
que a vida comunitária é para as pessoas que têm a mesma intenção, um modelo,
que é muito útil para a solução das mais diversas questões". Acerca disto,
a experiência humana não deixa dúvida nenhuma. "Ninguém é capaz de suprir
sozinho às suas necessidades corporais". Para isso precisamos dos outros.
"Pois exactamente como os pés têm algumas qualidades, mas não possuem
outras, e a sua energia, privada da ajuda dos outros membros, não é bastante
forte nem bastante durável e não é capaz de suplementar por si mesmo aquelas
deficiências", enfatiza Basílio, "assim também a vida na solidão faz
com que se torne inútil o que possuímos e inencontrável que nos falta". Pela vida comunitária criam-se óptimas condições
para atingir os nossos objectivos.
Mas não fica nisso. Os monges têm ainda um motivo mais
profundo. Pois o Deus, que criou os homens para viverem em dependência mútua,
revelou-nos em Cristo qual é o seu plano fundamental. Não é só a necessidade,
que liga as pessoas. Somos chamados a sustentar-nos uns aos outros!
Ao ver de Basílio é, portanto, claro, que a vida
eremítica não está em conformidade com a mensagem que Cristo nos deixou.
"Ela entra em conflito com o mandamento do amor". Cada um deve
entender que a imitação de Cristo não é possível para gente que atende somente
às próprias necessidades. "A quem você servirá", pergunta Basílio,
"quando mora sozinho?"
Entende-se, por isso, que a primeira comunidade de
Jerusalém tenha escolhido um outro estilo de viver. Os cristãos eram um só
coração, enquanto que não consideravam nada como sua propriedade privada, mas
partilhavam tudo com os outros. Basílio fica entusiasmado. Eis um exemplo de
fraternidade, que deve inspirar os monges. O campo está aberto. Todos podem
engajar-se com as qualidades que o Criador lhes deu.
E o que é mais conforme à nossa condição humana do
que dar graças ao Deus que preside o nosso destino? Basílio não tem dúvidas.
"A natureza e a razão demonstram que isto é necessário." Mas essa
atitude brota, no meio dos fiéis, do íntimo do coração. Por isso, a comunidade
dos monges se reúne, cada dia, para as horas da oração. Pois é destarte que se
pode manifestar a sua gratidão para com o Deus, que sustenta a nossa vida, os
nossos propósitos.
Juntos ao trabalho!
Os monges sentem-se amparados pela oração. Mas já
pudemos constatar que o compromisso da fé abrange mais. "Não é lícito
pensar", observa Basílio, "que a vida religiosa nos proporcione
pretexto para a preguiça, que fuja ao esforço". Pois a gratidão dos monges
dirige-se a um Deus, que constituiu o homem como dono da Criação. E isto
significa que somos responsáveis pelo mundo, pela humanidade. Trata-se de uma
tarefa, que exige a colaboração de todos. Temos de unir as nossas forças no
trabalho!
Sim, ficou claro que, desta maneira, favorece-se
também o próprio interesse. Mas é significativo que Basílio não insista nisso.
O nosso duro labor torna-se agora só um meio para estabelecer o reino do amor
desinteressado. E é óbvio que os monges têm de dar o exemplo. "O fim do
trabalho deve ser o serviço aos necessitados", acha Basílio, "e não a
preocupação com o próprio abastecimento." É nesses infelizes que se
encontra o Cristo mesmo! E por isso se ouve na Igreja primitiva o apelo, que
todos se dediquem ao trabalho. Pois daquele modo se cria também a oportunidade
para sustentar os pobres.
Basílio acha, portanto, que os monges têm de
aprender as mais diversas profissões. O mosteiro precisa de tecelões,
ferreiros, pedreiros, carpinteiros e sobretudo de lavradores. Até mesmo os
órfãos que são acolhidos na comunidade devem ser formados para tomar parte no
trabalho. A única restrição é que o labor não atrapalhe a piedade, a paz da
vida monástica.
É evidente, no mais, que tal engajamento ajudará a
confirmar a credibilidade do cristianismo. Não somente porque o lucro da venda
dos produtos serve também para ajudar aos pobres, mas também porque a própria
inventividade, com a qual o homem é capaz de melhorar a sua sorte, merece, ao
ver dos sábios, a admiração de todos. Aqui se vê como a nossa inteligência, a
nossa perspicácia tiram proveito das leis, que dominam a natureza. E podemos
constatar que Basílio valoriza também este aspecto. Mas o motivo é mais
fundamental. Aquelas profissões nos mostram, antes de tudo, qual é a tarefa que
o Criador nos delegou!
"Deus nos deu a ajuda das diferentes artes para
suprir às deficiências da natureza", acredita Basílio. "A
agricultura, por exemplo: porque os frutos da terra não são espontaneamente tão
numerosos, que bastem para prover as nossas necessidades. A tecelagem, porque
precisamos de vestidos, tanto para a decência quanto para proteger-nos contra o
mau tempo. O mesmo vale para a construção. E a medicina nos proporciona também
uma ajuda essencial, visto que o corpo está sujeito a vários males."
Não há dúvidas: além das outras profissões, Basílio
aprecia especialmente a arte medicinal. Ela merece um grande interesse dos
monges. É verdade, sim, que há também curandeiros. Mas ninguém pode negar que a
pesquisa dos médicos teve óptimos resultados. E isto é para o cristão um motivo
a mais para ser grato. "Pois não foi por acaso que as ervas, que se usam
para curar as diversas doenças, germinaram da terra", observa Basílio.
"Ao contrário, a vontade do Criador fez com que fossem produzidas para o
proveito dos homens". O mesmo vale, aliás, para a força natural, que há
nas raízes, nas flores, nas folhas e nos frutos. E quem se atreveria a
menosprezar tal ajuda?
Entende-se, porém, que os fiéis entregam, apesar de
tudo, a sua vida nas mãos da divina misericórdia. "Mas como cultivamos a
terra, enquanto que rezamos a Deus pela fertilidade da plantação", observa
Basílio, "assim também recorremos, quando for preciso, a um médico, sem
perdermos a confiança no Deus da nossa salvação".
Revela-se em tudo um amor carinhoso, que não vai abandonar-nos.
Uma sábia moderação
No mais, Basílio acredita que os monges devem
dedicar-se a uma vida ascética. Eles têm de tomar distância do mundo da cobiça.
É só deste modo que se pode descobrir a verdadeira riqueza da nossa vida.
Trata-se do caminho que Cristo nos mostrou. A sobriedade, o desprendimento
estão no centro do Evangelho. E isso é corroborado pela visão dos pensadores
que se debruçaram sobre as normas do comportamento humano. Pois, ao ver deles,
é preciso que o homem consiga um domínio completo de si mesmo.
Ora bem, Basílio não deixa de salientar esse
aspecto. "A perfeita temperança se encontra junto da pessoa que está acima
de qualquer paixão", assim coloca. "Ela já não percebe o estímulo da
cobiça ou não deixa, pelo menos, arrastar-se pelas emoções, enquanto que continua
lutando corajosamente contra qualquer prazer nocivo". É destarte que se
cria espaço para os verdadeiros valores da nossa existência.
Quanto às relações com os outros é, portanto,
necessário que o monge aprenda a ficar calado, a falar tranquilamente e a
temperar as suas emoções. "Se alguém estiver acostumado a estourar numa
gargalhada imoderada e desmedida", diz Basílio, "fica claro que isto
é sinal de uma intemperança, que não é capaz de dominar os instintos e não tem
condições para reprimir a leviandade do coração pela severidade da razão".
Trata-se de uma atitude, que não é civilizada.
Mas, apesar disto, Basílio tem de reconhecer que a
mensagem de Cristo desperta no monge às vezes uma grande alegria. E, portanto,
acha lícito que se expanda no rosto uma serena, recolhida satisfação. "Não
é inconveniente", assim observa, "quando se mostra, com um sorriso
educado, a alegria do coração". Afinal o monge consegue uma oportunidade
para desabafar.
E o que pensar das refeições? Basílio faz aos seus
monges de novo uma séria advertência. Ele volta à ideia de que se deve observar
a temperança. "Usamos dos alimentos simples e indispensáveis, na
quantidade que for necessária", assim acha. "Mais evitamos a
saciedade e abstemo-nos inteiramente de pratos requintados." A moderação é
uma virtude que embeleza a vida de todos os homens.
Mas há excepções! Pois também na Igreja primitiva
dividia-se tudo conforme as necessidades de cada um. E, portanto, acontece que
a fadiga do labor, a fraqueza da doença são motivos para abrandar no mosteiro
as normas da temperança. "Não é possível", observa Basílio, "que
se determine para todos a mesma hora, o mesmo modo, nem igual medida no que diz
respeito à alimentação." Só importa que se pense exclusivamente na
satisfação das necessidades verdadeiras.
Além disto, é importante reparar como Basílio toma
posição contra os monges que, ao ver dele, cultivam uma ascese exagerada.
Aquela gente se recusa, até mesmo durante uma viagem, a tomar parte numa
refeição que lhe é oferecida pelos fiéis! Trata-se de uma atitude completamente
errada. "Convém", enfatiza Basílio, "que provemos naquela
ocasião de cada prato, a fim de mostrar a todos os presentes que, para os
puros, tudo é puro, que todo dom de Deus é bom e que nada deve ser rejeitado do
que se toma com acção de graças." Quem tiver fé, entende que tudo foi
criado por causa do homem.
Eis uns aspectos notáveis, que nos revelam como
Basílio concebeu o diálogo com a civilização ambiente. Ele é um cristão que
enxerga a importância das idéias que circulam no meio do povo. E o grandioso
plano de Deus o inspira a assumir uma atitude aberta. É verdade, sim, que há
pontos de atrito. Mas a cultura dos helenos é um enriquecimento para a fé dos
ascetas.
Deparamo-nos com valores, que são acolhidos num
esboço empolgante de pequenas, sólidas e flexíveis comunidades, onde o abade
exerce, com caridade paterna, a autoridade. Sabe-se que a obediência representa
um valor fundamental. Mas é preciso que todos se aguentem, graças ao amor que
se difundiu em nossos corações. A humildade, a disponibilidade de Cristo são um
exemplo a ser imitado.
Mas era exactamente personalidade do Redentor, que
agora já desde muitos anos foi criando uma violenta discussão. A Igreja
experimentava uma crise fundamental. E também Basílio ficará envolvido...
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)