SANTIDADE E SABEDORIA NOS PAIS DA IGREJA
Com a liberdade, a Igreja recebeu a
oportunidade de se organizar, mas também passou a enfrentar um grande perigo,
maior do que a perseguição: o controle por parte do imperador e do estado
romano. Essa interferência política será sempre um perigo para a fé, ameaçada
por imperadores adulados por bispos cortesãos.
Deste modo, as próprias decisões dos concílios
sofrem rupturas de acordo com a vontade imperial. Mas, esta é a grande glória
da Igreja nos séculos IV e V: grandes pastores, doutores na fé, santos,
defenderão a doutrina sem nenhum medo, garantindo a unidade e a ortodoxia. São
conhecidos como Pais
(Padres) da Igreja, os Santos Pais.
A autoridade deles é tamanha no seio da Igreja que
seus escritos quase são colocados ao lado dos textos da Sagrada
Escritura: conservaram a verdadeira doutrina, foram santos,
foram sábios. Dividem-se em Pais latinos e Pais gregos, dependendo da língua
utilizada.
Formados nas escolas de cultura pagã, colocaram essa
sabedoria a serviço do Evangelho. Normalmente eram de famílias cristãs; a
maioria, porém, pediu o baptismo
em idade adulta. Após o exercício de uma profissão profana, formaram-se
espiritualmente com os Pais do Deserto, aliando a sabedoria à santidade de vida
e à contemplação. Retornando a suas cidades, foram ordenados sacerdotes, sendo
depois candidatos naturais ao episcopado, oferecendo à Igreja uma plêiade nunca
repetida de grandes bispos.
Como pastores zelosos, seus ensinamentos
foram ministrados através da catequese e da pregação. O povo que os escutava
também os compreendia. Não eram teólogos profissionais: eram santos teólogos.
Vale para eles a máxima da sabedoria cristã oriental: Se sabes rezar, és
teólogo; se és teólogo, sabes rezar.
Os teólogos da Corte se apressavam em justificar o
imperador de plantão. Já os Santos Pais não aceitavam que nada e ninguém se
opusesse à doutrina verdadeira e à unidade da Igreja. Em tempos favoráveis,
chamavam o imperador de “santo”: mas bastava que ele se desviasse da recta
doutrina para chamá-lo de Satanás ou anticristo.
Mesmo possuidores de vasta cultura, jamais se
afastaram do povo, vivendo junto à multidão dos pobres e humildes. Na mais pura
imitação de Cristo, são pais dos pobres. Seus sermões contra os ricos e as
riquezas são tão fortes e claros que ainda hoje causam espanto.

Os três Capadócios: Basílio de Cesaréia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa
Sobre o combativo Atanásio, patriarca de Alexandria, Gregório de Nazianzo afirmou “que estudou
apenas o necessário para não parecer ignorante”. Era um homem de Igreja, amado
pelo seu povo e odiado pelos adversários heréticos ou pelos poderosos.
Constantino disse que ele era insolente, orgulhoso, provocador de confusão.
Para salvar a unidade da Igreja, não recuava diante de nada.
Atanásio foi vítima de chantagens, calúnias, mas
soube sempre responder, conduzindo o povo a seu favor. Sua defesa da fé o fez
sofrer 20 anos de exílio em 46 anos de episcopado.
Toda a Igreja tem em grande conta três Pais conhecidos
como os Grandes Capadócios, por serem da Capadócia: os dois irmãos, Basílio de
Cesaréia e Gregório de Nissa, e Gregório de Nazianzo.
Basílio de Cesaréia, o maior dos Pais do
Oriente, esperou muito tempo para pedir o baptismo. Em busca do saber, peregrinou
de escola em escola, frequentando os mestres de Constantinopla e de Atenas.
Fundador da vida monástica oriental, teve imensa preocupação com os pobres.
Percebeu a exploração dos humildes: em anos difíceis, os impostos e os dízimos
eram cobrados com antecipação, criando verdadeiros escravos.
Suas palavras: “As exigências chegam ao cúmulo da
desumanidade. Exploras o desespero, fazes dinheiro com lágrimas, estrangulas
quem está nu, esmagas o faminto, foram ditas ao ver um pai vender um filho como
escravo para escapar da miséria!”. Um Prefeito, que não conseguia convencê-lo,
lhe disse: “Até hoje ninguém ousou falar-me com tal liberdade”. Respondeu
secamente: “Sem dúvida nunca encontraste um bispo!”.

Gregório diversas vezes fugiu, pois não queria
administração. Quando o velho bispo pai morreu, fugiu mais uma vez. Mas, sua
fama persistia e acabou levando-o à escolha como patriarca de Constantinopla,
onde adquiriu fama como o bispo da Trindade. Nas vezes em que novamente quis
fugir, o povo dizia: “Então nos deixarás sem a Trindade?”
Gregório, durante o concílio de Constantinopla
(451), não aguentou mais as discussões em que os mais jovens tagarelavam como
um bando de papagaios. Preferindo pregar a Trindade a ficar discutindo, fugiu,
fixando-se na diocese de seu pai, que administrou por algum tempo, dedicando-se
mais à vida literária e contemplativa.

Nascido em Antioquia, João Crisóstomo
(Crisóstomo = boca de ouro) nasceu para ser monge e pregador, e nunca para ser
administrador ou político.
Orador nato, conhece todos os recursos para
convencer e atrair os ouvintes, especialmente atraindo os humildes, objecto de
sua atenção. Denuncia o luxo, a riqueza, a preguiça. A fama de orador fez
chegar seu nome à capital do Império e em 397, contra sua vontade, foi
praticamente sequestrado e feito patriarca de Constantinopla. Seu primeiro acto
foi limpar do luxo o palácio episcopal. Passou a comer sozinho e não aceitava
recepções.
João continua sendo monge e, denunciando os abusos
da corte e dos bispos, se indispõe com todos, especialmente com a imperatriz
Eudóxia que, para provocá-lo, fez erguer uma imagem própria diante da
catedral...
Mas continuou a denunciar a imperatriz e na celebração
pascal foi detido e exilado em uma pequena aldeia da Arménia, onde morreu em
407, proferindo suas últimas palavras: “Glória a Deus por tudo”. É o mais amado
dos Pais orientais, sendo a liturgia ortodoxa denominada “Divina
Liturgia de São João Crisóstomo”.
Qual o assunto dos Pais Orientais
A Santíssima Trindade, a Bíblia, Maria e a
justiça social. Os Pais do Oriente eram movidos pelo desejo de contemplar a
Deus e esclarecer seu grande mistério.
Saídos do deserto, eram monges em meio ao tumulto da
cidade dos homens. O amor a Deus fê-los possuir uma imensa compaixão pelos
pobres, criando obras para socorrer os famintos e abandonados.
Para reflectir:
1. Quem foram os Pais da Igreja?
2. Qual a importância deles no contexto da Igreja de
seu tempo?
3. O que eles diriam à Igreja do terceiro milénio?
4. Quem, na Igreja de hoje, poderia ser comparado
aos primeiros Pais da Igreja?
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)