O SANTO SACRAMENTO DA EUCARISTIA

 

 

"Ele que esteve visível como nosso Redentor
agora passou para os Sacramentos"
.

(São Leão, o Grande)

 

 

Hoje em dia a Santa Eucaristia (Santa Missa) é celebrada na Igreja Oriental seguindo um de quatro diferentes ofícios: A Liturgia de São João Crisóstomo (A liturgia normal aos Domingos e dias de semana); A Liturgia de São Basílio, o Grande (usada dez vezes ao ano; externamente é muito pouco diferente da Liturgia de São João Crisóstomo, mas as orações ditas privadamente pelo Padre são muito mais longas). A Liturgia de São Tiago, o irmão do Senhor (usada uma vez no ano, no dia de São Tiago, em alguns lugares só. (Até recentemente, usada só em Jerusalém e na Ilha Grega de Zante; agora revivida em mais alguns lugares (por exemplo Igreja Patriarcal em Constantinopla; Catedral Ortodoxa em Londres; Mosteiro Russo em Jordanville, USA). A Liturgia dos Pré-Santificados (usada nas quartas e sextas feiras na Grande Quaresma, e nos três primeiros dias da Semana Santa. Não há consagração nessa Liturgia, mas a Sagrada Comunhão é dada com elementos consagrados no Domingo precedente).

A Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, embora seja uma verdadeira Igreja Ortodoxa, usa um Rito Católico Ocidental (Liturgia Latina, ou seja o Rito de São Pio V Renovado, em língua vernácula).

A crença da Igreja Católica Ortodoxa em respeito à Santa Eucaristia é tornada muito clara durante a Oração Eucarística. O Presbítero lê as palavras de Cristo na última Ceia: "Tomai e comei, isto é o meu corpo..." "Tomai e bebei, isto é o meu Sangue..." Essas palavras são sempre lidas em voz alta, para que toda congregação possa ouvir claramente. Depois da consagração dos Sagrados Dons, o Bispo, o Presbítero e o Diácono imediatamente se prostram diante dos Santos Dons, que agora foram consagrados. É evidente que o "momento da consagração" é entendido de maneira diferente entre as Igrejas Católicas Ortodoxas e a Católica Romana. De acordo com a Teologia Católica Romana, a consagração é efectuada pelas Palavras da Instituição: "Isto é meu Corpo..." "Isto é meu Sangue..." De acordo com a Teologia Católica Ortodoxa, o acto de Consagração não está completo até ao final da Epiclesis e veneração dos Santos Dons, antes deste ponto é condenada pela Igreja Católica Ortodoxa como "Artolatria" (veneração do Pão). No Rito da Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, existem duas Epiclesis, uma antes da elevação dos Sagrados Dons e outra maior após a elevação dos Sagrados Dons, mas logo após a primeira Epiclesis é Fé da Igreja, de que os Sagrados Dons estão verdadeiramente consagrados, pelo que na elevação é o Corpo e Sangue de Cristo que é elevado. A Ortodoxia, no entanto, não ensina que a Consagração é efectuada somente pela Epiclesis, nem olha para as Palavras da Instituição como acidentais e menos importantes. Ao contrário, ela olha para as Orações Eucarísticas inteiras como formando um único e indivisível todo, de maneira que as três secções mais importantes da oração — Agradecimento, Anamnesis, Epiclesis — todas formam uma parte integral do Acto Único de Consagração (Alguns escritores Ortodoxos vão além disso, e mantém que a consagração é produzida pelo processo todo da Liturgia começando com a Protesis e incluindo a Sinaxis! Tal visão, no entanto, apresenta muitas dificuldades, e tem pouco ou nenhum suporte na tradição Patrística). Mas isso logicamente significa que se tivermos que escolher um "momento de consagração," tal momento não pode ser nenhum até o Amén da Epiclesis, logo na primeira, que embora seja menor do que a segunda, não possui valor inferior. Antes do Concílio Vaticano II, da Igreja Católica Apostólica Romana, o Canón Romano segundo todas as aparências não tinha Epiclesis, mas muitos Liturgistas Católicos Ortodoxos, mais notavelmente Nicolau Cabasilas, olham o Parágrafo Supplices te como constituindo em efeito uma Epiclesis, apesar dos Católicos Romanos hoje em dia, com algumas notáveis excepções, não entenderem esse parágrafo assim.

Como as palavras da Epiclesis deixam completamente claro, a Igreja Católica Ortodoxa acredita que após a consagração o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo: Eles não são só símbolos, mas a realidade, a Presença Real de Jesus Cristo. Mas enquanto a Ortodoxia sempre insistiu na realidade da mudança, ela nunca tentou explicar o modo da mudança: A Oração Eucarística na Liturgia simplesmente usa o termo neutro metaballo, "virar" e "mudar," ou "alterar." É verdade que no século dezessete não só escritores Ortodoxos individualmente, mas Concílios Ortodoxos como o de Jerusalém em 1672, fizeram uso do termo Latino "Transubstanciação" (em Grego Metousiosis), junto com a distinção escolástica entre Substância e Acidentes (Na Filosofia Medieval é marcada uma distinção entre a substância ou essência, substância, isto é, tudo aquilo que pode ser percebido pelo sentido — tamanho, peso, forma, cor, sabor, cheiro e assim por diante). Uma substância é algo existente por si próprio (ens per se), um acidente só pode existir herdando de alguma outra coisa (ens in alio). Aplicando essa distinção para a Eucaristia, nós chegamos á Doutrina da Transubstanciação. De acordo com essa Doutrina, no momento da consagração na Santa Missa há uma mudança de substância, mas os acidentes continuam a existir como antes: as substâncias do Pão e do Vinho são mudadas para aquelas do Corpo e Sangue de Cristo, mas os acidentes do Pão e Vinho — isto é, as qualidades de calor, sabor, cheiro e assim por diante — continuam miraculosamente a existir e serem perceptíveis aos sentidos. Mas ao mesmo tempo os Padres de Jerusalém foram cuidadosos em acrescentar, que o uso desses termos não constitui uma explicação da maneira da mudança, porque isso é um Mistério e deve permanecer sempre incompreensível (sem dúvida muitos Católicos Romanos diriam o mesmo). No entanto, apesar desse repúdio, muitos Católicos Ortodoxos sentiram que Jerusalém tinha-se comprometido muito com a terminologia do Escolasticismo Latino, e é significativo que quando em 1838 a Igreja Russa publicou uma tradução dos Actos de Jerusalém, enquanto mantendo a palavra Transubstanciação, ela cuidadosamente parafraseou o resto da passagem de modo a que os termos técnicos substância e acidentes não fossem empregados (esse é um exemplo interessante do modo da Igreja ser selectiva em suas aceitações dos Decretos dos Concílios Locais).

Hoje em dia escritores Católicos Ortodoxos ainda usam o termo Transubstanciação, mas eles insistem em dois pontos: primeiro, existem muitas outras palavras que podem com igual legitimidade serem usadas para descrever a consagração, e entre todas elas, o termo Transubstanciação não goza de autoridade única ou decisiva; segundo, seu uso não compromete os teólogos com a aceitação dos conceitos filosóficos Aristotélicos. A posição geral da Ortodoxia na matéria toda é claramente sintetizada no Longer Catechism, escrito por Filaret, Metropolita de Moscovo (1782-1867?), e autorizado pela Igreja Russa em 1839:

Como devemos entender a palavra Transubstanciação? A palavra Transubstanciação não deve ser tomada para definir a maneira como o pão e o vinho são mudados para Corpo e Sangue do Senhor: Pois isso ninguém pode entender senão Deus; mas somente isso é o significado: que o pão verdadeira, real e substancialmente torna-se o verdadeiro Corpo do Senhor, e o vinho o verdadeiro Sangue do Senhor (tradução do Russo para o Inglês em R. W. Blackmore, The doctrine of the Russian Church, Londres, 1845, pg.92).

O Catecismo continua com uma citação de São João Damasceno:

"Se você perguntar como isso acontece, é suficiente para você aprender que é através do Espírito Santo... Nós não sabemos mais do que isso, que a Palavra de Deus, é verdadeira, activa e omnipotente, mas na sua maneira de operar é inexplorável". (On the Orthodox Faith, 4, 13, PG. 94, 1145A).

Em toda paróquia Católica Ortodoxa, o Santo Sacramento abençoado é normalmente reservado, na maioria dos casos em um Tabernáculo (sacrário) sobre o Santo Altar, apesar de não haver regra restrita sobre o lugar de se reservar. A Sagrada Ortodoxia, no entanto, não costuma celebrar ofícios de devoção pública diante do Santo Sacramento reservado, nem tem qualquer equivalente aos ofícios Católicos Romanos de exposição e benção, apesar de parecer não haver razão teológica (distinta de razão litúrgica) para não se fazer isso, pelo que na Igreja Católica Ortodoxa Hispânica é normal existir. O Presbítero abençoa o povo com o Santíssimo Sacramento durante o decorrer da Liturgia, e também fora dela.

A Igreja Católica Ortodoxa acredita que a Santa Eucaristia é um Santo Sacrifício; e aqui também o ensinamento básico Católico Ortodoxo é colocado claramente no texto da própria Liturgia. "Aquilo que é Teu, nós Te oferecemos por todos e por tudo!"

- Na Sagrada Eucaristia, o Santo Sacrifício oferecido é o próprio Cristo, e é o próprio Cristo que na Igreja executa o acto de oferecer: Ele é tanto o Presbítero (Sacerdote) quanto a vítima: "Pois és Tu que ofereces e é oferecido".

- A Sagrada Eucaristia é oferecida a Deus Trindade — não somente ao Pai mas também ao Espírito Santo e ao próprio Cristo (isto foi estabelecido com ênfase por um Concílio em Constantinopla em 1156). Assim se perguntarmos, o que é o Santo Sacrifício da Eucaristia? Por quem é ele oferecido? Para quem é ele oferecido? — Em todos os casos a resposta é Cristo.

- Nós oferecemos por todos e por tudo: De acordo com a Teologia Católica Ortodoxa, a Sagrada Eucaristia é um Santo Sacrifício propiciatório (em Grego, Thusia Hilastirios), oferecido quer pelos vivos quer pelos mortos.

Na Sagrada Eucaristia, então, o Santo Sacrifício que oferecemos é o Sacrifício de Cristo. Mas o que é que isso significa? Vários Teólogos sustentaram e continuam a sustentar muitas teorias diferentes sobre esse assunto. Algumas dessas teorias a Igreja rejeitou como inadequadas, mas ela nunca se comprometeu formalmente com qualquer explanação particular de Sacrifício Eucarístico. Nicolau Cabasilas resumiu a posição padrão da Ortodoxa como se segue: Primeiro, o sacrifício não é uma mera figura ou símbolo mas um sacrifício verdadeiro; segundo, não é o Pão que é sacrificado, mas o próprio Corpo de Cristo; terceiro, o Cordeiro de Deus foi sacrificado só uma vez, para todo o tempo... O sacrifício na Eucaristia consiste, não na real e sanguinolenta imolação do Cordeiro, mas na transformação do Pão no Cordeiro Sacrificado! (Commentary on the Divine Liturgy, 32).

A Sagrada Eucaristia não é uma simples comemoração nem uma representação imaginária do Santo Sacrifício de Cristo, mas é o próprio e verdadeiro Santo Sacrifício; no entanto de outro lado, não é um novo sacrifício, nem a repetição do Sacrifício no Calvário, porque o Cordeiro foi sacrificado "somente uma vez, por todo o tempo." Os eventos no Sacrifício de Cristo — A encarnação, a Crucificação, a Ressurreição, a Ascensão (note-se que o Sacrifício de Cristo inclui muitas coisas além de sua morte: Este é um ponto muito importante no ensinamento Católico Ortodoxo e Patrístico) — Não são repetidos na Sagrada Eucaristia, mas ele é tornado presente. "Durante a Liturgia, através de seu divino Poder, nós somos projectados para onde a eternidade corta o tempo, e nesse ponto nós nos tornamos verdadeiros contemporâneos com os eventos que nós comemoramos" (P. Evdokmov, L’Orthodoxie, pg. 241). "Todas as Santas Ceias da Igreja (Santas Missas) não são nada mais que a única e eterna Ceia, aquela de Cristo no Salão Superior. O mesmo acto divino acontece tanto num momento específico da história quanto é oferecido sempre no Santo Sacramento" (ibid pg. 208).

Na Igreja Católica Ortodoxa Hispânica como na Igreja Ortodoxa os leigos como o clero recebem a sagrada comunhão ‘sob as duas espécies’. A Sagrada Comunhão é dada na nossa jurisdição numa partícula (uma hóstia como é usada na Igreja Católica Romana) do Sagrado Pão que é embebida na porção do Sagrado Vinho e é recebida em pé ou de joelhos. A Ortodoxia insiste num jejum estrito antes da Sagrada Comunhão, e nada pode ser bebido ou comido após o acordar na manhã ("Vós sabeis que aquele que convida o Imperador para sua casa, primeiro limpa a sua casa. Assim se vós desejais trazer Deus para vosso lar corporal para a Iluminação de vossas vidas, primeiro santificar vossos corpos pelo jejum" (do Cem Capítulos de Gennadius). Porém, na nossa jurisdição esse jejum resume-se a uma hora antes da recepção da Sagrada Comunhão. Em casos de doença ou necessidade genuína, o Presbítero pode conceder dispensa desse jejum pré-comunhão. Muitos Ortodoxos nos dias presentes recebem a Sagrada Comunhão com pouca frequência, talvez só cinco ou seis vezes no ano, não por qualquer desrespeito ao Santo Sacramento, mas sim porque esse foi o jeito em que foram criados. Mas nos anos recentes algumas Paróquias na Grécia e na Diáspora Russa restauraram a antiga prática de Sagrada Comunhão semanal, e parece que Sagrada Comunhão também se está tornando mais frequente atrás da Cortina de Ferro.

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009

 

 

 

 

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