A RAIZ DO CISMA: UM PENSAMENTO MUNDANO DA
IGREJA
“De
todas as discordâncias entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente, a que pode
ser compreendida mais facilmente
é por que e como
a Igreja do Ocidente baseou sua esperança na sua força mundana”
Bartolomeu
I, Patriarca Ecuménico de Constantinopla, surpreendeu na sua visita a Cuba,
para a inauguração da Catedral Ortodoxa de São Nicolau (construída em Havana
com o aval de Fidel Castro.
No
ano em que se completam 950 anos do episódio que, segundo a reconstrução dos
historiadores, serviu de catalisador para o grande Cisma do
Oriente: em 15 de Julho de 1054, o legado papal Humberto de Silvacândida
jogou sobre o Altar de Santa Sofia, em Bizâncio, o libelo de excomunhão contra
o então Patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, recebendo
em troca um anátema igual contra si. Também já se passaram oitocentos anos
desde a quarta cruzada, de 1204, quando as milícias cristãs do Ocidente, tendo
partido para libertar os Lugares Santos, preferiram mudar de destino e desviaram
seu percurso para saquear Bizâncio, e depois decorar com o ouro e o mármore do
saque as igrejas de Veneza. Depois dessa terrível "troca de socos",
todo o segundo milénio cristão foi marcado pela divisão entre a Igreja do
Ocidente e a do Oriente. Mas acaba de ocorrer também o quadragésimo aniversário
de um evento totalmente diferente: o
abraço entre Atenágoras e São Paulo VI em Jerusalém, em 5 de Janeiro de 1964,
que fez com que alguns pensassem que o sulco de inimizade entre irmãos não
estivesse, afinal, destinado a cristalizar-se de maneira irreversível até o fim
da história.
Num
passado recente, no dia seguinte às celebrações da festa de Santo André, o seu
264º Sucessor, recebeu os enviados de 30 Dias
na Sede do Patriarcado, diante do Corno de Ouro, numa Istambul ainda agitada
pelos violentos atentados de Novembro. Naquela ocasião, foram feitas ao
Patriarca algumas perguntas com o objectivo de percorrer sinteticamente os
factos e as razões de fundo que alimentaram a divisão da única Igreja de Cristo
ao longo do segundo milénio cristão.
Nas respostas que seguem, o Patriarca Bartolomeu I,
ao mesmo tempo em que fala de coisas que aconteceram há centenas de anos,
sugere perspectivas extremamente actuais sobre a condição presente da fé e da
Igreja no mundo. É o que faz quando identifica, como razão de fundo da divisão,
a primeira manifestação de um pensamento mundano na Igreja.
Santidade,
passaram-se 950 anos desde o cisma de 1054, que os livros de história
apresentam como o momento de ruptura entre a Igreja do Oriente e a do Ocidente.
Depois de tanto tempo, à luz de tudo o que aconteceu em seguida e da situação
actual, que juízo histórico e teológico pode ser dado sobre aquele episódio?
Bartolomeu I:
De
facto, trata-se de um episódio, ou seja, de um facto que em si mesmo tem pouca
importância, não porque o cisma não tenha sido causa de coisas extremamente
pesadas, mas porque o episódio da manifestação oficial do cisma não é essencial
para a história e para a teologia. O essencial, no que diz respeito a elas, é a
mentalidade e o espírito que dominaram o Ocidente e que, como tais, pouco a
pouco esticaram tanto a corda que mantinha unidos eclesialmente o Ocidente e o
Oriente, que no final essa corda arrebentou.
A
manifestação oficial do cisma, se não tivesse acontecido em 1054 nas
circunstâncias em que aconteceu, sem dúvida teria acontecido mais tarde em
outras circunstâncias, pois um outro espírito havia se infiltrado no Ocidente,
diferente do que se conservava no Oriente.
Portanto, para quem conhece as leis espirituais, o
cisma foi consequência inevitável de um processo, cuja raiz deve ser buscada
nas primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja. Dado que esse
pensamento não foi logo rejeitado como anticristão, era inevitável que dele
derivasse um espírito diferente do espírito da primitiva Igreja unida,
chegando, assim, até as consequências do cisma.
No ano de 1054 apenas apareceram oficialmente, com
uma evidência maior, alguns dos desvios que, de facto, já podiam ser
encontrados e já haviam amadurecido anteriormente, os quais revelavam que as
Igrejas do Oriente e do Ocidente não estavam de acordo em relação a muitas
coisas substanciais, entre as quais algumas de natureza dogmática, como o
Filioque e o Primado
papal de jurisdição universal, e outras de natureza canónica, como o
celibato dos sacerdotes.
De todas essas discordâncias, a que pode ser
compreendida mais facilmente é por que e como a Igreja do Ocidente baseou sua
esperança na sua força mundana. Talvez o facto de que quase todas as sociedades
modernas ocidentais baseiam sua esperança no homem e em suas conquistas, na
riqueza, na ciência, no poder militar, na tecnologia e em coisas semelhantes
impeça que se compreenda o homem ortodoxo, o qual, sem menosprezar ou rejeitar
completamente tudo isso, põe sua esperança principalmente em Deus.
A Igreja deve apoiar a sua força na sua fraqueza
humana, na loucura da Cruz (escândalo para os Judeus, loucura para os Gregos),
e a sua esperança na ressurreição de Cristo. Privada de todo poder mundano,
perseguida e entregue cotidianamente à morte, a Igreja faz com que surjam
santos, que guardam a graça de Deus em vasos de argila, que vivem dentro da luz
da Transfiguração e são conduzidos por Deus ao martírio e ao sacrifício, e não
à instauração violenta de um suposto Estado de Deus no mundo. Seus santos não
são simplesmente operadores sociais ou filantropos ou taumaturgos. Eles põem a
pessoa humana em comunhão com a pessoa de Cristo, conduzem à Divindade incriada
o homem criado, provocam no homem não uma simples melhoria ou aperfeiçoamento
moral, mas uma mudança ontológica da sua natureza. Por isso, a esperança da
Igreja Ortodoxa não se encontra neste mundo.
Historiadores católicos observam que já
ao longo do primeiro milénio se verificavam tensões entre a Igreja do Oriente e
a do Ocidente, sobretudo no que diz respeito à função do Papa. Nesse sentido,
parece não ser adequado descrever o primeiro milénio como uma espécie de época
de ouro. O senhor partilha dessa avaliação?
Bartolomeu I:
O mundo, no qual a Igreja vive na sua condição
histórica, é um ginásio de esportes, não um lugar de repouso. Durante o
primeiro milénio, a Igreja enfrentou centenas de heresias e desvios ou quedas
de todos os tipos cometidos por grupos de fiéis. Portanto, ninguém que conhece
os factos pode definir o primeiro milénio da Igreja como sua época de ouro, nem
dizer que as relações entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente durante o
primeiro milénio deixaram de ter suas nuvens.
Apesar de tudo isso, durante o primeiro milénio
conservava-se entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente o vínculo da paz e a
unidade da fé, ao menos nas questões basilares, pois os desvios, mesmo tendo-se
manifestado precocemente, não eram ainda considerados irremediáveis. O diálogo
era activo, mantinha-se o senso de unidade e a comunhão era confirmada no Corpo
e no Sangue de Cristo, ou seja, nos Sacramentos,
ao mesmo tempo em que se empregava todo o esforço para que os desvios
desaparecessem.
Infelizmente, esses propósitos não tiveram sucesso
e, no final, prevaleceu o movimento contrário, ou seja, o da exasperação das
diferenças e do cisma, como dissemos antes. Como consequência, o primeiro
milénio, se de um lado não foi uma época de ouro para as relações entre Oriente
e Ocidente, foi de certa forma uma época de comunhão espiritual, e isso é muito
importante.
Segundo o Cardeal Kasper, as
excomunhões recíprocas entre o Patriarca Cerulário e o legado papal Humberto de
Silvacândida não foram um cisma entre duas Igrejas, mas uma excomunhão
"entre dois velhos e teimosos homens de Igreja, ambos os quais cometeram
erros, tendo suas acções consequências que foram além das polémicas da própria
época". O senhor concorda?
Bartolomeu I:
Não
exactamente. Já explicamos que os anátemas de 1054 eram um episódio de pequena
importância em si mesmo, mas eram o resultado de um longo processo, a ruptura
de uma inflamação purulenta que existia havia muito tempo. As pessoas e o
carácter desses dois homens seguramente desempenharam seu papel, mas não foram
esses os factores que determinaram o curso tomado pela história da Igreja. As
forças que determinaram esse curso eram mais profundas, mais amplas, mais
espirituais e mais eficazes. Diziam respeito a povos inteiros e mentalidades,
não a indivíduos, ainda que estes fossem influentes na hierarquia civil ou
eclesiástica. De qualquer forma, não diziam respeito às suas reacções isoladas
e imprevisíveis. Se os cristãos do Oriente e do Ocidente já não estivessem
espiritualmente distantes uns dos outros, os actos de Cerulário e Humberto
teriam sido revogados por seus sucessores imediatos. O facto de se manterem em
vigor por um milénio testemunha que o espírito comum que prevalecia aprovou o
cisma como expressão da diversificação espiritual que existia.
Por outro lado, esse sentimento de diversificação
espiritual entre o Oriente e o Ocidente ou, em outras palavras, entre o mundo
romano-católico e protestante, de um lado (visto que esses dois mundos sentem
um parentesco mais profundo entre eles, apesar das suas discórdias), e o
ortodoxo, do outro, é também reconhecido e proclamado pelos maiores
intelectuais da época moderna.
O teólogo dominicano Padre Frei Yves
Congar, OP, notava que mesmo depois de 1054 e até o Concílio de Florença, de
1431, os factos de comunhão foram tantos que não se podia falar de uma ruptura
total. O que foi que tornou "provisoriamente definitiva" a separação
nos séculos seguintes?
Bartolomeu I:
Uma
ruptura espiritual que envolve milhões de fiéis e continentes inteiros não
acontece de um instante para o outro, e nem uniformemente. A doença e a ruína
que provém dela não atacam simultaneamente todas as células. É bem
compreensível, portanto, que se tenham conservado localmente e simultaneamente
elementos de comunhão. Mas isso não muda a situação geral, que, infelizmente,
foi piorando cada vez mais.
Em 1204, Constantinopla foi saqueada de um modo
inumano e bárbaro, como se fosse uma cidade de infiéis e não de pessoas da
mesma fé cristã. Instalou-se nela e em muitas outras cidades uma hierarquia
eclesiástica latina, como se a ortodoxa não fosse cristã. Foi proclamado que
fora da Igreja Papal (Romana) não existe salvação, o que significa que a Igreja
Ortodoxa não salva. Foi inaugurado e posto em prática sistematicamente um
imponente esforço de latinização da Igreja Ortodoxa do Oriente, segundo uma
matriz francesa.
Esse comportamento duro alargou o abismo psicológico
entre o Oriente e o Ocidente, resultando na situação actual, na qual muitas das
Igrejas Ortodoxas, em coro ou na sua maioria, contestam a sinceridade das
intenções unionistas da Igreja romano-católica diante da ortodoxa, e desconfiam
da esperança de que se chegue a um resultado unionista por meio do diálogo.
Consideram essa tentativa um método para engolir os ortodoxos e submetê-los ao
Papa. Nós, pessoalmente, consideramos o diálogo sempre útil e esperamos os
frutos que ele pode dar, mesmo que amadureçam lentamente. Para além das
tentativas humanas da boa vontade, nós contamos com a iluminação do Espírito
Santo, com a graça divina, que sempre cura as doenças e supre as coisas que
faltam.
Humberto de Silvacândida era um
representante dos inovadores que deram início à reforma gregoriana na Igreja do
Ocidente. Por que esse movimento levou a um distanciamento e a uma ruptura
entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente?
Bartolomeu I:
A reforma gregoriana provocou reacções na Igreja
Ortodoxa e em seu rebanho em razão do espírito do qual brotava a maneira como
essa reforma se realizava (espírito de autoritarismo, de poder e de acções unilaterais
que destruíam tradições). As reacções eram contra o domínio espiritual, contra
a escravidão espiritual, contra o autoritarismo espiritual. Poderíamos dizer,
de um modo geral, que as reacções derivavam do senso de liberdade da pessoa,
que é familiar à civilização ortodoxa oriental.
Aos olhos dos ortodoxos, a partir da
reforma gregoriana o desdobramento histórico do poder papal se distancia do
mandato entregue pelo próprio Cristo a Pedro e aos outros apóstolos. Quais são,
na sua opinião, os elementos mais vistosos e substanciais desse processo?
Bartolomeu I:
Pelo que já dissemos fica evidente, assim
acreditamos, que o espírito de Cristo, manifestado nas suas palavras "não
vim para ser servido, mas para servir" e, sobretudo, no "dar Sua alma
em resgate por muitos", que deve inspirar também os Seus apóstolos, não é
expresso, segundo a percepção ortodoxa, por um poder eclesiástico centralizado.
Segundo a percepção ortodoxa, está errada a teoria
do poder de Pedro sobre os apóstolos, pois Pedro,
por um lado, era corifeu, mas, por outro, era um dos apóstolos, igualmente
apóstolo, como todos os outros. A superioridade de Pedro perante os outros
apóstolos é posta em evidência para justificar um primado de poder.
Além disso, os ortodoxos desconfiam com razão também
de todas as outras pretensões papais, como a infalibilidade
e os novos dogmas papais, pois, nessas pretensões, vêem um desvio da fé
primitiva, da eclesiologia da Igreja primitiva.
Mas os efeitos negativos do cisma não existiram apenas para a
Igreja do Ocidente. Os estudiosos católicos sublinham que, depois da separação,
aumentou a fragilidade das Igrejas do Oriente e sua submissão estrutural aos
poderes civis. O senhor concorda com alguma parte desse juízo?
Bartolomeu I:
Não,
não partilhamos dessa opinião. As Igrejas Ortodoxas do Oriente nunca buscaram o
poder mundano e nunca apoiaram sua existência e sua vida nele. Elas lembram
sempre o que Deus disse a Paulo: "Basta-te a minha graça, pois é na
fraqueza que a força manifesta todo o seu poder" (2 Cor. 12, 9). Lembram,
além disso, o que Cristo disse a Pilatos: Ele não pediu a ajuda de doze
exércitos de anjos para que o arrancassem de suas mãos.
Além do mais, apesar dos esforços que algumas vezes
são feitos para absorver as Igrejas no organismo estatal, além também da
tendência a concepções nacionalistas que às vezes se manifesta, as Igrejas
Ortodoxas denunciaram o etnofiletismo [a justificação teológica das ideologias
nacionalistas, ndr.] como heresia e conservaram o seu
senso de unidade espiritual, malgrado a autocefalia administrativa que existe
em muitas delas.
Depois de séculos de estranhamento
recíproco, São Paulo VI e Atenágoras, no final do Concílio Vaticano II,
desejaram "apagar da memória da Igreja" as excomunhões de 1054 por
meio da declaração
comum de Dezembro de 1965. Que lembranças o senhor tem daquele gesto e
daqueles momentos?
Bartolomeu I:
Foi um momento excepcionalmente comovente, que
reanimou as esperanças por um progresso rumo à unidade. Infelizmente, essas
esperanças não se realizaram até hoje, mesmo havendo a possibilidade de
realizá-las, mas nós não cessamos de esperar, ainda que, como dissemos antes,
conheçamos as dificuldades. Por meio de uma carta que dirigimos nestes dias a
Sua Santidade, o Papa São
João Paulo II, saudamos como um grande evento histórico o aniversário do
encontro dos nossos predecessores em Jerusalém, o Patriarca Atenágoras e o Papa
São Paulo VI.
Atenágoras definiu aquele gesto
"garantia de acontecimentos futuros". Naquele momento, muitos tiveram
a impressão de que a Igreja Católica e a Ortodoxa voltariam a se reconhecer
como uma única Igreja, até mesmo na Comunhão Sacramental. Em comparação com
aquela fase, que impressão lhe dão as últimas décadas de diálogo ecuménico?
Bartolomeu I:
Foram
muito pobres em resultados relevantes, mas fecundas no profundo trabalho íntimo
das consciências. Estamos longe da época de Atenágoras, pois estamos longe do
seu espírito impetuoso e visionário. Infelizmente, os fatos testemunham que o
passado determina o futuro em muitas coisas, da mesma forma como o projéctil
que sai do cano do fuzil segue inevitavelmente o seu caminho prefixado.
Precisamos de muito empenho e de uma conversão mais profunda, para fazer uma
reviravolta no caminho do mundo e, em particular, no caminho do cisma.
Eu gostaria de terminar com algumas
perguntas sobre o mundo actual. Diante das guerras, dos atentados, da dor em
que o mundo está envolvido constantemente, como é que a fé ortodoxa olha para
tudo isso? Com quais critérios ela julga os acontecimentos?
Bartolomeu I:
A
Igreja Ortodoxa vê o mal dos nossos tempos como manifestação do mal
Alguns continuam a falar de conflito de
civilizações e de demonização do Islão. O que lhes ensina a sua convivência
milenar com pessoas de religião muçulmana?
Bartolomeu I:
A
demonização pode atingir a qualquer homem, independentemente da religião a que
pertence. O próprio Evangelho diz que vem a hora em que aqueles que matarem os
fiéis acreditarão estar oferecendo culto a Deus. Temos exemplos conhecidos na
história de cristãos endemoninhados, que cometeram crimes terríveis em nome de
Cristo. Como consequência, não é o Islão em si que deve ser demonizado, mas
suas interpretações fanáticas, como acontece exactamente também com muitas
opiniões fanáticas de alguns cristãos ou de seguidores de outras religiões.
Pelo que diz respeito às civilizações, elas, nas
sociedades abertas, como as do mundo moderno, encontram-se em constante diálogo
entre si e exercem pressões que visam o equilíbrio. Os conflitos não são
inevitáveis, quando os homens estão abertos ao diálogo cultural. Só homens que
recusam o diálogo ou têm medo dele usam o conflito para impor visões religiosas
ou culturais. O próprio Alcorão, invocado pelos fanáticos, proclama que a
religião não se impõe.
A Turquia, governada por um partido
islâmico moderado, também foi atingida pelo terrorismo, depois que tantos na
Europa, até mesmo entre os eclesiásticos, se opuseram a sua admissão à União
Europeia. Qual é a sua opinião sobre esses factos?
Bartolomeu I:
Acreditamos
que seja conveniente tanto para a Turquia quanto para a Europa a perspectiva
europeia da Turquia, como de facto declaramos repetidas vezes. Seguramente, é
necessário que a Turquia compartilhe os parâmetros a que a Europa chegou no que
diz respeito aos direitos humanos, à liberdade religiosa e a outras liberdades,
às leis comunitárias para o meio ambiente, para o comércio, etc., e é reconfortante
o facto de que tenhamos dado passos importantes nessa direcção. Naturalmente,
devem ser feitas muitas reformas legislativas, administrativas e sociais,
algumas das quais já começaram, enquanto outras ainda acontecerão.
Esta é também a resposta àqueles que se opõem à
entrada da Turquia na União Europeia. Visto que sua entrada não é automática,
mas controlada, ela só se realizará quando foram cumpridos os pressupostos
estabelecidos pela União Europeia. Se esses pressupostos forem cumpridos, a diferença
religiosa da Turquia em relação à maioria dos Estados europeus de base cristã
não pode ser motivo suficiente para justificar a oposição à sua entrada por
parte da Europa tolerante e laica, que já hospeda em seu seio milhões de
muçulmanos.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)