PROJECTO DE CARTA ECUMÉNICA
PARA A COOPERAÇÃO DAS IGREJAS NA EUROPA
"Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito
Santo."
Damos graças ao nosso Deus, Trino e Uno, que guia os
nossos passos, pelo Seu Espírito
Santo, para uma comunhão cada vez mais profunda. Escutando juntos a Palavra
de Deus nas Santas
Escrituras, confessando a nossa fé comum na adoração e buscando em conjunto
a verdade de Deus, queremos testemunhar o amor e a esperança que a todos são
dados. Tendo isto em atenção, esforçamo-nos por alcançar uma mais completa e
clara unidade da Igreja de Jesus Cristo neste mundo. Estamos conscientes que só
através da nossa própria profunda conversão podemos alcançar a unidade que a
acção de Deus nos quer oferecer no meio das diferenças no desenvolvimento e
expressão da nossa fé.
Sabemos que o escândalo da divisão entre nós impede
a credibilidade do nosso testemunho. Isto também significa que reconhecemos a
nossa responsabilidade pelas divisões dos cristãos, e procuramos apagar as
sombras que têm enegrecido a face da Igreja de Jesus Cristo e causado incompreensões
e ofensas no mundo. Não existe alternativa à reconciliação e ao ecumenismo.
Por isso, comprometemo-nos, como igrejas membros da
Conferência das Igrejas Europeias e das Conferências Episcopais Católicas da
Europa, no espírito dás Mensagens das duas Assembleias Ecuménicas Europeias de
Basileia, em 1989, e Graz, em
"...para que todos sejam um só, como Tu, Pai,
estás em mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós, e o mundo creia
que Tu me enviaste." (João 17, 21).
1. Somos chamados a seguir Cristo na
unidade da fé, amar a Deus e ao próximo e à esperança da perfeição
Comprometemo-nos a:
Anunciar e testemunhar a acção salvadora de Cristo,
particularmente o mistério da Sua morte e ressurreição, como esperança para
todas as pessoas e para o mundo todo.
Ouvir juntos a Palavra de Deus, no serviço do
Evangelho e na oração por e com os outros, pelo poder do Espírito Santo, a
tornar visível a unidade da única fé e do único baptismo,
expressado na adoração e na vida partilhada em Cristo.
II. No caminho para a comunhão visível entre as
Igrejas na Europa
"Por isto é que todos conhecerão que sois meus
discípulos: se vos amardes uns aos outros." (João 13, 35)
1. O ecumenismo na Europa começa, para os cristãos,
com a renovação dos nossos corações e a disponibilidade para o arrependimento e
a conversão. A história das igrejas cristãs está cheia de divisões, inimizades
e mesmo conflitos armados. Por causa das diferenças sobre questões de fé, mas
também devido às fraquezas e pecados humanos, a comunhão da única Igreja de
Jesus Cristo tem sido quebrada. Para além disto, estas divisões, espalharam-se
por todo o mundo. Contudo, a falta de credibilidade que isto tem causado no
testemunho cristão tem sido diminuída neste século pelo movimento ecuménico e
dado lugar ao caminho da reconciliação entre os cristãos.
Comprometemo-nos a:
Humildemente, no espírito do Evangelho e do amor de
Deus, reavaliar a história das culpas das nossas igrejas e a pedirmos perdão
uns aos outros;
Eliminar a auto-suficiência e suprimir os
preconceitos;
Reconhecer as riquezas espirituais das diferentes
tradições cristãs, aprendendo uns dos outros e assim receber essas riquezas;
Procurar encontros com o outro, estar disponível
para os outros e trabalhar em conjunto sempre que possível;
Promover a aprendizagem ecuménica na educação cristã
e na instrução teológica inicial e contínua.
1. O movimento ecuménico vive porque ouvimos a
Palavra de Deus e deixamos o Espírito Santo actuar em nós e através de nós.
Pelo poder da graça que assim recebemos, e pela oração e adoração, existem hoje
muitos e variados esforços para alcançar a unidade que Jesus Cristo deseja para
a Sua Igreja. A oração conjunta dos cristãos é, portanto, o coração do
ecumenismo. A nossa espiritualidade ecuménica está marcada por muitas orações e
hinos litúrgicos e por muitas e diversas experiências de comunhão espiritual.
Comprometemo-nos a:
Orar por e com os outros, uma vez que a unidade da
Igreja de Jesus Cristo é, em última análise, um dom de Deus;
Realizar regularmente celebrações ecuménicas e a
promover orações e cultos pela unidade dos cristãos;
Na busca de uma espiritualidade ecuménica comum,
aprender a conhecer e apreciar a adoração e outras formas de espiritualidade
das outras igrejas.
1. Perante o avanço da secularização e o recuo do
cristianismo na Europa, queremos fortalecermo-nos mutuamente num testemunho
comum da nossa fé, para a nova evangelização e missão conjuntas na Europa. Para
tal, é indispensável restabelecer a confiança e o entendimento entre as igrejas
de modo a evitar a competição negativa e o perigo de novas divisões. Aqui é
importante fazer a distinção entre comunidades cristãs e seitas.
Comprometemo-nos a:
Discutir com as outras igrejas o nosso trabalho de
missão e evangelização;
Não induzir pessoas a mudar a sua filiação eclesial
e nunca usar a força física, a coacção moral, a pressão psicológica ou os
incentivos materiais no sentido de levar as pessoas à conversão;
Apoiar a conversão das igrejas e fazer o possível
para que tenham contactos abertos umas com as outras.
1. O estarmos realmente juntos em Cristo é de
importância fundamental no que respeita às nossas diferentes posições éticas e
teológicas. Diferenças de doutrina, de ensino e prática dos assuntos morais
estão na base das divisões entre as igrejas. Para aumentar a nossa comunhão
ecuménica, devemos continuar os esforços de modo a alcançar o consenso no campo
doutrinário dado que a comunhão entre igrejas só pode alcançar a sua base
teológica num acordo sobre as verdades fundamentais da fé. Daí que os diálogos
devam continuar, intensamente e conscienciosamente, nos vários níveis da vida
da Igreja.
Comprometemo-nos a:
Desenvolver e aprofundar uma cultura de diálogo
dentro e entre as igrejas;
Assegurar que os resultados das conversações
teológicas entre as nossas igrejas sejam recebidos em todos os níveis da vida
eclesial e a assumir as consequências desses mesmos resultados;
Nos casos de controvérsia, especialmente no domínio
das questões éticas que ameacem dividir a comunhão ecuménica, continuar o
diálogo em conjunto.
III. A comunidade ecuménica ao serviço da Europa
"Felizes os pacificadores, porque
serão chamados filhos de Deus." (Mateus 5, 9)
1. Até alcançarmos o alvo da plena comunhão
eclesial, tencionamos agir em conjunto em todas as matérias nas quais as
diferenças profundas de convicção não nos obrigam a agir separadamente. Este
princípio deverá ser aplicado a todos os níveis da vida das igrejas na Europa.
Comprometemo-nos a:
Fortalecer a cooperação entre a Conferência das
Igrejas Europeias (KEK) e o Conselho das Conferências Episcopais na Europa
(CCEE);
Realizar Assembleias Ecuménicas Europeias;
Clarificar, local, regional, nacional e
internacionalmente, nas conversações bilaterais e multilaterais, quais as
declarações fundamentais de fé que exigem um consenso e quais as questões que
não significam divisão e podem ser mutuamente toleradas;
Ajudar a resolver os conflitos entre as igrejas e
promover a paz;
Defender os direitos das minorias e contribuir para
diminuir os mal-entendidos e os preconceitos;
Assegurar que todas as igrejas em cada um dos nossos
países tenha o direito às actividades públicas.
1. As igrejas são favoráveis à unidade europeia. O
ecumenismo significa, para a Europa, que o processo da integração europeia não
está limitado às esferas do político e do económico. Assim, alicerçados na
nossa fé comum, procuramos preservar "a alma da Europa" apoiando
valores como a justiça, liberdade, tolerância, participação e solidariedade e
ajudando estes valores a frutificarem na vida comum das pessoas deste
continente.
Comprometemo-nos a:
Promover a unidade da Europa no seio da sua
diversidade cultural, étnica e religiosa;
Representar, do modo mais unido que seja possível,
as preocupações das igrejas junto das instituições seculares europeias;
Proteger os valores básicos das violações estatais;
Reconhecer e reforçar a nossa responsabilidade na
Europa para com toda a humanidade, especialmente pelos pobres nos países do
chamado "Terceiro Mundo";
Promover um clima de paz que opte pelos meios
não-violentos na resolução dos conflitos.
1. Nós, na Europa, reconhecemos particularmente ser
nossa responsabilidade reconciliar povos e culturas uns com os outros.
Afirmamos que a diversidade das nossas tradições regionais, nacionais,
culturais e religiosas, constituem um grande enriquecimento para a Europa. No
espírito do Evangelho, orientamos os nossos esforços comuns na avaliação e
resolução dos assuntos políticos e sociais.
Comprometemo-nos a:
Proteger a pessoa e a dignidade de cada o ser humano
criado à imagem de Deus, a respeitar a igualdade de todas as pessoas, a
preservar e defender os direitos humanos e lutar contra a injustiça;
Promover processos democráticos na Europa e justiça
social entre os povos;
Repudiar qualquer forma de marginalizarão por
exclusivismo ou nacionalismo quando o amor de alguém pelo seu próprio país leve
à opressão de outros povos ou minorias nacionais;
Fomentar o espírito de abertura para o número
crescente de pessoas estrangeiras, refugiados e exilados, e dar aos sem abrigo
um refúgio e um lar na Europa;
Defender os direitos inerentes a cada pessoa, sem
distinção ou discriminação, fortalecendo em especial a posição e a igualdade de
direitos das mulheres em todas as áreas da vida e trabalhar pelo bem estar das crianças e das famílias;
Combater toda a forma de violência contra as
pessoas, particularmente as mulheres e as crianças;
Cuidar do ambiente para todas as criaturas,
especialmente para as gerações futuras.
1. Existe um especial sentido de comunidade entre
nós e o povo de Israel, o povo escolhido por Deus para todas as épocas, o povo
da Aliança e das promessas, do qual Jesus Cristo saiu. Juntamente com as nossas
irmãs e irmãos judeus oramos ao Deus de Abraão, Isaac e Jacob. Lamentamos todas
as explosões de ódio, perseguições e manifestações de anti-semitismo, e pedimos
a Deus que nos conceda o perdão e a reconciliação. Apoiamos as muitas e
diversas formas da cooperação judaico-cristã. Encontramo-nos com os islâmicos e
aderentes de outras religiões num espírito de respeito e apreço e fazemos o
nosso melhor para um mútuo entendimento.
Comprometemo-nos a:
Reconhecer e defender a liberdade de consciência e
de religião para todos;
Reconhecer o direito de qualquer pessoa na procura
da verdade e no testemunho dessa verdade de acordo com a sua própria
consciência;
Iniciar, manter e apoiar encontros,
conversações e partilha com outras religiões e comunidades que tenham outras
concepções do mundo.
"Que o Deus da esperança vos encha de toda a
alegria e paz na fé, e para que transbordeis de esperança, pela força do
Espírito Santo." (Rm. 15, 13)
Genebra / St. Gallen, Julho
de 1999
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)