E OS ÍCONES?
A palavra "ícone" deriva do termo grego
"eikón", que significa genericamente
"imagem". Todavia, na história da arte e também na linguagem comum, a
palavra ícone é reservada a uma pintura, geralmente portátil, de género sagrado,
executada sobre madeira com uma técnica particular, e segundo uma tradição
transmitida pelos séculos. A pátria do ícone é o Oriente Bizantino que, com
desvelo, conservou obras-primas artísticas de grande valor espiritual que
chegaram até nós.
Os ícones representam Jesus Cristo, a Mãe
de Deus, os anjos, os santos e outros temas religiosos, mas o ícone é muito
mais do que uma simples figuração; somente o acontecimento da Encarnação
de Nosso Senhor o tornou possível.
No Antigo Testamento, Deus tinha proibido que se
tentasse reproduzir a sua imagem. Textos bíblicos (Dt.
4, 12-15) dizem-nos que, também quando se ouviu o som das palavras de Deus,
nenhuma imagem foi vista, e muitas censuras foram feitas a cada nova tentação
de esculpir e adorar um ídolo! Somente a arte decorativa, prevalecendo a de
forma geométrica, exprimia o sentido do infinito, como vemos ainda hoje com os
hebreus ou os muçulmanos. Tão só a representação dos anjos foi permitida no
Antigo Testamento (Ex. 25, 17-22) e sobre a arca da aliança havia-se esculpido
o ícone dos querubins como prenúncio de acontecimento futuro.
A hora do nascimento terreno do Filho de Deus é a
hora do nascimento do ícone: Jesus Cristo, com efeito, não é apenas o Verbo de
Deus, mas também a sua imagem: "Cristo é a imagem (eikón)
do Deus invisível" (Cl. 1, 15). São
João Damasceno, o teólogo poeta, morto em 749, que nos seus três Tratados
pela defesa dos santos ícones, na época
iconoclasta, tanto aprofundou esta questão, explica a superação da
proibição das Sagradas Escrituras de se representar o Deus invisível:
"Quando virmos aquele que não tem corpo
tornar-se homem por nossa causa, então poderemos executar a representação de
seu aspecto humano. Quando o Invisível, revestido de carne, se tornar visível,
então representa a imagem daquele que apareceu... Quando aquele que é a Imagem
consubstancial do Pai despojou-se, assumindo a imagem de escravo (Fl. 2, 6-7), tornando-se assim limitado na quantidade e na
qualidade por se ter revestido da imagem carnal, então pintamos (...) e expomos
à vista de todos Aquele que se quis manifestar. Pintemos o seu nascimento da
Virgem, o seu batismo no Jordão, a sua Transfiguração
no monte Tabor, pintemos tudo com a palavra e com as
cores nos livros e na madeira".
O fundamental e primeiro ícone -
tomando a palavra no seu significado mais amplo de imagem - é, assim, a própria
face de Cristo. E podemos representá-la, porque não se trata mais de uma imagem
inacessível à vista, mas de uma pessoa real. O ícone de Jesus Cristo exprime,
através da imagem, o dogma do Concílio
de Calcedônia (451): o ícone não representa
tão-só a natureza divina, nem só a natureza humana de Cristo, mas representa a
sua Pessoa, a pessoa de Deus-Homem, que reúne em si
"sem mistura nem divisão" as duas naturezas.
Doravante, serão possíveis também os ícones da Mãe
de Deus, mesmo quando a Virgem Santíssima carrega o Filho divino (e são
pouquíssimos os ícones sem a presença de Jesus); eles são às vezes denominados
ícones da Encarnação.
Serão possíveis os ícones dos santos, porque,
assumindo a natureza humana, o Filho de Deus não só renova no homem a imagem
obscurecida com a queda de Adão, mas a recria mais profundamente à imagem de
Deus. Cristo abre para o homem o caminho da transfiguração pela graça... como
diz São
Paulo: "Nós que (...) refletimos como num
espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem"
(2 Cor. 3, 18). Assim, o ícone transmite verdadeiramente a imagem do um homem
purificado, transfigurado... revestido da beleza incorruptível do Reino de
Deus, de uma pessoa humana transformada em ícone vivente de Deus (pp. 15-18).
Os ícones, "visíveis representações das
magnificências misteriosas e sobrenaturais", para usar a antiga fórmula de
São Dionísio Areopagita, têm lugar importantíssimo na tradição espiritual
ortodoxa. E, se quisermos apressar a união entre as Igrejas do Oriente e do
Ocidente - elas que no primeiro milénio tinham em
comum também a língua viva do sinal iconográfico -, devemos conhecê-los,
apreciá-los, compreendê-los como um "tesouro espiritual"; o que eles
representam para os cristãos da tradição bizantina...
O ícone não é o resultado de uma intuição ou a
figuração de uma impressão do artista; ele é fruto de uma tradição e, antes de
ser pintado, é uma obra profundamente meditada, pacientemente elaborada por
gerações de pintores. Um especialista soviético dizia que "o ícone não é
um quadro; nele vem representado não aquilo que o pintor tem diante dos olhos,
mas certo protótipo a que ele deve atar-se. A veneração dos ícones deriva da
veneração do protótipo. Os ícones são beijados; através deles esperam-se curas;
são venerados, porque são representações de Cristo, da Virgem Maria, dos
Santos. Os ícones entram no ofício litúrgico. A iconografia é, de certo modo,
uma arte ritual. A reverência devida ao ícone e a sua criação foram rigidamente
regulamentadas pelo VII Concílio Ecuménico. Os eclesiásticos consideravam-se
verdadeiros criadores de ícones e os artistas eram tidos como realizadores das
ideias deles" (pp. 7-9).
A frase, propositadamente repetida, não é um slogan:
através do ícone o divino nos ilumina. A luz é o atributo principal da glória
celeste e os ícones representam os habitantes do Reino, contempladores da luz incriada, pela qual se deixam penetrar até se tornarem
esplendorosos, como indica o nimbo ao redor de seus rostos (os nimbos não são,
como as auréolas ou as coroas, simples sinais da santidade).
O ícone, visto com os olhos do coração iluminados
pela fé, nos abre para a realidade invisível, para o mundo do Espírito, para a
economia divina, para o mistério cristão na sua totalidade ultraterrena.
É lugar teológico, antes, "teologia visual", como muitos já disseram.
O ícone é inspirado e sagrado de modo específico,
símbolo que contém presença, cujo tempo, espaço e movimento não são
representados pela percepção comum. A própria laconicidade
de seus traços nos remete para uma mensagem de fé, a "visão do
Invisível", para empregar as palavras de São Paulo (Hb. 11, 1).
"O ícone se afirma independentemente do artista
e do espectador e suscita não a emoção, mas a vinda do transcendente, cuja
presença ele atesta. O artista se esconde atrás da Tradição que fala. A obra
torna-se uma manifestação de Deus, diante da qual devemos nos prostrar num ato
de adoração e de oração".
Poder-se-ia continuar muito mais, tentando precisar
bem o que é o ícone, mas os orientais não gostam de definir; pelo contrário - observa um deles - é necessário não definir! Portanto,
procuremos descobrir pessoalmente o que é o ícone...
No recolhimento e no silêncio, os olhos se abrem
para a luz da Transfiguração e seremos naturalmente conduzidos pela força do
Espírito à luz do ícone, a fim de contemplar não só a face de Jesus, mas também
a luz da verdade divina (pp. 20 ss).
Deus sabe tirar o bem de tudo! Alegremo-nos, pois
"os ícones da antiga Rússia revelaram o mundo interior do homem, a pureza,
a nobreza de sua alma, a sua capacidade de sacrifício, a profundidade de seu
pensamento e dos seus sentimentos", como escreve o pintor Igor Grabar, Acadêmico soviético e
também Director do Laboratório Nacional de Restauração. Ele continua:
"Pela primeira vez (sob as camadas de verniz fuliginosas e reparos)
apareceu uma arte brilhante, que nos impacta e
encontra pela harmonia delicada de suas cores, pelo ritmo e a segurança de suas
linhas, pelo caráter profundamente inspirado de suas
imagens". A pintura dos ícones da antiga Rússia é parte integrante do
tesouro constituído pela herança cultural de toda a humanidade".
Para compreender os ícones, é necessária uma
tríplice aproximação entre: conhecimento científico, valor artístico e visão
teológica.
Sua Santidade, o Papa São Paulo
VI, falando aos artistas, reunidos em 07 de Maio de 1964, na Capela
Sistina, denominou-os mestres na arte de "transvasar
o mundo invisível com fórmulas acessíveis e inteligíveis". O ícone é
realmente a apresentação dos dogmas de modo visível; é antes um lugar de
presença e de encontro espiritual, um sinal de graça.
O ícone nos mostra o homem como Deus o ama,
transfigurado pelos seus dons, e é um convite para nos abrirmos à realidade
espiritual, a rezar; "ligada intimamente à economia da salvação, a imagem
sagrada põe em destaque os dois aspectos principais da obra redentora de
Cristo: a pregação da verdade e a comunicação da graça".
Na civilização da imagem, frequentemente dispersiva,
em que vivemos, a presença do ícone nos ajuda a
realizar nossa vocação cristã: reproduzir em nós a imagem de Cristo, tornar-nos
seu "ícone".
"Cristo, verdadeiramente luz que ilumina e
santifica todo homem que vem ao mundo, resplandeça sobre nós a luz de vossa
face, a fim de que nela vejamos a luz inacessível; e dirigi nossos passos para
o cumprimento dos vossos mandamentos, pelas orações de vossa puríssima Mãe e de
todos os Santos. Amém" (pp. 10-12).
Iconoclasta significa literalmente "quebrador de ícones" ou de imagens sagradas. Tal
palavra é usada para indicar os inimigos fanáticos do emprego e do culto das
imagens que surgiram no império bizantino durante os séculos VIII-IX.
A história do iconoclasmo
se desenvolveu sob a direcção dos imperadores bizantinos em duas épocas. Entre
elas há um período de tranquilidade, que permitiu a realização do VIII e último
Concílio Ecuménico em Nicéia, no ano de
Infelizmente, vários Bispos aceitaram o ponto de
vista do Imperador e o corajoso Patriarca de Constantinopla, São
Germano, defensor dos ícones, foi constrangido a renunciar. Também sob o Imperador
Constantino V, Coprônimo, a oposição às imagens
sagradas continuou, chegando a uma definição oficial.
Um oros, subscrito por
cerca de 338 Bispos, condenava, em 752, o uso e o culto das imagens, admitindo
porém certo culto de intercessão dirigido à Mãe de Deus e aos Santos. Mas o
povo, e sobretudo os monges,
protestaram. Foi o início de uma verdadeira perseguição com exílios, prisões,
torturas e, por fim, martírios entre os defensores dos ícones, com uma bárbara
destruição de objectos sagrados.
De
A paz parecia restabelecida, mas com a eleição do
arménio Leão V, em 813, mantido por uma revolta militar, reacende-se a luta
contra as imagens sagradas. O Patriarca de Constantinopla, São Nicéforo, teve de pedir demissão em 815 e a perseguição
contra os iconófilos foi ainda mais violenta que a
precedente: Bispos arrancados de suas Sedes, mosteiros fechados, monges e fiéis
aprisionados e torturados até a morte. Leão, o armênio,
foi morto em 820; todavia, ainda sob os seus dois sucessores, apesar de uma
trégua parcial, a luta iconoclasta continuou. Somente em 842, com a morte do
Imperador Teófilo, a viúva regente, Teodora, favorável às imagens, restaurou
com prudência o culto das mesmas, começando por afastar o Patriarca
iconoclasta, substituindo-o por Metódio, que viria a ser canonizado mais tarde.
Em 11 de Março de 843, primeiro domingo da Quaresma, pode-se finalmente
celebrar com solenidade a vitória dos partidários de ícones, conhecida como "Triunfo
da Ortodoxia". Uma festa que foi além do primeiro domingo, com textos
próprios e belíssimos, onde foram reafirmadas a validade e a importância do
culto às imagens sagradas - muitos ícones foram carregados
em procissão.
As lutas iconoclastas repercutiram apenas
indirectamente no Ocidente, aonde foram ter monges foragidos das perseguições,
geralmente carregando ícones consigo. Os Papas, desiludidos com os imperadores
orientais, hereges e impotentes diante das invasões dos bárbaros, começaram a
depositar sua confiança na nova potência política que surgia no Ocidente, com
Pepino, o Breve, e Carlos Magno...
É significativo que o triunfo sobre os iconoclastas
permaneça lembrado como "Festa da Ortodoxia", e o Kondakion
do dia resume bem os temas de fundo:
"O Verbo do Pai, que não tem limites, foi
circunscrito, encarnando-se em vós, Mãe de Deus; elevou ao primitivo estado a
nossa imagem (= ícone) desfigurada pelo pecado, elevando-a à beleza divina.
Reconhecendo assim a nossa salvação, procuramos realizá-la com a acção e a
palavra".
Outros concílios realmente ecuménicos, com a
presença dos representantes das Igrejas do Oriente e do Ocidente, nunca foram
convocados; todavia encontram-se em concílios locais referências sobre a
iconografia e a arte sacra
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)