POSIÇÃO DA IGREJA CATÓLICA ORTODOXA HISPÂNICA
ACERCA DA ORDENAÇÃO MINISTERIAL DE MULHERES
Há
algum tempo, que têm aparecido nos meios de comunicação social, algumas
notícias acerda “ordenação ministerial de mulheres”, que têm vindo a receber a
“ordenação diaconal, presbiteral e episcopal”, das mãos de Bispos com válida Sucessão
Apostólica ou que possuem um Episcopado Histórico. É nosso dever expor a Sã Doutrina
da Santa Igreja de Jesus Cristo, a qual professamos, e que permanece
inalterável na Santa Ortodoxia, á qual pertencemos.
Um olhar
sobre a autoridade / mulher na Sagrada Escritura:
O que foi estabelecido na criação por Deus com
relação á raça humana não deve estar fora de "moda" para aquele que
acredita e confia no amor e cuidado divino a uma geração pecadora. Foi o
próprio Deus quem primeiro criou o homem e o colocou como a cabeça perante a
mulher, a qual chamou de "adjutora". Da costela de Adão, Deus fez a
Eva, simbolizando autoridade sobre sua companheira (Cor. 11, 3.7-9). Estes
detalhes são precisamente relembrados pelo Apóstolo Paulo
como sendo estabelecidos por Deus antes da queda do homem. A autoridade que o
homem deve exercer sobre a mulher não é o resultado da queda do homem, mas sim
do padrão que o próprio Criador
estabeleceu para o bem da família humana antes da queda do homem.
O machismo praticado e desenvolvido em muitos países
tem levado muitas pessoas a não entenderem o sentido bíblico de autoridade. Mas
é o próprio Deus que estabeleceu a forma de como se deve exercer esta
autoridade, Paulo é muito claro: "Porque
o marido é a cabeça da mulher, como, também, Cristo é a cabeça da
igreja..." (Efésios 5, 23). E
acrescenta: "Vós, maridos,
amai as vossas mulheres, como, também, Cristo amou a igreja e a si mesmo e se
entregou por ela" (Efésios 5,
25).
As diferenças estabelecidas por Deus existem para
que elas tipificassem a unidade que existe entre Deus, Cristo e o Espírito
Santo que embora tendo um papel diferente tornam-se "Um". O homem e a mulher
devem também tornar-se uma só carne, embora tenham papéis diferentes. Neste
contexto é impossível haver discriminação, exploração ou pensar que um é mais
inteligente ou melhor que o outro. Ambos necessitam da participação do outro
para se complementarem cumprindo ao mesmo tempo uma ordem divina.
Embora Paulo fosse um agente
fiscalizador-organizador da igreja primitiva é bom ter em mente que Cristo fundou a Igreja Cristã, da qual
Ele é a cabeça. Lembremo-nos que Cristo chamou doze homens que também
simbolizavam autoridade, assim como as doze tribos de Israel. Mas, Cristo não
escolheu homens porque era tradição estarem homens na liderança da igreja, pois
Ele morreu precisamente por quebrar tradições escandalizando muitos dos judeus
ortodoxos. As razões de sua escolha foram precisamente padronizadas desde a
criação, passando a seguir para o templo para assim dar seguimento no novo
pacto estabelecido que nada mudou nesta questão.
É importante salientar que há diferenças
consideráveis entre profeta, sacerdote e rei. Estas funções requeriam um papel
diferente na sociedade e tabernáculo. Notemos que houve mulheres profetizas e
rainhas no Velho Testamento dentro da nação judaica, mas nunca sacerdotisas.
No Egipto e Babilónia e outros povos pagãos, haviam
sacerdotisas o que para os judeus, que muitas vezes se identificavam com
práticas pagãs, não deveria ser supostamente escandaloso terem sacerdotisas em
seus templos. Contudo, é inexistente qualquer referência a sacerdotisas no
templo do povo de Deus em toda a Bíblia. O que quer dizer, que não era por
causa da mentalidade da época que não haviam "sacerdotisas e bispas"
mas sim e unicamente por razões de ordem divina. É interessante salientar que,
nos povos pagãos que tinham mulheres sacerdotisas era em muita de sua liturgia
manifestada cenas de orgia e homossexualismo como uma simples ordem dos deuses,
revelando total falta de princípios familiares, semelhantes aos judeus do papel
do homem e da mulher. Vêmos aí o resultado de se extinguir o conceito familiar
estabelecido por Deus.
No
plano de Deus para a restauração humana, o princípio familiar deve ter o seu
seguimento na Igreja. Infelizmente, como a família esta degradada e não exerce
o seu poder de influência, muitos não compreendem a razão pela qual a Igreja
deve ter um homem como autoridade principal.
De
facto muitas vezes não nos apercebemos que Deus estabeleceu valores na Igreja
que são iguais aos da família. É no entanto o próprio Apóstolo Paulo que,
inspirado por Deus, confirma no plano
da redenção os mesmos princípios do plano da criação com respeito á autoridade e liderança paterna. "Porque se alguém não sabe governar a
sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?" (1 Tim. 3, 5).
Talvez
o texto bíblico que mais é usado para os defensores da “ordenação da mulher”
nas Igrejas e seminários seja Gálatas 3, 28.
Os
seus defensores alegam que a autoridade eclesiástica masculina é o fruto da
cultura machista judaica primitiva e que, portanto, agora no novo concerto isto
deve ser mudado. Temos que admitir que estas palavras soam bem numa época que é
moda falar em justiça social, tolerância e solidariedade. Só que a felicidade
ou justiça só podem tornar-se uma realidade se implantarmos princípios divinos,
não conceitos humanos de justiça. "Nisto não há judeu nem grego, não há
servo nem, livre, não há masculino nem feminino; porque todos vós sois um,
A
tensão que se passava com os irmãos de Gálatas era se a salvação provinha da fé
ou das obras. Paulo fez esta declaração porque na tradição judaica era exigida
a circuncisão para que alguém fosse salvo. Só que os irmãos judeus
(recém-cristãos) ao evangelizarem os gentios "naturalmente" ainda
levavam as cargas de suas "leis mosaicas", neste caso a circuncisão
era ainda praticada e consequentemente imposta aos novos conversos gentios.
Na
tradição judaica o escravo não podia passar por este ritual e quanto á mulher,
esta participava desta aliança
através da circuncisão do marido (Daí o desespero das mulheres que não podiam
casar-se). Na verdade os judeus-cristãos queriam que os gentios se tornassem
cristãos ainda praticando a circuncisão. Mas o sábio Apóstolo Paulo salienta
que é através do Baptismo
que todos entram de posse do novo pacto, homem e mulher, escravo e livre, sem
diferenças, porque todos pecaram.
No
plano da redenção a raça humana sofre igualmente, pois todos, sem excepção
pecaram, e neste caso ninguém está em condição diferente. O homem judeu não
estava em vantagem para com o gentio ou para com a mulher. A mulher, no novo
pacto, através da sua fé e Baptismo faz um pacto com Deus, e não é mais
dependente do seu marido!
A
ordem da redenção não anula a ordem da criação, pelo contrário aplica-a. Na
verdade, a ordem da redenção pretende restaurar a ordem da criação, dando à
humanidade a sua real dignidade. Este "novo" conceito estava
totalmente fora dos padrões da época e portanto temos que desacreditar quanto
às acusações de muitos cristãos quando afirmam que Paulo era machista. Nem
Cristo, nem Paulo poderiam ser machistas, inúmeras vezes Cristo foi visto com
mulheres na árdua missão de restabelecer um ser que era explorado pelo sistema
e tradições judaicas. Paulo comissionou "apóstolas" e trabalhou com
elas. Neste caso é importante citar que a palavra apóstolo, não significa necessariamente alguém com posição de
autoridade eclesiástica, pois o seu significado literal é de enviado.
A
mulher tem um papel fundamental na sociedade, família e Igreja, a sua missão
não foi estabelecida pela cultura da época ou conceitos humanos de justiça. Seu
papel foi e deve ser alicerçado em bases sólidas de princípios divinos
estabelecidos no Éden antes da queda do homem. A mulher pode pregar, ter cargos
na Igreja mas, não pode exercer autoridade posicionando-se como líder,
nomeadamente “bispa, presbítera ou diaconisa”.
A
mulher, se for apenas mãe ou doméstica é muitas vezes ridicularizada na
sociedade, mas ao cumprir o papel que Deus lhe concedeu torna-se uma honra e
privilégio. Exercer qualquer autoridade na Igreja não foi concedido à mulher,
não porque ela seja um ser inferior, incapaz. A mulher revelou sempre
inteligência igual aos homens.
Na
verdade Deus não deseja que a humanidade tenha um conceito feminino da
divindade, o que a Nova Era insiste
Passagens do
Novo Testamento usadas para defender a Ordenação Feminina
ao Diaconado,
Presbiterato e Episcopado:
Romanos 16, 7 - Ás vezes é
defendido por igualitaristas que havia mulheres na Igreja Primitiva que
funcionavam como apóstolos. A passagem usada para avançar este ponto é Romanos
16, 7, aonde o Apóstolo Paulo, na sua saudação à Igreja de Roma, menciona uma
pessoa por nome Júnias: “Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e
companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos, e estavam em
Cristo antes de mim” (Rom. 16, 7).
Os defensores desta tese argumentam que Júnias
é um nome feminino, e que a mulher com este nome era uma "apóstola",
em pé de igualdade com Andrônico. Do ponto de vista dos defensores da
“ordenação feminina”, a passagem prova que o Apóstolo Paulo reconhecia que uma
mulher pode exercer uma posição de autoridade sobre homens na Igreja
Apostólica. E se elas eram admitidas ao apostolado, obviamente eram-no a cargos
eclesiásticos, como presbiterado e diaconado.
Mas não é tão simples assim. Há várias questões
relacionadas com a interpretação deste texto. A primeira questão depende da
solução de um problema textual. (Cf. o estudo de U-K.
Plisch, "Die Apostelin Junia: das Exegestische Problem im Röm 16, 7 im
Licht von Nestle-Aland 27 und der Sahidischen Überlieferung",
1 - Iounia = n,
que seria o acusativo de Iounia=j, (Júnia) masculino;
2 - Iouni/an, que seria o acusativo de Iouni/a,
(Júnia) feminino. A terceira variante é Iouli/an, que corresponderia ao
feminino Júlia.
A segunda questão depende da interpretação da
expressão "notável entre os apóstolos". Significa que Júnias era um
dos apóstolos, já antes de Paulo, e um apóstolo notável? Ou apenas que os
apóstolos, antes de Paulo, tinham Júnias em alta conta? As questões
mencionadas acima são complexas, e sem respostas definitivas. Examinemos uma a
uma.
1 - Júnias é masculino ou feminino?
A variante melhor atestada, segundo o texto grego da
UBS, 4ª edição (e de Nestle-Aland, 27ª edição), é Iounia = n , acusativo
de Júnia, masculino (atestada pelos
manuscritos ) A B* C D* F G P, embora sem
acentos). A variante (Júlia) é fracamente atestada, aparecendo apenas no p. 46
e em algumas versões antigas.
Numa pesquisa feita por computador nos escritos
gregos existentes desde a época de Homero (século
Os resultados são inconclusivos. Parece evidente que
Júnias era nome tanto de homem quanto de mulher no período
neo-testamentário. O problema é que não sabemos em que género Paulo o usou em
Romanos 16, 7. Isto explica o surgimento de variantes divergindo na acentuação,
e o surgimento da variante , que é claramente uma
tentativa de resolver a ambiguidade.
Se temos de tomar uma decisão, devemos dar mais peso
à palavra de Epifânio, pois ele sabe mais sobre Júnias do que Crisóstomo, já
que informa que Júnias tornou-se Bispo de Apaméia.
Concorda com isto o testemunho de Orígenes (morto em 252 d.C.), que num
comentário em latim à carta aos Romanos refere-se a Júnias no masculino.
Nomes gregos masculinos terminando em -aj não são incomuns, mesmo no Novo Testamento: André (Andre/aj, Mt.
10, 2), Elias (Eli/aj,
Mt. 11, 14) e Zacarias (Zaxari/aj, Lc. 1, 5). (A. T. Robertson, Grammar of the Greek New Testament
(New York: Hodder and Stoughton, 1914) 171-173). Para
alguns comentaristas, Júnias é a abreviação de Junianius,
um nome masculino - mas não há evidências claras
disto. A conclusão é que não podemos saber com certeza se Júnias era uma mulher
- mais provavelmente era um homem. É por isto que a
maioria das traduções modernas, onde possível, traduzem Júnias como masculino
(e não Júnia, feminino). (Com exceção
da KJV, o que é aplaudido por feministas como Berkeley
Mickelsen e Alvera Mickelsen, "Does Male Dominance Tarnish Our Translation?"
2. Era Júnias um(a) apóstolo(a)?
Mais uma vez perguntamos, é possível termos uma
resposta definida para a pergunta "era Júnias um(a) apóstolo(a)?"
Gramaticalmente, a expressão "os quais são notáveis entre os
apóstolos" (oi (/tine/j ei)
sin e) pi/shmoi e) n toi=j a) posto/loij) tanto pode indicar que Andrônico e Júnias eram
apóstolos, quanto que eram tidos em alta conta pelos apóstolos existentes. E
mesmo que aceitemos que eram apóstolos, ainda resta o facto de que a palavra apóstolo
no Novo Testamento é usada, não somente para os Doze, para Paulo, e para
algumas pessoas associadas a ele, como Barnabé,
Silas e Timóteo (cf. Act.
14, 14; 1 Tes 2, 6), mas para mensageiros e enviados
(este é o sentido primário de a) po/stoloj) de Igrejas locais, como Epafrodito
(Fip. 2, 25) e uns irmãos mencionados em 2 Coríntios
8, 23. Estes não parecem exercer governo ou autoridade sobre as Igrejas locais,
eram simplesmente enviados por elas. Portanto, se Andrônico e Júnias eram
apóstolos, deveriam pertencer a este tipo de mensageiros das Igrejas locais,
com um ministério itinerante. Estes "apóstolos" não tinham
autoridade de governo em Igrejas locais; antes, eram enviados por elas para
desempenhar diferentes funções como representantes ou emissários.
Em última análise, só podemos afirmar com certeza, a
partir de Romanos 16, 7, que, quem quer que tenha sido, Júnias era uma
pessoa tida em alta conta por Paulo, e que ajudou o apóstolo em seu ministério.
Não se pode afirmar com segurança que era uma mulher, nem que era uma
"apóstola", e muito menos uma como os Doze ou Paulo. (Cf. James B. Hurley, Man and Woman in Biblical Perspective (Grand
Rapids: Academie, 1981) 121-122)
A
passagem, portanto, não serve como evidência bíblica para a “ordenação
feminina” no período apostólico. E essa conclusão está em harmonia com o facto
de que Jesus não escolheu mulheres para serem apóstolos. Não há nenhuma
referência indisputável a uma "apóstola" no Novo Testamento. (Alguns
têm sugerido que Jesus não escolheu mulheres para o colégio apostólico porque
estava restrito pela cultura da sua época: mulheres apóstolas não seriam
aceitáveis para os judeus da época, e colocariam em perigo a missão de Jesus
(cf. G. Bilezikian, Beyond Sex Roles [Grand Rapids: Baker, 1985] 236). Mas
este argumento é somente especulativo, e ao final, coloca Jesus numa situação
difícil. Veja a sua refutação em Piper e Grudem, Recovering, 221-222)-
Gálatas
3, 28 - Esta passagem, aclamada pelos feministas como
a "Carta Magna da Humanidade", (Por exemplo, Paul K. Jewett, Man as Male and Female
(Grand Rapids: Eerdmans, 1975) 142) é, sem dúvida, a mais usada pelos
defensores da “ordenação de diaconisas e presbíteras”: não pode
haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em
Cristo.
A abordagem igualitarista tradicional desta passagem
interpreta a expressão "porque todos vós sois um
1. O contexto da passagem
Não se pode discordar de que o Evangelho é
o poder de Deus para abolir as injustiças, o preconceito, a opressão, o
racismo, a discriminação social, bem como a exploração machista. E nem se pode
discordar de que Cristo veio resgatar-nos da maldição imposta pela queda. A
pergunta é se Paulo está falando da abolição da subordinação feminina e de
igualdade de funções nesta passagem, ou seja, se está dizendo que as mulheres
podem exercer os mesmos cargos e funções que os homens na Igreja, já que são
todos aceites sem distinção por Deus através de Cristo, pela fé.
A interpretação igualitarista de Gálatas 3, 28 esbarra
em alguns problemas exegéticos. Primeiro, o do contexto. Paulo escreveu Gálatas
para responder a questões levantadas pela doutrina da justificação pela fé em
Cristo em face às demandas da lei de Moisés,
e ao papel da circuncisão, do calendário
religioso dos judeus, e das suas leis. No capítulo 3, Paulo está expondo o
papel da lei de Moisés dentro da história da salvação, que foi o de servir de
aio, para nos conduzir a Cristo (Gal. 3, 23-24). Com
a vinda de Cristo, continua o apóstolo, os da fé não mais estão subordinados à
lei de Moisés: pelo Baptismo pertencem a Cristo (Gal.
3, 25-27). A abolição das diferenças mencionadas no versículo
2. Criação e Queda
Uma outra dificuldade com a interpretação
igualitarista de Gálatas 3, 28 é a que parece ignorar que Paulo, às vezes,
enraíza a subordinação feminina, não na queda, mas já na própria criação, como
por exemplo, em 1 Coríntios 11, 7-10 e 1 Timóteo 2, 12-15. Para não mencionar
quando Paulo argumenta em favor da sujeição da esposa a partir, não da teologia
da queda, mas da teologia da própria igreja, da relação entre Cristo e sua
Igreja, como em Efésios 5, 22-24.
3. O significado de "um" em
Cristo
O terceiro problema é o de interpretarmos "sois
um em Cristo" como significando "sois iguais em
Cristo". Numa recente tese de mestrado, Ann Coble demonstrou de forma convincente que e (=ij nesta passagem não está implicando igualdade, mas
simplesmente unidade (Ann Coble,
"The Lexical Horizon of
‘One in Christ’:
The Use of Galatians 3:28 in the Progressive-Historical
Debate over Women’s Ordination" (tese não publicada; St.
Louis, Missouri; Covenant Theological Seminary, 1994)). Após dar exemplos de interpretações desta
passagem na história da Igreja (pp. 7-21), ela analisa e critica a
interpretação feita pelos progressistas ou igualitários, especialmente Krister Stendahl (pp. 22-37) e a
interpretação dos diferencialistas (pp. 38-48). Coble demonstra através de considerações léxicas e exegéticas que Gálatas 3, 28 está abordando a questão
da unidade da Igreja, e não de igualdade de funções ou
papéis. Ela argumenta que a palavra e(=ij
("um") enfatiza unidade - não igualdade. Se Paulo quisera enfatizar
igualdade poderia ter usado palavras como i))/soj
("igual") ou i/)so/thj
("igualdade") (pp. 49-58). A sua conclusão é que os estudiosos
progressistas ou igualitaristas não podem usar esta passagem como um texto
chave na afirmação de oportunidades de ordenação eclesiástica idênticas para
homens e mulheres.
4. O Evangelho e as "duas
eras"
Uma outra dificuldade é ver nesta passagem Paulo
ensinando que a subordinação imposta à mulher como castigo (Gen.
3, 16b) é plenamente removida em Cristo aqui e agora. A pergunta é se Paulo
ensina nesta passagem - ou em qualquer outra do Novo
Testamento - que Cristo já aboliu na presente era, total e plenamente, os
efeitos do pecado e os castigos impostos por Deus ao homem e à mulher, quando
primeiro pecaram. O ensino de Paulo sobre este assunto -
ou mesmo qualquer outro - entende-se melhor da perspectiva da história da
redenção, especialmente do ensino sobre as duas eras; ou seja, que em sua
primeira vinda Cristo inaugurou a era vindoura, o mundo porvir, sem
abolir a era presente, como os Judeus esperavam. A era vindoura
inaugurada por Cristo sobrepõe-se à presente, e coexistem em tensão até a
consumação. No tempo presente da sobreposição das duas, quase todos os aspectos
do Reino já são antecipados de forma incipiente (escatologia inaugurada). Os
crentes já desfrutam das virtudes do mundo vindouro, e gozam antecipadamente
dos benefícios conquistados por Cristo.
Por outro lado, Paulo reconhece que há ainda
aspectos ou dimensões da era vindoura que aguardam pleno cumprimento na parusia - é o "ainda
não" da escatologia futura. Assim, Cristo já reina, mas nem tudo está já a
ele sujeito (Heb. 2, 8b); já temos a vida eterna, e
já fomos ressuscitados com Cristo, mas ainda não estamos livres da morte
imposta por Deus a Adão em Génesis 3, 17 (1 Cor. 15, 20-28). A nova criação (cf.
kti/sij, 2 Cor. 5, 17)
já foi inaugurada, mas ainda não vemos a presente criação liberta do cativeiro
da corrupção (Rom. 8, 8-25); Satanás já foi derrotado, conforme prometido em
Génesis 3, 15, mas ainda será destruído (Rom. 16, 20). Os crentes já entraram
no descanso de Deus (Heb. 4, 1-13), mas ainda não
estão isentos do trabalho árduo ao qual a humanidade foi submetida após a Queda
(Gén. 3, 17-19). As mulheres cristãs ainda não estão
livres dos sofrimentos do parto, por estarem em Cristo, e nem igualmente
deveriam esperar isenção da subordinação imposta na queda, por serem crentes. A
plena redenção destas coisas, e das demais que ainda afligem os cristãos,
homens e mulheres, ocorrerão plenamente na parosia,
quando o Senhor Jesus trouxer em plenitude o Reino de Deus.
Afirmar a abolição evangélica da subordinação
feminina, enquanto as demais dimensões do castigo divino claramente estão em
vigor, é exegese preconceituosa. Os homens bem que poderiam reivindicar a
abolição do castigo de trabalhar duro para poder viver! E as
mulheres bem que poderiam reivindicar, já, a abolição das dores de
parto!
Portanto, não se pode usar Gálatas 3, 28 como lema
do igualitarismo sem que se faça violência ao seu contexto original, sem que se
ignore a teologia paulina das duas eras e da criação
do homem e da mulher.
Actos 2, 16-18 - Esta
passagem é parte do sermão de Pedro,
no dia de Pentecostes, quando ele cita o Profeta Joel para explicar o que
acabara de acontecer consigo, e com os demais discípulos de Jesus em Jerusalém,
quando o Espírito Santo veio sobre eles (Act. 2,
1-4). Citando Joel, Pedro diz: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas
filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos;
até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu
Espírito naqueles dias, e profetizarão” (Act. 2,
17-18).
Os igualitaristas observam que a profecia
de Joel citada por Pedro inclui as filhas e as servas, tanto quanto os filhos e
servos, na recepção do dom do Espírito Santo. E argumentam que não pode haver
qualquer distinção quanto ao serviço a Deus baseada em sexo, já que as mulheres
receberam o mesmo Espírito (e certamente, os mesmos dons) que os homens, o qual
foi dado para capacitar a Igreja ao serviço.
A argumentação prossegue mostrando que na Igreja
Apostólica as mulheres oravam, profetizavam (cf. Act.
21, 9, as quatro filhas de Felipe que eram profetizas), falavam em línguas, serviam
(Rom. 16, 1, Febe), evangelizavam, tanto quanto os
homens. Algumas tinham Igrejas reunidas em suas casas (Act
12, 12). Priscila, por exemplo, chegou a ensinar a
Apolo o caminho de Deus com mais exactidão (Act. 18,
26). Pentecostes, argumentam, é a abolição das distinções de género na Igreja,
pois ao dar às mulheres o mesmo Espírito que aos homens, Deus mostrou que elas
devem ser admitidas aos mesmos níveis de serviço que eles.
Mas não é tão simples como parece. Se as mulheres
exerceram os mesmos ministérios que os homens no período da Igreja Apostólica,
por que não há nenhuma menção no Novo Testamento de apóstolas, presbíteras ou
bispas? Por que não há qualquer recomendação de Paulo quanto à “ordenação de
mulheres”, quando instrui Timóteo e Tito quanto à ordenação de presbíteros?
Basta uma leitura superficial das qualificações exigidas por Paulo em 1 Timóteo
3, 1-7 e Tito 1, 5-9 para se ter a impressão de que o apóstolo tinha em mente a
ordenação de homens: o Presbítero deve ser marido de uma só esposa, deve
governar bem a sua casa e seus filhos (função do homem, nos escritos de
Paulo, cf. Efésios 5, 22-24).
1. Dons miraculosos e Presbiterado
Mas a pergunta chave é se a passagem de
Actos 2, 17-18 é uma autorização para que se recebam mulheres como “presbíteras”
da Igreja. Existem algumas dificuldades em se interpretar a passagem desta
forma. Em primeiro lugar, os fenómenos associados por Joel e Pedro ao
derramamento do Espírito nos últimos dias, como profecias, sonhos e visões, e
que são ditos que seriam concedidos às mulheres, não estão ligados no Novo
Testamento ao presbiterado ou episcopado, e portanto, poderiam ocorrer sem que
as pessoas envolvidas (homens ou mulheres) fossem ordenadas. Havia
profetizas na Igreja Apostólica, como as quatro filhas
de Filipe (Act 21, 9; cf. 1 Cor. 11, 5), mas não
lemos que eram “presbíteras” ou “bispas”. Embora não tenhamos notícia no Novo
Testamento de mulheres tendo visões ou sonhos em decorrência do derramamento do
Espírito (e nem de homens, diga-se também), não é impossível que haja
acontecido; mas, neste caso, com certeza, não estava restrito a bispos e
presbíteros. O meu ponto é que as manifestações carismáticas mencionadas em
Actos 2, 17-18 (profecias, sonhos, visões) e estendidas às filhas e servas
(mulheres crentes) não exigem a ordenação ao ministério ou presbiterado
daqueles que as recebem.
Uma outra dificuldade é o conceito que
está por detrás da interpretação igualitarista desta passagem, ou seja, que a
recepção de todos os dons do Espírito (especialmente os dons relacionados com o
ensino) por parte das mulheres implica que elas deverão ser reconhecidas e
ordenadas pelas Igrejas como tais. Insistem os igualitaristas que, já que o
Espírito as capacitou, a Igreja não lhes deveria negar reconhecimento oficial
através da ordenação.
A grande dificuldade é demonstrar biblicamente que
na Igreja Apostólica este ponto foi reconhecido. Como explicar, por exemplo,
que embora Paulo reconhecesse que as mulheres poderiam profetizar durante os
cultos, tanto quanto os homens, entretanto, impõe-lhes uma participação
diferenciada destes no acto de profetizar? Se o dom profético daria às mulheres
igualdade com os homens nas funções litúrgicas, por que exigir-lhes que orem e
profetizem com a cabeça
coberta, expressão cultural de que estavam debaixo de autoridade? (1 Cor.
11, 3-15).
Além do mais, não está claro que no Novo Testamento
o acesso ao presbiterado era baseado exclusivamente na posse dos dons
espirituais, ou que pessoas dotadas espiritualmente eram necessariamente
ordenadas. Não nos parece ser este sempre o caso. Embora a aptidão para ensinar
(dom de ensino/mestre? Cf. Rom. 12, 7; Ef. 4, 11) e capacidade de governar (1 Tim.
3, 4-5; dom de governo? Rom. 12, 8) sejam requisitos claros nas duas únicas
listas que temos no Novo Testamento das qualificações dos presbíteros e bispos
(cf. 1 Tim. 3, 2; Tito 1, 9), não há evidências no
Novo Testamento de que todos que tinham estas capacidades (ou dons) tivessem de
ser, necessariamente, ordenados.
A interpretação igualitarista das três passagens examinadas acima não é convincente. Embora estas passagens mostrem que as mulheres tiveram papel importante no nascimento e desenvolvimento da Igreja Cristã, não mostram que elas tiveram de ser ordenadas para isto. Demonstram que as mulheres cristãs, juntamente com os homens, participam da graça de Deus, e dos dons do Espírito, sem restrições. Entretanto, nada têm a dizer sobre ordenação ao ministério ou ao presbiterato.
Passagens do
Novo Testamento que impõem restrições ao
Ministério Feminino
Examinemos, em seguida, outras passagens
do Novo Testamento igualmente relevantes para a discussão, e que impõem
restrições ao ministério feminino nas Igrejas Locais. Essas passagens não podem
ser deixadas de fora de qualquer tratamento sério do assunto. É verdade que
nenhuma delas diz explicitamente que as mulheres não podem ser “ordenadas como
presbíteras, diaconisas, ou bispas”. Entretanto, todas elas impõem restrições
ao ministério feminino, e exigem que as mulheres cristãs estejam submissas à
liderança masculina. Essas restrições têm a ver primariamente com o ensino por
parte de mulheres nas Igrejas. Já que o governo das Igrejas e o ensino público
oficial nas mesmas são funções de Presbíteros e Bastores
(cf. 1 Tim. 3, 2,4-5; 5, 17; Tito 1, 9), infere-se
que tais funções não fazem parte do chamado cristão das mulheres.
1 Coríntios 11, 3-16 -
Escrevendo ao crentes de Corinto acerca de questões relacionadas com o culto
público, Paulo aborda o problema causado por algumas mulheres que estavam
orando, profetizando (e provavelmente falando em línguas) com a cabeça
descoberta, isto é, sem o véu, contrariando assim o costume das Igrejas Cristãs
primitivas (1 Cor. 11, 16). A passagem é extremamente difícil de interpretar, e
depende dos detalhes de um contexto histórico que não pode ser totalmente
recuperado. Entretanto, os pontos principais do apóstolo na passagem são
suficientemente evidentes.
1. Profetizando e orando com o véu
Ao que tudo indica, as mulheres de Corinto haviam
entendido que o Evangelho havia abolido, não somente as diferenças raciais,
como também qualquer diferença de função na Igreja entre homens e mulheres
crentes. Possivelmente, estavam interpretando o ensino de Paulo acerca da
igualdade do homem e da mulher na salvação, como tendo consequências imediatas
quanto ao culto e ao serviço cristãos. Assim, estavam querendo abolir dos
cultos públicos o uso do véu,
que na cultura da época era a expressão externa do conceito da subordinação da
mulher ao homem.
Aparentemente, algumas estavam reivindicando
"direitos iguais" com um espírito contencioso (1 Cor. 11, 16).
Paulo não lhes nega o direito de participar do culto, mas insiste que elas
devem fazê-lo trajando o véu, expressão cultural do princípio permanente da
subordinação feminina. Não usá-lo significava desonra, indecência, vergonha
(1 Cor. 11, 5-6.14). O ensino de Paulo em 1 Coríntios 11 é de que as mulheres
devem participar do culto preservando o sinal de que estão debaixo da
autoridade eclesiástica masculina.
2. O véu como símbolo de submissão à
autoridade
No versiculo 10 Paulo
refere-se ao véu como sinal de autoridade (1 Cor. 11, 10).
O texto grego original diz literalmente que "a mulher deve trazer
autoridade sobre a cabeça" (o)fei/lei h( gunh\ e)cousi/an e)/xein e)pi\
th=j kefalh=j). A
interpretação da maioria dos estudiosos é que e)cousi/an ("autoridade") refere-se
ao véu, e que o mesmo simbolizava que a mulher estava debaixo da autoridade do
homem. Tanto assim, que um grande número de versões inglesas traduzem e)cousi/an como "véu" ou
como "símbolo de autoridade" (NASB, NRSV, NIV, NCV, NKJV, NAS, etc;
ainda a versão Colombe, francesa, e Reina
de Valera, espanhola, e a NVI, em português). Outras versões são mais
explícitas ainda, e traduzem "símbolo da autoridade do homem" (como a
TEV e a LB). (Uma excepção é a versão americana REB, que traduz "símbolo
de sua (da mulher) autoridade". Para um artigo em defesa desta
tradução, ver Morna D. Hooker, "Authority on Her
Head: An examination of 1 Corinthians 11.10",
Em outras palavras, embora Paulo permita que a
mulher profetize e ore no culto público, ele requer dela que se apresente de forma
a deixar claro que está debaixo de autoridade, no próprio acto de profetizar ou
orar. Para Paulo, a expressão externa da subordinação da mulher á sua cabeça (o
homem) durante o culto público seria o uso do véu, já que o mesmo, na cultura
oriental da época (e mesmo em algumas culturas de hoje) expressaria
convenientemente este conceito.
3. Cabeça: autoridade sem superioridade
A argumentação de Paulo para fundamentar a sua
orientação vem de duas direcções. Primeiro, Paulo argumenta teologicamente, a
partir da subordinação de Deus Filho a Deus Pai. O Pai é o cabeça de Cristo,
que por sua vez, é o cabeça do homem, e o homem o cabeça da mulher:
Quero, entretanto, que saibais ser Cristo a cabeça
de todo homem, e o homem, a cabeça da mulher, e Deus, a cabeça de
Cristo. Todo homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua
própria cabeça. Toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça sem véu,
desonra sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada (1 Cor. 11, 3-5).
Tomando-se kefalh/ ("cabeça")
em seu sentido mais natural, de "autoridade", o que temos é uma
declaração de Paulo de que Deus tem autoridade sobre Cristo, Cristo tem
autoridade sobre o homem, e o homem tem autoridade sobre a mulher. Uma cadeia
hierárquica que começa na Trindade
e continua na Igreja e na família. Podemos inferir (guardadas as devidas
proporções) que, da mesma forma como a subordinação de Cristo ao Pai não o
torna inferior - como afirma a fé reformada em sua
doutrina da Trindade - a subordinação da mulher ao homem não a torna inferior.
Assim como Pai e Filho, que são iguais em poder, honra e glória, desempenham
papéis diferentes na economia da salvação (o Filho submete-se ao Pai), homem e
mulher complementam-se no exercício de diferentes funções, sem que nisto haja
qualquer desvalorização ou inferiorização da mulher.
Em várias ocasiões o Novo Testamento determina que
os crentes se sujeitem às autoridades civis (Rom. 13, 1-5; 1 Ped. 2, 13-17). Em nenhum momento, entretanto, este
mandamento implica que os crentes são inferiores ou têm menos valor que os
governantes. Igualmente, os filhos não são inferiores aos seus pais,
simplesmente porque devem submeter-se à liderança deles (Ef.
6, 1). O conceito de subordinação de uns a outros tem a ver apenas com a
maneira pela qual Deus estruturou e ordenou a sociedade, a família e a Igreja. (Cf. Paige Patterson, "The Meaning of Authority
in the Local Church,"
4. Implicações da criação
O segundo argumento de Paulo vem das Escrituras,
mais especificamente do relato da criação em Génesis 2. Para provar que a
mulher é a glória do homem (e portanto a ele subordinada), Paulo escreve: “Porque
o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem” (Gén. 2, 21-23). “Porque também o homem não foi criado
por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem” (Gén. 2, 18; 1 Cor. 11, 8-9).
Paulo vê nos detalhes da criação uma ordenação
divina quanto aos diferentes papéis do homem e da mulher. Não somente a mulher
foi criada do homem, como por causa dele. Para o apóstolo, Deus revelou pela forma
como criou a mulher o seu propósito de que o homem fosse a sua cabeça. E a
intenção divina deveria ser reflectida no culto público. Ou seja, a mulher
deveria participar de forma condizente com sua condição de subordinação.
A implicação de 1 Coríntios 11 para o debate da
“ordenação feminina” é clara. Se a mulher está debaixo da autoridade
eclesiástica exercida pelo homem ao participar do culto, não pode exercê-la
sobre ele. Ser ordenada como “presbítera” ou “bispa” implicaria que ela poderia
ensinar aos homens com a autoridade que o ofício empresta, e participar do
governo da Igreja, exercendo autoridade sobre os homens crentes, o que
contraria frontalmente o princípio ensinado por Paulo na passagem.
Há pontos difíceis de interpretar em 1 Coríntios 11,
como por exemplo a menção de "anjos" no verso 10, e a referência à
"natureza" no verso 14. Entretanto, nenhuma destas dificuldades é
fatal para a compreensão do ponto central de Paulo na passagem, que é a
limitação baseada em género que ele coloca sobre a participação da
mulher no culto.
5. O ensino de Paulo aplica-se hoje?
Evidentemente, os igualitaristas têm
procurado livrar-se das implicações desta passagem, e tentado alternativas
quanto à sua interpretação. Na verdade, alguns simplesmente recusam-se a trazer
a passagem para o debate alegando que o problema que levou Paulo a dizer o que
disse foi causado pela cultura da época, e pelas circunstâncias da cidade de
Corinto. Outros ainda insistem que Paulo estava influenciado pela cultura
patriarcal da sua época, que suas palavras são condicionadas culturalmente, e
portanto, inadequadas para as culturas e sociedades pós-modernas do fim do
século XX e início do século XXI.
Existem algumas deficiências com estas tentativas.
Primeira, não fazem a distinção entre o princípio teológico supra cultural
e a expressão cultural deste princípio. Enquanto que o uso do véu é
claramente um costume cultural, ao mesmo tempo expressa um princípio que não
está condicionado a nenhuma cultura em particular, que é o da diferença fundamental
entre o homem e a mulher. O que Paulo está defendendo é a vigência desta
diferença no culto público - o véu é apenas a forma
pela qual isto ocorreria normalmente em cidades gregas do século I. Segunda,
Paulo defende a participação diferenciada da mulher no culto usando argumentos
permanentes, que transcendem cultura, tempo e sociedade, como a distribuição ou
economia da Trindade (1 Cor. 11, 3) e o modo pelo qual Deus criou o homem (1
Cor. 11, 8-9). Acresce ainda que Paulo defende o uso do véu em Corinto apelando
para o costume das Igrejas Cristãs em geral (1 Cor. 11, 16), o que indica que o
uso do véu não era prática restrita apenas à Igreja de Corinto, mas de todas as
Igrejas Cristãs espalhadas pelo mundo grego.
6. Autoridade ou fonte?
Um ataque desfechado contra a passagem é que a
palavra kefalh/ no verso 3 não significa
"cabeça" e sim "fonte" ou "origem". (Ver, por
exemplo, o artigo de
Richard S. Cervin, "Does Kephale
Mean ‘Source’ or ‘Authority’ in Greek Literature? A Rebuttal",
Entretanto, há vários factos que militam contra a
probabilidade de esta interpretação ser a correcta:
1 - Estudos exaustivos feitos na literatura grega
antiga demonstram que kefalh/, na esmagadora maioria
de suas ocorrências, significa "cabeça" e não "fonte".
Embora em alguns casos kefalh/ possa ter esta
tradução, em nenhum deles é absolutamente certo de que "fonte" ou
"origem" é o sentido pretendido pelo autor. (O estudo mais decisivo
foi feito por Wayne Grudem, no livro de George W. Knight III, The Role
Relationship of Men and Women,
ed. revisada (Chicago: Moody
Press, 1985) 49-80);
2 - Na passagem paralela de Efésios 5, 22-23 kefalh/ claramente significa "cabeça" no sentido
de "ter autoridade sobre". O mesmo encontramos
em Efésios 1, 22. (Cf. o artigo de Thomas R. Schreiner, "Head Coverings, Prophecies and the Trinity: 1 Corinthians 11:2-16,"
7. O
subordinacionismo é herético?
Um outro ataque desfechado pelos igualitaristas é
contra o conceito de subordinação na doutrina da Trindade, já que Paulo
fundamenta a subordinação da mulher à liderança masculina na subordinação de
Cristo à Deus Pai (1 Cor. 11, 3). Alguns feministas evangélicos insistem que a
doutrina da subordinação na Trindade implica em inferioridade do Filho em
relação ao Pai, e que, portanto, é herética. Alguns chegam mesmo a afirmar que
o subordinacionismo foi uma heresia rejeitada pela Igreja no século IV. (Cf. Bilezikian, Beyond Sex Roles, 241). Mais recentemente, alguns feministas evangélicos
têm negado a subordinação do Filho ao Pai. (Ver R.C Kroeger e
C. Kroeger, "Subordinationism",
Estas posições tem sido
rejeitadas
por estudiosos evangélicos como enganosas. Em seu estudo sobre 1 Coríntios 11,
T. Schreiner demonstra como o Credo
Niceno afirmou a subordinação de funções do Filho
ao Pai, e do Espírito ao Pai e ao Filho, sem comprometer a igualdade e a
dignidade pessoal entre as pessoas da Trindade. O que a Igreja rejeitou como
heresia foi uma forma de subordinacionismo que predicava uma
inferioridade de essência entre o Pai, o Filho e o Espírito. (Schreiner, "Head Coverings", 128-30. Cf. ainda Stephen D.
Kovach, "Egalitarians Revamp the Doctrine of the Trinity"
1 Coríntios 11, 2-16, portanto, traz implicações quanto ao “ministério feminino ordenado” que não devem ser ignoradas por aqueles que defendem a ordenação de mulheres a funções eclesiásticas de autoridade e liderança sobre homens. No nosso entender, nenhuma das tentativas dos igualitaristas tem obtido sucesso na domesticação destas implicações.
1 Coríntios 14, 33b-38 -
Esta é uma outra passagem da pena do apóstolo que é de relevância para o debate
sobre o “ministério feminino ordenado”, pois nela Paulo impõe algum tipo de
restrição à fala das mulheres na Igreja: “Como em todas as igrejas dos
santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é
permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se,
porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio
marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja” (1 Cor. 14,
33b-35).
1. O problema textual
Existe um problema textual que temos de enfrentar,
antes de podermos trazer esta passagem para o debate. Embora os versiculos 34-35 apareçam em todos os manuscritos
existentes de 1 Coríntios 14, contudo, nas testemunhas ocidentais (manuscritos
e versões), aparecem após o versiculo 40, ao fim do
capítulo. A maioria dos estudiosos admite a complicação textual envolvendo
estes versiculos, mas também reconhece que a passagem
deve ser original, visto que não é omitida em nenhum dos manuscritos que
temos.
O conhecido estudioso Gordon
Fee tem dado alguma credibilidade à tese de que estes
versiculos não foram escritos por Paulo, mas são
interpolação posterior de um escriba. (Cf. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians,
2. O que Paulo quer dizer por "falar"?
A questão central relacionada com a passagem é que
tipo de restrição Paulo está impondo às mulheres. Essa restrição não parece
ser absoluta, ao ponto de reduzir as mulheres ao silêncio total nos cultos, já
que ele, em 1 Coríntios 11, 5, deixa entender que elas poderiam orar e
profetizar durante as reuniões, desde que se apresentassem de forma própria, refletindo que estavam debaixo da autoridade masculina.
(Apesar disto, ainda há quem procure defender que Paulo está impondo silêncio
absoluto às mulheres. Mas isto só é possível aceitando-se que Paulo está a
contradiz-se na mesma carta, no curto espaço de quatro capítulos, ou que no
capítulo 11 ele refere-se a um tipo de reunião, enquanto que no capítulo
No meu entender, a interpretação que traz menos
problemas é a que defende que Paulo tem em mente um tipo de "fala"
pelas mulheres nas Igrejas que implique uma posição de autoridade eclesiástica
sobre os homens crentes. Elas podiam falar nos cultos, mas não de forma a
parecer insubmissas, cf. v. 34b. No contexto imediato Paulo fala do julgamento
dos profetas no culto (v. 29), o que envolveria certamente questionamentos, e
mesmo a correção dos profetas por parte da Igreja
reunida. Paulo está possivelmente proibindo que as mulheres questionem ou
ensinem os profetas (certamente haveria homens entre eles)
3. O ensino de Paulo se aplica hoje?
A determinação de Paulo está de acordo com o
espírito cristão em todas as demais Igrejas, 14, 33b. Portanto, não é
paroquial, apenas para a situação da Igreja de Corinto. Está conforme a
"lei", uma provável referência às Escrituras, onde claramente se
ensina que Deus atribuiu ao homem e à mulher papéis diferentes na família e na
Igreja, 14, 34b. E as Igrejas de Corinto não deveriam insurgir-se contra o
costume das demais Igrejas e contra o ensino apostólico, 14, 36-38. Elas não
eram a "Igreja mãe", de onde a Palavra de Deus havia surgido, 14, 36.
Seus líderes, os profetas e os "espirituais", deveriam reconhecer a
autoridade apostólica de Paulo e submeter-se ao seu ensino sobre este assunto,
14, 37-38. Fica evidente que Paulo está estabelecendo um princípio
permanente para as Igrejas, e não apenas fazendo jurisprudência teológica
local.
A passagem assim entendida está em consonância com 1
Coríntios 11, onde Paulo faz uma diferença entre a participação do homem e da
mulher no culto. Enquanto que ali Paulo requer delas que se apresentem
submissas à liderança masculina, aqui no capítulo 14 determina-lhes que não
falem de forma a parecer que estão na liderança. As implicações destas
passagens para o debate acerca da “ordenação feminina” são claras. Elas deixam
claro que Paulo não era um igualitarista.
1 Timóteo 2, 11-15 - Em sua
primeira carta a Timóteo, seu colaborador e filho na fé, e que estava
encarregado da Igreja de Éfeso, Paulo faz as seguintes determinações quanto às
mulheres: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito
que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; esteja, porém,
Esta é provavelmente a passagem mais
importante para a discussão sobre o “ministério feminino ordenado”. E tem
padecido muito nas mãos dos intérpretes. A interpretação histórica da passagem
é que, aqui, o apóstolo Paulo determina que as mulheres crentes de Éfeso
aprendam a doutrina cristã em silêncio, submetendo-se à autoridade eclesiástica
dos que ensinam - no contexto, homens (v. 11). Elas,
por sua vez, não tinham permissão para ensinar os homens com esta autoridade,
nem exercê-la nas Igrejas sobre eles, mas deviam submeter-se em silêncio (v.
12). A causa apresentada pelo apóstolo é dupla: Deus primeiro formou o homem, e
depois a mulher (v. 13). E ela foi iludida por Satanás e pecou (v. 14).
Essa interpretação tem o apoio do contexto da carta.
É consenso entre os estudiosos que Paulo a escreveu para instruir Timóteo a
combater uma perigosa heresia que se havia infiltrado na Igreja de Éfeso, que
estava sob a sua responsabilidade. Paulo não dá muitos detalhes na carta sobre
a natureza dessa heresia, provavelmente porque Timóteo estava perfeitamente a
par do problema. Uma reconstrução cautelosa revela-nos os seguintes pontos
(Esta reconstrução é baseada no artigo de Douglas
Moo, "What Does It Mean Not to Teach
or Have Authority
Over Men?"
1 - Os falsos mestres em Éfeso estavam semeando
dissensões e se ocupando com trivialidades (1 Tim. 1,
3-7; 6, 4-5; cf. 2 Tim. 2, 14.16-17.23-24).
2 - Os falsos mestres ensinavam que a prática
ascética era um meio para se alcançar uma espiritualidade mais elevada. Estavam
ensinando a abstinência de certas comidas, do casamento, e do sexo em geral (1 Tim. 4, 1-3). Possivelmente estavam ensinando que o treinamento físico também servia para se alcançar esta
espiritualidade (1 Tim. 4, 8).
3 - Várias mulheres da Igreja estavam seguindo os
falsos mestres e os seus ensinos (1 Tim. 5, 12.15;
cf. 2 Tim. 3, 6-7).
4 - Aparentemente, os falsos mestres
estavam encorajando tais mulheres a trocarem o seu papel costumeiro no lar por
uma atitude mais igualitária com respeito a seus maridos, e aos homens
Embora não saibamos os motivos com exactidão,
transparece claramente que o ensino dos falsos mestres em Éfeso incluía a
rejeição dos papéis tradicionais das mulheres no casamento, e um encorajamento
a que elas reivindicassem papéis iguais na Igreja e nos lares. A situação
parece bastante similar à da Igreja de Corinto, onde as mulheres procuravam
exercer no culto funções até então privativas dos homens cristãos. É contra
este pano de fundo que Paulo determina às mulheres da Igreja de Éfeso que
aprendam em silêncio, que não ensinem nem exerçam autoridade sobre os homens, e
que estejam em perfeita submissão (1 Tim. 2, 12).
(Uma outra corrente de interpretação sugere que o background de 1 Timóteo
2, 11-15 era que mulheres ricas e bem educadas da Igreja de Éfeso estavam
perturbando o ensino dos presbíteros no culto, interrompendo-os e querendo elas
mesmas ensinar. Cf. Paul W. Barnett, "Wives and Women’s
Ministry" (1 Timothy 2, 11-15),
2. O que Paulo quer dizer com
"ensinar"?
O ensino de Paulo neste versículo torna-se mais
claro quando entendido à luz desta reconstrução. Vejamos com mais detalhes
alguns dos pontos mais decisivos de 1 Timóteo 2, 12: primeiro, Paulo diz não
permitir que a mulher ensine nas Igrejas. Ensinar, no Novo
Testamento, é uma actividade bem ampla. Todos os cristãos podem ensinar, quer
por exemplo, quer pelo seu testemunho, quer
Transparece do texto que ele não permite que a
mulher, em posição de autoridade, ensine os homens. Nas Cartas Pastorais, ensinar sempre tem o sentido restrito de instrução
doutrinária autoritativa, feita com o peso da
autoridade oficial dos bispos e presbíteros (1 Tim.
4, 11; 6, 2; 5, 17). Ao que tudo indica, algumas mulheres da Igreja de Éfeso,
insufladas pelo ensino dos falsos mestres, estavam querendo essa posição
oficial para ensinar nas assembleias cristãs. Paulo, porém, corrige a situação
determinando que elas não assumam posição de liderança autorizada nas Igrejas,
para ensinarem doutrina cristã nos cultos, onde certamente homens estariam
presentes. Paulo não está proibindo todo e qualquer tipo de ensino feito por
mulheres nas Igrejas. Profetizas na Igreja Apostólica
certamente tinham algo a dizer aos homens durante os cultos. Para o
apóstolo, a questão é o exercício de autoridade sobre homens, e
não o ensino. O “ministério didático feminino”,
exercido com o múnus da autoridade que os ofícios de
bispo e presbítero emprestam, seria uma violação dos princípios que Paulo
percebe na criação e na queda.
O ensinar que Paulo não permite é aquele em
que a mulher assume uma posição de autoridade eclesiástica sobre o homem. Isso
é evidente do facto de que Paulo fundamenta o seu ensino nas diferenças com que
homem e mulher foram criados (v. 13), e pela frase "autoridade sobre o
homem" (v. 12b). Um equivalente moderno seria a ordenação como ministro da
Palavra, para pregar a Palavra de Deus numa Igreja local. (Ver 2 Timóteo 4, 2,
onde Paulo ordena a Timóteo que pregue a Palavra com toda doutrina).
3. O que Paulo quer dizer com "exercer
autoridade"?
Isto leva-nos ao ponto seguinte. Paulo diz também
não permitir que a mulher exerça autoridade sobre o homem. A tradução
Almeida Actualizada, em sua 2ª edição, traduziu diferentemente esta passagem.
Em vez de preservar a leitura da 1ª edição, "exerça autoridade sobre o
homem", preferiu traduzir o genitivo a)ndro/j
como "de homem". O resultado é "não permito que a mulher... exerça autoridade de homem".
A tradução é gramaticalmente possível, e encaixa-se no contexto geral do ensino
paulino, onde a autoridade didática
e o governo nas Igrejas é função dos homens cristãos. Mas, introduz uma
expressão que é absolutamente nova e estranha ao vocabulário de Paulo. É talvez
preferível permanecer com a tradução anterior, que também é gramaticalmente possível,
além de soar mais como Paulo.
De qualquer forma, fica evidente que a atitude que o
apóstolo exigia das mulheres cristãs de Éfeso, envenenadas pelo ensino dos
falsos mestres, era de submissão e silêncio, quanto ao aprendizado da doutrina
cristã nas assembleias. A proibição de exercer autoridade sobre os homens
exclui as mulheres do ofício de Presbítero, que é essencialmente o de governar
e presidir a casa de Deus (1 Tim. 3, 4-5; 5, 17),
embora não as exclua de exercer outras actividades nas Igrejas. (Os Presbíteros
eram líderes, oficialmente reconhecidos (Act. 14, 23;
Tito 1, .5; Fip. 1, 1) e
ordenados pelas Igrejas pela imposição
de mãos (1 Tim. 5, 22; cf. 1 Tim.
4, 14; Act. 13, 1-3), que tinham três funções
básicas: afadigar-se no estudo e exposição da Palavra (1 Tim.
5, 17), governar a Igreja (1 Tim. 5, 17; cf. 1 Tim. 3, 4-5; Heb. 13, 7.17; Act. 20, 28; 1 Ped. 5, 1-4), e
presidir e promover a ordenação de outros presbíteros (Tito 1, 5; 1 Tim. 3, 1 ss; 5, 22)).
4. Homem e mulher, ou esposa e marido?
Uma outra questão é a tradução das palavras gunh/ e a)nh/r, que tanto podem
significar "mulher" e "homem" no sentido mais geral, quanto
"esposa" e "marido". Alguns estudiosos tem procurado
limitar o alcance da proibição de Paulo ao casamento apenas, e assim preferem a
última tradução. Para eles, Paulo está dizendo que a mulher casada não deve
ensinar ou exercer autoridade sobre o seu marido, sem generalizar quanto aos
homens em geral (Cf. Joyce Baldwin, Women Likewise (London: Falcon, 1973) 21-22). Mas,
esta última interpretação é improvável. O contexto e a maneira de Paulo
construir as suas frases apontam na outra direcção. Como observa Douglas Moo, se Paulo desejasse referir-se a maridos, teria
usado um artigo definido ou um pronome possessivo antes de a)nh/r. Neste caso, a frase ficaria assim: "Não permito
que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre seu marido",
como fez em Efésios 5, 22; cf. Col. 3, 18. Além
disto, o contexto claramente trata de homem e mulher genericamente, cf. 1 Tim. 2, 8-9. (Moo, "What
Does It Mean," 188).
5. Paulo e o "Paulinista"
Alguns ainda rejeitam 1 Timóteo 2, 11-15 por ser
parte de uma carta cuja autoria e genuinidade são disputadas. A grande maioria
dos estudiosos liberais aceita como facto que as Cartas Pastorais (1 e 2
Timóteo, e Tito) foram escritas por um admirador de Paulo, chamado por alguns
estudiosos de "Paulinista", que usou seu
nome e imitou seu estilo, muito tempo depois da sua morte. E que escreveu
coisas contrárias ao verdadeiro Paulo, tais como estas determinações reduzindo
as mulheres ao silêncio e à submissão. Alguns destes estudiosos, como W.O. Walker, acreditam que o apóstolo Paulo era um
igualitarista, que libertou as mulheres dos preconceitos e da dominação
masculina e patriarcal vigentes (Gálatas 3, 28), mas teve sua mensagem
posteriormente deturpada pelo "Paulinista",
que pregava a subordinação das mulheres no nome de Paulo (Cartas Pastorais). (Cf. W.O. Walker, "The ‘Theology of Woman’s
Place’ and the ‘Paulinist Tradition" em Semeia 28 (1983)
101-12). A conclusão deles é que não se pode estabelecer
doutrinas ou princípios práticos para as Igrejas de hoje baseados numa passagem
que não foi escrita pelo verdadeiro Paulo. Os que pensam assim, rejeitam igualmente passagens como 1 Coríntios 11, 2-16;
14, 34-35, como tendo sido escritas posteriormente
pelo "Paulinista".
Não temos espaço neste artigo para expôr os argumentos dos estudiosos conservadores em favor
da genuinidade das Pastorais. (Para uma defesa conservadora clássica da autoria
paulina das Pastorais, ver Donald
Guthrie, New Testament Introduction, 3ª
ed. rev. (Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 1970) 584-621). Podemos apenas dizer que os argumentos
apresentados contra a autoria paulina não são
convincentes a ponto de abandonarmos o que a Igreja vem aceitando faz séculos.
As diferenças de estilo, o vocabulário distinto, e as ênfases doutrinárias
únicas das Pastorais podem, e têm sido, explicadas convenientemente de outros
modos, que não negando a autoria de Paulo. Portanto, não devemos rejeitar as
implicações de 1 Timóteo 2, 11-15 para o debate com base na hipótese de
estudiosos liberais quanto à autenticidade da carta.
Finalmente, existem ainda objecções levantadas
contra a aplicabilidade de 1 Timóteo 2, 11-15 às Igrejas Cristãs
contemporâneas. A maioria destas objecções fundamenta-se no facto de que as
restrições impostas por Paulo às mulheres estão condicionadas pelo problema
particular da Igreja de Éfeso. Segundo os defensores desta posição, 1 Timóteo
2, 11-15 não tem mais qualquer relevância para as mulheres de hoje, visto que
foi escrito para corrigir as mulheres que haviam sido iludidas pela heresia de
Éfeso, que já não existe mais desde o século I. Além do mais, argumentam, não
existe hoje, na maioria das Igrejas Cristãs, algo que corresponda ao ensino
doutrinário autoritativo do século I. Portanto, esta passagem não se constitui
em um empecilho para a “ordenação de mulheres” como bispas e presbíteras.
Estas objecções podem ser respondidas da
seguinte maneira:
1 - Quase que todos os livros do Novo Testamento
foram escritos em resposta a uma situação específica de uma ou mais comunidades
cristãs do século I, e nem por isto intérpretes igualitaristas defendem que
nada do Novo Testamento se aplica às Igrejas Cristãs de hoje. A carta aos
Gálatas, por exemplo, onde Paulo expõe a doutrina da justificação pela fé, foi
escrita somente para combater o legalismo dos judaizantes que procuravam minar
as Igrejas gentílicas da Galácia, em meados do século
I. Ousaríamos dizer que o ensino de Paulo sobre a justificação pela fé não tem
mais relevância para as Igrejas do final do século XX, por ter sido exposto em
reacção a uma heresia que afligia as Igrejas locais no século I? O ponto é que
existem princípios e verdades permanentes que foram expressos para
atender a questões locais, culturais e passageiras. Passam as circunstâncias
históricas, mas o princípio teológico permanece. Assim, o comportamento
inadequado das mulheres de Corinto e de Éfeso, e as heresias que o provocaram,
cessaram historicamente, mas os princípios aplicados por Paulo para
resolver os problemas causados por estas heresias permanecem válidos. Ou seja,
o ensino de que as mulheres devem estar submissas à liderança masculina nas
Igrejas e na família, sem ocupar posições de liderança e governo, é o princípio
permanente e válido para todas as épocas e culturas.
2 - É evidente que há elementos no Novo Testamento
que pertencem à cultura do século I. Por exemplo, nenhum estudioso sério
afirmaria que a orientação de Paulo para que os cristãos se saúdem com
"ósculo santo" (1 Cor. 16, 20) é para ser observada literalmente nas
Igrejas ocidentais contemporâneas. Entretanto, o princípio que está por
detrás desta orientação é permanente, ou seja, que os cristãos devem saudar-se
de forma santa, qualquer que seja a época ou cultura em que vivam. Obviamente,
a forma em que essa saudação ocorrerá dependerá dos costumes locais, mas
o princípio permanece o mesmo.
É exactamente o que ocorre quanto à determinação de
Paulo para que as mulheres de Corinto usem o véu. O princípio por detrás
desta ordem, conforme estudamos acima, é o de se apresentarem nos cultos em
plena submissão à liderança masculina cristã. O uso do véu é a forma contextualizada pelo qual esse princípio se expressava. Hoje em dia,
nas culturas ocidentais, o uso do véu não é uma expressão apropriada deste
princípio.
O princípio permanente que está subjacente em
1 Coríntios 11, 2-16, 14, 34-35 e 1 Tim. 2, 11-12 é o
de que se mantenham as distinções e os papéis intrínsecos ao homem e à mulher
na Igreja e na família. Assim, a mulher não deve inverter os papéis, e ocupar
posição de autoridade sobre os homens, quer seja para governá-los ou
ensiná-los.
3 - O contexto de 1 Timóteo 2, 11-15, finalmente, é
a instrução de Paulo a Timóteo quanto ao culto público da Igreja (1 Tim. 2, 1-10). A intenção de Paulo não é apenas paroquial,
mas universal em sua aplicação, visto que ele quer que os cristãos orem
"por todos os homens" (2, 1), por "todos os que se
acham investidos de autoridade" (2, 2), visto que Deus quer que "todos
os homens sejam salvos" (2, 4). Assim, os varões devem "orar em todo
lugar" (2, 8). O ensino de Paulo, portanto, tem a ver com "todos
os homens... em todo lugar" (Barnett, "Wives and Women’s
Ministry", 225). Isto não quer dizer que não
reconheçamos as circunstâncias particulares da Igreja de Éfeso, mas sim que
elas foram o catalisador histórico para admoestações gerais e permanentes.
7. O carácter permanente do ensino de
Paulo
Uma outra consideração é que Paulo, tanto em 1
Coríntios 11 quanto em 1 Timóteo 2, fundamenta a sua orientação quanto ao
comportamento apropriado das mulheres cristãs nas Igrejas, não em considerações
condicionadas culturalmente, mas em princípios inerentes à própria humanidade.
Após proibir que as mulheres ensinem e exerçam autoridade sobre os homens (1 Tim. 2, 12), Paulo dá a causa para a sua proibição nos versiculos 13 e 14 (note o ga/r
causal introduzindo estes versículos):
1 - O primeiro é baseado na forma como Deus
criou o homem e a mulher, ou seja, o homem foi criado primeiro (v. 13).
A sequência temporal (prw=toj ... ei)=ta), para Paulo, tem
significado teológico e implicações práticas quanto ao “ministério feminino” na
Igreja de Cristo. O facto de que o homem foi criado primeiro indica a sua
liderança sobre a mulher. E o facto de que a mulher foi criada em seguida, como
auxiliadora, indica sua posição de submissão (cf. Génesis 2). Para o apóstolo,
se uma mulher ensina (prega) a doutrina com autoridade sobre homens, está
violando este princípio inerente à criação. É importante observar que Paulo
enraíza sua proibição nas circunstâncias da criação, e não da queda,
somente. Portanto, como observa Moo, ele não considera estas restrições sobre
as mulheres como sendo apenas resultado da queda, e portanto, também não espera
que sejam removidas com a redenção que há em Cristo (Moo, "What Does It Mean,"
190).
1 Timóteo 2, 13 é um versículo simples e directo,
que intérpretes igualitaristas têm dificuldade
2 - O segundo motivo é fundamentado no
facto de que não foi Adão, mas sim Eva, quem foi iludida por Satanás e
desobedeceu á lei de Deus (v. 14). Para alguns, Paulo está citando a maneira
pela qual o primeiro casal caiu em pecado para mostrar que a mulher é mais
crédula ao erro religioso, e mais susceptível de ser enganada por Satanás (cf.
2 Cor. 11, 3); portanto, não deve ocupar funções de ensino doutrinário nas
Igrejas, para que não caiam em heresia, e induzam
outros. Embora possa haver alguma verdade neste pensamento, é mais provável que
Paulo esteja citando o incidente para mostrar o que ocorreu quando Eva tomou a
liderança que havia sido dada a Adão.
Uma leitura cuidadosa de Génesis 3 mostra como a
mulher entrou em diálogo com o tentador (Gen. 3,
1-5), e como, assumindo a liderança, tomou do fruto e deu-o a seu marido,
levando-o ao pecado (3, 6). As palavras do Senhor Deus ao homem, "porque
atendeste a voz da tua mulher" (3, 17), soam, assim, como uma
repreensão por Adão ter aceitado a liderança da sua esposa na transgressão. E o
castigo imposto por Deus à mulher, de que seria dominada pelo homem, encaixa-se
com essa dimensão do pecado da mulher (3, 16). Portanto, o que Paulo quer
mostrar em 1 Timóteo 2, 13, não é que o homem não peca, ou que não pode ser
enganado por Satanás, mas sim, o que ocorre quando homem e mulher revertem os
papéis que Deus lhes determinou. (Cf.
John Piper and Wayne Grudem, "An Overview of Central Concerns: Questions
and Answers",
O apelo de Paulo às Escrituras demonstra que, para ele, as causas dos diferentes papéis do homem e da mulher estão enraizadas nas circunstâncias em que a criação e a queda aconteceram, e não em demandas provisórias das Igrejas e nem em aspectos culturais da época.
A nossa análise das passagens mais usadas
para defender a “ordenação de mulheres ao presbiterato ou episcopado”
demonstrou que elas não dão suporte às pretensões do programa igualitarista.
Por outro lado, a nossa análise das três principais passagens usadas como
evidência de que Deus não intentou que as mulheres cristãs ministrassem nas
Igrejas aos homens, de uma posição de autoridade, quer ensinando-os ou
governando-os, mostrou que a interpretação diferencialista destas passagens
encaixa-se nos seus contextos, honra a aplicabilidade dos princípios bíblicos
para nossos dias, e responde satisfatoriamente às objecções.
Desta forma concluímos que não há respaldo
bíblico suficiente para que se recebam “mulheres ao presbiterato ou bispado” de
Igrejas cristãs locais, onde irão, como tais, presidir, governar, e ensinar
doutrina aos homens. Na realidade, as evidências bíblicas apontam em outra
direcção. Estas passagens não podem ser ignoradas pelos que almejam o
“ministério ordenado de mulheres” nas Igrejas. Somente com as ferramentas da
crítica bíblica radical, que abstraem estas passagens dos manuscritos, isolam-nas
da realidade actual das Igrejas, e domesticam o poder de suas implicações, é
que se pode contornar o seu ensino óbvio.
Uma palavra final. Os presbíteros exerciam a
autoridade e o governo nas Igrejas, mas não eram absolutos. Poderiam ser
repreendidos, se falhassem (1 Tim. 5, 19-20), e
deveriam exercer a sua autoridade não como dominadores, mas como exemplos (1 Ped. 5, 5). A sua autoridade era limitada pelo ensino de
Jesus e dos apóstolos, que hoje se encontram nas Escrituras. Não poderiam ir de
encontro a este ensino, como hoje presbíteros, conselhos e concílios em geral
também não podem. Nenhum concílio eclesiástico, argumentando a partir das
mudanças sociais do tempo presente, tem poderes para ir além da Escritura, ou
contradizê-la, “ordenando mulheres como presbíteras ou bispas”.
*******************************
A Santa Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, como
verdadeira Igreja
Ortodoxa, e fiel aos princípios da Santa Ortodoxia, não pode aceitar nem
aceita como válida ou lícita qualquer “ordenação ministerial de mulheres”, quer
seja para o diaconado, presbíterado ou episcopado, seja por que motivo for, e
sob qualquer pretexto. Tal decisão, pelo seu carácter particular e
suma-importância para toda a Igreja Universal, teria de ser aprovada por um Concílio
Ecuménico, para que pudesse ser válida e aceite, o que de facto não acontece
nem nunca aconteceu.
Não se trata de uma oposição ou discriminação para
com as mulheres, irmãs nossas
Naquelas várias situações em que a “ordenação” é
presidida por um Bispo validamente ordenado e com uma Sucessão Apostólica
reconhecida (o que nem sempre acontece na Igreja Anglicana, que geralmente
possui unicamente um Episcopado Histórico), não existe qualquer transmissão do
Múnus Episcopal, ou do poder do Santo
Sacramento da Ordem, quer seja no grau diaconal ou presbiteral. Para todos
os efeitos, qualquer acto celebrativo que se realize com esse fim, não tem
qualquer poder sacramental.
A Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, reconhece todas as linhas de Sucessão Apostólica válidas,
desde que a mesma não possua nenhuma “mulher ordenada” na mesma linha de
Sucessão Apostólica.
Todas as Igrejas com Episcopado válido e reconhecido
que aceitam a “ordenação de mulheres ao Episcopado”,
quebram a transmissão da mesma linha Sucessão Apostólica, a qual nunca se
recuperará.
Uma mulher que recebe a “ordenação diaconal,
presbiteral ou episcopal”, não a recebe na realidade, pois não recebe
validamente a Sucessão Apostólica nem o Poder do Santo Sacramento da Ordem. Um
homem que recebe a “ordenação diaconal, presbiteral ou episcopal” das mãos de
uma “mulher bispo”, também não a recebe na realidade, pois não recebe
validamente a Sucessão Apostólica nem o Poder do Santo Sacramento da Ordem.
Esta posição da Igreja Católica Ortodoxa Hispânica,
não afecta como é óbvio, qualquer decisão em sentido contrário de outras
Igrejas Cristãs, que pensam diferente ou que aderiram á reforma protestante.
Porém, esta é a nossa posição acerca da “ordenação ministerial das mulheres”.
Façamos agora breve reflexão acerca de
alguns acontecimentos na sociedade e nas Igrejas Cristãs:
Igreja Católica Apostólica
Romana
No ano de 2002, quando ainda Cardeal,
Monsenhor Joseph Ratzinger, hoje o Papa Bento
XVI, era o mais alto responsável pela ortodoxia da doutrina dentro
da Igreja Católica Apostólica Romana, como Prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé. Nessa altura, a Igreja Católica Romana, sob a presidência do
seu mais alto representante, Sua Santidade o Papa São João
Paulo II, excomungou sete mulheres que tinham sido ordenadas
sacerdotisas numa cerimónia realizada num barco que navegava no rio Danúbio,
entre a Alemanha e a Áustria.
Três anos depois, em 02 de Julho de 2005, aconteceu
uma cerimónia de ordenação numa embarcação, e foi dirigida por outras três
mulheres que se declaram bispas: a austríaca Christine
Mayr-Lumetzberger, a alemã Gisela Forster
e a sul-africana Patricia Fresen.
As três mulheres
receberam a ordenação de um “Bispo” argentino cismático da Igreja Católica e
Apostólica Carismática de Cristo Rei, Rómulo Antonio Braschi, e na época foram excomungadas pelo Vaticano. A
nova mulher que foi ordenada, Genevieve Beney, é uma ex-professora de
ginástica casada com um protestante que estudou Teologia na Universidade de
Estrasburgo, entrou num movimento internacional chamado "Iniciativa de
Mulheres Ministras Ordenadas na Igreja Católica Romana". O Arcebispo de Leon, Philippe Barbarin, lamentou a "estratégia de provocação, de
desafio e de ruptura escolhida por Genevieve Beney, pedindo que a ex-professora
desistisse desse "acto grave de ruptura", afirmando que a cerimónia
não teria "nenhuma verdade nas palavras pronunciadas, nem nos actos
feitos". O secretário-geral da Conferência Episcopal francesa, Stanilas Lalanne, lembrou que "para a Igreja é importante respeitar o facto de
que os homens e mulheres tem igualdade de dignidade, mas não estamos
necessariamente chamados a ter as mesmas funções".
Alguns dias depois, uma nova ordenação acontecia. Joy Barnes,
directora da «Conferência de Ordenação de Mulheres» (COM), movimento que se
dedica totalmente á ordenação de mulheres na Igreja Católica Apostólica Romana,
e que organizou a cerimónia realizada no passado dia 25 de Julho de 2005, no
rio São Lourenço (na fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos), afirmou que
a ordenação de quatro mulheres sacerdotisas e cinco diaconisas não é era
desafio à autoridade do Papa Bento XVI.
O sínodo, na cidade de York,
da Igreja Anglicana, vinha debatendo a questão, 11 anos depois da “ordenação
das primeiras mulheres sacerdotes”. O Bispo de Southwark, Reverendo Tom Butler, propôs a moção, que recebeu o apoio de 41 bispos e
a rejeição de seis. Apoiaram a resolução 167 membros do clero, enquanto 46 se
posicionaram contra. O líder da Igreja Anglicana, o Arcebispo de Cantuária,
Reverendo Rowan Williams,
fez um discurso antes da votação. Os tradicionalistas alegaram que não há
precedente bíblico, já que os apóstolos de Cristo eram todos homens. Alguns
delegados, principalmente mulheres, entoaram cantos e gritaram alguns slogans
do lado de fora do debate, pedindo que as mulheres possam tornar-se bispos
imediatamente. O Bispo de Chichester, Reverendo John Hind opôs-se à medida, advertindo aos delegados que isso
pode exacerbar as divisões existentes na Igreja.
A Igreja Anglicana está dividida sobre uma série de
assuntos, principalmente sobre a ordenação de um clérigo homossexual. No ano
passado (2004) líderes da Igreja pediram que a Igreja Episcopal dos Estados
Unidos da América pedissem desculpas pela ordenação do homossexual assumido,
Reverendo Gene Robinson como Bispo de New Hampshire, um facto que havia enfurecido os
tradicionalistas, assim como o facto da Igreja Canadiense ter abençoado a união
entre pessoas do mesmo sexo.
Igreja
Adventista do Sétimo Dia (Portugal)
A União Portuguesa do Sétimo
Dia já admitiu a ordenação de anciãs
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)