POSIÇÃO DA IGREJA CATÓLICA ORTODOXA HISPÂNICA

ACERCA DA ORDENAÇÃO MINISTERIAL DE MULHERES

 

 

Há algum tempo, que têm aparecido nos meios de comunicação social, algumas notícias acerda “ordenação ministerial de mulheres”, que têm vindo a receber a “ordenação diaconal, presbiteral e episcopal”, das mãos de Bispos com válida Sucessão Apostólica ou que possuem um Episcopado Histórico. É nosso dever expor a Sã Doutrina da Santa Igreja de Jesus Cristo, a qual professamos, e que permanece inalterável na Santa Ortodoxia, á qual pertencemos.

 

Um olhar sobre a autoridade / mulher na Sagrada Escritura:

O que foi estabelecido na criação por Deus com relação á raça humana não deve estar fora de "moda" para aquele que acredita e confia no amor e cuidado divino a uma geração pecadora. Foi o próprio Deus quem primeiro criou o homem e o colocou como a cabeça perante a mulher, a qual chamou de "adjutora". Da costela de Adão, Deus fez a Eva, simbolizando autoridade sobre sua companheira (Cor. 11, 3.7-9). Estes detalhes são precisamente relembrados pelo Apóstolo Paulo como sendo estabelecidos por Deus antes da queda do homem. A autoridade que o homem deve exercer sobre a mulher não é o resultado da queda do homem, mas sim do padrão que o próprio Criador estabeleceu para o bem da família humana antes da queda do homem.

O machismo praticado e desenvolvido em muitos países tem levado muitas pessoas a não entenderem o sentido bíblico de autoridade. Mas é o próprio Deus que estabeleceu a forma de como se deve exercer esta autoridade, Paulo é muito claro: "Porque o marido é a cabeça da mulher, como, também, Cristo é a cabeça da igreja..." (Efésios 5, 23). E acrescenta: "Vós, maridos, amai as vossas mulheres, como, também, Cristo amou a igreja e a si mesmo e se entregou por ela" (Efésios 5, 25).

As diferenças estabelecidas por Deus existem para que elas tipificassem a unidade que existe entre Deus, Cristo e o Espírito Santo que embora tendo um papel diferente tornam-se "Um". O homem e a mulher devem também tornar-se uma só carne, embora tenham papéis diferentes. Neste contexto é impossível haver discriminação, exploração ou pensar que um é mais inteligente ou melhor que o outro. Ambos necessitam da participação do outro para se complementarem cumprindo ao mesmo tempo uma ordem divina.

Embora Paulo fosse um agente fiscalizador-organizador da igreja primitiva é bom ter em mente que Cristo fundou a Igreja Cristã, da qual Ele é a cabeça. Lembremo-nos que Cristo chamou doze homens que também simbolizavam autoridade, assim como as doze tribos de Israel. Mas, Cristo não escolheu homens porque era tradição estarem homens na liderança da igreja, pois Ele morreu precisamente por quebrar tradições escandalizando muitos dos judeus ortodoxos. As razões de sua escolha foram precisamente padronizadas desde a criação, passando a seguir para o templo para assim dar seguimento no novo pacto estabelecido que nada mudou nesta questão.

É importante salientar que há diferenças consideráveis entre profeta, sacerdote e rei. Estas funções requeriam um papel diferente na sociedade e tabernáculo. Notemos que houve mulheres profetizas e rainhas no Velho Testamento dentro da nação judaica, mas nunca sacerdotisas.

No Egipto e Babilónia e outros povos pagãos, haviam sacerdotisas o que para os judeus, que muitas vezes se identificavam com práticas pagãs, não deveria ser supostamente escandaloso terem sacerdotisas em seus templos. Contudo, é inexistente qualquer referência a sacerdotisas no templo do povo de Deus em toda a Bíblia. O que quer dizer, que não era por causa da mentalidade da época que não haviam "sacerdotisas e bispas" mas sim e unicamente por razões de ordem divina. É interessante salientar que, nos povos pagãos que tinham mulheres sacerdotisas era em muita de sua liturgia manifestada cenas de orgia e homossexualismo como uma simples ordem dos deuses, revelando total falta de princípios familiares, semelhantes aos judeus do papel do homem e da mulher. Vêmos aí o resultado de se extinguir o conceito familiar estabelecido por Deus.

No plano de Deus para a restauração humana, o princípio familiar deve ter o seu seguimento na Igreja. Infelizmente, como a família esta degradada e não exerce o seu poder de influência, muitos não compreendem a razão pela qual a Igreja deve ter um homem como autoridade principal.

De facto muitas vezes não nos apercebemos que Deus estabeleceu valores na Igreja que são iguais aos da família. É no entanto o próprio Apóstolo Paulo que, inspirado por Deus, confirma no plano da redenção os mesmos princípios do plano da criação com respeito á autoridade e liderança paterna. "Porque se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?"  (1 Tim. 3, 5).   

Talvez o texto bíblico que mais é usado para os defensores da “ordenação da mulher” nas Igrejas e seminários seja Gálatas 3, 28.

Os seus defensores alegam que a autoridade eclesiástica masculina é o fruto da cultura machista judaica primitiva e que, portanto, agora no novo concerto isto deve ser mudado. Temos que admitir que estas palavras soam bem numa época que é moda falar em justiça social, tolerância e solidariedade. Só que a felicidade ou justiça só podem tornar-se uma realidade se implantarmos princípios divinos, não conceitos humanos de justiça. "Nisto não há judeu nem grego, não há servo nem, livre, não há masculino nem feminino; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus" (Gál. 3, 28).

A tensão que se passava com os irmãos de Gálatas era se a salvação provinha da fé ou das obras. Paulo fez esta declaração porque na tradição judaica era exigida a circuncisão para que alguém fosse salvo. Só que os irmãos judeus (recém-cristãos) ao evangelizarem os gentios "naturalmente" ainda levavam as cargas de suas "leis mosaicas", neste caso a circuncisão era ainda praticada e consequentemente imposta aos novos conversos gentios.

Na tradição judaica o escravo não podia passar por este ritual e quanto á mulher, esta participava desta aliança através da circuncisão do marido (Daí o desespero das mulheres que não podiam casar-se). Na verdade os judeus-cristãos queriam que os gentios se tornassem cristãos ainda praticando a circuncisão. Mas o sábio Apóstolo Paulo salienta que é através do Baptismo que todos entram de posse do novo pacto, homem e mulher, escravo e livre, sem diferenças, porque todos pecaram.

No plano da redenção a raça humana sofre igualmente, pois todos, sem excepção pecaram, e neste caso ninguém está em condição diferente. O homem judeu não estava em vantagem para com o gentio ou para com a mulher. A mulher, no novo pacto, através da sua fé e Baptismo faz um pacto com Deus, e não é mais dependente do seu marido!

A ordem da redenção não anula a ordem da criação, pelo contrário aplica-a. Na verdade, a ordem da redenção pretende restaurar a ordem da criação, dando à humanidade a sua real dignidade. Este "novo" conceito estava totalmente fora dos padrões da época e portanto temos que desacreditar quanto às acusações de muitos cristãos quando afirmam que Paulo era machista. Nem Cristo, nem Paulo poderiam ser machistas, inúmeras vezes Cristo foi visto com mulheres na árdua missão de restabelecer um ser que era explorado pelo sistema e tradições judaicas. Paulo comissionou "apóstolas" e trabalhou com elas. Neste caso é importante citar que a palavra apóstolo, não significa necessariamente alguém com posição de autoridade eclesiástica, pois o seu significado literal é de enviado.  

A mulher tem um papel fundamental na sociedade, família e Igreja, a sua missão não foi estabelecida pela cultura da época ou conceitos humanos de justiça. Seu papel foi e deve ser alicerçado em bases sólidas de princípios divinos estabelecidos no Éden antes da queda do homem. A mulher pode pregar, ter cargos na Igreja mas, não pode exercer autoridade posicionando-se como líder, nomeadamente “bispa, presbítera ou diaconisa”.

A mulher, se for apenas mãe ou doméstica é muitas vezes ridicularizada na sociedade, mas ao cumprir o papel que Deus lhe concedeu torna-se uma honra e privilégio. Exercer qualquer autoridade na Igreja não foi concedido à mulher, não porque ela seja um ser inferior, incapaz. A mulher revelou sempre inteligência igual aos homens.

Na verdade Deus não deseja que a humanidade tenha um conceito feminino da divindade, o que a Nova Era insiste em propor. Deus revela-nos a paternidade como a referência e concepção que todo o ser humano deve ter dele. As modernas influências feministas, em muitos níveis da nossa sociedade e Igreja, são (nos casos negativos do contexto a que me refiro) na verdade os frutos da influência pecaminosa que Satanás quer que tenhamos da concepção humana. Tendo sucesso nesta área, Satanás, consequentemente, faz com que o ser humano obtenha uma falsa concepção de Deus e da Sua maior instituição para a preservação da humanidade, através da família. 

 

Passagens do Novo Testamento usadas para defender a Ordenação Feminina

ao Diaconado, Presbiterato e Episcopado:

 

Romanos 16, 7 - Ás vezes é defendido por igualitaristas que havia mulheres na Igreja Primitiva que funcionavam como apóstolos. A passagem usada para avançar este ponto é Romanos 16, 7, aonde o Apóstolo Paulo, na sua saudação à Igreja de Roma, menciona uma pessoa por nome Júnias: “Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim” (Rom. 16, 7).

Os defensores desta tese argumentam que Júnias é um nome feminino, e que a mulher com este nome era uma "apóstola", em pé de igualdade com Andrônico. Do ponto de vista dos defensores da “ordenação feminina”, a passagem prova que o Apóstolo Paulo reconhecia que uma mulher pode exercer uma posição de autoridade sobre homens na Igreja Apostólica. E se elas eram admitidas ao apostolado, obviamente eram-no a cargos eclesiásticos, como presbiterado e diaconado.

Mas não é tão simples assim. Há várias questões relacionadas com a interpretação deste texto. A primeira questão depende da solução de um problema textual. (Cf. o estudo de U-K. Plisch, "Die Apostelin Junia: das Exegestische Problem im Röm 16, 7 im Licht von Nestle-Aland 27 und der Sahidischen Überlieferung", em New Testament Studies 42 (1996) 477-78). Existem três variantes do nome Júnias nos manuscritos gregos de Romanos 16, 7. As duas primeiras divergem quanto à acentuação da palavra Júnias no grego:

1 - Iounia = n, que seria o acusativo de Iounia=j, (Júnia) masculino;

2 - Iouni/an, que seria o acusativo de Iouni/a, (Júnia) feminino. A terceira variante é Iouli/an, que corresponderia ao feminino Júlia.

A segunda questão depende da interpretação da expressão "notável entre os apóstolos". Significa que Júnias era um dos apóstolos, já antes de Paulo, e um apóstolo notável? Ou apenas que os apóstolos, antes de Paulo, tinham Júnias em alta conta? As questões mencionadas acima são complexas, e sem respostas definitivas. Examinemos uma a uma.

 

1 - Júnias é masculino ou feminino?

A variante melhor atestada, segundo o texto grego da UBS, 4ª edição (e de Nestle-Aland, 27ª edição), é Iounia = n , acusativo de Júnia, masculino (atestada pelos manuscritos ) A B* C D* F G P, embora sem acentos). A variante (Júlia) é fracamente atestada, aparecendo apenas no p. 46 e em algumas versões antigas.

Numa pesquisa feita por computador nos escritos gregos existentes desde a época de Homero (século 9 a.C.) até ao século 5 d.C. foram achadas apenas três ocorrências do nome Júnias, além de Romanos 16, 7. Plutarco cita uma irmã de Brutus, chamada Júnias; Epifânio, o Bispo de Salamina em Chipre, menciona Júnias de Romanos 16, 7 como sendo um homem que veio a ocupar o Bispado de Apaméia da Síria; e João Crisóstomo refere-se a Júnias de Romanos 16, 7 como sendo uma irmã notável até mesmo aos olhos dos apóstolos. (Cf. John Piper e Wayne Grudem, "An overview of Central Concerns: Questions and Answers," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 79-807).

Os resultados são inconclusivos. Parece evidente que Júnias era nome tanto de homem quanto de mulher no período neo-testamentário. O problema é que não sabemos em que género Paulo o usou em Romanos 16, 7. Isto explica o surgimento de variantes divergindo na acentuação, e o surgimento da variante , que é claramente uma tentativa de resolver a ambiguidade.

Se temos de tomar uma decisão, devemos dar mais peso à palavra de Epifânio, pois ele sabe mais sobre Júnias do que Crisóstomo, já que informa que Júnias tornou-se Bispo de Apaméia. Concorda com isto o testemunho de Orígenes (morto em 252 d.C.), que num comentário em latim à carta aos Romanos refere-se a Júnias no masculino.

Nomes gregos masculinos terminando em -aj não são incomuns, mesmo no Novo Testamento: André (Andre/aj, Mt. 10, 2), Elias (Eli/aj, Mt. 11, 14) e Zacarias (Zaxari/aj, Lc. 1, 5). (A. T. Robertson, Grammar of the Greek New Testament (New York: Hodder and Stoughton, 1914) 171-173).  Para alguns comentaristas, Júnias é a abreviação de Junianius, um nome masculino - mas não há evidências claras disto. A conclusão é que não podemos saber com certeza se Júnias era uma mulher - mais provavelmente era um homem. É por isto que a maioria das traduções modernas, onde possível, traduzem Júnias como masculino (e não Júnia, feminino). (Com exceção da KJV, o que é aplaudido por feministas como Berkeley Mickelsen e Alvera Mickelsen, "Does Male Dominance Tarnish Our Translation?" em Christianity Today (05 de Outubro de 1979) 23-29).

 

2. Era Júnias um(a) apóstolo(a)?

Mais uma vez perguntamos, é possível termos uma resposta definida para a pergunta "era Júnias um(a) apóstolo(a)?" Gramaticalmente, a expressão "os quais são notáveis entre os apóstolos" (oi (/tine/j ei) sin e) pi/shmoi e) n toi=j a) posto/loij) tanto pode indicar que Andrônico e Júnias eram apóstolos, quanto que eram tidos em alta conta pelos apóstolos existentes. E mesmo que aceitemos que eram apóstolos, ainda resta o facto de que a palavra apóstolo no Novo Testamento é usada, não somente para os Doze, para Paulo, e para algumas pessoas associadas a ele, como Barnabé, Silas e Timóteo (cf. Act. 14, 14; 1 Tes 2, 6), mas para mensageiros e enviados (este é o sentido primário de a) po/stoloj) de Igrejas locais, como Epafrodito (Fip. 2, 25) e uns irmãos mencionados em 2 Coríntios 8, 23. Estes não parecem exercer governo ou autoridade sobre as Igrejas locais, eram simplesmente enviados por elas. Portanto, se Andrônico e Júnias eram apóstolos, deveriam pertencer a este tipo de mensageiros das Igrejas locais, com um ministério itinerante. Estes "apóstolos" não tinham autoridade de governo em Igrejas locais; antes, eram enviados por elas para desempenhar diferentes funções como representantes ou emissários.

Em última análise, só podemos afirmar com certeza, a partir de Romanos 16, 7, que, quem quer que tenha sido, Júnias era uma pessoa tida em alta conta por Paulo, e que ajudou o apóstolo em seu ministério. Não se pode afirmar com segurança que era uma mulher, nem que era uma "apóstola", e muito menos uma como os Doze ou Paulo. (Cf. James B. Hurley, Man and Woman in Biblical Perspective (Grand Rapids: Academie, 1981) 121-122) 

A passagem, portanto, não serve como evidência bíblica para a “ordenação feminina” no período apostólico. E essa conclusão está em harmonia com o facto de que Jesus não escolheu mulheres para serem apóstolos. Não há nenhuma referência indisputável a uma "apóstola" no Novo Testamento. (Alguns têm sugerido que Jesus não escolheu mulheres para o colégio apostólico porque estava restrito pela cultura da sua época: mulheres apóstolas não seriam aceitáveis para os judeus da época, e colocariam em perigo a missão de Jesus (cf. G. Bilezikian, Beyond Sex Roles [Grand Rapids: Baker, 1985] 236). Mas este argumento é somente especulativo, e ao final, coloca Jesus numa situação difícil. Veja a sua refutação em Piper e Grudem, Recovering, 221-222)-

 

Gálatas 3, 28 - Esta passagem, aclamada pelos feministas como a "Carta Magna da Humanidade", (Por exemplo, Paul K. Jewett, Man as Male and Female (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) 142) é, sem dúvida, a mais usada pelos defensores da “ordenação de diaconisas e presbíteras”: não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo.

A abordagem igualitarista tradicional desta passagem interpreta a expressão "porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (pa/ntej ga\r u(mei=j ei(=j e)ste e)n Xristo= )Ihsou=) como significando "porque todos vós sois iguais em Cristo Jesus". Ou seja, interpretam o adjectivo pronominal cardinal e(=ij ("um") no sentido de "igual". De acordo com os igualitaristas, esta passagem mostra, então, que estão abolidas todas as diferenças na Igreja provocadas por raça, posição social e sexo. Com a vinda de Cristo, acabou-se a distinção entre judeus e gentios, entre escravos e livres, e entre homens e mulheres: todos são aceitos na Igreja, inclusive para exercer actividades, como iguais. (Cf. Robin Scroggs, "Entrar na comunidade cristã significa, portanto, filiar-se a uma sociedade na qual funções do tipo homem-mulher, e avaliações baseadas nestas funções, têm sido descartadas" ("Women in the NT" em The Interpreter’s Dictionary of the Bible, volume suplementar [Nashville: Abingdon Press, 1976] 966)). Assim, argumentam, em Cristo voltamos ao propósito original de Deus na criação, que foi a plena igualdade entre o homem e a mulher. A subordinação da mulher ao homem, continuam, foi resultado posterior da queda (Gen. 3, 16b), e não fazia parte da criação de Deus. Cristo veio abolir a maldição imposta pela queda, e nele todas as dimensões da maldição imposta à mulher quedam-se anuladas. Impedir que as mulheres exerçam o oficialato, argumentam, seria introduzir uma distinção na Igreja baseada em sexo, o que contraria frontalmente o ensino de Paulo nesta passagem.

 

1. O contexto da passagem

Não se pode discordar de que o Evangelho é o poder de Deus para abolir as injustiças, o preconceito, a opressão, o racismo, a discriminação social, bem como a exploração machista. E nem se pode discordar de que Cristo veio resgatar-nos da maldição imposta pela queda. A pergunta é se Paulo está falando da abolição da subordinação feminina e de igualdade de funções nesta passagem, ou seja, se está dizendo que as mulheres podem exercer os mesmos cargos e funções que os homens na Igreja, já que são todos aceites sem distinção por Deus através de Cristo, pela fé.

A interpretação igualitarista de Gálatas 3, 28 esbarra em alguns problemas exegéticos. Primeiro, o do contexto. Paulo escreveu Gálatas para responder a questões levantadas pela doutrina da justificação pela fé em Cristo em face às demandas da lei de Moisés, e ao papel da circuncisão, do calendário religioso dos judeus, e das suas leis. No capítulo 3, Paulo está expondo o papel da lei de Moisés dentro da história da salvação, que foi o de servir de aio, para nos conduzir a Cristo (Gal. 3, 23-24). Com a vinda de Cristo, continua o apóstolo, os da fé não mais estão subordinados à lei de Moisés: pelo Baptismo pertencem a Cristo (Gal. 3, 25-27). A abolição das diferenças mencionadas no versículo em questão (Gal. 3, 28) são em relação à justificação pela fé. Todos, independente da sua raça, cor, posição social e sexo, são recebidos por Deus da mesma maneira: pela fé em Cristo. Portanto, Gálatas 3, 28 não está tratando do desempenho de papéis na Igreja e na família, mas da nossa posição diante de Deus. O assunto de Paulo, portanto, não são as funções que homens e mulheres desempenham na Igreja de Cristo, mas a posição que todos os que crêem desfrutam diante de Deus, isto é, herdeiros de Abraão e filhos de Deus. (H. Wayne House, "Neither... Male nor Female... in Christ Jesus," em Bibliotheca Sacra 145 (1988) 53-55).

 

2. Criação e Queda

Uma outra dificuldade com a interpretação igualitarista de Gálatas 3, 28 é a que parece ignorar que Paulo, às vezes, enraíza a subordinação feminina, não na queda, mas já na própria criação, como por exemplo, em 1 Coríntios 11, 7-10 e 1 Timóteo 2, 12-15. Para não mencionar quando Paulo argumenta em favor da sujeição da esposa a partir, não da teologia da queda, mas da teologia da própria igreja, da relação entre Cristo e sua Igreja, como em Efésios 5, 22-24.

 

3. O significado de "um" em Cristo

O terceiro problema é o de interpretarmos "sois um em Cristo" como significando "sois iguais em Cristo". Numa recente tese de mestrado, Ann Coble demonstrou de forma convincente que e (=ij nesta passagem não está implicando igualdade, mas simplesmente unidade (Ann Coble, "The Lexical Horizon ofOne in Christ’: The Use of Galatians 3:28 in the Progressive-Historical Debate over Women’s Ordination" (tese não publicada; St. Louis, Missouri; Covenant Theological Seminary, 1994)). Após dar exemplos de interpretações desta passagem na história da Igreja (pp. 7-21), ela analisa e critica a interpretação feita pelos progressistas ou igualitários, especialmente Krister Stendahl (pp. 22-37) e a interpretação dos diferencialistas (pp. 38-48). Coble demonstra através de considerações léxicas e exegéticas que Gálatas 3, 28 está abordando a questão da unidade da Igreja, e não de igualdade de funções ou papéis. Ela argumenta que a palavra e(=ij ("um") enfatiza unidade - não igualdade. Se Paulo quisera enfatizar igualdade poderia ter usado palavras como i))/soj ("igual") ou i/)so/thj ("igualdade") (pp. 49-58). A sua conclusão é que os estudiosos progressistas ou igualitaristas não podem usar esta passagem como um texto chave na afirmação de oportunidades de ordenação eclesiástica idênticas para homens e mulheres.

 

4. O Evangelho e as "duas eras"

Uma outra dificuldade é ver nesta passagem Paulo ensinando que a subordinação imposta à mulher como castigo (Gen. 3, 16b) é plenamente removida em Cristo aqui e agora. A pergunta é se Paulo ensina nesta passagem - ou em qualquer outra do Novo Testamento - que Cristo já aboliu na presente era, total e plenamente, os efeitos do pecado e os castigos impostos por Deus ao homem e à mulher, quando primeiro pecaram. O ensino de Paulo sobre este assunto - ou mesmo qualquer outro - entende-se melhor da perspectiva da história da redenção, especialmente do ensino sobre as duas eras; ou seja, que em sua primeira vinda Cristo inaugurou a era vindoura, o mundo porvir, sem abolir a era presente, como os Judeus esperavam. A era vindoura inaugurada por Cristo sobrepõe-se à presente, e coexistem em tensão até a consumação. No tempo presente da sobreposição das duas, quase todos os aspectos do Reino já são antecipados de forma incipiente (escatologia inaugurada). Os crentes já desfrutam das virtudes do mundo vindouro, e gozam antecipadamente dos benefícios conquistados por Cristo.

Por outro lado, Paulo reconhece que há ainda aspectos ou dimensões da era vindoura que aguardam pleno cumprimento na parusia - é o "ainda não" da escatologia futura. Assim, Cristo já reina, mas nem tudo está já a ele sujeito (Heb. 2, 8b); já temos a vida eterna, e já fomos ressuscitados com Cristo, mas ainda não estamos livres da morte imposta por Deus a Adão em Génesis 3, 17 (1 Cor. 15, 20-28). A nova criação (cf. kti/sij, 2 Cor. 5, 17) já foi inaugurada, mas ainda não vemos a presente criação liberta do cativeiro da corrupção (Rom. 8, 8-25); Satanás já foi derrotado, conforme prometido em Génesis 3, 15, mas ainda será destruído (Rom. 16, 20). Os crentes já entraram no descanso de Deus (Heb. 4, 1-13), mas ainda não estão isentos do trabalho árduo ao qual a humanidade foi submetida após a Queda (Gén. 3, 17-19). As mulheres cristãs ainda não estão livres dos sofrimentos do parto, por estarem em Cristo, e nem igualmente deveriam esperar isenção da subordinação imposta na queda, por serem crentes. A plena redenção destas coisas, e das demais que ainda afligem os cristãos, homens e mulheres, ocorrerão plenamente na parosia, quando o Senhor Jesus trouxer em plenitude o Reino de Deus.

Afirmar a abolição evangélica da subordinação feminina, enquanto as demais dimensões do castigo divino claramente estão em vigor, é exegese preconceituosa. Os homens bem que poderiam reivindicar a abolição do castigo de trabalhar duro para poder viver! E as mulheres bem que poderiam reivindicar, já, a abolição das dores de parto!

Portanto, não se pode usar Gálatas 3, 28 como lema do igualitarismo sem que se faça violência ao seu contexto original, sem que se ignore a teologia paulina das duas eras e da criação do homem e da mulher.

 

Actos 2, 16-18 - Esta passagem é parte do sermão de Pedro, no dia de Pentecostes, quando ele cita o Profeta Joel para explicar o que acabara de acontecer consigo, e com os demais discípulos de Jesus em Jerusalém, quando o Espírito Santo veio sobre eles (Act. 2, 1-4). Citando Joel, Pedro diz: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão” (Act. 2, 17-18).

Os igualitaristas observam que a profecia de Joel citada por Pedro inclui as filhas e as servas, tanto quanto os filhos e servos, na recepção do dom do Espírito Santo. E argumentam que não pode haver qualquer distinção quanto ao serviço a Deus baseada em sexo, já que as mulheres receberam o mesmo Espírito (e certamente, os mesmos dons) que os homens, o qual foi dado para capacitar a Igreja ao serviço.

A argumentação prossegue mostrando que na Igreja Apostólica as mulheres oravam, profetizavam (cf. Act. 21, 9, as quatro filhas de Felipe que eram profetizas), falavam em línguas, serviam (Rom. 16, 1, Febe), evangelizavam, tanto quanto os homens. Algumas tinham Igrejas reunidas em suas casas (Act 12, 12). Priscila, por exemplo, chegou a ensinar a Apolo o caminho de Deus com mais exactidão (Act. 18, 26). Pentecostes, argumentam, é a abolição das distinções de género na Igreja, pois ao dar às mulheres o mesmo Espírito que aos homens, Deus mostrou que elas devem ser admitidas aos mesmos níveis de serviço que eles.

Mas não é tão simples como parece. Se as mulheres exerceram os mesmos ministérios que os homens no período da Igreja Apostólica, por que não há nenhuma menção no Novo Testamento de apóstolas, presbíteras ou bispas? Por que não há qualquer recomendação de Paulo quanto à “ordenação de mulheres”, quando instrui Timóteo e Tito quanto à ordenação de presbíteros? Basta uma leitura superficial das qualificações exigidas por Paulo em 1 Timóteo 3, 1-7 e Tito 1, 5-9 para se ter a impressão de que o apóstolo tinha em mente a ordenação de homens: o Presbítero deve ser marido de uma só esposa, deve governar bem a sua casa e seus filhos (função do homem, nos escritos de Paulo, cf. Efésios 5, 22-24).

 

1. Dons miraculosos e Presbiterado

Mas a pergunta chave é se a passagem de Actos 2, 17-18 é uma autorização para que se recebam mulheres como “presbíteras” da Igreja. Existem algumas dificuldades em se interpretar a passagem desta forma. Em primeiro lugar, os fenómenos associados por Joel e Pedro ao derramamento do Espírito nos últimos dias, como profecias, sonhos e visões, e que são ditos que seriam concedidos às mulheres, não estão ligados no Novo Testamento ao presbiterado ou episcopado, e portanto, poderiam ocorrer sem que as pessoas envolvidas (homens ou mulheres) fossem ordenadas. Havia profetizas na Igreja Apostólica, como as quatro filhas de Filipe (Act 21, 9; cf. 1 Cor. 11, 5), mas não lemos que eram “presbíteras” ou “bispas”. Embora não tenhamos notícia no Novo Testamento de mulheres tendo visões ou sonhos em decorrência do derramamento do Espírito (e nem de homens, diga-se também), não é impossível que haja acontecido; mas, neste caso, com certeza, não estava restrito a bispos e presbíteros. O meu ponto é que as manifestações carismáticas mencionadas em Actos 2, 17-18 (profecias, sonhos, visões) e estendidas às filhas e servas (mulheres crentes) não exigem a ordenação ao ministério ou presbiterado daqueles que as recebem.

 

2. A base do presbiterado no Novo Testamento

Uma outra dificuldade é o conceito que está por detrás da interpretação igualitarista desta passagem, ou seja, que a recepção de todos os dons do Espírito (especialmente os dons relacionados com o ensino) por parte das mulheres implica que elas deverão ser reconhecidas e ordenadas pelas Igrejas como tais. Insistem os igualitaristas que, já que o Espírito as capacitou, a Igreja não lhes deveria negar reconhecimento oficial através da ordenação.

A grande dificuldade é demonstrar biblicamente que na Igreja Apostólica este ponto foi reconhecido. Como explicar, por exemplo, que embora Paulo reconhecesse que as mulheres poderiam profetizar durante os cultos, tanto quanto os homens, entretanto, impõe-lhes uma participação diferenciada destes no acto de profetizar? Se o dom profético daria às mulheres igualdade com os homens nas funções litúrgicas, por que exigir-lhes que orem e profetizem com a cabeça coberta, expressão cultural de que estavam debaixo de autoridade? (1 Cor. 11, 3-15).

Além do mais, não está claro que no Novo Testamento o acesso ao presbiterado era baseado exclusivamente na posse dos dons espirituais, ou que pessoas dotadas espiritualmente eram necessariamente ordenadas. Não nos parece ser este sempre o caso. Embora a aptidão para ensinar (dom de ensino/mestre? Cf. Rom. 12, 7; Ef. 4, 11) e capacidade de governar (1 Tim. 3, 4-5; dom de governo? Rom. 12, 8) sejam requisitos claros nas duas únicas listas que temos no Novo Testamento das qualificações dos presbíteros e bispos (cf. 1 Tim. 3, 2; Tito 1, 9), não há evidências no Novo Testamento de que todos que tinham estas capacidades (ou dons) tivessem de ser, necessariamente, ordenados.

A interpretação igualitarista das três passagens examinadas acima não é convincente. Embora estas passagens mostrem que as mulheres tiveram papel importante no nascimento e desenvolvimento da Igreja Cristã, não mostram que elas tiveram de ser ordenadas para isto. Demonstram que as mulheres cristãs, juntamente com os homens, participam da graça de Deus, e dos dons do Espírito, sem restrições. Entretanto, nada têm a dizer sobre ordenação ao ministério ou ao presbiterato.

 

Passagens do Novo Testamento que impõem restrições ao
Ministério Feminino

 

Examinemos, em seguida, outras passagens do Novo Testamento igualmente relevantes para a discussão, e que impõem restrições ao ministério feminino nas Igrejas Locais. Essas passagens não podem ser deixadas de fora de qualquer tratamento sério do assunto. É verdade que nenhuma delas diz explicitamente que as mulheres não podem ser “ordenadas como presbíteras, diaconisas, ou bispas”. Entretanto, todas elas impõem restrições ao ministério feminino, e exigem que as mulheres cristãs estejam submissas à liderança masculina. Essas restrições têm a ver primariamente com o ensino por parte de mulheres nas Igrejas. Já que o governo das Igrejas e o ensino público oficial nas mesmas são funções de Presbíteros e Bastores (cf. 1 Tim. 3, 2,4-5; 5, 17; Tito 1, 9), infere-se que tais funções não fazem parte do chamado cristão das mulheres.

 

1 Coríntios 11, 3-16 - Escrevendo ao crentes de Corinto acerca de questões relacionadas com o culto público, Paulo aborda o problema causado por algumas mulheres que estavam orando, profetizando (e provavelmente falando em línguas) com a cabeça descoberta, isto é, sem o véu, contrariando assim o costume das Igrejas Cristãs primitivas (1 Cor. 11, 16). A passagem é extremamente difícil de interpretar, e depende dos detalhes de um contexto histórico que não pode ser totalmente recuperado. Entretanto, os pontos principais do apóstolo na passagem são suficientemente evidentes.

 

1. Profetizando e orando com o véu

Ao que tudo indica, as mulheres de Corinto haviam entendido que o Evangelho havia abolido, não somente as diferenças raciais, como também qualquer diferença de função na Igreja entre homens e mulheres crentes. Possivelmente, estavam interpretando o ensino de Paulo acerca da igualdade do homem e da mulher na salvação, como tendo consequências imediatas quanto ao culto e ao serviço cristãos. Assim, estavam querendo abolir dos cultos públicos o uso do véu, que na cultura da época era a expressão externa do conceito da subordinação da mulher ao homem.

Aparentemente, algumas estavam reivindicando "direitos iguais" com um espírito contencioso (1 Cor. 11, 16). Paulo não lhes nega o direito de participar do culto, mas insiste que elas devem fazê-lo trajando o véu, expressão cultural do princípio permanente da subordinação feminina. Não usá-lo significava desonra, indecência, vergonha (1 Cor. 11, 5-6.14). O ensino de Paulo em 1 Coríntios 11 é de que as mulheres devem participar do culto preservando o sinal de que estão debaixo da autoridade eclesiástica masculina.

 

2. O véu como símbolo de submissão à autoridade

No versiculo 10 Paulo refere-se ao véu como sinal de autoridade (1 Cor. 11, 10). O texto grego original diz literalmente que "a mulher deve trazer autoridade sobre a cabeça" (o)fei/lei h( gunh\ e)cousi/an e)/xein e)pi\ th=j kefalh=j). A interpretação da maioria dos estudiosos é que e)cousi/an ("autoridade") refere-se ao véu, e que o mesmo simbolizava que a mulher estava debaixo da autoridade do homem. Tanto assim, que um grande número de versões inglesas traduzem e)cousi/an como "véu" ou como "símbolo de autoridade" (NASB, NRSV, NIV, NCV, NKJV, NAS, etc; ainda a versão Colombe, francesa, e Reina de Valera, espanhola, e a NVI, em português). Outras versões são mais explícitas ainda, e traduzem "símbolo da autoridade do homem" (como a TEV e a LB). (Uma excepção é a versão americana REB, que traduz "símbolo de sua (da mulher) autoridade". Para um artigo em defesa desta tradução, ver Morna D. Hooker, "Authority on Her Head: An examination of 1 Corinthians 11.10", em New Testament Studies 10 (1964) 410-416). Um paralelo bíblico é o de Génesis 24, 65, quando Rebeca, ao tomar conhecimento de que seria apresentada ao seu futuro marido e senhor, Isaque, tomou o véu e cobriu-se.

Em outras palavras, embora Paulo permita que a mulher profetize e ore no culto público, ele requer dela que se apresente de forma a deixar claro que está debaixo de autoridade, no próprio acto de profetizar ou orar. Para Paulo, a expressão externa da subordinação da mulher á sua cabeça (o homem) durante o culto público seria o uso do véu, já que o mesmo, na cultura oriental da época (e mesmo em algumas culturas de hoje) expressaria convenientemente este conceito.

 

3. Cabeça: autoridade sem superioridade

A argumentação de Paulo para fundamentar a sua orientação vem de duas direcções. Primeiro, Paulo argumenta teologicamente, a partir da subordinação de Deus Filho a Deus Pai. O Pai é o cabeça de Cristo, que por sua vez, é o cabeça do homem, e o homem o cabeça da mulher:

Quero, entretanto, que saibais ser Cristo a cabeça de todo homem, e o homem, a cabeça da mulher, e Deus, a cabeça de Cristo. Todo homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça sem véu, desonra sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada (1 Cor. 11, 3-5).

Tomando-se kefalh/ ("cabeça") em seu sentido mais natural, de "autoridade", o que temos é uma declaração de Paulo de que Deus tem autoridade sobre Cristo, Cristo tem autoridade sobre o homem, e o homem tem autoridade sobre a mulher. Uma cadeia hierárquica que começa na Trindade e continua na Igreja e na família. Podemos inferir (guardadas as devidas proporções) que, da mesma forma como a subordinação de Cristo ao Pai não o torna inferior - como afirma a fé reformada em sua doutrina da Trindade - a subordinação da mulher ao homem não a torna inferior. Assim como Pai e Filho, que são iguais em poder, honra e glória, desempenham papéis diferentes na economia da salvação (o Filho submete-se ao Pai), homem e mulher complementam-se no exercício de diferentes funções, sem que nisto haja qualquer desvalorização ou inferiorização da mulher.

Em várias ocasiões o Novo Testamento determina que os crentes se sujeitem às autoridades civis (Rom. 13, 1-5; 1 Ped. 2, 13-17). Em nenhum momento, entretanto, este mandamento implica que os crentes são inferiores ou têm menos valor que os governantes. Igualmente, os filhos não são inferiores aos seus pais, simplesmente porque devem submeter-se à liderança deles (Ef. 6, 1). O conceito de subordinação de uns a outros tem a ver apenas com a maneira pela qual Deus estruturou e ordenou a sociedade, a família e a Igreja. (Cf. Paige Patterson, "The Meaning of Authority in the Local Church," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 257).

 

4. Implicações da criação

O segundo argumento de Paulo vem das Escrituras, mais especificamente do relato da criação em Génesis 2. Para provar que a mulher é a glória do homem (e portanto a ele subordinada), Paulo escreve: “Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem” (Gén. 2, 21-23). “Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem” (Gén. 2, 18; 1 Cor. 11, 8-9).

Paulo vê nos detalhes da criação uma ordenação divina quanto aos diferentes papéis do homem e da mulher. Não somente a mulher foi criada do homem, como por causa dele. Para o apóstolo, Deus revelou pela forma como criou a mulher o seu propósito de que o homem fosse a sua cabeça. E a intenção divina deveria ser reflectida no culto público. Ou seja, a mulher deveria participar de forma condizente com sua condição de subordinação.

A implicação de 1 Coríntios 11 para o debate da “ordenação feminina” é clara. Se a mulher está debaixo da autoridade eclesiástica exercida pelo homem ao participar do culto, não pode exercê-la sobre ele. Ser ordenada como “presbítera” ou “bispa” implicaria que ela poderia ensinar aos homens com a autoridade que o ofício empresta, e participar do governo da Igreja, exercendo autoridade sobre os homens crentes, o que contraria frontalmente o princípio ensinado por Paulo na passagem.

Há pontos difíceis de interpretar em 1 Coríntios 11, como por exemplo a menção de "anjos" no verso 10, e a referência à "natureza" no verso 14. Entretanto, nenhuma destas dificuldades é fatal para a compreensão do ponto central de Paulo na passagem, que é a limitação baseada em género que ele coloca sobre a participação da mulher no culto.

 

5. O ensino de Paulo aplica-se hoje?

Evidentemente, os igualitaristas têm procurado livrar-se das implicações desta passagem, e tentado alternativas quanto à sua interpretação. Na verdade, alguns simplesmente recusam-se a trazer a passagem para o debate alegando que o problema que levou Paulo a dizer o que disse foi causado pela cultura da época, e pelas circunstâncias da cidade de Corinto. Outros ainda insistem que Paulo estava influenciado pela cultura patriarcal da sua época, que suas palavras são condicionadas culturalmente, e portanto, inadequadas para as culturas e sociedades pós-modernas do fim do século XX e início do século XXI.

Existem algumas deficiências com estas tentativas. Primeira, não fazem a distinção entre o princípio teológico supra cultural e a expressão cultural deste princípio. Enquanto que o uso do véu é claramente um costume cultural, ao mesmo tempo expressa um princípio que não está condicionado a nenhuma cultura em particular, que é o da diferença fundamental entre o homem e a mulher. O que Paulo está defendendo é a vigência desta diferença no culto público - o véu é apenas a forma pela qual isto ocorreria normalmente em cidades gregas do século I. Segunda, Paulo defende a participação diferenciada da mulher no culto usando argumentos permanentes, que transcendem cultura, tempo e sociedade, como a distribuição ou economia da Trindade (1 Cor. 11, 3) e o modo pelo qual Deus criou o homem (1 Cor. 11, 8-9). Acresce ainda que Paulo defende o uso do véu em Corinto apelando para o costume das Igrejas Cristãs em geral (1 Cor. 11, 16), o que indica que o uso do véu não era prática restrita apenas à Igreja de Corinto, mas de todas as Igrejas Cristãs espalhadas pelo mundo grego.

 

6. Autoridade ou fonte?

Um ataque desfechado contra a passagem é que a palavra kefalh/ no verso 3 não significa "cabeça" e sim "fonte" ou "origem". (Ver, por exemplo, o artigo de Richard S. Cervin, "Does Kephale Mean ‘Source’ or ‘Authority’ in Greek Literature? A Rebuttal", em Trinity Journal 10 (1989) 85-112. Cervin nega o sentido "autoridade sobre" e propõe "preeminência" como alternativa). Segundo esta interpretação, Paulo estaria dizendo, não que Deus tem autoridade sobre Cristo, e o homem sobre a mulher, mas que Deus é a fonte da qual Cristo procede, e que o homem é a fonte da qual a mulher procedeu. Assim, a ideia de "autoridade" é removida da passagem, ou pelo menos domesticada.

Entretanto, há vários factos que militam contra a probabilidade de esta interpretação ser a correcta:

1 - Estudos exaustivos feitos na literatura grega antiga demonstram que kefalh/, na esmagadora maioria de suas ocorrências, significa "cabeça" e não "fonte". Embora em alguns casos kefalh/ possa ter esta tradução, em nenhum deles é absolutamente certo de que "fonte" ou "origem" é o sentido pretendido pelo autor. (O estudo mais decisivo foi feito por Wayne Grudem, no livro de George W. Knight III, The Role Relationship of Men and Women, ed. revisada (Chicago: Moody Press, 1985) 49-80)

2 - Na passagem paralela de Efésios 5, 22-23 kefalh/ claramente significa "cabeça" no sentido de "ter autoridade sobre". O mesmo encontramos em Efésios 1, 22. (Cf. o artigo de Thomas R. Schreiner, "Head Coverings, Prophecies and the Trinity: 1 Corinthians 11:2-16," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 124-39).

 

7. O subordinacionismo é herético?

Um outro ataque desfechado pelos igualitaristas é contra o conceito de subordinação na doutrina da Trindade, já que Paulo fundamenta a subordinação da mulher à liderança masculina na subordinação de Cristo à Deus Pai (1 Cor. 11, 3). Alguns feministas evangélicos insistem que a doutrina da subordinação na Trindade implica em inferioridade do Filho em relação ao Pai, e que, portanto, é herética. Alguns chegam mesmo a afirmar que o subordinacionismo foi uma heresia rejeitada pela Igreja no século IV. (Cf. Bilezikian, Beyond Sex Roles, 241).  Mais recentemente, alguns feministas evangélicos têm negado a subordinação do Filho ao Pai. (Ver R.C Kroeger e C. Kroeger, "Subordinationism", em Evangelical Dictionary of Theology, ed. Walter A. Elwell (Grand Rapids: Baker, 1984) 1058).

Estas posições tem sido rejeitadas por estudiosos evangélicos como enganosas. Em seu estudo sobre 1 Coríntios 11, T. Schreiner demonstra como o Credo Niceno afirmou a subordinação de funções do Filho ao Pai, e do Espírito ao Pai e ao Filho, sem comprometer a igualdade e a dignidade pessoal entre as pessoas da Trindade. O que a Igreja rejeitou como heresia foi uma forma de subordinacionismo que predicava uma inferioridade de essência entre o Pai, o Filho e o Espírito. (Schreiner, "Head Coverings", 128-30. Cf. ainda Stephen D. Kovach, "Egalitarians Revamp the Doctrine of the Trinity" em CBMW News 2/1 (1996) 1, 3-5. Talvez seja esclarecedor, a esta altura, mencionar o conceito teológico reformado de Trindade ontológica e Trindade económica. Por ontológica referimos-nos à Trindade como ela é, como subsiste desde a eternidade. Pai, Filho e Espírito Santo são iguais em substância, possuem atributos e poderes idênticos, e portanto têm a mesma glória. Por económica referimos-nos à Trindade como manifestada ao mundo, especialmente na história da redenção, onde as três pessoas exercem papéis diferentes relacionados com a criação, redenção e santificação. Nesta distribuição de actividades, o Pai envia o Filho, e o Espírito procede do Pai e do Filho. Esta subordinação do Filho ao Pai, e do Espírito ao Pai e ao Filho é perfeitamente compatível com a igualdade pregada acerca da Trindade ontológica (Cf. Loraine Boettner, Studies in Theology, 17ª edição [Presbyterian and Reformed, 1983] 116-7)).

1 Coríntios 11, 2-16, portanto, traz implicações quanto ao “ministério feminino ordenado” que não devem ser ignoradas por aqueles que defendem a ordenação de mulheres a funções eclesiásticas de autoridade e liderança sobre homens. No nosso entender, nenhuma das tentativas dos igualitaristas tem obtido sucesso na domesticação destas implicações.

 

1 Coríntios 14, 33b-38 - Esta é uma outra passagem da pena do apóstolo que é de relevância para o debate sobre o “ministério feminino ordenado”, pois nela Paulo impõe algum tipo de restrição à fala das mulheres na Igreja: “Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja” (1 Cor. 14, 33b-35).

 

1. O problema textual

Existe um problema textual que temos de enfrentar, antes de podermos trazer esta passagem para o debate. Embora os versiculos 34-35 apareçam em todos os manuscritos existentes de 1 Coríntios 14, contudo, nas testemunhas ocidentais (manuscritos e versões), aparecem após o versiculo 40, ao fim do capítulo. A maioria dos estudiosos admite a complicação textual envolvendo estes versiculos, mas também reconhece que a passagem deve ser original, visto que não é omitida em nenhum dos manuscritos que temos.

O conhecido estudioso Gordon Fee tem dado alguma credibilidade à tese de que estes versiculos não foram escritos por Paulo, mas são interpolação posterior de um escriba. (Cf. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, em New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987)). Entretanto, a tese de Fee não tem sido aceite pela maioria dos estudiosos, e tem sido respondida à altura por eruditos como D. A. Carson. (Veja a crítica de Carson à tese de Fee em "Silent in the Churches," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 141-45). Prevalece o consenso de que, apesar das dificuldades textuais, os versiculos 34-35 foram escritos por Paulo após o versiculo 33, como atestam os melhores manuscritos (Existe ainda a questão da pontuação do versiculo 33. O ponto final deve ser colocado antes ou depois da expressão "como em todas as Igrejas dos santos"? Se colocado depois, o versiculo ler-se-ia assim: "Deus não é de confusão mas de paz, como em todas as Igrejas dos santos". Se antes, como na versão Almeida Atualizada 2ª edição, teríamos: "Como em todas as Igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas...". Esta última pontuação é favorecida pela maioria das traduções e dos estudiosos).

 

2. O que Paulo quer dizer por "falar"?

A questão central relacionada com a passagem é que tipo de restrição Paulo está impondo às mulheres. Essa restrição não parece ser absoluta, ao ponto de reduzir as mulheres ao silêncio total nos cultos, já que ele, em 1 Coríntios 11, 5, deixa entender que elas poderiam orar e profetizar durante as reuniões, desde que se apresentassem de forma própria, refletindo que estavam debaixo da autoridade masculina. (Apesar disto, ainda há quem procure defender que Paulo está impondo silêncio absoluto às mulheres. Mas isto só é possível aceitando-se que Paulo está a contradiz-se na mesma carta, no curto espaço de quatro capítulos, ou que no capítulo 11 ele refere-se a um tipo de reunião, enquanto que no capítulo 14, a outra - algo totalmente improvável pelo contexto. Cf. Carson, "Silent in the Churches", 145-6). A dificuldade é que "falar" é um termo bem genérico (lale/w), e Paulo não coloca qualquer qualificação ao mesmo. Para alguns, Paulo está proibindo que as mulheres falem em línguas; outros, que elas conversem em voz alta durante os cultos. Mas estas proibições poder-se-iam estender também aos homens - por que não? No entanto, transparece que a proibição de Paulo leva em conta o género. Ainda outros pensam que a proibição refere-se apenas às mulheres casadas. Nenhuma destas interpretações é realmente convincente; todas elas têm sido refutadas habilmente por estudiosos. (Carson analisa e rebate cada uma delas, cf. "Silent in the Churches", 146-51).

No meu entender, a interpretação que traz menos problemas é a que defende que Paulo tem em mente um tipo de "fala" pelas mulheres nas Igrejas que implique uma posição de autoridade eclesiástica sobre os homens crentes. Elas podiam falar nos cultos, mas não de forma a parecer insubmissas, cf. v. 34b. No contexto imediato Paulo fala do julgamento dos profetas no culto (v. 29), o que envolveria certamente questionamentos, e mesmo a correção dos profetas por parte da Igreja reunida. Paulo está possivelmente proibindo que as mulheres questionem ou ensinem os profetas (certamente haveria homens entre eles) em público. Se elas tivessem dúvidas quanto ao que foi dito por um ou mais profetas, as casadas entre elas deveriam esclarecê-las em casa, com os maridos (se fossem crentes, naturalmente), cf. v. 35.

 

3. O ensino de Paulo se aplica hoje?

A determinação de Paulo está de acordo com o espírito cristão em todas as demais Igrejas, 14, 33b. Portanto, não é paroquial, apenas para a situação da Igreja de Corinto. Está conforme a "lei", uma provável referência às Escrituras, onde claramente se ensina que Deus atribuiu ao homem e à mulher papéis diferentes na família e na Igreja, 14, 34b. E as Igrejas de Corinto não deveriam insurgir-se contra o costume das demais Igrejas e contra o ensino apostólico, 14, 36-38. Elas não eram a "Igreja mãe", de onde a Palavra de Deus havia surgido, 14, 36. Seus líderes, os profetas e os "espirituais", deveriam reconhecer a autoridade apostólica de Paulo e submeter-se ao seu ensino sobre este assunto, 14, 37-38. Fica evidente que Paulo está estabelecendo um princípio permanente para as Igrejas, e não apenas fazendo jurisprudência teológica local.

A passagem assim entendida está em consonância com 1 Coríntios 11, onde Paulo faz uma diferença entre a participação do homem e da mulher no culto. Enquanto que ali Paulo requer delas que se apresentem submissas à liderança masculina, aqui no capítulo 14 determina-lhes que não falem de forma a parecer que estão na liderança. As implicações destas passagens para o debate acerca da “ordenação feminina” são claras. Elas deixam claro que Paulo não era um igualitarista.

 

1 Timóteo 2, 11-15 - Em sua primeira carta a Timóteo, seu colaborador e filho na fé, e que estava encarregado da Igreja de Éfeso, Paulo faz as seguintes determinações quanto às mulheres: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se elas permanecerem em fé e amor e santificação, com bom senso” (1 Tim. 2, 11-15 - Almeida Actualizada, 1ª edição).

Esta é provavelmente a passagem mais importante para a discussão sobre o “ministério feminino ordenado”. E tem padecido muito nas mãos dos intérpretes. A interpretação histórica da passagem é que, aqui, o apóstolo Paulo determina que as mulheres crentes de Éfeso aprendam a doutrina cristã em silêncio, submetendo-se à autoridade eclesiástica dos que ensinam - no contexto, homens (v. 11). Elas, por sua vez, não tinham permissão para ensinar os homens com esta autoridade, nem exercê-la nas Igrejas sobre eles, mas deviam submeter-se em silêncio (v. 12). A causa apresentada pelo apóstolo é dupla: Deus primeiro formou o homem, e depois a mulher (v. 13). E ela foi iludida por Satanás e pecou (v. 14).

 

1. A heresia de Éfeso

Essa interpretação tem o apoio do contexto da carta. É consenso entre os estudiosos que Paulo a escreveu para instruir Timóteo a combater uma perigosa heresia que se havia infiltrado na Igreja de Éfeso, que estava sob a sua responsabilidade. Paulo não dá muitos detalhes na carta sobre a natureza dessa heresia, provavelmente porque Timóteo estava perfeitamente a par do problema. Uma reconstrução cautelosa revela-nos os seguintes pontos (Esta reconstrução é baseada no artigo de Douglas Moo, "What Does It Mean Not to Teach or Have Authority Over Men?" em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 180-2)

1 - Os falsos mestres em Éfeso estavam semeando dissensões e se ocupando com trivialidades (1 Tim. 1, 3-7; 6, 4-5; cf. 2 Tim. 2, 14.16-17.23-24).

2 - Os falsos mestres ensinavam que a prática ascética era um meio para se alcançar uma espiritualidade mais elevada. Estavam ensinando a abstinência de certas comidas, do casamento, e do sexo em geral (1 Tim. 4, 1-3). Possivelmente estavam ensinando que o treinamento físico também servia para se alcançar esta espiritualidade (1 Tim. 4, 8).

3 - Várias mulheres da Igreja estavam seguindo os falsos mestres e os seus ensinos (1 Tim. 5, 12.15; cf. 2 Tim. 3, 6-7).

4 - Aparentemente, os falsos mestres estavam encorajando tais mulheres a trocarem o seu papel costumeiro no lar por uma atitude mais igualitária com respeito a seus maridos, e aos homens em geral. O programa dos falsos mestres incluía denegrir o casamento, e isso certamente induziria ao abandono das funções tradicionais da mulher no lar. Algumas evidências sugerem esta interpretação. Em suas instruções às viúvas, Paulo determina que as mais novas se casem, tenham filhos e cuidem das suas casas (1 Tim. 5, 14), visto que já "algumas se desviaram, seguindo a Satanás" (5, 15). Desde que Paulo considera o ensino dos falsos mestres como sendo "ensino de demónios" (4, 1-2), segue-se que ir após Satanás seria aceitar o ensino dos falsos mestres em oposição ao que Paulo ordena em 5, 14. Uma outra evidência é 1 Timóteo 2, 15. Embora não saibamos com exactidão o que Paulo quer dizer com "será salva", está claro que o apóstolo está insistindo no papel natural da mulher como mãe, uma insistência que se torna óbvia quando pensamos no ensino dos falsos mestres desvalorizando o casamento.

Embora não saibamos os motivos com exactidão, transparece claramente que o ensino dos falsos mestres em Éfeso incluía a rejeição dos papéis tradicionais das mulheres no casamento, e um encorajamento a que elas reivindicassem papéis iguais na Igreja e nos lares. A situação parece bastante similar à da Igreja de Corinto, onde as mulheres procuravam exercer no culto funções até então privativas dos homens cristãos. É contra este pano de fundo que Paulo determina às mulheres da Igreja de Éfeso que aprendam em silêncio, que não ensinem nem exerçam autoridade sobre os homens, e que estejam em perfeita submissão (1 Tim. 2, 12). (Uma outra corrente de interpretação sugere que o background de 1 Timóteo 2, 11-15 era que mulheres ricas e bem educadas da Igreja de Éfeso estavam perturbando o ensino dos presbíteros no culto, interrompendo-os e querendo elas mesmas ensinar. Cf. Paul W. Barnett, "Wives and Women’s Ministry" (1 Timothy 2, 11-15), em Evangelical Quarterly 61/3 (1989) 225-38. Esta interpretação reivindica ter a seu favor o contexto imediato, em que Paulo, aparentemente, estaria corrigindo mulheres ricas quanto ao vestuário e estilo de cabelo a ser usado em público nas Igrejas (cf. 2, 9-10). Não é claro, entretanto, que a exortação de Paulo nestes versos nos permita inferir a existência e atuação de mulheres ricas e educadas nos cultos da Igreja de Éfeso. As evidências da carta favorecem mais a tese da heresia feminista). 

 

2. O que Paulo quer dizer com "ensinar"?

O ensino de Paulo neste versículo torna-se mais claro quando entendido à luz desta reconstrução. Vejamos com mais detalhes alguns dos pontos mais decisivos de 1 Timóteo 2, 12: primeiro, Paulo diz não permitir que a mulher ensine nas Igrejas. Ensinar, no Novo Testamento, é uma actividade bem ampla. Todos os cristãos podem ensinar, quer por exemplo, quer pelo seu testemunho, quer em conversação. O próprio apóstolo determina que as mulheres idosas ensinem as mais novas a amarem os seus maridos (Tito 2, 3-5). Assim, fica claro que Paulo não está passando uma proibição geral. Mas, então, o que é que ele está proibindo?

Transparece do texto que ele não permite que a mulher, em posição de autoridade, ensine os homens. Nas Cartas Pastorais, ensinar sempre tem o sentido restrito de instrução doutrinária autoritativa, feita com o peso da autoridade oficial dos bispos e presbíteros (1 Tim. 4, 11; 6, 2; 5, 17). Ao que tudo indica, algumas mulheres da Igreja de Éfeso, insufladas pelo ensino dos falsos mestres, estavam querendo essa posição oficial para ensinar nas assembleias cristãs. Paulo, porém, corrige a situação determinando que elas não assumam posição de liderança autorizada nas Igrejas, para ensinarem doutrina cristã nos cultos, onde certamente homens estariam presentes. Paulo não está proibindo todo e qualquer tipo de ensino feito por mulheres nas Igrejas. Profetizas na Igreja Apostólica certamente tinham algo a dizer aos homens durante os cultos. Para o apóstolo, a questão é o exercício de autoridade sobre homens, e não o ensino. O “ministério didático feminino”, exercido com o múnus da autoridade que os ofícios de bispo e presbítero emprestam, seria uma violação dos princípios que Paulo percebe na criação e na queda.

O ensinar que Paulo não permite é aquele em que a mulher assume uma posição de autoridade eclesiástica sobre o homem. Isso é evidente do facto de que Paulo fundamenta o seu ensino nas diferenças com que homem e mulher foram criados (v. 13), e pela frase "autoridade sobre o homem" (v. 12b). Um equivalente moderno seria a ordenação como ministro da Palavra, para pregar a Palavra de Deus numa Igreja local. (Ver 2 Timóteo 4, 2, onde Paulo ordena a Timóteo que pregue a Palavra com toda doutrina). 

 

3. O que Paulo quer dizer com "exercer autoridade"?

Isto leva-nos ao ponto seguinte. Paulo diz também não permitir que a mulher exerça autoridade sobre o homem. A tradução Almeida Actualizada, em sua 2ª edição, traduziu diferentemente esta passagem. Em vez de preservar a leitura da 1ª edição, "exerça autoridade sobre o homem", preferiu traduzir o genitivo a)ndro/j como "de homem". O resultado é "não permito que a mulher... exerça autoridade de homem". A tradução é gramaticalmente possível, e encaixa-se no contexto geral do ensino paulino, onde a autoridade didática e o governo nas Igrejas é função dos homens cristãos. Mas, introduz uma expressão que é absolutamente nova e estranha ao vocabulário de Paulo. É talvez preferível permanecer com a tradução anterior, que também é gramaticalmente possível, além de soar mais como Paulo.

De qualquer forma, fica evidente que a atitude que o apóstolo exigia das mulheres cristãs de Éfeso, envenenadas pelo ensino dos falsos mestres, era de submissão e silêncio, quanto ao aprendizado da doutrina cristã nas assembleias. A proibição de exercer autoridade sobre os homens exclui as mulheres do ofício de Presbítero, que é essencialmente o de governar e presidir a casa de Deus (1 Tim. 3, 4-5; 5, 17), embora não as exclua de exercer outras actividades nas Igrejas. (Os Presbíteros eram líderes, oficialmente reconhecidos (Act. 14, 23; Tito 1, .5; Fip. 1, 1) e ordenados pelas Igrejas pela imposição de mãos (1 Tim. 5, 22; cf. 1 Tim. 4, 14; Act. 13, 1-3), que tinham três funções básicas: afadigar-se no estudo e exposição da Palavra (1 Tim. 5, 17), governar a Igreja (1 Tim. 5, 17; cf. 1 Tim. 3, 4-5; Heb. 13, 7.17; Act. 20, 28; 1 Ped. 5, 1-4), e presidir e promover a ordenação de outros presbíteros (Tito 1, 5; 1 Tim. 3, 1 ss; 5, 22)). 

 

4. Homem e mulher, ou esposa e marido?

Uma outra questão é a tradução das palavras gunh/ e a)nh/r, que tanto podem significar "mulher" e "homem" no sentido mais geral, quanto "esposa" e "marido". Alguns estudiosos tem procurado limitar o alcance da proibição de Paulo ao casamento apenas, e assim preferem a última tradução. Para eles, Paulo está dizendo que a mulher casada não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o seu marido, sem generalizar quanto aos homens em geral (Cf. Joyce Baldwin, Women Likewise (London: Falcon, 1973) 21-22).  Mas, esta última interpretação é improvável. O contexto e a maneira de Paulo construir as suas frases apontam na outra direcção. Como observa Douglas Moo, se Paulo desejasse referir-se a maridos, teria usado um artigo definido ou um pronome possessivo antes de a)nh/r. Neste caso, a frase ficaria assim: "Não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre seu marido", como fez em Efésios 5, 22; cf. Col. 3, 18. Além disto, o contexto claramente trata de homem e mulher genericamente, cf. 1 Tim. 2, 8-9. (Moo, "What Does It Mean," 188).

 

5. Paulo e o "Paulinista"

Alguns ainda rejeitam 1 Timóteo 2, 11-15 por ser parte de uma carta cuja autoria e genuinidade são disputadas. A grande maioria dos estudiosos liberais aceita como facto que as Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo, e Tito) foram escritas por um admirador de Paulo, chamado por alguns estudiosos de "Paulinista", que usou seu nome e imitou seu estilo, muito tempo depois da sua morte. E que escreveu coisas contrárias ao verdadeiro Paulo, tais como estas determinações reduzindo as mulheres ao silêncio e à submissão. Alguns destes estudiosos, como W.O. Walker, acreditam que o apóstolo Paulo era um igualitarista, que libertou as mulheres dos preconceitos e da dominação masculina e patriarcal vigentes (Gálatas 3, 28), mas teve sua mensagem posteriormente deturpada pelo "Paulinista", que pregava a subordinação das mulheres no nome de Paulo (Cartas Pastorais). (Cf. W.O. Walker, "The ‘Theology of Woman’s Place’ and the ‘Paulinist Tradition" em Semeia 28 (1983) 101-12).  A conclusão deles é que não se pode estabelecer doutrinas ou princípios práticos para as Igrejas de hoje baseados numa passagem que não foi escrita pelo verdadeiro Paulo. Os que pensam assim, rejeitam igualmente passagens como 1 Coríntios 11, 2-16; 14, 34-35, como tendo sido escritas posteriormente pelo "Paulinista".

Não temos espaço neste artigo para expôr os argumentos dos estudiosos conservadores em favor da genuinidade das Pastorais. (Para uma defesa conservadora clássica da autoria paulina das Pastorais, ver Donald Guthrie, New Testament Introduction, ed. rev. (Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 1970) 584-621). Podemos apenas dizer que os argumentos apresentados contra a autoria paulina não são convincentes a ponto de abandonarmos o que a Igreja vem aceitando faz séculos. As diferenças de estilo, o vocabulário distinto, e as ênfases doutrinárias únicas das Pastorais podem, e têm sido, explicadas convenientemente de outros modos, que não negando a autoria de Paulo. Portanto, não devemos rejeitar as implicações de 1 Timóteo 2, 11-15 para o debate com base na hipótese de estudiosos liberais quanto à autenticidade da carta.

 

6. A aplicabilidade da passagem para hoje

Finalmente, existem ainda objecções levantadas contra a aplicabilidade de 1 Timóteo 2, 11-15 às Igrejas Cristãs contemporâneas. A maioria destas objecções fundamenta-se no facto de que as restrições impostas por Paulo às mulheres estão condicionadas pelo problema particular da Igreja de Éfeso. Segundo os defensores desta posição, 1 Timóteo 2, 11-15 não tem mais qualquer relevância para as mulheres de hoje, visto que foi escrito para corrigir as mulheres que haviam sido iludidas pela heresia de Éfeso, que já não existe mais desde o século I. Além do mais, argumentam, não existe hoje, na maioria das Igrejas Cristãs, algo que corresponda ao ensino doutrinário autoritativo do século I. Portanto, esta passagem não se constitui em um empecilho para a “ordenação de mulheres” como bispas e presbíteras.

Estas objecções podem ser respondidas da seguinte maneira:

1 - Quase que todos os livros do Novo Testamento foram escritos em resposta a uma situação específica de uma ou mais comunidades cristãs do século I, e nem por isto intérpretes igualitaristas defendem que nada do Novo Testamento se aplica às Igrejas Cristãs de hoje. A carta aos Gálatas, por exemplo, onde Paulo expõe a doutrina da justificação pela fé, foi escrita somente para combater o legalismo dos judaizantes que procuravam minar as Igrejas gentílicas da Galácia, em meados do século I. Ousaríamos dizer que o ensino de Paulo sobre a justificação pela fé não tem mais relevância para as Igrejas do final do século XX, por ter sido exposto em reacção a uma heresia que afligia as Igrejas locais no século I? O ponto é que existem princípios e verdades permanentes que foram expressos para atender a questões locais, culturais e passageiras. Passam as circunstâncias históricas, mas o princípio teológico permanece. Assim, o comportamento inadequado das mulheres de Corinto e de Éfeso, e as heresias que o provocaram, cessaram historicamente, mas os princípios aplicados por Paulo para resolver os problemas causados por estas heresias permanecem válidos. Ou seja, o ensino de que as mulheres devem estar submissas à liderança masculina nas Igrejas e na família, sem ocupar posições de liderança e governo, é o princípio permanente e válido para todas as épocas e culturas.

2 - É evidente que há elementos no Novo Testamento que pertencem à cultura do século I. Por exemplo, nenhum estudioso sério afirmaria que a orientação de Paulo para que os cristãos se saúdem com "ósculo santo" (1 Cor. 16, 20) é para ser observada literalmente nas Igrejas ocidentais contemporâneas. Entretanto, o princípio que está por detrás desta orientação é permanente, ou seja, que os cristãos devem saudar-se de forma santa, qualquer que seja a época ou cultura em que vivam. Obviamente, a forma em que essa saudação ocorrerá dependerá dos costumes locais, mas o princípio permanece o mesmo.

É exactamente o que ocorre quanto à determinação de Paulo para que as mulheres de Corinto usem o véu. O princípio por detrás desta ordem, conforme estudamos acima, é o de se apresentarem nos cultos em plena submissão à liderança masculina cristã. O uso do véu é a forma contextualizada pelo qual esse princípio se expressava. Hoje em dia, nas culturas ocidentais, o uso do véu não é uma expressão apropriada deste princípio.

O princípio permanente que está subjacente em 1 Coríntios 11, 2-16, 14, 34-35 e 1 Tim. 2, 11-12 é o de que se mantenham as distinções e os papéis intrínsecos ao homem e à mulher na Igreja e na família. Assim, a mulher não deve inverter os papéis, e ocupar posição de autoridade sobre os homens, quer seja para governá-los ou ensiná-los.

3 - O contexto de 1 Timóteo 2, 11-15, finalmente, é a instrução de Paulo a Timóteo quanto ao culto público da Igreja (1 Tim. 2, 1-10). A intenção de Paulo não é apenas paroquial, mas universal em sua aplicação, visto que ele quer que os cristãos orem "por todos os homens" (2, 1), por "todos os que se acham investidos de autoridade" (2, 2), visto que Deus quer que "todos os homens sejam salvos" (2, 4). Assim, os varões devem "orar em todo lugar" (2, 8). O ensino de Paulo, portanto, tem a ver com "todos os homens... em todo lugar" (Barnett, "Wives and Women’s Ministry", 225). Isto não quer dizer que não reconheçamos as circunstâncias particulares da Igreja de Éfeso, mas sim que elas foram o catalisador histórico para admoestações gerais e permanentes.

 

7. O carácter permanente do ensino de Paulo

Uma outra consideração é que Paulo, tanto em 1 Coríntios 11 quanto em 1 Timóteo 2, fundamenta a sua orientação quanto ao comportamento apropriado das mulheres cristãs nas Igrejas, não em considerações condicionadas culturalmente, mas em princípios inerentes à própria humanidade. Após proibir que as mulheres ensinem e exerçam autoridade sobre os homens (1 Tim. 2, 12), Paulo dá a causa para a sua proibição nos versiculos 13 e 14 (note o ga/r causal introduzindo estes versículos):

1 - O primeiro é baseado na forma como Deus criou o homem e a mulher, ou seja, o homem foi criado primeiro (v. 13). A sequência temporal (prw=toj ... ei)=ta), para Paulo, tem significado teológico e implicações práticas quanto ao “ministério feminino” na Igreja de Cristo. O facto de que o homem foi criado primeiro indica a sua liderança sobre a mulher. E o facto de que a mulher foi criada em seguida, como auxiliadora, indica sua posição de submissão (cf. Génesis 2). Para o apóstolo, se uma mulher ensina (prega) a doutrina com autoridade sobre homens, está violando este princípio inerente à criação. É importante observar que Paulo enraíza sua proibição nas circunstâncias da criação, e não da queda, somente. Portanto, como observa Moo, ele não considera estas restrições sobre as mulheres como sendo apenas resultado da queda, e portanto, também não espera que sejam removidas com a redenção que há em Cristo (Moo, "What Does It Mean," 190).

1 Timóteo 2, 13 é um versículo simples e directo, que intérpretes igualitaristas têm dificuldade em explicar. Thomas Schreiner, num recente livro combatendo o igualitarismo, alista as tentativas de feministas evangélicos de descartar 1 Timóteo 2, 13: ... Mary Evans diz que a relevância do versiculo 13 para o versiculo 12 é obscura, e que o versiculo 13 simplesmente introduz o versiculo seguinte sobre Eva. Gordon Fee afirma que o versiculo 13 não é central para o argumento de Paulo. Timothy Harris diz que o versiculo "é difícil de entender de qualquer ponto de vista". Craig Keener pensa que o argumento de Paulo aqui é difícil de perscrutar. David Scholer protesta que o texto é obscuro, e que Paulo está fazendo uma citação selectiva de Génesis 2. Steve Motyer diz que a lógica e justiça ficam anuladas se a interpretação histórica deste versiculo for aceite (Thomas Schreiner, "An Interpretation of 1 Timothy 2, 9-15: A Dialogue with Scholarship", em Women in the Church: A Fresh Analysis of 1 Timothy 2.9-15, eds. Andreas Köstenberg, etc. (Grand Rapids: Baker, 1995) 136).

2 - O segundo motivo é fundamentado no facto de que não foi Adão, mas sim Eva, quem foi iludida por Satanás e desobedeceu á lei de Deus (v. 14). Para alguns, Paulo está citando a maneira pela qual o primeiro casal caiu em pecado para mostrar que a mulher é mais crédula ao erro religioso, e mais susceptível de ser enganada por Satanás (cf. 2 Cor. 11, 3); portanto, não deve ocupar funções de ensino doutrinário nas Igrejas, para que não caiam em heresia, e induzam outros. Embora possa haver alguma verdade neste pensamento, é mais provável que Paulo esteja citando o incidente para mostrar o que ocorreu quando Eva tomou a liderança que havia sido dada a Adão.

Uma leitura cuidadosa de Génesis 3 mostra como a mulher entrou em diálogo com o tentador (Gen. 3, 1-5), e como, assumindo a liderança, tomou do fruto e deu-o a seu marido, levando-o ao pecado (3, 6). As palavras do Senhor Deus ao homem, "porque atendeste a voz da tua mulher" (3, 17), soam, assim, como uma repreensão por Adão ter aceitado a liderança da sua esposa na transgressão. E o castigo imposto por Deus à mulher, de que seria dominada pelo homem, encaixa-se com essa dimensão do pecado da mulher (3, 16). Portanto, o que Paulo quer mostrar em 1 Timóteo 2, 13, não é que o homem não peca, ou que não pode ser enganado por Satanás, mas sim, o que ocorre quando homem e mulher revertem os papéis que Deus lhes determinou. (Cf. John Piper and Wayne Grudem, "An Overview of Central Concerns: Questions and Answers", em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 73).

O apelo de Paulo às Escrituras demonstra que, para ele, as causas dos diferentes papéis do homem e da mulher estão enraizadas nas circunstâncias em que a criação e a queda aconteceram, e não em demandas provisórias das Igrejas e nem em aspectos culturais da época.

 

Conclusões

A nossa análise das passagens mais usadas para defender a “ordenação de mulheres ao presbiterato ou episcopado” demonstrou que elas não dão suporte às pretensões do programa igualitarista. Por outro lado, a nossa análise das três principais passagens usadas como evidência de que Deus não intentou que as mulheres cristãs ministrassem nas Igrejas aos homens, de uma posição de autoridade, quer ensinando-os ou governando-os, mostrou que a interpretação diferencialista destas passagens encaixa-se nos seus contextos, honra a aplicabilidade dos princípios bíblicos para nossos dias, e responde satisfatoriamente às objecções.

Desta forma concluímos que não há respaldo bíblico suficiente para que se recebam “mulheres ao presbiterato ou bispado” de Igrejas cristãs locais, onde irão, como tais, presidir, governar, e ensinar doutrina aos homens. Na realidade, as evidências bíblicas apontam em outra direcção. Estas passagens não podem ser ignoradas pelos que almejam o “ministério ordenado de mulheres” nas Igrejas. Somente com as ferramentas da crítica bíblica radical, que abstraem estas passagens dos manuscritos, isolam-nas da realidade actual das Igrejas, e domesticam o poder de suas implicações, é que se pode contornar o seu ensino óbvio.

Uma palavra final. Os presbíteros exerciam a autoridade e o governo nas Igrejas, mas não eram absolutos. Poderiam ser repreendidos, se falhassem (1 Tim. 5, 19-20), e deveriam exercer a sua autoridade não como dominadores, mas como exemplos (1 Ped. 5, 5). A sua autoridade era limitada pelo ensino de Jesus e dos apóstolos, que hoje se encontram nas Escrituras. Não poderiam ir de encontro a este ensino, como hoje presbíteros, conselhos e concílios em geral também não podem. Nenhum concílio eclesiástico, argumentando a partir das mudanças sociais do tempo presente, tem poderes para ir além da Escritura, ou contradizê-la, “ordenando mulheres como presbíteras ou bispas”.

 

*******************************

 

A Santa Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, como verdadeira Igreja Ortodoxa, e fiel aos princípios da Santa Ortodoxia, não pode  aceitar nem aceita como válida ou lícita qualquer “ordenação ministerial de mulheres”, quer seja para o diaconado, presbíterado ou episcopado, seja por que motivo for, e sob qualquer pretexto. Tal decisão, pelo seu carácter particular e suma-importância para toda a Igreja Universal, teria de ser aprovada por um Concílio Ecuménico, para que pudesse ser válida e aceite, o que de facto não acontece nem nunca aconteceu.

Não se trata de uma oposição ou discriminação para com as mulheres, irmãs nossas em Cristo Jesus e muito necessárias na Igreja. Trata-se sim, de salvaguardar o Depósito da Fé, e guardar a Santa Tradição que nos foi legada pelos Santos Apóstolos e pelos Padres da Igreja. Não é por as Sagradas Escrituras aprovarem ou condenarem tal atitude, mas sim, guardar fielmente sem qualquer ruptura ou interrupção a Sucessão Apostólica, que nos vem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Naquelas várias situações em que a “ordenação” é presidida por um Bispo validamente ordenado e com uma Sucessão Apostólica reconhecida (o que nem sempre acontece na Igreja Anglicana, que geralmente possui unicamente um Episcopado Histórico), não existe qualquer transmissão do Múnus Episcopal, ou do poder do Santo Sacramento da Ordem, quer seja no grau diaconal ou presbiteral. Para todos os efeitos, qualquer acto celebrativo que se realize com esse fim, não tem qualquer poder sacramental.

A Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, reconhece todas as linhas de Sucessão Apostólica válidas, desde que a mesma não possua nenhuma “mulher ordenada” na mesma linha de Sucessão Apostólica.

Todas as Igrejas com Episcopado válido e reconhecido que aceitam a “ordenação de mulheres ao Episcopado”, quebram a transmissão da mesma linha Sucessão Apostólica, a qual nunca se recuperará.

Uma mulher que recebe a “ordenação diaconal, presbiteral ou episcopal”, não a recebe na realidade, pois não recebe validamente a Sucessão Apostólica nem o Poder do Santo Sacramento da Ordem. Um homem que recebe a “ordenação diaconal, presbiteral ou episcopal” das mãos de uma “mulher bispo”, também não a recebe na realidade, pois não recebe validamente a Sucessão Apostólica nem o Poder do Santo Sacramento da Ordem.

Esta posição da Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, não afecta como é óbvio, qualquer decisão em sentido contrário de outras Igrejas Cristãs, que pensam diferente ou que aderiram á reforma protestante. Porém, esta é a nossa posição acerca da “ordenação ministerial das mulheres”.

 

 

Façamos agora breve reflexão acerca de alguns acontecimentos na sociedade e nas Igrejas Cristãs:

 

Igreja Católica Apostólica Romana

 

No ano de 2002, quando ainda Cardeal, Monsenhor Joseph Ratzinger, hoje o Papa Bento XVI, era o mais alto responsável pela ortodoxia da doutrina dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Nessa altura, a Igreja Católica Romana, sob a presidência do seu mais alto representante, Sua Santidade o Papa São João Paulo II, excomungou sete mulheres que tinham sido ordenadas sacerdotisas numa cerimónia realizada num barco que navegava no rio Danúbio, entre a Alemanha e a Áustria.

Três anos depois, em 02 de Julho de 2005, aconteceu uma cerimónia de ordenação numa embarcação, e foi dirigida por outras três mulheres que se declaram bispas: a austríaca Christine Mayr-Lumetzberger, a alemã Gisela Forster e a sul-africana Patricia Fresen. As três mulheres receberam a ordenação de um “Bispo” argentino cismático da Igreja Católica e Apostólica Carismática de Cristo Rei, Rómulo Antonio Braschi, e na época foram excomungadas pelo Vaticano. A nova mulher que foi ordenada, Genevieve Beney, é uma ex-professora de ginástica casada com um protestante que estudou Teologia na Universidade de Estrasburgo, entrou num movimento internacional chamado "Iniciativa de Mulheres Ministras Ordenadas na Igreja Católica Romana". O Arcebispo de Leon, Philippe Barbarin, lamentou a "estratégia de provocação, de desafio e de ruptura escolhida por Genevieve Beney, pedindo que a ex-professora desistisse desse "acto grave de ruptura", afirmando que a cerimónia não teria "nenhuma verdade nas palavras pronunciadas, nem nos actos feitos". O secretário-geral da Conferência Episcopal francesa, Stanilas Lalanne, lembrou que "para a Igreja é importante respeitar o facto de que os homens e mulheres tem igualdade de dignidade, mas não estamos necessariamente chamados a ter as mesmas funções".

Alguns dias depois, uma nova ordenação acontecia. Joy Barnes, directora da «Conferência de Ordenação de Mulheres» (COM), movimento que se dedica totalmente á ordenação de mulheres na Igreja Católica Apostólica Romana, e que organizou a cerimónia realizada no passado dia 25 de Julho de 2005, no rio São Lourenço (na fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos), afirmou que a ordenação de quatro mulheres sacerdotisas e cinco diaconisas não é era desafio à autoridade do Papa Bento XVI.

 

Igreja Anglicana

 

O sínodo, na cidade de York, da Igreja Anglicana, vinha debatendo a questão, 11 anos depois da “ordenação das primeiras mulheres sacerdotes”. O Bispo de Southwark, Reverendo Tom Butler, propôs a moção, que recebeu o apoio de 41 bispos e a rejeição de seis. Apoiaram a resolução 167 membros do clero, enquanto 46 se posicionaram contra. O líder da Igreja Anglicana, o Arcebispo de Cantuária, Reverendo Rowan Williams, fez um discurso antes da votação. Os tradicionalistas alegaram que não há precedente bíblico, já que os apóstolos de Cristo eram todos homens. Alguns delegados, principalmente mulheres, entoaram cantos e gritaram alguns slogans do lado de fora do debate, pedindo que as mulheres possam tornar-se bispos imediatamente. O Bispo de Chichester, Reverendo John Hind opôs-se à medida, advertindo aos delegados que isso pode exacerbar as divisões existentes na Igreja.

A Igreja Anglicana está dividida sobre uma série de assuntos, principalmente sobre a ordenação de um clérigo homossexual. No ano passado (2004) líderes da Igreja pediram que a Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América pedissem desculpas pela ordenação do homossexual assumido, Reverendo Gene Robinson como Bispo de New Hampshire, um facto que havia enfurecido os tradicionalistas, assim como o facto da Igreja Canadiense ter abençoado a união entre pessoas do mesmo sexo.

 

Igreja Adventista do Sétimo Dia (Portugal)

 

A União Portuguesa do Sétimo Dia já admitiu a ordenação de anciãs em Portugal. Um facto inédito aonde nunca foi exposto aos dizimistas o porquê de tal mudança, nem se explicou a causa da mudança no manual da Igreja.

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

Principal 

POSIÇÕES DIVERSAS

 

 

 

Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009

 

 

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1